Entrevista: Patrícia Neumann

Patrícia Neumann

Patrícia Neumann

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Patrícia Neumann: Eu soube quando tinha 28 anos. Estava na faculdade de psicologia no quarto ano. Fiz minha formação toda voltada a processos educativos e, por isso, estagiei sempre em escolas na área da psicologia escolar. Eu não tive formação em AH/SD na faculdade, só na área de deficiências e dificuldades de aprendizagem. Mas no meu estágio a pedagoga suspeitava de um menino na sala que eu estagiava. Ela pediu se eu podia fazer uma avaliação com ele. Então fui estudar por conta própria para fazer a avaliação. Foi meu primeiro contato com a área de onde ficou claro para mim porque eu era como era. Não tive dúvidas que eu era superdotada.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Patrícia: Eu sou superdotada na área acadêmico-intelectual e tenho talentos em liderança e artes.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação e altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Patrícia: Minha avaliação foi em partes. O primeiro contato com a área foi no estágio da faculdade por autoidentificação. No ano seguinte ao término da faculdade, eu estava no mestrado em educação. Na minha turma tinha uma pedagoga que pesquisava AH/SD. Um dia ela me perguntou se eu queria responder um instrumento de indicadores. Ela teve um olhar sensível pra mim. Pontuei quase 100% no instrumento. Mas eu queria saber meu QI também e no ano seguinte pedi a uma amiga com experiência em testagem que fizesse a aplicação do teste comigo. A minha pontuação deu 130 e, digamos, foi mais uma confirmação, além das que eu já tinha.
E sim, a avaliação de AH/SD ainda é inacessível a grande parte da população, isto em todas as idades.

SM: Qual foi a sua maior dificuldade na sua primeira graduação em psicologia? E como você superou este e outros obstáculos universitários?

Patrícia: Minha maior dificuldade foi de relacionamento interpessoal. Digamos que eu não tinha “tato” social, não captava muito bem as mensagens verbais e não verbais que as pessoas me enviavam. Por diversas situações difíceis que eu vivi na juventude, eu cheguei na vida adulta com dificuldades em lidar com as pessoas. Por eu ter sofrido muita violência psicológica vinda da família do meu pai e de outras pessoas, eu criei mecanismos de defesa contra os outros. Por exemplo, eu era arrogante e em certa medida, manipuladora. Mas isso era pra afastar as pessoas. Eu também acabava sendo agressiva sem perceber e isso fazia com que os outros não me vissem com bons olhos. Eu era uma acadêmica brilhante e isso também gerou algumas situações desconfortáveis com alguns professores. Por exemplo, houve alguns trabalhos que eu tinha tudo para tirar 100, não faltava nada do que tinha sido pedido…mas eu não tirava nota máxima. No meu tcc, a banca quis me dar 100 (os dois professores da banca disseram isso), mas meu orientador fez questão de não me dar 100 e que era pra eu encarar aquilo como incentivo. Realmente, diminuir a nota de alguém é muito motivador! Rs Eu superei minhas dificuldades de interação social fazendo psicanálise. Foi a melhor decisão que tomei na vida. Com terapia, tudo mudou gradualmente para melhor. Comecei no quarto ano de psicologia a me tratar e despendi oito anos de tratamento. Valeu muito a pena.

SM: Sabe-se que o filosofar pouco a nada serve ao mercado, ao capitalismo, quando feito eticamente, vide a desvalorização e sucateamento deste ofício milenar enquanto profissão na vida contemporânea. Durante a ditadura militar brasileira a filosofia foi cancelada dos currículos escolares e fortemente atacada nas universidades. Conte para nós o que uma filósofa faz e como a filosofia pode contribuir para o desenvolvimento pessoal e social.

Patrícia: O que faz uma filósofa? Esta é uma pergunta instigante (rs). A filosofia é a ação do pensar, mas de um pensar muito específico que é o pensar filosófico. Então, o que uma filósofa faz é pensar filosoficamente. Isto não responde muita coisa ainda, mas é um preâmbulo necessário. Em filosofia pegamos problemas da vida quotidiana e buscamos resolvê-los ou, pelo menos, trazer novas perspectivas. Buscamos resolver problemas apresentando argumentos. Os problemas que tentamos resolver vem de todos os lugares, do senso comum, das ciências, das artes, da política, das tecnologias… Mas o que diferencia nosso trabalho de pensar de outras áreas é justamente que o pensar filosófico não é uma ação empírica tal como uma ciência natural, por exemplo. É uma atividade puramente teórica. E a questão é que, devido à construção do nosso país em suas raízes, o pensar teórico é visto como algo inútil. Não somos incentivadas(os) a exercitar o pensar abstrato. Somos um país com mentalidade escravocrata ainda. Somos muito presas(os) ao concreto. Há uma questão política envolvida, pois não é vantagem a grupos dominantes em poder que as pessoas aprendam a pensar sobre os problemas da vida. Porque é isso que eu faço e meus colegas da filosofia fazem: pensamos sobre problemas da vida. Os resultados desse pensar possibilitam que tomemos decisões diferentes, que possamos escolher dentre mais opções, que possamos inclusive nos conhecer melhor, compreender quem somos e quem desejamos ser, projetar um futuro diferente. E com isso, construir uma sociedade diferente. Mas isso não interessa a muitos por diversos motivos. Nós, filósofas e filósofos, pensamos filosoficamente, produzimos conhecimento, escrevemos e pesquisamos. Não só em filosofia estritamente, mas também em conjunto com as ciências, por exemplo, que é o meu caso. Como filósofa, tenho uma visão muito mais ampla do meu trabalho como cientista e levo isso para tudo que eu faço. A filosofia não é separada da vida, ela é a vida.

SM: Você é uma cientista, quais são seus campos de exploração científica? Onde podemos acessar a sua produção?

Patrícia: Eu trabalho dentro das ciências humanas. Isto não quer dizer que eu não goste das demais ciências. Pelo contrário, adoro todas! Mas não se tem tempo para fazer tudo, então escolhi as humanas. Minhas pesquisas são principalmente na área de Educação. Tudo que eu pesquiso dialoga, em alguma medida, com a educação. Mas ainda assim, educação é algo muito amplo e é preciso fazer recortes. Então, eu pesquiso, na Educação Especial, as altas habilidades/superdotação, especialmente a área socioemocional, inteligência emocional, vida adulta, gênero e a Teoria da Desintegração Positiva de Kazimierz Dabrowski. Outra área que pesquiso é a Educação Ambiental, onde tenho trabalhado, junto com meu grupo de pesquisa, na fundação de uma nova abordagem teórico-metodológica, a Educação Ambiental Complexa (no Brasil, temos três abordagens já instituídas e a Educação Ambiental Complexa é uma quarta vertente). Afora isso, também tenho meus estudos em psicologia, filosofia e psicanálise. Mas tudo que eu pesquiso nestas áreas tem alguma relação com processos educativos, sejam formais, sejam informais. Eu tenho minhas publicações reunidas no meu website: https://ahsdtdp.wixsite.com/meusite

SM: A carreira diplomática é atraente a teus olhos, agora o que te atrai neste campo internacional e hipercomplexo?

Patrícia: Ainda estou amadurecendo esta ideia, mas o que mais me atrai na diplomacia é a possibilidade de trabalhar com problemas de ordem humanitária e de lidar com diferentes culturas.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Patrícia: Eu nunca precisei de aconselhamento psicopedagógico, mas tenho buscado acompanhamento clínico para cuidar da minha saúde mental. Para mim, a psicanálise tem sido muito proveitosa. Felizmente encontrei bons psicanalistas que já me atenderam e me ajudaram a mergulhar mais profundamente em mim mesma. São muitas as questões emocionais que fazem parte da minha vida e a psicanálise tem sido um caminho pra me ajudar a chegar em algumas respostas e também à cura de mim mesma.

SM: Algum lema motivacional?

Patrícia: Acho que nunca tive um lema definido, mas se fosse escolher algum, acho que aquela fala da Dori (a peixe do filme Procurando Nemo) cai muito bem: “continue a nadar”. Tive muitos momentos na vida que me vi sem saída, com problemas maiores que eu e que eu não tinha como resolver de imediato. Então, a única coisa que eu podia fazer era continuar um dia de cada vez até que as coisas mudassem e eu pudesse fazer alguma coisa. Felizmente as situações sempre mudam, mesmo que aos poucos.

SM: Algum recado pra galera?

Patrícia: Vou parafrasear uma mensagem com a qual me identifico: “Não se preocupe, o mundo eventualmente alcançará você. Seus aspectos incompreendidos são sua maior riqueza. Mas isto não quer dizer que será fácil. Na verdade, poderá ser desafiador, difícil e doloroso e a vida vai exigir que você use a imaginação [acrescento: e tenha coragem]. Mas você aprenderá o valor e a beleza de ser fora dos padrões” (Nicole Tetreault). Eu tenho aprendido o quão valoroso é ser “fora dos padrões”. Eu tenho orgulho do caminho que tenho construído, um caminho muito longe do normal. Um caminho difícil, mas de realização.

Sobre Filipe Russo

Filipe Albuquerque Russo nasceu em 22 de Agosto de 1990 em São Paulo, capital e cresceu em Manaus, Amazonas. Aos 16 retornou a sua cidade natal onde reside atualmente. Caro Jovem Adulto, seu primeiro romance estabeleceu em 2012 a estréia tripla de Filipe Russo no cenário artístico brasileiro (tipográfica com Limite Circular, fonte original exclusivamente manufaturada para a obra; fotográfica com Iluminado Expandido, capa original do livro e enfim a obra literária propriamente dita).
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