Relato Pessoal: Adriana Mendonça

Adriana Mendonça

Adriana Mendonça

Dez formas de fazer as pazes com a superdotação

Adriana Mendonça*

“Se quiseres conhecer uma pessoa, escuta-lhe os sonhos.”

(COUTO, Mia. As areias do imperador. Livro Um. Mulheres de Cinza. Portugal, Caminho, 2015, p. 22)

Neste ano de 2023 completei 10 anos de identificação como superdotada, defendi meu mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, e ambos são marcos dignos de celebração!

Fui identificada com altas habilidades ou superdotação aos 48 anos, quando estava no primeiro ano da faculdade de Psicologia. Eu tinha diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade e Impulsividade (TDAHI), tomava metilfenidato, mas queria me desmedicalizar. Foi-me indicada uma avaliação neuropsicológica completa, para eu saber exatamente o que eu tinha, uma vez que a psiquiatra que me atendia havia preenchido apenas um questionário de rastreio. As altas habilidades ou superdotação vieram como resultado dessa avaliação e abriram “com chave de ouro” as portas para a segunda metade da minha vida.

Minha história, antes disso, é que comecei a ler e a escrever meio que sozinha, ali pelos quatro ou cinco anos de idade. Ao se dar conta disso, minha mãe me comprava gibis, revistas e livros, e ensinou-me como conseguir outros numa banca de trocas. Passei a ser leitora voraz de tudo, e percebi muito cedo que o universo era ilimitado. Aos seis anos, fui para a escola, sendo acelerada informalmente para entrar direto no primeiro ano. Mas foi na escola que comecei a vivenciar as limitações desse mundo.

Chegada a época de escolher uma carreira para prestar vestibular, eu gostava de tudo! E, como a obrigação de escolher somente um curso dentre tantos estava sendo uma tortura, procurei ajuda psicológica num programa de orientação vocacional, e me encantei por aquela profissão que ensinava as pessoas a se conhecerem.

Em 1987 formei-me em Arquitetura e Urbanismo, porque nessa profissão poderia juntar artes, números e psicologia. Trabalhei em diversas empresas, em diversas áreas, mudei várias vezes de cidade, de país, de situação marital, de religião e de cor de cabelo. Fiz muita psicoterapia, na tentativa de aplacar o profundo sentimento de inadequação e de compreender o mundo em que vivia. Recebi diagnósticos de doenças, fui analisada, interpretada e medicada, porque alguns profissionais ainda têm necessidade de patologizar os comportamentos, na esperança de que, com a intervenção e o remédio certos, a pessoa fique como eles entendem que ela deveria ser. Penso que o medo de quem é diferente, e o medo de eles próprios se descobrirem diferentes, é insuportável para alguns profissionais.

Ingressei na faculdade de Psicologia em 2013 e, logo no primeiro semestre, em aula sobre transtornos de aprendizagem, desconfiei que pudesse ter algo além de TDAHI, porque sempre tinha tido notas altas e ótima memória. O resultado de superdotação da avaliação neuropsicológica foi o ponto de inflexão em minha vida. Inicialmente neguei, revoltei-me, fiquei triste; contudo, ao estudar o fenômeno, entendi que era a minha história, e que outras pessoas poderiam estar passando pelo que eu já havia passado – e ainda passava. Entendi que havia muito a ser feito para construir uma vida saudável, amorosa e produtiva.

Selecionei 10 ações implementadas por mim que resultaram em maior qualidade de vida. Eu não saberia dizer a sequência ao longo do tempo, porque eu tenho a impressão que eu fiz tudo meio junto, mas a de número um foi realmente a primeira, e a de número dois foi a que me fortaleceu e empoderou para as demais.

1. Desmedicalizei-me

Comecei por me desmedicalizar. Comprei um pacote de 30 sessões de treinamento cerebral com neurofeedback. Inicialmente, fazia duas sessões por semana, depois passamos para uma vez por semana e, ali pela sessão 25, eu já estava sem Ritalina e sem sintomas de TDAHI. Meu funcionamento cerebral melhorou muito, fui capaz de reabilitar minhas funções executivas e tive outros benefícios de um cérebro que gasta menos energia para fazer o que é preciso. Encantei-me por essa prática, fiz a formação, comprei os equipamentos, e trabalhei como treinadora de neurofeedback até 2020, quando a pandemia nos afastou. Atualmente, meu interesse é pela pesquisa com neurofeedback para pessoas com AH/SD.

2. Atribuí um sentido à superdotação

A vida não tem sentido em si mesma, mas somos nós que lhe atribuímos um sentido, o qual pode ser permanente, temporário ou situacional. A partir de minha identificação tardia, propus-me dedicar minhas AH/SD à ciência, para a inclusão de pessoas com AH/SD nos estudos, no trabalho, nos esportes, nas artes, nos relacionamentos e nas demais atividades em sociedade. E foi a partir de meu autocuidado que decidi dedicar minha prática profissional às pessoas que desejam buscar sua autorrealização, desenvolvendo propósito e atribuindo sentido à sua vida.

3. Aprendi a me organizar

Tudo na natureza tem uma ordem, um padrão, obedece a ciclos para funcionar bem. Busquei cursos, livros, leituras e práticas para aprender a organizar meu tempo, minha agenda, meu espaço físico, a casa, o quarto, o escritório, os potinhos com suas tampas na cozinha, a papelada, as roupas, os arquivos no computador, a memória de trabalho do celular etc. Não tem como pretender ter alta produtividade duradoura sem organização duradoura. Isso envolve viver em ambientes limpos, bem conservados e esteticamente bonitos e agradáveis. Os espaços que ocupamos refletem nossa mente e também a modificam.

4. Melhorei minha saúde física

Regulei meu sono, minha alimentação, ingestão de água de qualidade. Ao longo do mestrado estive sedentária, mas os exercícios físicos e exposição ao sol e a outros elementos da natureza foram muito impactantes em meu bem-estar, criatividade e equilíbrio emocional. Se temos maior número de sinapses, elas precisam de ambiente encefálico saudável, e isso requer eliminar drogas, não só as ditas ilícitas, como as lícitas, aquelas que a gente põe para dentro com o ar, a alimentação, as bebidas, os fármacos, e as informações que a gente vê, ouve e percebe nos ambientes.

5. Eduquei-me financeiramente

Para eu ter liberdade de trabalhar com o que quiser e se quiser, ter liberdade de estudar o que eu quiser e quando quiser, morar onde eu quiser e com quem eu quiser, eu preciso de dinheiro. Para isso, fiz curso de Educação e de Organização Financeiras, e hoje sou mentora nessa área. Não tem como exercer a superdotação sem liberdade, e a liberdade vem pela produção do dinheiro suficiente para pagar minhas contas pelo resto da vida. Entendi que não preciso ficar escrava de um emprego, porque dinheiro pode vir de mais de uma fonte. Quer exercer plenamente sua superdotação? Produza riqueza para a sociedade ou você será um peso para ela.

6. Parei de buscar culpados

Fatores externos não me definem. Eu poderia dizer que sou assim porque sou filha única, sou assim porque sou de família italiana, sou assim porque estudei em escola pública, sou assim porque minha mãe sei lá o quê, sou assim por que meu pai tal coisa …, porque minha professora, meu marido, meu chefe, minha doença, o governo … Atribuir aos fatores externos a responsabilidade por meus resultados me faria vítima, e vítimas não realizam nada. Dessa forma, passei a atribuir às minhas ações e decisões a responsabilidade por meus resultados. Diante da realidade que se apresenta, penso sobre o que mais posso fazer para alcançar meus objetivos. E fui me capacitar para, em contexto clínico, não reproduzir o que alguns profissionais perpetuam, quando fazem a pessoa acreditar que ela nunca poderá mudar porque eles acreditam que alguns fatores são imutáveis.

7. Fiz as pazes com meu passado

Todo mundo sempre faz o melhor que pode com as informações que tem no momento. Quando nos chega uma nova informação, de nada adianta cultivar o arrependimento por ter feito daquele jeito. Conhecer sobre as AH/SD foi esclarecedor para eu entender quais eram minhas dificuldades no passado e por que fiz aquelas escolhas e não outras. Hoje, tenho oportunidade de fazer diferente e sei que posso errar erros novos. Certamente, colho algumas consequências negativas, mas eliminei os sentimentos negativos que tinha a meu respeito. E todo dia tenho 24 horas para fazer diferença na minha vida, igual a todo mundo.

8. Entendi que meu futuro é consequência de meu presente

Desde que minha mãe faleceu em 2012, moro com meu pai idoso. Isso não estava nem em meus mais absurdos planos, mas, dentre as infinitas possibilidades de outras soluções para o problema, eu escolhi morar com ele. E quanto mais eu fui cuidando de mim e me organizando, mais leve foi se tornando essa vida presente. Assim, em vez de estar ansiosa por chegar logo um futuro diferente, como se eu fosse vítima do destino, eu escolhi viver em paz meu presente e pavimentar um caminho harmonioso para o futuro, qualquer que seja ele.

9. Afastei-me de pessoas tóxicas e busquei novas amizades

Bem naquela linha do “dize-me com quem andas e te direi quem és”, busquei estar perto de pessoas que me inspiravam a ser como elas ou a ser uma pessoa melhor. Claro que minhas amigas e amigos do coração foram mantidos, pelos laços já estabelecidos, mas aprendi a buscar voluntariamente pessoas que me são modelos em algum aspecto que eu quero desenvolver. Descobri que o mundo é generoso e abundante, e que sempre há muito de tudo. Porém, só enxergamos o que nossa consciência concebe e aceita como possível.

10. Voluntariado

O tempo todo sofremos influências dos projetos de vida das outras pessoas, os quais podem impactar os nossos, mas o apego ao “eu-meu-minha” é uma das grandes causas de infelicidade. Assim, o trabalho pela causa de outras pessoas, participando de iniciativas criadas por mim ou por outros, passou a ser imprescindível para minha saúde mental, emocional e espiritual. Nossa inteligência precisa se manifestar no mundo físico para existir. Se uma das definições de inteligência é “capacidade de resolver problemas”, a inteligência escondida no quarto, no celular e nas compulsões, é inteligência inexistente. Agir no mundo real nos protege de nós mesmos e traz nossa inteligência à luz.

Resumindo, esses 10 anos passaram voando, com muitos desafios para instigar minha curiosidade e criatividade. Entendi que sou a única responsável por meu bem-estar e aprendi a pedir ajuda, sem a pretensão de ser perfeita. Abri mão da busca da aprovação alheia, e sinto-me mais confortável para reconhecer como interessantes outros pontos de vista.
Estou empenhada em ser, ter e fazer tudo o que eu vim ser, ter e fazer na vida, e em ajudar mais alguém a trilhar essa jornada. Para isso, procuro me manter aberta a novas ideias, honesta com meus valores e princípios, e flexível, para estressar o mínimo possível, e logo voltar ao meu eixo, quando nada disso dá certo. Como dizem os portugueses: “o vento pode até ajudar, mas é a audácia que nos faz navegar!”

*Atuo como mentora de pessoas superdotadas nas áreas de organização financeira, busca de trabalho e em assessoria acadêmica. Como psicóloga, realizo identificação de AH/SD. WhatsApp +5519991759893

Vale ressaltar que Adriana Mendonça foi a primeira parceira intelectual e a primeira parceira profissional deste blog, com seu ensaio “Sentimento & Senso de Inadequação” (2017) e com o programa “Jornada Literária para Superdotados Adultos” (2022), respectivamente.

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About Filipe Albuquerque Ito Russo

Filipe Russo é indígena agênere de Manaós, vivendo atualmente em Piratininga, autore dos romances premiados Caro Jovem Adulto (2022; 2012) e Asfixia (2014), assim como vencedore do concurso artístico O Olhar em Tempos de Quarentena (2020) e de prêmios de excelência acadêmica em Inteligência Artificial, Psicologia, Gamificação, Empatia e Computação Afetiva (2021). Revisore no periódico científico Revista Neurodiversidade. Especialista em computação aplicada à educação pelo ICMC-USP (2022), licenciade em matemática pelo IME-USP (2020). Fundadore e editore do website SupereficienteMental.com (2013-), blog com mais de 200 publicações, dentre relatos pessoais, ensaios e entrevistas, sobre neurodiversidade e superdotação ou altas habilidades. Pesquisadore em diversos grupos de pesquisa ao longo dos anos, atualmente atua no Círculo Vigotskiano, no Corpo de Ações Transformadoras: Abordando Realidades Sociais pela Educação (CATARSE) associado à UnDF e no TransObjeto à PUC-SP. Coautore nas antologias poéticas "43 Poetas Neurodivergentes", "ECO(AR): Poemas pela Sustentabilidade", "Instagramável: poesia visual, concreta e instapoema", "Poesia Política: vote", "Outros 500: Não queremos mais o quinhentismo", "poETes: Altas Habilidades com Poesia", "1001 Poetas", "Fotoescritos do Confinamento" e recebeu menção honrosa pelo ensaio Desígnio de um corpo, na 4ª edição do projeto Tem Livro Bolando na Mesa. Filipe possui aperfeiçoamento em Altas Habilidades ou Superdotação: Identificação e Atendimento Educacional Especializado pela UFPel e em Serviço de Atendimento Educacional Especializado pela UFSM (2022).
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1 Response to Relato Pessoal: Adriana Mendonça

  1. Avatar de Jorge Jorge disse:

    Contribuição espetacular! Uma das melhores publicações sobre AH/SD que já li!

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