Sobre-excitabilidades: Convivendo com as Intensidades

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Altas Conversas Altas Habilidades: S1 E5 Impactos da Identificação das Altas Habilidades/Superdotação na Vida Adulta (depoimento)

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Entrevista: Aline Costa

Aline & Família

Aline & Família


Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Aline Costa: Não é uma resposta simples, Filipe. Vivemos em uma cultura que relaciona mais a inteligência com as ciências exatas do que com as áreas de humanas. Por esta e muitas outras razões, nunca chamei muito a atenção. Tinha somente a certeza de ser muito diferente. Mas sempre achei que era por conta da influência que havíamos recebido ou pela criação que tivemos. Não sabia que esse ‘ser diferente’ tinha um nome. O conhecimento só veio até mim quando busquei entender meu filho. Ele foi identificado primeiro e depois, por incentivo de pessoas próximas a mim, passei pela avaliação. Confesso que fiquei surpresa, mas ao mesmo tempo com a sensação de que várias lacunas haviam sido preenchidas quando recebi o resultado.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Aline: Meu perfil é acadêmico, com destaque nas inteligências intrapessoal, linguística e naturalista.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Aline: A avaliação para mim foi um divisor de águas. O autoconhecimento é uma arma poderosa. Foi um processo de apoderamento daquilo que, na realidade, já era meu, mas não tinha consciência. Conhecendo-me melhor, posso tomar decisões mais conscientes, entender meu processo mental, respeitar-me dentro das minhas habilidades e limitações, encontrar meios de lidar comigo mesma.

SM: Qual curso você cursou na UFMS? Conte um pouco sobre essa experiência.

Aline: Eu cursei dois anos de Letras Português-Inglês, licenciatura plena. Eu fiz o vestibular em 2005 para começar a cursar em 2006. Eu não contei para ninguém porque achava que não seria aprovada. Afinal, eu estava há 14 anos sem estudar. Mas passei. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Ali comecei a ter alguma noção da minha capacidade em algumas áreas. Fui dispensada das aulas de inglês e me dedicava com afinco e prazer às demais matérias. Eu havia encontrado meu lugar no mundo. Mesmo trabalhando, cuidando de casa e de duas filhas eu vibrava. Chegava em casa às 11hs da noite com a mente borbulhando e explodindo de energia.

SM: Quais as suas experiências com empreendedorismo?

Aline: Com o tempo e a idade notei que o mercado estava se fechando para mim. Em 2015 resolvi abrir um registro como MEI e trabalho por conta própria desde então. Não troco essa liberdade por nada. Quando quero trocar ideias, converso com amigos. Tem funcionado demais pra mim.

SM: Qual curso você cursou na UFRJ? Conte um pouco sobre essa experiência.

Aline: Minha história de amor com a UFRJ começou com uma decepção na verdade. Eles não aceitaram os dois anos que havia cursado na UFMS e fui obrigada a recomeçar a faculdade do zero. Algo que mais tarde provou ser o melhor caminho. São universidades muito diferentes. Comecei em 2008 Letras Português-inglês e respectivas literaturas. Foram 4 anos maravilhosos. Muito desafiadores, mas muito especial. Me formei em 2012. Ano passado fiz um curso de complementação pedagógica para ter também a licenciatura.

SM: Não raro as pessoas alto habilidosas apresentam indícios de síndrome do impostor, especialmente quando a identificação das altas habilidades se dá de modo tardio, não mais na infância. Por que você considera que haja uma barreira psicossociocultural em se aceitar a existência da superdotação em adultos, inclusive idosos?

Aline: Sem dúvida, Filipe. O primeiro olhar é sempre de desconfiança. Os adultos talvez sofram mais preconceito do que as crianças porque alguns interpretam como se quiséssemos ser melhores, superiores aos demais. Tive, por exemplo, problemas no trabalho por querer sempre fazer o melhor. Atitudes assim são interpretadas como ameaça, como se nós quiséssemos roubar espaço dos demais, quando, na verdade, é parte da nossa natureza ter essa mola propulsora que nos faz querer superar a nós mesmos sempre.

Ainda não há espaço para que possamos declarar abertamente a empregadores e colegas que somos superdotados. Temos um longo caminho a percorrer para que isso seja possível.

Falando sobre a síndrome do impostor, até pouco tempo ainda lia meu relatório pelo menos uma vez por semana. Parecia que tinha ainda que me convencer. Sempre que cometo um erro ou que me esqueço de algo esse questionamento ainda ecoa. Não fui preparada para isso. Não cheguei até onde poderia ter ido se tivesse sido identificada quando criança. Certamente não tive os estímulos que precisava. Isso causa um certo desconforto. Mas ainda assim, saber a verdade foi mágico.

SM: O que é ser uma mãe superdotada de um filho caçula superdotado?

Aline: Um desafio e tanto, especialmente porque somos todos muito diferentes em casa. No entanto, sendo superdotada, posso compreender melhor meu filho e acolhe-lo. Eu entendo como ele se sente. Eu tenho todas as sobre-excitabilidades e ele quase todas. Imaginem! Estamos crescendo juntos e nos ajudando. Costumo dizer que ele era a chavinha que faltava para um universo que estava bem aqui dentro.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Aline: Eu faço terapia, ou melhor, fazia até pouco tempo. Senti a necessidade de apoio para entender minha família de origem e para equilibrar as coisas com minha família. No entanto, infelizmente, a profissional que me acompanhava não conhece o mundo da superdotação e agora busco alguém que possa me ajudar com essa parte. Preciso aprender a lidar com as frustrações e com as tantas possibilidades que ainda tenho. É necessário. É muita energia acumulada.

SM: Algum lema motivacional?

Aline: Se há algo lhe incomodando, busque resposta. Esse sentimento não está no seu coração à toa

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Aline: Meu filho faz enriquecimento curricular com uma especialista em altas habilidades. Têm sido muito importante para ele que está ainda explorando e conhecendo suas capacidades. É um trabalho importante e muito válido. Em especial porque nosso sistema educacional não favorece o aprendizado daqueles que estão no mundo de um modo diferente.

SM: Algum recado pra galera?

Aline: Se você está aqui porque desconfia da sua superdotação, corra atrás e não tenha medo da resposta. A verdade é o melhor caminho. O autoconhecimento traz paz e abre a mente para novas possibilidades. Todos temos um propósito, algo dentro de nós que quer vir à tona e contribuir com o mundo. Se você vive de forma plena estará contribuindo automaticamente para um mundo que o cerca. É um lindo efeito cascata. Se você foge disso, ficará a dúvida e terá que lidar com os tantos ‘se’ da vida. Pequenas frustrações fazem parte da vida, mas passar por esse mundo, sem cumprir essa missão ou não sendo você mesmo pode causar muita dor. E lembrem-se: vocês não estão sozinhos.

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