Psicometria: Testes de Criatividade na Avaliação SD/AH

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Altas Conversas Altas Habilidades: S1 E4 Identificação de Altas Habilidades/Superdotação na Vida Adulta

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Saúde Mental: Falso Self

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Saúde Mental Crítica: S1 E2 Saúde mental e Bem Viver

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Multipotencialidade: O que é?

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Relato Pessoal: Tatiane Oliveira

Tatiane Oliveira

Tatiane Oliveira

Olá, ao contrário de muitos adoro falar de mim mesma, hahaha, sempre achei que seria um objeto de estudo e minha trajetória serviria para outras pessoas, modesta ela né? Mas vou começar com a última pergunta que foi feita para mim na entrevista para o processo de avaliação para altas habilidades/superdotação: Se você perguntar a si mesma “quem sou eu”, qual é a resposta? Eu sou a Tatiane mil e uma utilidades. Gostaram!? Me resume bem nessas poucas palavras.

Então vamos lá tenho 36 anos, sou casada com um homem maravilhoso há pouco mais de 6 anos, mas nos conhecemos há 15 anos. E sabe como foi? Por uma mensagem texto enviada para o destinatário errado que chegou até mim Rsrsrs em outro momento conto os detalhes. Ainda não temos filhos, mas pretendemos ter, sonho com uma casa cheia de crianças! Resido em uma Chácara no Sul de Minas Gerais há 20 anos.

Sou dona de casa, pedagoga, psicopedagoga clínica e institucional, especialista em educação especial e coordenação pedagógica, artesã, musicista e recentemente abri meu próprio espaço de trabalho “Multiteliê”, onde ministro aulas particulares, faço artesanatos, dentre outras atividades.

É um prazer estar aqui contando o meu relato ao Blog de um querido que é o Filipe Russo, que sempre me acolheu muito bem nos grupos que participei. Espero que sirva de inspiração e apoio a outros superdotados.

Na infância me destacava por fazer coisas incríveis desde bebê. Minha mãe contava que quando morávamos em uma fazenda eu estava ainda no carrinho, nem andava ainda, eu ficava perto de galinhas e seus pintinhos e como eu não alcançava com as mãos usava os pés para pegá-los os jogava para o alto e os segurava com as mãos. Pensa bem? Como isso sendo bebê?

Aos 2 anos e meio já sabia as letras, identificava na mamadeira e nos letreiros, também aprendi o alfabeto em libras. Certa vez minha mãe foi ao médico e me levou junto e eu estava sentada na sala de espera junto com ela e peguei uma revista e comecei a ler, não sei ao certo qual idade tinha, mas sei que era bem pequena, assim a enfermeira me viu e me levou para um médico me ver. Minha mãe falava que foram feitos testes em mim, os quais não sei informar ao certo como eram e o médico mencionou que eu era superdotada. E essa palavra sempre esteve na minha mente, mas nunca recebi acompanhamento necessário para essa condição. Não acreditava nessa história muito bem, mesmo perguntando várias e várias vezes para minha mãe.

Aos 4 anos já sabia ler fluente. Em casa eu acordava super cedo para assistir telecurso 2000, Pequenas Empresas Grandes Negócios, Globo Rural e também gostava de assistir Globo Repórter nas noites de sexta e Fantástico aos domingos, amava assistir Tom e Jerry, Pernalonga, Pica-pau e acredito por conta da trilha sonora serem de músicas orquestradas, acho que daí surgiu meus interesses musicais.

Adorava ler enciclopédias e dicionários, livros infanto-juvenis, pois era os que tinha na minha casa. Aos 7 anos iniciei nas aulas de órgão popular, aprendi a bordar ponto cruz, costurar e fazer tricô à máquina, muitas vezes o aprendizado veio somente de observar minha mãe trabalhando. Aos 8 já cozinhava, amava as receitas da Ana Maria Braga. Adorava assistir Elo Perdido e tudo que havia dinossauros e escavações. Nessa época queria ser arqueóloga. Auxiliava minha mãe cuidando da sua pequena loja de roupas que tinha na garagem de casa, onde depois foi reformada e ela fez um pequeno comércio de doces e salgados dos quais eu tinha que vigiar sempre. Tinha ódio daquele lugar, pois não recebia nada para trabalhar lá, era muito revoltada, pois era obrigada a fazer várias coisas que não queria e muitas vezes tinha pena de pedir as coisas para meus pais e irmãos, porque eles trabalhavam tanto e achava que o que eu tinha estava suficiente para mim. Quando eu tinha a oportunidade de escolher algo, sempre escolhia o mais barato para não me sentir um peso para eles, já que nasci quando minha mãe tinha 43 anos e minha irmã que era mais nova tinha 12, então eu me sentia um incômodo naquela família que já estava formada e ainda me sentia diferente de todos já que na infância era muito introspectiva. Não gostava da minha aparência, do meu sorriso, me achava muito feia, odiava ser alta e magra. Adorava andar de bicicleta, brincar de boneca, fazia roupas para elas, criar histórias, brincar com crianças mais velhas ou mais novas.

Na escola eu era ajudadora dos fracos e indefesos, dos excluídos, da minoria, eu não podia ver uma criança chorar ou ter dificuldade na aprendizagem ou de fazer amizade que eu fazia de tudo para me relacionar com esses e ajudá-los. Sempre fui boa aluna, caprichosa, decorava as folhas do caderno, mas nem sempre tinha notas boas em todas as matérias, eu adorava todas, mas tinha dificuldade de compreender algumas explicações de alguns Professores, devido ao ensino tradicional. E mesmo sendo assim sofri muito, pois cresci numa inocência muito grande em relação às malícias da vida, colegas escreviam no meu caderno que gostavam muito de mim, mas tinha hora que eu era insuportável. Isso doía lá dentro e eu não entendia porque uma pessoa que ajudava os outros poderia sofrer daquela forma. Certa vez uma Professora de ciências estava ensinando sobre o sistema respiratório e eu havia assistido uma reportagem sobre a apneia do sono e falei para a Professora se ela sabia que existiam pessoas que paravam de respirar quando dormiam. Ela me respondeu assim: “Menina! Se a pessoa parar de respirar ela morre!” E assim todos da sala riam de mim. Assim fui me fechando que até a minha postura ficou ruim, eu queria me esconder.

Sofria muito internamente e não se via preocupação nessa parte. Eu rangia os dentes à noite, que até minhas presas ficaram arredondadas, minha irmã até mencionou que era bruxismo e que era ansiedade infantil, mas como sempre nada foi feito. Fazia barulhos repetitivos com a boca, pois tinha uma pequena separação entre os dentes da frente que deixava minha irmã muito brava comigo. Nunca fui ouvida, só tinha de obedecer. Quando ganhei uma agenda da minha irmã comecei a desabafar com ela, escrevia usando alguns códigos que aprendi na escola, para ninguém saber o que estava escrito e nesta agenda tinha algumas dicas úteis incríveis onde fui aprendendo mais e mais formas de independência.

Nas aulas de educação física eu era muito boa, amava jogar! Gincanas então? Meus olhos brilhavam com tudo que era competição e eu estava lá, dançar nas apresentações, teatros, dentre outros. Educação artística também era uma das minhas paixões e todos meus professores de artes eram excelentes, aprendi muito no ensino fundamental. Agradeço a eles por isso, pois a arte é onde me expresso.

Adorava morar em Santo André, achei que minha vida seria toda lá, mas em março de 2001, com 16 anos, fiquei sabendo que me mudaria. Meu chão caiu quando vi a placa de vende-se na minha casa, ninguém me perguntou nada. E meus estudos? Minhas colegas? Minhas oportunidades de trabalho? Aí me convenceram de que aqui teria minhas primas, irmã, sobrinha e que seria melhor. E infelizmente foi o contrário. Me mudei de uma cidade urbana para uma cidade rural e minha casa era em um Sítio, não tinha nada ao redor, morava só com meus pais. Quando chovia não tinha jeito de ir à escola e eu chorava. Eu era apaixonada por matemática, queria seguir exatas, mas por conta das aulas de um determinado Professor eu passei a odiar e fui mal, nesse ano fui com várias notas vermelhas e quase reprovei de ano, Professores muitos ruins, não tinham empatia, sofri muito, minha irmã falava que era pra eu sair da escola, porque não ia dar conta. Doía lá no meu ser isso. Eu não tinha muitas roupas e as que tinha eu customizava, porque as meninas daqui se vestiam muito bem, minha irmã certa vez falou para minha mãe que eu me vestia igual “mendiga” (e nem era tanto assim) minha mãe mesmo sem condições fez uma dívida imensa comprando roupas melhores para mim. E sabe o que isso me fez? Uma compradora compulsiva e extremamente preocupada com a aparência.

Eu não queria crescer, quando iniciaram aparecer os sinais da puberdade eu chorava, até pedi a Deus para parar. Eu amava brincar e como era muito alta minha mãe falava que eu era “moça” e não podia ter certos comportamentos infantis, certa vez eu fui na festa da minha prima, e tinha uma piscina de bolinha e eu morria de vontade de entrar numa daquelas e minha mãe não deixou porque eu era “moça” ah que ódio de crescer!!!!!!! Eu também não entendia sobre os relacionamentos sexuais, prevenção de gravidez e doenças tinha muita dificuldade disso. Fiz uma redação na escola uma vez que ficou até legal, como se fosse um folheto informativo, mas foi o que eu havia entendido na aula, que para se prevenir gravidez deveria estar menstruada. E outras colegas minhas que conviviam com gravidez na adolescência entendiam muito mais sobre o assunto, nesta parte vemos a assincronia, muita facilidade de aprendizado, mas não havia maturidade para certas coisas. Depois da agenda fui escrevendo meus desabafos nos diários, já que ninguém perdia tempo em me ouvir, meus pais queriam me controlar o tempo todo de todas as formas, e mesmo tentando conversar com meus irmãos e irmã mais velhos ninguém se importava. Ficava trancada no meu quarto ouvindo minhas músicas, dançando, tentando por alguns momentos ser eu mesma.

Na adolescência quis ter muitas profissões: caixa de supermercado, patinadora do Carrefour, ginasta olímpica, jogadora de basquete, arqueóloga, dentista, estilista, arquiteta, publicitária, médica, enfermeira, dentre outras. A única coisa que nunca quis ser era ser Professora e foi o que me tornei com a pedagogia e é uma Profissão que realmente é a minha vocação, mas me dedicarei ao empreendedorismo neste momento que também é voltado para a educação, mas com uma proposta diferenciada. Também desejo cursar neurociências e quem sabe um dia medicina na área de psiquiatria, mestrado e doutorado.

Fiz técnico em enfermagem em 2005/2006, queria fazer um curso federal, mas não tinha condições de pagar nem o vestibular, aí resolvi fazer esse curso, pois queria estudar medicina ou enfermagem. Fui toda feliz estudar, era ótima aluna, mas tinha uma Professora que não gostava de mim, ela chegou até falar que pessoas que fazem muitas coisas não são boas em nenhuma e eu pensava nossa será que eu sou tão ruim assim? Uma “amiga” concorria comigo nas notas e o tio dela que era Professor cobrava dela notas melhores que as minhas. Haviam muitos teatros e aulas práticas e eu me destacava muito lá.

Em 2006 ganhei uma bolsa de estudos de enfermagem pelo Pro-uni em Santo André, e achei que meus irmãos me chamariam para morar lá, somente minha irmã me chamou, mas a casa dela era pequena e eu ia incomodar muito, aí desisti da bolsa. Chorei por meses e cheguei a pensar que nunca ia realizar um curso superior. Até que em 2007 fiz novamente o Enem e tirei uma nota bem baixa, chorei rios, pensei que com aquela nota não conseguiria uma bolsa, até que recebi um e-mail onde eu tinha conseguido uma bolsa com a minha 2ª opção Pedagogia, pulei de alegria e felicidade.

Resumindo, no curso de Pedagogia li sobre as inteligências múltiplas e pensei: “Puxa, parece que tenho todas elas, mas não posso contar para ninguém, vão pensar que estou “me achando!”, e vindo a pesquisar me enquadrei em muitos critérios das altas habilidades e passei numa busca incessante de autoconhecimento. Nas pós-graduações também lia sobre o fenômeno das altas habilidades/superdotação, passei a me interessar mais, só que nunca contei pra ninguém, sempre me senti incompreendida, com pensamentos amplos e resoluções rápidas para quaisquer problemas que me aparecessem e as pessoas pareciam não saber conversar comigo, e eu acabava ficando isolada, mas eu sempre me senti tão legal, tão flexível, sabia conversar de tudo um pouco, mas ser diferente incomodava demais.

Atualmente, gosto muito de estudar e estar aprendendo, mas agora estou colocando em prática minha experiência e vivência no Multiteliê, já que no serviço público eu não tive autonomia, tive perseguições, assédio moral e onde eu estava incomodava, e sei que ainda irei criar algo maior e ajudar muitas pessoas.

Estou como aluna especial de mestrado de uma Universidade próxima daqui, e está sendo muito bom, uma ótima oportunidade de estudo para desenvolver minha inteligência acadêmica intelectual, também consegui a oportunidade de ser aluna ouvinte da UNICENTRO da disciplina de Altas habilidades/Superdotação na prática transdisciplinar com uma Professora que depois que me apresentei na primeira aula falou do fundo musical do meu ateliê, faz mais de ano que tenho esse fundo e nunca houve comentários a respeito, principalmente dos meus superiores, é triste se sentir invisível e sem ser acolhido, mas quando isso acontece é maravilhoso. Há muitos anos tento mestrado, mas o medo é maior, mas agora que estou melhor e através de terapia, convivendo com outros superdotados e tendo uma vazão para meus talentos me sinto mais forte do que nunca.

Umas das situações mais difíceis que tive foi no trabalho, onde sempre me destaquei e despertei inveja de colegas, não porque queria aparecer, mas tinha facilidade de aprender e acabava que saía tudo muito bem feito, mas antes de conseguir um trabalho, o que foi bem difícil, passava em comércios pedindo emprego, nunca ninguém me contratou, mesmo tendo experiência com comércio as pessoas olhavam para minha aparência, eu me vestia muito simples e aqui onde moro eles reparam muito nisso, mas eu não tinha condições de me vestir melhor, era o que eu podia. Sabe o que eu já fiz? Fui vendedora de artesanatos, de loja, de bombons, manicure, vendia verduras na rua, buscava vacas no pasto para meu pai a cavalo, participava de feiras de artesanato, vendi sorvete e chupa-chupa na porta de casa, assim que eu me virava para ter um pouquinho de dinheiro.

Trabalhei na saúde por 8 anos, pois passei em 1º lugar no concurso da Prefeitura daqui e em 2014 resolvi exonerar o cargo e ir para a educação, para outro concurso que havia passado a partir daí a perseguição na minha vida profissional começou a ficar pior, raras pessoas gostavam de mim, pois me achavam metida, dona da verdade, aquela que sabe tudo, etc., achava que na escola seria mais acolhida e foi o contrário. Uma diretora falou pra mim que não tinha perfil para educação que eu deveria estudar artes, mas provei totalmente o contrário. Em 2017 tive o desafio de lecionar para uma sala multisseriada com alunos de pré de 5, 1º , 2º, 3ºs anos. Nunca havia tido uma sala de aula e essa foi a única que sobrou para eu pegar. E fui com gosto, no primeiro dia que vi crianças de várias idades juntas me deu medo, mas realizei um excelente trabalho e descobri que era professora alfabetizadora. Fui muito feliz nesta escola.

Em 31/07/2017 comecei lecionar para um primeiro ano na parte da tarde e a diretora falou que era pra eu ter cuidado com eles, pois estavam sentidos, já que havia trocado de professora 2 vezes naquele ano. Pensei comigo vou levar meu violão e começar a aula com uma música, assim fiz, chegando na porta da sala a diretora me viu e falou que naquela escola não usava música como ferramenta pedagógica (foi como jogar um balde de água fria em mim) e ela falou como você trouxe hoje pode tocar, mas não deve trazer mais. (mesmo assim levei escondido haha), mas esta diretora não compreendia minha alegria, energia, e vontade de trabalhar e fazer aulas diferentes, me chamava de acelerada, hiperativa, que era pra eu sossegar e sempre me advertia em algo sem sentido, juntamente com a supervisora que tinha o ensino muito engessado e tradicional. Isso acabou com meu psicológico, fiquei nesta escola até fevereiro de 2019, adoeci mentalmente, o que fez com que em 2018 eu procurasse uma psicóloga e falei dessa condição (na qual eu já me autoidentificava superdotada) e ela me encaminhou para a UNIFENAS, Universidade de Alfenas, onde fiz testes para superdotação, os testes realmente mostraram uma sugestão para altas habilidades/superdotação, mas que não foi muito conclusivo, ainda me restaram muitas dúvidas, sem contar que meu QI deu 113, que para muitos é baixo, mas sabemos que na atualidade QI não define superdotação e isso também foi algo que me encucou.

Assim no ano de 2019 fui nomeada numa cidade vizinha num concurso que havia passado e desenvolvi um trabalho com excelência, atividades diferenciadas que nivelaram todos os alunos fracos e fez os alunos com maiores potenciais ficarem cada vez melhores e motivados nas aulas (descobri nas aulas da UNICENTRO que essa era uma prática denominada Pedagogia Compleza). Tinha um autista na sala, que no pré de 4 e 5 anos quase não adentrava a sala de aula, que ninguém nunca havia dado atenção, mesmo tendo professora de apoio, o vi como um verdadeiro desafio, alfabetizar um autista. Estudei muito, li vários artigos, materiais etc. e fui orientando o aluno com atividades totalmente diferenciadas, juntamente com os demais, os mesmos faziam a mesma coisa, fui até elogiada no Simpósio de Educação do IF Sul de Minas pelo meu trabalho que se enquadrava nas Metodologias Ativas na Educação Especial que até então não conhecia. Percebem o quanto minhas práticas estavam além do que era conhecido?

Assim, esse trabalho muito bem feito que estava fazendo, despertou inveja na minha colega do outro 1º ano, na professora de apoio, nas diretoras, coordenadoras e algumas professoras de tantos elogios que recebia. Muitas vezes eu tinha que fazer um teatro na sala pra apaziguar o aluno autista que era agressivo, batia em mim, nos colegas, na professora de apoio e eu não tinha o apoio da família muito menos da escola. E mesmo assim fiz meu melhor, quase alfabetizei este aluno. E mesmo tendo psicóloga, neuropsicopedagoga e fono na escola elas não faziam nada para lidar com o descontrole do menino e nem me davam orientações. Aí o que aconteceu? Usaram minhas práticas diferentes contra mim, distorcendo o que eu estava fazendo, me caluniando e a mãe desse aluno veio revoltada perante mim e a escola aproveitou dessa oportunidade e ajudou a mãe a fazer uma denúncia e fui afastada da escola por 4 meses, processada disciplinarmente, tive prejuízos financeiros, físicos e psicológicos, meus alunos sofreram, choraram muito, os pais ficaram revoltados, pois a escola não aceitou meu plano de aula para dar continuidade ao meu trabalho e me dispus em fazê-lo e mandar toda semana.

Assim no final das contas, fui condenada (uma palavra, que me dói muito em dizer), e eu levei 171 provas a meu favor e o advogado que arrumei não serviu para me livrar disso, mesmo sem ter provas contra mim fui colocada no CRAS para trabalhar dando aulas de oficinas e tive meu salário suspenso neste mês. Precisava de um horário mais flexível, pois iria assumir o cargo de supervisão e precisava disso para pagar os 4 mil reais para o advogado e a coordenadora não quis alterar os horários (e ela podia, pois nem tinha começado as aulas) sendo assim adoeci mentalmente novamente e só chorava indo para aquele lugar sem entender o porquê disso tudo. Meu esposo falou que não aguentava mais me ver daquele jeito, sofrendo e se eu conseguisse pegar supervisão aqui era pra eu sair. Assim tomei a decisão em 17 de fevereiro de 2020  de pedir demissão do meu cargo e assumi o cargo de supervisora aqui na minha cidade, fiquei bastante feliz, fui bem recebida, apesar que é bem difícil ser supervisora e trabalhar com alguns dos meus próprios professores do ensino médio, mas depois comecei a sofrer assédio moral novamente, ser atacada em reuniões pedagógicas sem motivo e comecei a adoecer e meu rendimento caiu (suspeito de ter burnout), aí decidi pedir demissão e abrir o meu próprio espaço de desenvolvimento de talentos e potenciais.

Procurei ajuda por muitos anos, mandando e-mails, pesquisando sites e blogs, me sentindo incompreendida e muito injustiçada, procurando entender o porquê de uma pessoa com tantos talentos ter sido tratada dessa forma, até que tive um e-mail respondido pela Lexandra Rodrigues e depois encontrei a página da Patrícia Neumann no facebook que me ajudaram muito. Aos poucos venho aprendendo a me autorregular, a ansiedade vem melhorando depois da demissão e espero que meu ateliê cresça e eu venha a ajudar cada vez mais pessoas.

Tive muitas dificuldades com pares profissionais, antes eu batia de frente quando não concordava com algo, mas hoje ignoro, porque não vale a pena. Fui até demitida de um outro trabalho por criticar construtivamente a forma de ensinar e alfabetizar de uma Professora, sendo que fui orientada pela própria coordenadora que era para fazer isso, na época era tutora de um curso EAD de Pedagogia, nesse trabalho também sofri assédio moral diversas vezes, e mesmo contando para a coordenadora da minha condição não fui aceita. Até que eu comecei a fazer lives educativas e postava na página do curso e eles me removeram de administradora e percebi o tamanho do incômodo que eu causava. Então eu incomodava, minhas falas, meus trabalhos, meus conhecimentos, meu jeito de ser. Costumam falar para mim que onde estou brilho e meu brilho incomoda. Não sei se é isso exatamente como as pessoas me veem, me sinto como uma “pedra no sapato”, uma concorrência, às vezes pensam que quero altos cargos, mas sabe o que gosto? De pôr a mão na massa, da prática, ficar nos bastidores não é comigo. Aos poucos estou aprendendo a lidar com isso.

Em junho deste ano tomei outra decisão: pedi demissão do meu serviço de supervisora, pois estava sofrendo assédio moral e ataques verbais repetidamente de alguns integrantes da escola.  Se eu não fizesse isso ia adoecer mais e mais, mas foi tão bom! No começo tive um misto de alegria e medo, mas houveram muitos benefícios: a ansiedade desapareceu, raramente sinto, estou me permitindo mais, cuidando mais de mim e economizando, pois depois de receber tantas críticas da aparência e maneira de vestir me tornei “compulsiva por comprar”. E a melhor de todas: Abri meu próprio espaço de trabalho, finalmente me tornei empreendedora. Estou no início ainda, mas muito feliz e cheia de energia para o que der e vier.

Amizades & Amores

Gostava de alguns meninos na infância, comecei a gostar de um loirinho dos olhos azuis, mais velho que eu, que era bem inteligente, mas nunca declarei, adorava brincar com ele e vê-lo tocar pandeiro na igreja, foi amor platônico. Depois aos 9 comecei gostar de outro, um branquinho de cabelo liso, mas também amor platônico, fiquei muito magoada quando uma amiga me disse que ele queria sair com ela e ela falou que só não saiu porque eu gostava dele. Achei isso péssimo e comecei a ter dificuldade de amizades, pois via a falta de sinceridade e fidelidade nas pessoas. Escrevi essa poesia quando isso aconteceu:

Lamentações (02/08/99)

A tristeza invade meu coração,

O vazio existe em mim,

Quando soube que não me amava,

Meu coração se quebrantava,

Minha vida se acabou,

Meu coração triste ficou,

Pensei que iria ser feliz,

Acabei me tornando infeliz.

Tudo que estava a minha volta

Ficou escuro,

O céu se tornou negro,

E o sol vermelho de sangue,

De noite, as estrelas eram lágrimas,

Lágrimas de tristeza,

E a lua, oh! A lua, olhava pra mim

Como se fosse o fim.

Por causa disso aprendi uma lição,

Nunca mais vou me apaixonar,

Para nunca mais triste ficar,

E para não magoar meu coração.

As flores pareciam chorar,

As árvores queriam me consolar,

Como estava tão triste, tão triste,

Que parecia que ninguém existia.

Meu único pensamento era você,

E a única coisa que queria neste mundo

Era nunca mais te esquecer.

Profundo não é mesmo? Escrito por uma adolescente de 14 anos, aí neste texto já sentimos a intensidade profunda: a famosa sobre-excitabilidade, que aprendi há pouco mais de 1 ano, onde vemos um excesso nas palavras, mas que realmente demonstra meus sentimentos naquela época.

Depois disso gostei de outros meninos, mas nunca passou disso, tinha dificuldade de contato com pessoas, como abraços, beijos e etc., minha família não tinha essas demonstrações de afeto. As meninas da minha sala sempre queriam me obrigar a ficar com alguém e para mim ficar era algo muito fútil, para mim tinha que pelo menos sentir algo pela pessoa e conhecê-la melhor. Até que com 17 anos o rapaz que eu gostava me deu um selinho, me senti nas nuvens, fiquei pensando nisso todos os dias, mas nunca namoramos, até porque ele era bem “mulherengo” e mesmo que ele gostasse de mim eu nunca o namoraria, queria que meu 1º namorado fosse alguém que eu pudesse confiar. Depois disso aos 23 fiquei com outro rapaz, 1 dia apenas.

Tentei gostar de outros rapazes, conhecer, fazia amizade facilmente, mas ninguém gostava de mim, ninguém queria namorar comigo, achava que era por conta da aparência não ser muito atraente, mas na verdade acho que era porque nem sempre sabiam conversar comigo e assim fui ficando só, minha sobrinha que era minha amiga queria concorrer comigo, tanto na parte de namorados como na parte acadêmica e aí fui percebendo que amizade era algo que nem sempre existiu na minha vida, mas que era permeada por interesses e pessoas oportunistas.

Até que em 23 de dezembro de 2006, recebi uma mensagem enganada de uma pessoa (meu esposo), onde fiquei muito curiosa e fui conversando até descobrir, pois me encantou com as palavras e com a escrita e esta pessoa passou a ser meu amigo, sabia conversar comigo, gostava de mim como eu era, começou a frequentar a minha casa, conversamos por 2 anos até que em dezembro de 2008 começamos a namorar. Em 2011 noivamos e em 2014 casamos. Agradeço imensamente a Deus por ele ter aparecido na minha vida, onde foi a 1ª vez que tive alguém que pudesse confiar, onde podia ser ouvida e que acreditava em mim.

A primeira pessoa que soube da superdotação foi meu esposo quando casei aos 29 anos, mas muitos me falavam que não sou normal e eu acabava me sentindo um E.T. por onde eu ia. Depois me revelei para algumas pessoas, que não me entenderam muito bem, outras ignoraram, outros passaram a querer concorrer comigo, outras começaram a querer me usar, é… não é fácil ser diferente nesse mundo.

Tenho algumas dificuldades em relação com familiares, não me encaixo em almoços de famílias, festas de aniversário, casamentos, onde fofocas surgem da vida de todos e as pessoas reparam e fazem perguntam indelicadas. Eu tentei por anos me encaixar, hoje prefiro afastar, pois nada me acrescenta. Só me traz prejuízos. Depois que meus pais faleceram meus irmãos se revoltaram contra mim, me falaram coisas que doeram no fundo do meu ser e desde então cortei relacionamentos, conversas e tal, infelizmente e felizmente, foi o melhor para mim. Eu adoro conversar, casa cheia, mas gosto de conversas boas, pessoas boas, não gosto de conversas de bens materiais, pessoas que me usam ou de coisas toscas, gosto de assuntos interessantes, mas nem sempre é o que tem junto com a família.

E quero aproveitar e agradecer aos meus pais que mesmo sem saberem me estimularam e me ensinaram muitas coisas, aos meus irmãos pelos livros e materiais que eu pude ter acesso. Pela família que mesmo não sendo a perfeita é a que eu pude ter e mesmo com as adversidades tudo isso me fez tornar a pessoa que sou hoje e também sou grata a todas as pessoas que passaram por mim fazendo coisas boas ou não, direta ou indiretamente, todas foram importantes para minhas quedas e as minhas escaladas, porque quando eu caí eu me levantei mais forte do que nunca, porque tudo que eu quero, eu posso eu faço eu consigo, não fico parada esperando as coisas caírem do céu. Agradeço também às várias que torceram para meu sucesso e pasmem, a maioria não era parente e muitas nem conheço pessoalmente. Resiliência é meu sobrenome.

Então pessoal finalizo aqui meu imenso relato, porque a pessoa aqui não sabe resumir (sobre-excitabilidade também), tudo é intenso: 8 ou 80, rsrsrs mas muitos de vocês devem sentir isso na pele. Espero que este texto possa lhes ajudar a se reencontrar em algumas das minhas palavras.

PS. Caso precisem me contatar eu venho desenvolvendo um trabalho bem legal com crianças, adolescentes e adultos superdotados, pessoas com ou sem deficiência no desenvolvimento de potenciais e talentos. Vou deixar meu e-mail e os links das minhas redes sociais.

Tatiane Oliveira – Superdotada Acadêmico-intelectual em linguística e lógico-matemática, artes, esportes e em liderança (multipotencial). Agora entenderam porque sou que nem “bombril”? Kkkkkkk

Foi um prazer escrever para vocês, grande abraço!

Beijos e abraços

multitelie@gmail.com

Instagram:

@multitelie

@tatioliveirapsicop

@diariodeumasuperdotada

Youtube: Tatiane Oliveira

Multiteliê

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Direito: À Aceleração Escolar

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Relato Pessoal: Aline Costa

Eu me chamo Aline, como a música francesa que inspirou meu pai a dar-me este nome. Antes de começar a contar a minha história, preciso ir um pouco mais atrás e contar a história do meu pai. Seria injusto e impossível falar sobre mim, sem falar sobre ele que foi minha inspiração e o responsável por eu ser quem sou. Meu pai nasceu em 1942 em uma fazenda onde meus avós trabalhavam. Foi criado no mato, aprendendo o trabalho duro na terra. Ali mesmo teve contato com um acordeão que aprendeu a tocar ainda muito pequeno, sozinho. Tirava as músicas de ouvido e demonstrava grande talento. Chegou a ser convidado para tocar na rádio no Rio de Janeiro, mas acabou não indo, ou por falta de coragem de deixar meus avós, ou por ter sido impedido pelo meu avô. Não sei ao certo qual a versão mais correta. O certo é que esse homem que só havia aprendido o básico nos três anos que frequentou a escola, tinha algo a mais que eu só viria a compreender há um ano atrás, em julho de 2020. Ele consertava coisas, criava coisas, tinha grande habilidade manual e era muito intenso.  Se era para ser vendedor, ele seria o melhor possível, se iria ouvir música, tinha que ser direito, intenso, sem bate-papo, tinha que mergulhar. Se estava junto à natureza, tinha que sentir cada fibra das árvores. Este era o meu pai.

Agora sim sobre mim. Nasci em 1974, prematura com apenas 1600gr, peso que, naquela época, era considerado extremamente baixo e representava um grande risco de morte. Antes de completar um ano eu já falava e sempre fui considerada pela minha família uma criança geniosa, emburrada e pouco inteligente. Lembro-me de haver desejado não ser bonita, não ter olhos claros, mas sim ser inteligente como meus irmãos, que notoriamente destacavam-se dos demais. Meus irmãos são ambos de exatas e desde cedo faziam contas enormes de cabeça, jogavam xadrez, demonstravam conhecimentos que a maioria das pessoas desconhecia. Eu, por outro lado, estava sendo criada para ser dona de casa: lavava, encerava, ajudava na cozinha, bordava, pregava botões, etc. Pouco tempo sobrava a mim para desenvolver habilidades ou para mergulhar no meu mundo, mas sempre que podia, lá estava eu com minhas bonecas criando todo um mundo paralelo que me envolvia a ponto de não escutar o mundo a minha volta. Aos 7 anos entrei para a escola, algo que vinha pedindo minha mãe fazia tempo. Ali sentia-me tão feliz que esquecia do mundo fora da escola. Certa vez fiquei para trás no pátio porque, de tão envolvida com minha brincadeira de girar no ferro da trave do gol, não ouvi minha professora nos chamando. Quando dei por mim estava sozinha ali e saí correndo para a sala. Até hoje tenho vontade de chorar quando conto isso. Lembro-me das atividades que fazíamos, da sensação de segurar o giz de cera, de pintar sobre o celofane transparente. Lembro-me das plantas que haviam na nossa sala, do cheiro da sala de aula e da minha lancheira; de plástico vermelha e branca com patinhos em relevo, com uma garrafinha também branca que saltava da tampa. Lembro-me do guardanapo que embrulhava meus biscoitos maisena com manteiga e do suco de maracujá de diluir que levava quase sempre. Lembro-me até da faquinha de serra pequena que minha professora usava para cortar a maçã em quatro e retirar o miolo para mim.

A escola tornou-se para mim um refúgio, um local onde me era permitido aprender e ler. Costumava visitar a biblioteca com frequência e via orgulhosa a minha ficha ir enchendo de títulos, entre eles, Nicolau teve uma ideia, E o vento levou o balão da joaninha e tantos outros. Lembro-me do rosto de quase todos os colegas de escola. Quantas vezes passei por eles já adulta e pude constatar, com tristeza, que eles não se lembravam de mim como eu deles. Em alguns momentos de tristeza via injustiças e racismo sendo praticado e saía em defesa. Na escola gostava de estar sempre próxima aos professores, mas por timidez quase não comentava nada ou fazia perguntas. Afinal, não era eu, segundo pessoas muito próximas, tão limitada? Bem, cresci, e com o tempo as atribuições em casa só aumentavam. Minha estratégia para sair-me bem nas provas era prestar muita atenção nas aulas e estudar pouco ou quase nada.

Minhas intensidades eram vistas com muita estranheza pelos meus pais e eu não os culpo por isso. Eu lambia a parede do quarto próxima ao meu berço quando pequena, não resistia às maçãs na fruteira e dava uma mordida em cada uma, mesmo sem fome, só para sentir o gostinho delas. Dormia circundando a barra de um cobertor que tinha com os dedos porque a sensação geladinha do cetim me dava conforto e me ajudava a adormecer. Escondida, criava coreografias para as músicas que eu gostava, me imaginava em uma apresentação de sucesso. Minha amiga imaginária, Cláudia, me acompanhava em meu treinamento para o circo (que custou a barra de pendurar as toalhas no banheiro). Eu via imagens diferentes em paredes, conseguia olhar para um objeto muito conhecido de forma inédita como seu eu pudesse mudar a minha câmera interna de lugar. Essa era eu, briguenta porque não suportava injustiças, revoltada porque queria tempo para ler e estudar e não tinha por ser mulher e ter obrigações que os homens não tinham. Sonhadora porque desejava voar mais alto.

Dando um salto agora para a minha adolescência, nesse período fui muito tímida e retraída. Hoje noto que no momento em que deixei de brincar, perdi o que tinha em comum com as demais crianças com as quais convivia. Se antes eu já gostava de estar com meu irmão e com os amigos dele, que tinham papos bem mais interessantes, agora mais ainda. No entanto, tive que lidar com a realidade de que meu irmão estava em outra fase e que a última coisa que ele queria, estando com 18 anos, era uma irmã de 13 por perto. Nesse período senti-me um pouco perdida. Eu tinha uma amiga e tentava de certa forma seguir seus passos, mas a única coisa que conseguia era sentir-me ainda mais peixe fora d’água. Eu era daquelas que sempre ajudava os colegas com informação para as provas, explicava conceitos, ensinava o que sabia. Não chegava a ser a melhor da classe, pois sempre era algum menino. No entanto, era a que mais se destacava entre as meninas. Não que eu buscasse a comparação, mas os meninos eram bastante competitivos e sempre perguntavam minhas notas. Houve um período também que tinha comigo um curso de alemão debaixo do braço ou um livro para ler durante o recreio. Os livros eram sempre acima da minha faixa etária, emprestados de um amigo ou de bibliotecas.

Não me importava por ser diferente. Na verdade, achava que o fato poderia ser explicado por ter tido grande influência dos meus irmãos, por ter lido muito na adolescência e infância, por ter tido, no geral, uma criação diferente: não curtíamos carnaval, nem futebol, festas barulhentas ou lugares lotados. Então como afinal cheguei à superdotação? Eu sou mãe de três: duas meninas de 24 e 19 anos e um caçula temporão de 8. Essa última pecinha que faltava em nosso quebra-cabeça nos ajudou a desvendar tudo. Ele aprendeu a ler sozinho e fazia contas de cabeça desde pequeno. Sempre foi muito curioso e rápido para aprender coisas novas. Além disso tudo, muito explosivo e intenso. Quando ele começou a recusar-se a ir para a escola ou, até mesmo, ter febre ou outro mal-estar para não ir, vimos que havia algo de muito errado. Não era bullying. Era a escola que não o estimulava ou entendia. Ele não estava sendo acolhido. Buscamos uma psicopedagoga que pré-identificou a superdotação dele que foi posteriormente confirmada por especialistas. A partir deste ponto para identificar mais pessoas da família foi um pulo. A minha identificação só veio depois de conversas com minha terapeuta, com as especialistas e com um dos meus irmãos. Até hoje leio o resultado dos testes frequentemente para acreditar porque nunca me senti inteligente ou mais ágil que os demais. Sempre justifiquei cada conquista como sendo sorte, estar no momento certo na hora certa, esse tipo de coisa.

Não cheguei tão longe quanto gostaria, mas entender hoje minha intensidade e aprender a manejá-la, entender o vazio que sempre senti na mente e até no espírito, a angústia que senti em todos os momentos que não pude ler ou estar aprendendo algo, representam um alívio gigantesco. Sou intensa sim e isto é bom! É minha mola propulsora e não uma falha no meu caráter. Choro fácil, amo intensamente, me envolvo nas coisas com a alma porque esta sou eu. Eu sou assim e ponto. Entre minhas pequenas conquistas estão um primeiro lugar no vestibular na UFMS, o aprendizado do espanhol em poucos meses para acompanhar um mestrado, o empreendedorismo (trabalho por conta própria sem medo), meus filhos que são maravilhosos, e ter ajudado a outras pessoas a encontrarem seus caminhos também através da minha sensibilidade. Não falo das minhas conquistas com soberba, não acho que eu seja melhor do que os demais, mas sim passei pela UFRJ e me formei em 2012 quase sem conseguir estudar, virando noites escrevendo trabalhos, saindo às 5 da manhã de casa e chegando às 9h30 da noite porque tenho uma garra danada. Eu tenho que ter muito orgulho disso porque antes da identificação eu praticamente me desculpava com todos por existir, sentia-me mal por tirar notas mais altas ou por entender um poema que ninguém mais parecia compreender. Eu dizia que era a idade e que entendia porque tinha mais bagagem. Estou aqui ensaiando encontrar o meu espaço no mundo, não por ser melhor, mas porque todos temos o direito de sermos respeitados dentro de nossas singularidades. Seja como acha que os outros querem que você seja e sofrerá. Seja você mesmo e atraia para junto de você as pessoas certas com as quais terá uma convivência saudável e plena e será mais feliz e leve. Sim, meu nome é Aline, tenho 46 anos e sou superdotada nas áreas linguística, naturalista e intrapessoal. Muito prazer mundo.

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Altas Conversas Altas Habilidades: S1 E3 Terminologias Altas Habilidades e Superdotação com Denise Fleith

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Relato Pessoal: Marina Carvalho

Antes de tudo, confesso que escrever este relato é parte de uma cura (muito esperada) envolvendo entendimentos sobre mim mesma e sobre o funcionamento da minha mente. O que virá a seguir é um recorte dinâmico dessa jornada de autoconhecimento.

Quando criança, desempenhei o papel de aluna exemplar (que, aos olhos dos professores, parecia muito bem ajustada). Aos quatro anos, ansiava pelo ingresso na pré-escola porque aquele era o lugar que minha irmã mais velha frequentava todos os dias e isso representava, naquela época, algo de mágico. Minha irmã mais velha era, a um só tempo, uma das pessoas que eu mais amava e minha maior fonte de inspiração; consequentemente, seguir seus passos era nada menos que uma honra. Fiquei dias com uma pastinha roxa a tiracolo esperando pelo momento de comparecer às minhas primeiras aulas.

Como faço aniversário em Novembro e pulei o Maternal, eu costumava ser um ano mais nova do que os meus colegas de classe isto é, eu estava na escola “um ano adiantada”. Na realidade, isso foi um problema quando saí do Pré e ingressei na primeira série, que hoje equivale ao segundo ano. As primeiras escolas que fomos conhecer não queriam me aceitar porque me consideravam nova demais e achavam que eu não conseguiria acompanhar as aulas. Eu me recordo distintamente de achar isso muito engraçado e até incoerente, porque, na minha cabeça, não tinha nenhuma dúvida de que acompanhar as aulas não seria um problema. Por fim, após realizar um teste de rendimento comigo, uma das escolas procuradas pelos meus pais me aceitou. Durante o teste e para me estimular, a instrutora bondosamente disse que eu poderia fazer determinada conta que me foi pedida utilizando os dedos das mãos acho que ela falou isso porque eu permaneci estática por um momento enquanto ela me avaliava, mas o fato é que eu não tinha paralisado, só estava concentrada fazendo as continhas em minha cabeça.

Naquele ano, não só passei no teste de rendimento como estava mais avançada que os demais alunos no processo de alfabetização. Isso foi algo que eu nunca questionei, apenas fazia parte do meu dia a dia. Além de tudo, eu estava simplesmente seguindo os passos da minha irmã mais velha, que eu idolatrava e que também era a melhor aluna da sala dela.

Até a quarta série e já em outro colégio, eu havia sido encarregada de escrever bilhetes pontuais para os pais dos alunos (uma decisão tomada pelo meu domínio da escrita e da caligrafia, imagino). Eu também tinha que passar de carteira em carteira verificando a lição dos meus colegas. Admirava bastante minha professora e o recebimento dessa tarefa, eu pensava, tinha a ver com ser uma aluna sensata, o que deveria ser bom; simultaneamente, porém, eu me sentia desconfortável com aquela função pelos seguintes motivos (e aqui não critico minha professora de forma alguma, apenas observo as limitações do sistema educacional no qual estávamos todos inseridos):

Primeiro, eu tinha um lado levado e brincante que não exatamente se animava a repreender os outros por não terem feito o dever de casa. Depois, eu começara a conhecer os conceitos de ética (considerando-se, é claro, a ética infantil que podemos experimentar tão jovens), e, diante disso, sabia que não deveria favorecer os meus amigos quando checasse suas lições muito embora, por instinto, eu quisesse cuidar deles.

Na prática, creio que eu, desde então, já achasse que a escola melhoraria muito caso se afastasse da dimensão exacerbadamente racional em que atuava e se aproximasse dos alunos (ou das responsabilidades incumbidas a eles) de uma forma mais humana.

Àquela altura, eu era uma criança meiga, gentil, carinhosa, apaixonada pela minha professora, pelas minhas canetas coloridas, pelos meus amigos e pelo fato de que NÃO queria mais ir às aulas. Cheguei a ter diálogos tensos com meu pai por causa disso; eu preferia ficar em casa assistindo aos meus desenhos favoritos, brincando e estudando sozinha, algo que eu acabava fazendo de qualquer jeito mas vamos chegar lá.

Deve ter sido por volta dos primeiros anos escolares que, segundo minha mãe, eu escrevi algo no computador e a chamei para ler. Enquanto isso, ela não acreditava que uma criança daquela idade poderia ter escrito um texto tão complexo. Minha família vem do Nordeste e sempre os ouvi falando com orgulho e postura contrária à xenofobia que vigora em São Paulo que as pessoas da Bahia eram muito inteligentes (a exemplo dos meus próprios pais, o que frequentemente atestei, mas também eram citados artistas, personalidades e escritores baianos). Mais uma vez, eu não achava que a inteligência era algo a ser colocado em pauta, apenas uma habilidade intrínseca. Com 16 anos, um dos meus primos mais próximos (crescendo, só tive contato assíduo com três: um médico, um engenheiro e um advogado), que chegou a lecionar em Harvard, conquistou, quando prestou vestibular no Brasil, o 2° lugar na classificação geral (que englobava todos os cursos) dos aprovados, e isso deixava meus tios felizes, mas não exatamente surpresos, penso eu.

Nas próximas séries, eu continuei a vivenciar as demandas que eram comumente designadas ao melhor aluno da classe. Fui representante de sala e participei da construção da chapa eleita ao Grêmio do Colégio quando ele finalmente desenvolveu um. Era comum também que eu participasse de concursos (de redação, artes e até de palavras cruzadas!) fora da escola, e eu frequentemente os ganhava. Tenho até hoje um modelo de Barbie que foi confeccionado por uma estilista especialmente para mim como prêmio em uma dessas ocasiões. Eu me lembro claramente de ter receio de que não ganhasse mais os concursos porque meu nome já estava ficando “carimbado demais”. Existiu, naquela época, uma outra iniciativa escolar a Jovens Construindo a Cidadania na qual, mais uma vez, cheguei a me envolver, mas onde, pelo que me recordo, não foi possível desenvolver nenhum trabalho duradouro em direção ao que havia sido proposto.

Embora meus colegas não soubessem (e eu achasse que não podia falar a respeito), uma camada da minha vida pessoal era mantida propositalmente nas sombras e, considerados diversos fatores, eu cresci em um ambiente bastante disfuncional. Em adição a isso, minhas emoções estavam profundamente ligadas ao meu rendimento escolar à parte de toda a racionalidade, a verdade é que emoções são extremamente valiosas para mim. Essa competição brutal entre pensamento e sentimento viria a se acirrar um pouco mais adiante, a partir do Ensino Médio.

Na oitava série, eu fiz um curso no contraturno do período escolar em uma instituição de cursinhos da minha cidade (consegui a bolsa máxima disponível na prova de admissão). Nos simuladões organizados por lá, também era frequente que eu ficasse entre os primeiros colocados (em termos claros, eu só precisei entender a lógica segundo a qual os simulados funcionavam; ela era algo que, na minha cabeça, acabava se repetindo); essa situação, mais uma vez, rendia prêmios. Um dos que eu mais gostei de ganhar foi um ingresso para a pré-estreia do filme Zoro.

Ao final do ano, embora eu não quisesse estudar em um colégio técnico, meu pai era a favor de eu prestar a prova. Na Etecap, um dos principais colégios técnicos de Campinas, passei em 3° lugar na classificação geral: fui, ao mesmo tempo, a primeira mulher e a primeira estudante de uma escola pública a se classificar, seguida em 4° lugar (com a mesma pontuação, embora eu não tenha certeza do critério de desempate) por uma de minhas melhores amigas. Fiquei feliz por mim e por ela, mas já sabia que a Etecap não era o lugar para onde eu gostaria de ir.

Antes de ingressar no Ensino Médio, portanto, fiz um teste de bolsa em um prestigioso colégio que tinha a fama de preparar estudantes para universidades internacionais. Na época, eu achava que cursar uma universidade fora do Brasil era o que queria… um caminho estimulante para minha vida acadêmica.

Vindo de uma escola pública e com uma bolsa contundente, ingressei no colégio dos sonhos e conheci uma jornada de grande crescimento por lá. Tenho muita gratidão pelo colégio, por seus professores e mentores, e levo lindas recordações do maravilhoso grupo de amigos que formamos; eu os guardo em meu coração até hoje. Parte do que me motiva a escrever este relato, aliás, é a possibilidade de compartilhá-lo com eles, já que, devido aos meus questionamentos que estouraram no terceiro ano, eu me afastei de meus amigos completamente e de forma bastante abrupta. Não tinha nada a ver com eles e tudo a ver comigo e com meu longo processo de descoberta da superdotação, que só veio a ter seu desfecho anos depois.

No colegial, fosse em exatas, humanas ou biológicas, eu me destacava nas avaliações, que eram constantes. Por outro lado, a centelha do meu incômodo, já presente, em relação ao meu processo de aprendizagem, começava finalmente a queimar. Eu logo percebi que não aprendia os conteúdos durante a aula em si, mas que desenvolvia um método particular para aprender tudo em casa, sozinha, sempre um dia antes da prova e, mesmo assim, eu a gabaritava. Era frequente que eu passasse as aulas fazendo anotações de outras matérias cujas folhas havia perdido, pelo motivo que fosse (minha mente acelerada nem conseguia manter um fichário organizado). Eu me lembro de uma prova de física que um de nossos professores anunciou ser a mais complexa do currículo do ensino médio e na qual nos desafiou a passar que dirá gabaritar. Eu me lembro também de, um dia antes da prova, perceber que eu não sabia nada dos conceitos envolvidos (minha mente havia divagando para qualquer lugar aleatório durante as aulas). Mais uma vez, em um fim de tarde e uma noite pois tínhamos provas diárias , eu estudei em casa para entender a lógica do assunto: tudo era sempre sobre a lógica do assunto. Como resultado, fui uma das únicas alunas do ano a gabaritar.

Tinha sucesso também nas provas de humanas, em que minhas notas dez, segundo meu exigentíssimo professor se história (famoso por não entregar um dez assim tão facilmente), estavam se tornando uma constante. Em retrospecto, penso que meu problema era justamente a percepção de que eu poderia ser boa em qualquer matéria mas que, paralelamente, não carregava comigo mesma um real senso de identidade com nenhuma delas. Eu não sabia do que gostava, ou então gostava de tudo. Desde que li sobre ele em uma revista, a única pessoa com que, efetivamente, conseguia me identificar nesse quesito (e aqui faço TODAS as ressalvas necessárias para indicar que NÃO ESTOU nos equiparando, apenas partilhando que empatizo com a mistura aparentemente caótica em seus cadernos) estava morta há muito tempo, e era Leonardo da Vinci.

Naquele primeiro ano, senti que era meu dever informar à coordenadora que eu não sabia muito sobre a língua inglesa. Na escola pública, todos os anos o currículo da matéria girava em torno do mesmo: verbo to be. Era engraçado como as aulas sempre se repetiam, quer estivéssemos na quinta ou na oitava série. Ao final do colegial, no entanto, e muito devido ao meu gosto pelo aprendizado de outras línguas (adoraria aprender várias ainda hoje!), eu já estava escrevendo cartas em inglês para meus amigos que queriam fazer intercâmbio e eventualmente cheguei a dar aulas particulares da língua.

Por outro lado, quando estávamos no terceiro ano, foi pedido que escolhêssemos uma das três áreas do conhecimento para participarmos de nossas turmas de aprofundamento durante a tarde (eu estudava de manhã). Não me esqueço da notificação que recebi da coordenadora porque praticamente todas as outras pessoas (senão todas) já sabiam em qual turma de aprofundamento estariam, mas eu não. De fato, eu simplesmente não conseguia escolher, e estava sofrendo.

Por trás dessa indecisão, se eu fosse visceralmente sincera comigo, teria admitido que a área na qual eu desejava me aprofundar era a de humanidades, que tinha aulas especiais de desenho técnico para quem desejasse seguir uma carreira nas artes (artes, em suas variadas formas, fascinavam-me). Era isso o que meu coração me diria para fazer, mas, com o meu histórico escolar, essa não parecia ser uma alternativa para mim. As expectativas eram muito altas e muito mais tradicionalistas (lembram-se da tríade medicina/direito/engenharia?).

É claro que essa panela de pressão tinha hora para explodir… e ela explodiu ali mesmo, ao final do Ensino Médio. Passei a achar que havia algo profundamente errado dentro de mim, não sentia que o sistema educacional conseguira acolher a complexidade do que eu acreditava ou que eu experimentava e, diferentemente dos meus outros colegas (e para minha própria surpresa), não havia um curso ou universidade específicos que eu acreditasse que abarcaria minhas buscas enquanto estudante (apesar de muito ter pesquisado). Além de tudo, eu sentia que havia algum outro tipo de habilidade — diametralmente oposta ao que aprendi em todas as escolas — que eu precisava trabalhar, como se meu cérebro e meu corpo estivessem prestes a se separar de forma irrevogável caso eu falhasse em parar a bola de neve predominantemente intelectual que descia a montanha da minha vida naquele instante. Como escrevi antes, ao lado do meu alto desempenho estudantil, as emoções (e a comunicação através delas) sempre foram algo que estimei, algo que queria cultivar. Esse era o ponto que não podia negar para mim mesma, para o meio acadêmico ou para o mundo. Eu compreendo a lógica e abertamente me sirvo dela, mas o brilho, penso eu, está em compreender a sensibilidade que atravessa a lógica.

Apesar de me formar com o histórico impecável (permaneci uma aluna consciente do começo ao fim), ao abrir a Caixa de Pandora naquele terceiro ano de Ensino Médio, o caos acabou sendo definitivamente instalado. Meus pais achavam que eu estava passando por algo temporário, que eu poderia me dar um tempo para “me resolver” e fazer um cursinho no ano seguinte. Isso clarearia minhas ideias, pensavam, enquanto eu reconhecia que estávamos todos bastante confusos; porém, tentei escutá-los.

Abalada e, de certa forma, empurrada, fiz a prova que me garantiria a bolsa integral no cursinho do meu prestigioso — e querido — colégio. Recebi os parabéns dos secretários com um sorriso triste. Eu gostava muitíssimo de lá, mas havia algo grande demais acontecendo dentro de mim, uma força da natureza que havia despertado e que não poderia ser contida.

Não muito após começar, portanto, deixei de ir ao cursinho, o que era considerado absolutamente chocante para uma aluna como eu. A psicóloga e orientadora do cursinho ligou para minha casa múltiplas vezes tentando entender o que estava acontecendo, e acredito que ela genuinamente queria ajudar. Era angustiante não conseguir atender suas ligações porque eu sabia, dentro de mim, que o que estava acontecendo não poderia ser explicado. O sistema educacional havia falhado comigo (friso aqui que não me refiro ao colégio em que eu estudava e que, de fato, respeitava profundamente, mas ao sistema educacional como um todo; ele ainda não disponibilizou às escolas ferramentas para que possam acolher melhor os alunos com AH/SD), e eu tinha anos dessa falha para corrigir, da forma que fosse, e aparentemente sozinha.

Eu precisava, mesmo que temporariamente, afastar-me da Academia para me descobrir — por mais que eu também me encantasse por ela. Outra unidade do meu colégio havia formado pessoas como Tabata Amaral e Bel Pesce, mulheres com as quais, à parte de qualquer posicionamento pessoal ou político, eu viria a sentir um nível curioso de identificação. Era como um espelhamento, como se me visse em parte delas, ao mesmo tempo em que via ali, naquelas pessoas, um esteio que eu não havia ainda conseguido desenvolver, algo para o qual seria necessário certo apoio.

Um dos momentos mais emblemáticos dessa virada de propósitos foi o dia em que destruí tudo o que eu tinha em casa que se relacionasse a certificados ou medalhas de mérito por minha carreira estudantil (e o termo que utilizo aqui, carreira, é, para mim, o que mais se aplica porque assim o sentia). Eu chorei copiosamente enquanto rasgava e quebrava tudo aquilo à procura de qualquer alívio através da manifestação física de um conflito que eu mesma não conseguia verbalizar.

As artes, expressões do meu barulho interior, passaram a ser, desde então, luz e aterramento. Uma de minhas professoras de ballet, conceituada bailarina de Campinas, chegou a me dizer: “Vai haver um momento em que eu não saberei mais responder às suas perguntas”. Eu tinha ganas de entender o mundo na pele e não conseguia evitar ir fundo demais. Eu me encontrava na profundidade, o que vinha fazendo desde o ensino fundamental, para ser sincera, quando comprei um livro de física com conteúdos que iam até o currículo do ensino médio para que eu pudesse enxergar globalmente “qualé que era a daquela matéria”. Minha professora de teoria musical, por outro lado, também uma das grandes referências de onde eu morava, aluna direta de Osvaldo Lacerda (renomado compositor brasileiro), contou que nunca havia visto um aluno terminar o livro teórico tão rápido quanto eu.

Tudo seria lindo se não estivesse péssimo já que, no fundo, havia algo para mim torturante em relação ao processo de aprendizagem, algo que só era contornado (e não exatamente resolvido) quando eu desenvolvia a minha própria metodologia de estudo agora, imagine você o desgaste que é precisar desenvolver uma metodologia sobre tudo e para tudo!

Nesse período, também escrevi e ilustrei meu primeiro livro, uma coletânea poética que publiquei independentemente pelo Clube dos Autores. É uma obra curtinha, intimista e bem peculiar porque não segue um padrão para o “fazer poético”. Alguns poemas são bem, vamos dizer assim, parnasianísticos (risos); outros são bastante livres em forma e rima, ou simplesmente uma exteriorização em prosa poética. Quando conversei com uma amiga que circula no meio literário, ela me disse que essas particularidades podem dificultar a sua publicação por um selo mais tradicional. Eu concordo que a apresentação dos poemas os faz contrastar incomumente entre um e outro, mas essa foi justamente minha intenção: mostrar que podemos fazer poesia de muitas maneiras diferentes.

Um dos trechos do livro, que se chama Rio Perene, traz uma angústia que conheço bem:

A sede que há em de mim

Nunca poderás sanar.

E não posso implorar por água para sempre.”

Aplicada ao contexto de que falamos agora, seria essa a minha dor em relação ao sistema de ensino atual. Uma sede que não pode ser sanada pela educação a que temos acesso.

Eventualmente, eu cheguei a procurar por psicólogos que trabalhassem na área da aprendizagem. Eu queria entender o que havia de errado comigo e como consertar. Queria entender como eu podia me tornar especialista em um assunto da noite para o dia e, também da noite para o dia, “desespecializar-me”. Minha mente em instantes limpava as informações da minha memória, substituindo-as por um aprendizado novo, e isso, junto a meu interesse por múltiplos e variados conhecimentos, fazia com que eu pensasse que minha memória era um lixo, que eu era uma farsa, que tinha algum problema de aprendizagem. Sentia que estava enganando a todos e a mim mesma. Também comentei sobre minhas angústias com um médico pediatra e ele sugeriu que eu poderia ter uma forma incomum de dislexia. Assim, fui orientada a falar com uma neuropsicóloga e a fazer alguns exames que, somados, chegavam aos milhares de reais. Como minha família não sabia de nada daquilo (eu não estava preparada para contar a eles) e como não podia, na época, bancar os exames sozinha, acabei não os fazendo.

A penúltima parte da minha saga em busca de respostas me levou até a UNICAMP. Por lá, havia a condução de um estudo sobre aprendizagem (a temática específica do estudo eu desconheço). Depois de falar com funcionário atrás de funcionário, depois de circular por quase todo o departamento, fui informada de que não havia vagas abertas para o estudo e/ou apenas um grupo específico de pessoas estava sendo analisado. Acredito que um trabalho incrível foi orquestrado por aqueles profissionais; no entanto, devido a questões de timing e de outras especificidades, eu não poderia ser integrada.

Anos depois, conheci uma psicóloga que trabalhava com superdotação. Foi ela quem me identificou como superdotada e quem me ofereceu meus primeiros momentos de conforto. Eu me sentia bem ajustada demais para ser considerada um aluno problema e má ajustada demais para seguir o modelo de estudos tradicional e socialmente esperado. Em outras palavras: eu não tinha lugar. Enquanto isso, eu me rasgava por dentro.

Em uma TEDx Talk, eu felizmente já havia conhecido um movimento que propunha que as pessoas poderiam hackear a própria educação, e assim, com todas as dificuldades imagináveis geradas pela empreitada solitária, vinha procurando fazer isso comigo mesma. Foi nesse contexto que recebi as palavras daquela especialista.

Quando ela me disse “Você tem um cérebro bem neurodivergente…”, senti a frase chegar como um jato de oxigênio direcionado a pulmões que precisavam muito respirar. Eu estava me afogando, e então não estava mais… aquela sentença era palpável, concreta e, mais do que isso: ela mostrava que havia uma comunidade de pessoas como eu, uma comunidade na qual eu poderia me encontrar.

Ainda estou engatinhando nessas novas descobertas, mas celebro ter topado com uma profissional que me identificou e que, consequentemente, possibilitou que eu fizesse parte de uma comunidade em que podemos nos entender e apoiar mutuamente. Além disso, como tenho muito interesse pelo funcionamento do cérebro humano, estou animada com a possibilidade de, de alguma forma, andar ao lado de uma grande empresa que trabalha com treinamento cerebral — isso porque a psicóloga que me identificou é uma de suas representantes.

Hoje, ao mesmo tempo em que acho importante trazermos visibilidade ao assunto, também procuro não glamorizar a superdotação (afinal, tudo que é diferente acaba tendo um apelo meio hollywoodiano). Honestamente falando, na contramão dessa impressão de “superpoder”, sei na carne as — várias — dificuldades que uma forma diferente de ver e experimentar o mundo pode nos trazer. Por isso, ao longo dos próximos anos, gostaria de dar mais voz àquilo que está nos bastidores — e não no famigerado palco — do universo das altas habilidades.

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