Entrevista: Marcos

Marcos preferiu não se identificar com nome completo nem foto de rosto por razões pessoais

Marcos preferiu não se identificar com nome completo nem foto de rosto por razões pessoais

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência do conceito de superdotação, contextualize para nós como você se familiarizou com o contexto neurodiverso.

Marcos: Desde criança eu me destaquei entre todos os demais da sala de aula. Nunca havia pergunta à qual eu não oferecesse resposta no ato ou caso não pudesse, sempre busquei pela resposta. A dúvida me incomoda, quero responder a cada uma. Muitas coisas me impediram de me enxergar como superdotado, mas considero que acabei inserindo em minha vida muita informação. Através de material de leitura, da faculdade, documentários. Parece arrogante de minha parte posto nestes termos, mas sou movido à racionalidade. Se há algo que eu necessite me aprofundar, é exatamente o que eu faço.

SM: Você tem um filho superdotado. Em quais áreas as altas habilidades dele têm sido expressas?

Marcos: Outro dia ele apresentou aos seus colegas de escola Stephen Hawking. Muito surpreso veio me indagar do porquê de seus colegas não o conhecerem. Posso dizer que venera como eu os mistérios do cosmos. Como eu, é fã de Carl Seagan, quer ser astrônomo pela USP. Além disso, ele é apaixonado por história. Principalmente história europeia. Lê muito sobre Cartago, uma das suas maiores paixões.

SM: Já considerou fazer uso de aconselhamento psicopedagógico? E para o seu filho? Comente seu posicionamento.

Marcos: Já busquei algumas alternativas que me tangenciaram para esta autodescoberta. Acredito que eu e minha família somos felizes por estabelecer um diálogo e isso dispensa tais alternativas.

SM: Apresentaste teu filho a alguma iniciativa de apoio aos alto habilidosos? Em caso positivo fale um pouco mais sobre essa experiência, em caso negativo por que não?!

Marcos: Não o apresentei. Contatei uma Associação, mas a idade dele impossibilita quaisquer auxílios psico-pedagógicos. Segundo tal associação, após os doze, que é idade do meu filho, não há como auxiliar no direcionamento dos estudos, mas tão somente atestar sua habilidade. E somente isso não é de meu interesse.

SM: Quais cursos universitários você cursou e o que lhe atraiu em cada um deles?

Marcos: Fiz dois anos de letras, abandonei. Atualmente faço engenharia. Não fui muito incentivado por meus pais, ou mesmo pelo ambiente em que vivi por anos a enveredar pelo caminho acadêmico. Acredito que por isso não sou formado. Muito me atraiu no curso de letras o conhecimento etimológico das palavras. Como se originavam, seus radicais originados em grego ou latim. Lá tive aulas de latim. Sempre fui fascinado em línguas estrangeiras. Desde os doze eu estudo por conta o inglês. Hoje, não posso me dizer fluente em inglês porque nunca pude sair do país. Mas continuo aprendendo através de aplicativos. Além do inglês sei um pouco de francês, italiano e espanhol. A engenharia acabei escolhendo, porque através dos livros, fiquei fascinado pelo modo como se aplica física e matemática para se descobrir o universo. Por exemplo, ao assistir o seriado “Cosmos” de Carl Seagan, muito me impressionou a teoria de Kepler que instaura uma relação matemática entre a distância dos planetas ao sol e o seu respectivo período de órbita, que mantêm uma proporção única para todos os planetas. Isso é fascinante. Escolhi um curso onde eu poderia me aprofundar tanto em física como em matemática. Mas ainda desejo fazer mais, quero continuar estudando.

SM: Quais foram suas dificuldades adaptativas no contexto acadêmico? Que atendimento ou acomodações você gostaria que entrassem em vigor a fim de tornar o curso superior tolerável ou até mesmo prazeroso?

Marcos: Gostaria que o curso se iniciasse pelo fim. Parece besteira, mas faz sentido quando você vê alunos de engenharia começando a testar as resistências de colunas lá no final do curso. É como se você só pudesse dirigir no último dia do curso pra conseguir uma habilitação.

SM: Quais mudanças estruturais você gostaria de ver efetivadas num futuro próximo visando o melhor aproveitamento das instituições pelo seu filho superdotado? De que modo podemos enquanto indivíduos contribuir para a integração neurodiversa no substrato social?

Marcos: Eu acredito num mundo onde nós poderemos enxergar que nosso maior trunfo é a tecnologia. Ainda que existam outras necessidades humanas, como a psicológica e a médica, por exemplo, a tecnologia nos impulsiona ao futuro inegavelmente de maneira a obtermos sempre o melhor aproveitamento de nossos meios, e isso inclui todas as demais áreas mencionadas. Creio num futuro onde as escolas sejam tão somente voltadas ao desenvolvimento tecnológico.

SM: Algum lema motivacional?

Marcos: “Se eu pude ver além, é porque estive sobre os ombros de gigantes”

SM: Algum recado pra galera?

Marcos: Devemos abandonar a industrialização de pensamento. As pessoas estão carentes de identidade. Por isso tentam fazer de tudo para parecerem diferentes. Por isso somos hoje obrigados a suportar coisas que antes não eram admitidas, como, por exemplo, essa exacerbada exposição quase pornográfica de mulheres na TV. Há quase 20 anos eu não vejo Silvio Santos, Faustão, Gugu ou quaisquer programações abertas. Simplesmente vou no youtube e busco por documentários. De preferência Carl Seagan e seu inestimável “Cosmos” que é uma herança para a humanidade tão valiosa (no meu conceito, ao menos) quanto as “Quatro Estações” de Vivaldi. As informações estão no ar, quase são infinitas. Então, por que todos só falam das mesmas coisas?

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Sentimento & Senso de Inadequação

por Adriana Vazzoler-Mendonça.*

Muitas vezes na vida podemos nos sentir inadequados. Todos os dias pode haver um motivo pelo qual nos frustramos, pensando que fomos mal interpretados e incompreendidos por alguém. Não é raro chegarmos a um local ou evento e acharmos que nossa roupa está inadequada, ou falarmos algo a alguém que lhe cai mal e nos sentimos inadequados por isso. Vamos combinar que dar bolas fora e pagar micos faz parte de nossa vida em sociedade.

Esse sentimento é decorrente da comparação que, como diz Torres (2011, p.181), é indevida, porém inevitável. Comparamos o tempo todo, mas não se pode afirmar que a comparação seja inerente ao ser humano ou que seja um construto da vida em sociedade (TORRES, 2011, p.181).

Torres (2011) explica que o próprio termo “inadequado” sugere que haveria uma forma “adequada” correta e melhor, enquanto que o inadequado seria errado, ruim, doente. O mal estar subjacente ao SI é decorrente da incoerência do que se pensa e acredita com os resultados observados na vida. A pessoa sente-se incomodada por não estar confortável na vida, passando a questionar se suas convicções estão mesmo corretas ou se ela não deveria ser como é.

O sentimento de inadequação (SI) foi definido por Torres (2008, p.14) como “o indício de um modo de existência no qual se constata um estado de diferença ou peculiaridade, independentemente das reações assumidas a partir dessa constatação”. O SI pode vir a ser problema quando ele é constante e chega a doer na alma, dia e noite, ao longo dos anos. Esse quadro crônico pode levar a pessoa a manifestar um sem-número de fenômenos como stress, depressão, baixa autoestima, perda da autoconfiança, transtornos de ansiedade e até o suicídio. Os motivos pelos quais as pessoas podem se sentir inadequadas são infinitos, mas são basicamente de dois tipos: os “de dentro” e os “de fora”.

Os “de fora” todo mundo vê, como, por exemplo, aparência física: é comum pessoas se sentirem inadequadas porque são muito altas ou muito baixas, muito gordas ou muito magras, com orelhas de abano, nariz grande, pele desta ou daquela cor, escamas, antenas ou cauda. Crianças e adolescentes podem ser considerados inadequados por motivos como esses e mais tantos outros como etnia, sotaque, corte do cabelo, dentes tortos, aparelhos para audição, estilo de roupas, o formato da aba do boné etc. Qualquer característica inadequada para um grupo pode ser motivo de bullying, exclusão, violência contra a pessoa. Esse tipo de sentimento de inadequação surge no sujeito que se sente inadequado perante os padrões de um grupo em que está ou deseja estar inserido.

Fonte: Barrionuevo, 2016

Fonte: Barrionuevo, 2016

Os motivos “de dentro”, por sua vez, ninguém vê, mas causam igualmente Sentimento de Inadequação. Esse tipo decorre do julgamento do sujeito sobre o que ele mesmo considera certo e errado para a própria vida, e não do que os outros pensam. Por exemplo: uma menina que se torna mãe aos 15 anos, sem o desejar, pode se sentir inadequada porque ela não está correspondendo às suas próprias expectativas. Um idoso que precisa usar um andador pode se sentir inadequado porque ele queria estar saudável nessa idade e andando com facilidade. Mesmo que todo mundo diga para a mãezinha “Qual o problema de você ser mãe nova? Veja pelo lado bom, logo teu filho estará criado e você poderá fazer o que quiser da vida ainda jovem!” ou para o idoso “Qual o problema de ter que usar um andador? Veja pelo lado bom, você está sendo bem cuidado, não te falta nada, erga a cabeça, isso não é o fim do mundo!”, além de não ser nada empático, isso não reduz o sentimento de inadequação que ocorre dentro deles e ainda pode piorar a situação, pois eles podem interpretar que não é adequado sentir-se inadequado.

O Psicólogo César Borella sugere que o Sentimento de Inadequação gera o Sentimento de Inferioridade. E, para nos livrarmos deste, temos que ter um olhar atento e honesto para nós mesmos, objetivando diminuir as barreiras erguidas pelo Sentimento de Inferioridade, tais como a autopiedade, a vitimização – que é atribuir às diferenças a responsabilidade por nossos resultados -, agressividade, falta de metas e objetivos na vida, autocrítica exacerbada e acomodação (BORELLA, 2017).

Em casos mais severos, indivíduos que se consideram inadequados podem passar a evitar a interação social com medo de serem ridicularizados, rejeitados ou humilhados. Segundo Meldau (2017), esse comportamento pode se tornar constante e levar à Síndrome da Ansiedade Esquiva, também conhecida como Transtorno da Ansiedade Esquiva ou ainda Transtorno da Personalidade Ansiosa. Trata-se de um transtorno de personalidade em que o sujeito passa a evitar contatos sociais e qualquer situação que ele imagina que possa lhe causar embaraço ou ansiedade.

As manifestações clínicas desta síndrome podem envolver sensibilidade exacerbada a críticas e rejeição, isolamento social voluntário, timidez ou ansiedade extrema em situações que envolvem interação social, evitação de contato físico, podendo este ser associado a estímulo desagradável ou doloroso; extrema baixa autoestima; desconfiança constante das outras pessoas; distanciamento emocional; autocrítica; uso da fantasia para explicar a realidade (MELDAU, 2017).

A psicologia considera como emoções autênticas naturais do ser humano a alegria, a tristeza, o medo e a raiva (LOPES, 2017). Elas não são exclusivas dos seres humanos e podem ser observadas em animais como cães, gatos e cavalos. As emoções são benéficas porque nos ajudam a tomar decisões, a nos proteger e a superar desafios da vida.

Contudo, há emoções derivadas destas que não são funcionais, posto que resultam em mal estar. No SI estão envolvidas as emoções de inveja, ciúme e vergonha, que são derivadas do medo, do temor de não sermos aceitos por nossas expressões no mundo. Na inveja e no ciúme, olhamos o outro com crítica, enquanto que na vergonha, o alvo da crítica somos nós.

A pessoa que tem SI pode ter ciúme e inveja das pessoas consideradas por ela melhores e ter vergonha de si, por ser como é e não conseguir ser de outra forma.

Aplainamento da Subjetividade e Aplainamento da Objetividade

Diante do sentimento de inadequação, seja ele causado pelos julgamentos vindos dos outros, de nós mesmos ou de ambas as partes, nós adotamos posturas para consertar a situação e, para isso, oscilamos entre tentar nos consertar e tentar consertar o mundo.

Fonte: Chris

Fonte: Chris

Tentamos nos consertar quando nos julgamos culpados, imperfeitos, errados, maus, feios, então nós é que temos que melhorar e mudar a qualquer custo, crendo que assim seremos aceitos e amados pelo mundo. Tentamos consertar o mundo quando julgamos que os outros, a sociedade, os familiares, os colegas é que são uns ignorantes, limitados, errados, maus, feios, que não nos entendem e por isso não conseguem nos aceitar e amar como somos.

Quem nunca chorou sozinho perguntando “por que eu nasci assim?” e prometeu a si mesmo mudar, melhorar, consertar-se? E quem nunca teve raiva dos outros e prometeu a si mesmo fazer algo para mudá-los, melhorá-los, consertá-los? Quem nunca?

Só que não funciona…

Fonte: Twitter

Fonte: Twitter

Estas tentativas de Aplainamento da Subjetividade (AS) definindo o movimento de se consertar, ou de Aplainamento da Objetividade (AO), que é o movimento de consertar o mundo (Torres, 2008) são, no fundo, respectivamente, manifestações de violência contra nós e contra os demais.

Mas o SI não é de todo ruim, dado que pode convidar o sujeito ao crescimento. Para Piaget (PILETTI e ROSSATO, 2011), o homem pensa e age para satisfazer a necessidades, para superar desequilíbrios e para adaptar-se a novas situações do mundo em que está inserido. O SI é, neste contexto, um alarme, um aviso de que o sujeito está em desequilíbrio e, portanto, está diante de uma oportunidade de aprendizado e desenvolvimento.

O processo de adaptação à situação que gera o SI assume duas formas básicas: assimilação, na qual a pessoa integra um novo dado às estruturas psíquicas que já possui e, acomodação, quando essas estruturas psíquicas não são suficientes e a pessoa tem que construir novas. Assim, na assimilação, o sujeito modifica o objeto para poder entendê-lo (AO) e, na acomodação, o próprio sujeito é que se modifica para adquirir um novo conhecimento (AS). A organização psíquica, por sua vez, articula esses processos de maneira constante e progressiva, logo, a pessoa constrói e reconstrói sua estrutura cognitiva, tornando-se mais apta a manter seu equilíbrio (PILETTI e ROSSATO, 2011).

Empatia consigo próprio

Tratar-se empaticamente pode ser explicado como reconhecer que se está fazendo o melhor que se pode com os recursos que se tem no momento e honrar esse lugar de onde o ser se manifesta no mundo.

Rosenberg (2006) demonstra que para desenvolvermos uma atitude não-violenta conosco mesmos e com os outros, temos que considerar quatro etapas da comunicação: Observar o que está acontecendo dentro de si de fato, sem julgamento e sem juízo de valores; Identificar, nomear o que se está sentindo em relação ao que se observa; Tomar consciência das reais necessidades que lhe fizeram sentir daquela maneira; Declarar e pedir o que deseja ou necessita de forma concreta. Estas quatro etapas valem tanto para nossa relação com os outros como para nossa relação conosco mesmos. É preciso ser empático consigo mesmo e acolher suas necessidades com continência, para que o autocuidado não deixe espaço para nenhuma forma de autoagressão.

Senso de Inadequação (SsI)

Uma terceira postura diante do SI seria o desenvolvimento do Senso de Inadequação (SsI), termo também cunhado por Torres (2008). O conceito do SsI sugere que o indivíduo acolha empaticamente suas diferenças em relação ao meio em que se encontra no dado momento sociohistórico, abrindo mão de suas expectativas de conformidade com os referenciais alheios e também com os seus próprios que não reflitam sua autenticidade. Seria um reconhecimento de ser um indivíduo único e de abdicar de funcionar na dualidade, na polaridade do julgamento bem/mal, certo/errado, ajustado/desajustado, consciente de que poderá haver desafios, obstáculos, angústias, como em toda situação na vida. A vantagem é que o indivíduo estaria coerente com os seus valores, o que poderia conferir-lhe leveza, humor e criatividade nas relações, em vez da angústia vivenciada quando se acredita ser inadequado.

Referências

BARRIONUEVO, R. O CEO, os Gerentes e o Elefante na Sala de Reunião. Site LinkedIn.com. 01 fev 2016. Disponível em Acesso em 18 abr 2017.

BORELLA, C. A. S. Livre-se dos sentimentos de inferioridade. Disponível em Acesso em 29 mar 2017.

CHRIS. O legado universal e eterno de Charles Schulz, criador da série Peanuts. Site Achados da Chris. Disponível em Acesso em 18 abr 2017.

LOPES, R. B. As Emoções. Disponível em Acesso em 30 mar 2017.

MELDAU, D. C. Síndrome da Ansiedade Esquiva. Disponível em Acesso em 29 mar 2017.

PILETTI, N.; ROSSATO, S. Psicologia da aprendizagem: da teoria do condicionamento ao construtivismo. São Paulo: Contexto, 2011. cap.4 p. 65-80.

ROSENBERG, M. B. Comunicação não-violenta. Técnicas para aprimorar
relacionamentos pessoais e profissionais. 3. ed. São Paulo: Ágora, 2006.

TORRES, A. R. R. Sentimento de Inadequação: Estudo Fenomenológico-Existencial. 2008. 153 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia), Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas-SP.

TORRES, A. R. R. Sentimento de Inadequação, prática psicológica e contemporaneidade. In: ANGERAMI, V. A. (org.). Psicoterapia e Brasilidade. São Paulo, Cortez, 2011.

TWITTER. “X-Men 2” (2003) cena inesquecível de um dos melhores filmes da franquia. Site Twitter Universo X-Men. Disponível em Acesso em 18 abr. 2017.

*Adriana Vazzoler-Mendonça está no Facebook e LinkedIn. Coach para Diversidade, Inclusão e Acessibilidade, Treinadora de Neurofeedback e formanda em Psicologia em Campinas-SP. adriana.italia@gmail.com

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Descaso: A Singuralidade de Cada Superdotação

Quem és tu?

Quem és tu?

“Assim como cada criança é única, não há duas crianças dotadas exatamente iguais!” – Hélio Caloi Cruz Leão

O mesmo pode ser extrapolado para adultos ou seres humanos com qualquer idade, aliás o quanto mais velho um indivíduo se torna mais ele se distancia daquela origem supostamente universal e mais se aproxima de sua identidade singular, alguns poucos se atrevem a se adensar nessa matéria pegajosa e sombria onde reside o mistério de ser a si mesmo, de conhecer esse outro lado colado ao nosso avesso, um verso inerente que emerge à flor da pele a expressar-se explicitamente no que se convencionou a chamar de personalidade.

travessia

travessia

Na Era dos Testes Padronizados sejam de QI, sejam da Fuvest o que estamos medindo? O que estamos procurando? O quanto escamoteamos a individualidade e truncamos o passado e as vivências de nossos alunos e funcionários com porcentagens, notas e avaliações de uma futilidade narcisística, quando não abertamente ineficaz e mórbida? Qual a grande dificuldade em se criticar e problematizar os pontos fraquíssimos de seja qual sistema for? Talvez porque a própria estima de si e de seus colegas dependem dos sistemas de validação e recompensa que lhes levou de subalterno à chefia? Me poupe dessas hierarquizações vãs e recursivamente viciosas.

estrada menos percorrida

estrada menos percorrida

Quem tem propósito próprio não se desvia de seu destino por conta de obstáculos de uma dificuldade artificial, projetada conceitualmente para se autojustificar. Quando enxergamos o indivíduo quanto uma entidade singular vemos que essa singularidade transborda para suas demais características. Do modo de pensar, sentir e ver o mundo até ao seu tom de voz, ao seu cheiro e a sua caligrafia quando rabisca uma anotação qualquer no caderno, é tão único quanto um número na reta real. Diferentemente de números somos dotados de identidade, pensamentos, sentimentos, propósitos e personalidade tão únicos quanto incopiáveis, incompatíveis com uma sociedade que não enxerga isso. Uma sociedade que só enxerga o que sua programação permite está fadada a reproduzir um sistema repressor de autoflagelação, a produzir uma xenofobia contra tudo que não pertence ao modelo vigente, ao ideal do momento, ao sonho americano ou brasileiro de uma vida dita de sucesso social. Mas há quem escolha algo diverso, tão neurodiverso quanto eu e você, uma felicidade outra e não algo empacotado, sugestionado e embalado com incontáveis películas de viés.

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Relato Pessoal: Marcos

Marcos

Marcos preferiu não se identificar com nome completo nem foto de rosto por razões pessoais

Antes de iniciar meu relato, preciso destacar que não sou formado, não obtive em minha vida sucesso com a vida acadêmica, até agora. Não pude comprovar meu nível intelectual de nenhuma forma, nunca fui declarado superdotado por ninguém. Me autodeclarei superdotado apenas pautado nas experiências que vivi e que aqui passo a relatar em parte.

Aos 5 anos eu já lia e escrevia. Roubava gibis do quarto de meu irmão mais velho para ler. Na escola, minha professora me pedia para ficar em silêncio enquanto os demais alunos faziam a leitura dos textos na lousa junto com ela, porque eu lia muito rápido. E quando eu terminava os deveres de sala, ia de mesa em mesa auxiliando aos demais.

No antigo ginásio, sempre foi assim: montávamos grupos para os trabalhos, nos reuníamos na casa de alguém para realizá-los, mas eu sempre fazia tudo sozinho.

Desde que me conheço por gente, quando alguém me traz algum problema pessoal, tomo-o por meu e tento resolvê-lo, não necessariamente por compaixão, mas por vontade de dar soluções. Sempre fui obcecado por resolver problemas.

Quando eu tinha entre doze e treze anos, não me lembro como, mas tomei conhecimento da máxima de platão “Não existe verdade absoluta”. De imediato passei a refletir sobre isso e tentar aplicar. Eu dizia uma verdade considerada indubitável e depois a desconstruía segundo o princípio de Platão. Me animei com essa atividade mental e comecei a discutir isso com alguns colegas. Foi aí que alguém me desafiou a aplicar isso sobre os conceitos da Bíblia, tomando por princípio que não se pode duvidar de nenhum de seus textos. Discordei e comecei a pensar sobre os milagres de Jesus bem como os demais eventos bíblicos como alegorias. Acabei duvidando da Bíblia. Comecei a pensar sobre a existência de Deus, e quase não recebi a primeira comunhão por discutir minhas dúvidas com um padre, a contragosto de minha mãe, extremamente católica, que me obrigou a retratar minha primeira confissão.

Nesta época, aos 13 anos, meu pai morreu, comecei a ser muito mais isolado e me afundei nos meus próprios pensamentos, cada vez mais longe dos interesses dos demais.

Como desde criança sempre fui fascinado por leitura, com quatorze ou quinze anos minha mãe me deu de presente a assinatura de três revistas, uma delas científica. Eu lia todas, mas gostava muito mais da revista científica. Cursava inglês através de três velhos livros que meu pai tinha comprado há anos, e que salvei de irem parar no lixo, assim como muitos outros livros antigos que levei pro meu quarto.

Sempre li muito, tirando ótimas notas em português e literatura. Assim, aos dezoito anos entrei na faculdade no curso de letras, mas nessa época minha mãe precisou ficar com minha vó doente em outro estado, durante mais de um ano. Como a faculdade ficava há 100km de minha casa, em outra cidade, o que demandava três horas de viagem diária, não foi difícil eu acabar perdendo o interesse e após dois anos de curso, desisti. Depois de algum tempo tive um filho e formei minha família. Me dediquei a construir minha casa e passei a não mais me importar com faculdade. Mas, ainda assim, sentia muita frustração. Sempre gostei de conversar com alguns amigos sobre assuntos que envolviam filosofia. Comecei a compor algumas músicas, algumas até gravei.
Até então, morava no estado de Mato Grosso do Sul, onde não havia muitas oportunidades de carreira. Perdi meu trabalho, não havia terminado minha casa, tudo ficou difícil. Decidi vir pro estado de São Paulo e ingressei em um cargo público estadual. Dentro deste novo cargo, ganhando razoavelmente bem, até me acomodei, mas logo comecei a sentir muita frustração pois não me senti realizado.

Já passei por alguns psicólogos pra tentar descobrir o que havia de errado comigo. Sentimento de insatisfação com a vida, apesar de amar muito a minha família. Com o tempo, via que psicólogos não ajudavam, pois me diziam coisas que eu já sabia, decidi ser psicólogo de mim mesmo e iniciei uma introspecção.

Visando aprovação em concursos internos, comecei a estudar matemática e passei a gostar muito, especificamente de geometria, por isso ingressei em uma faculdade relacionada a matemática. Estou no segundo ano de engenharia, ainda pretendo no futuro fazer uma faculdade voltada à física ou astronomia.

Tenho receio de ficar me “anunciando” como superdotado, então trago isso apenas comigo, apesar de meus colegas sempre elogiarem minha inteligência, até mesmo se referindo a mim como tal. Na realidade, não sei com exatidão como atestar isso e, diferentemente de alguns dos relatos que li aqui neste site, nunca fui reconhecido como superdotado na minha infância. Obviamente não posso dizer que sou igual aos outros.

Hoje eu procuro me acostumar à vida que eu conquistei mas busco crescer intelectualmente, através da faculdade que passei a vida deixando de lado e hoje decidi tomar a sério. Tenho um filho de 12 anos o qual tem um elevado grau de inteligência, que procuro incentivar sempre, lhe dando livros e uma boa escola, além de muito conversar sobre suas aspirações e sobre o que ele se interessa a aprender. Ele já fala espanhol e inglês elementares, está aprendendo francês. Autodidata, como eu. Seu QI, segundo um teste aplicado por um profissional, é de 120. Uma inteligência acima do normal que eu cultivo com todo o cuidado, como se fosse uma flor no meio do deserto. Nossas conversas sobre o futuro que ele pode construir para si mesmo sempre lhe enche de estímulo e me inspira a continuar a estudar, para ser exemplo para ele e para, quem sabe, eu possa vir a ser alguém respeitável na área científica algum dia.

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Entrevista: Eduardo Padilha Antonio

Eduardo Padilha Antonio

Eduardo Padilha Antonio

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Eduardo Padilha: Cresci acostumado a ouvir expressões de espanto e admiração sobre o meu comportamento: ainda muito jovem comecei a fazer estágio em laboratórios, tinha grande comprometimento com a tarefa e apresentava preferência por aprender o que fosse possível de forma autodidata. Talvez essas devessem ter sido as primeiras pistas para um diagnóstico, mas o próprio conceito de Altas Habilidades/Superdotação era desconhecido para meus familiares e professores. Foi somente há cerca de dois anos que tomei conhecimento do assunto e me pus a pesquisar a respeito. Foi assim que cheguei aos NAAHs e ao Núcleo Paulista de Atenção à Superdotação (NPAS). Fiz contato, mas só alguns meses depois tive recursos para passar pelo processo de avaliação.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Eduardo: Fui diagnosticado com Altas Habilidades acadêmicas e intelectuais

SM: Participaste de alguma iniciativa de apoio aos alto habilidosos? Em caso positivo fale um pouco mais sobre essa experiência, em caso negativo por que não?!

Eduardo: Minha experiência com AH é bem recente e, até o ano passado, não havia participado de nenhuma iniciativa do gênero mas, acabo de me juntar à Mensa, sociedade que cultiva a inteligência “para o benefício da humanidade”. Estou animado com as perspectivas, mas ainda não houve tempo de vivenciar a sociedade em si.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Eduardo: Atualmente não, mas considero fazer acompanhamento com a psicóloga que me diagnosticou, por exemplo, ou com outros psicólogos do Núcleo Paulista de Atenção à Superdotação. Acredito que um acompanhamento do gênero teria sido particularmente benéfico durante minha vida escolar.

SM: Eduardo, você apresenta uma certa bagagem no que tange experimentos em laboratório, quais experimentos você aconselharia para o enriquecimento curricular e diversão estudantil que poderiam sem grandes esforços serem implementados nas escolas ainda no ensino fundamental 2? Elabore um pouco sobre os mesmos.

Eduardo: Um dos movimentos com os quais tenho me envolvido e que fornece ferramentas interessantes nesse sentido é o Biohacking, que se dedica a democratizar os conhecimentos científicos. É possível, por exemplo, fazer um microscópio com ótima capacidade de aumento usando apenas uma webcam e papel ou, caso disponível, uma cortadora a laser. Basta desmontar a webcam (até a mais barata serve bem ao propósito) e inverter a lente! Esse microscópio permite ver as células de uma película de cebola ou da mucosa da boca, por exemplo. Também é possível ver protozoários cultivados a partir de uma amostra de água de um rio ou lago mantida em frasco com folhas de alface por alguns dias.
Outra possibilidade é observar os bactérias fermentadoras do leite (lactobacillus), espalhando uma gota de iogurte natural sobre uma lâmina de vidro e pingando um pouco de corante Lugol, encontrado em farmácias. Esses mesmos microorganismos e vários outros (leveduras fermentadoras da cerveja, por exemplo), podem ser cultivados em gelatina sem sabor, simulando técnicas utilizadas em laboratórios de microbiologia.
Em Química, há vários kits vendidos em lojas de brinquedo cujos experimentos podem ser reproduzidos com reagentes obtidos da cozinha de casa ou em farmácias, como bicarbonato de sódio e vinagre para ver a liberação de gás carbônico, uso de corante de iodo para detectar a presença de amido nos alimentos

SM: Sua jornada educacional foi quando não mediada, no mínimo estimulada por uma série de tutores, na música sua mãe, sua professora de ciências no ensino fundamental e seus orientadores que eventualmente inscreveram sua pesquisa na Mostra Paulista de Ciências e Engenharia (MOP) e na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE). Qual importância você julga que essa tutoria tem no desenvolvimento escolar, acadêmico, profissional e pessoal de um cidadão? De que modo poderíamos implementar uma cultura de tutoria no Brasil?

Eduardo: Eu considero a tutoria/mentoria crucial para o desenvolvimento humano em qualquer âmbito de atuação.Trata-se de uma via de mão dupla em que mentor e mentorado são beneficiados e aprendem com o processo, e sinto que foi exatamente isso o que experimentei nos casos acima descritos, e em vários outros. Ter um mentor é ter alguém com quem compartilhar experiências, alguém cuja vivência pode ser útil ao direcionamento de sua própria trajetória. De fato, se não fosse por meus mentores, meu percurso teria sido muito dificultado ou, no mínimo, mais nebuloso.

SM: Você cansado das aulas expositivas prefere aprender de modo autodidata. Em parte devido a sua natureza, mas há um fator pedagógico e psicopedagógico, não? De que modo o sistema educacional vigente poderia melhorar de forma a acomodar as necessidades estudantis de neurodiversos e até mesmo da juventude do século XXI?

Eduardo: Acho difícil pontuar tudo o que é passível de mudança em termos de educação, já que acredito estarmos vivendo um momento de crise estrutural nesse setor. Pessoalmente falando, percebo um “gap” muito grande entre teoria e prática, um dos fatores que mais me desanimam quanto ao ensino formal. É absurdamente diferente aprender anatomia enquanto se disseca um cadáver (experiêcia que tive a honra de vivenciar) e passar quatro horas sentado assitindo um professor passar slides, por exemplo. Nesse sentido, a diversidade de métodos de avaliação e transmissão de conteúdo se coloca como aspecto fundamental. Na Europa muitas instituições não cobram presença dos alunos em aulas expositivas, dando liberdade para que persigam os métodos que geram mais resultados individualmente. Já aqui, o número de aulas assistidas tem um peso enorme na aprovação/reprovação de um aluno, independentemente de a aula ter sido útil a esse aluno ou não. O ambiente acadêmico é absolutamente engessado, ainda mais em instituições que fazem do ensino um comércio e validam seu ensino pelo número de alunos aprovados no vestibular, o que exclui automaticamente qualquer tentativa de atender os neurodiversos. Uma mudança de paradigma se faz cada vez mais urgente e necessária!

SM: Qual linha de pesquisa você está seguindo no momento ou pretende num futuro próximo? Compartilhe conosco um pouco sobre seu trabalho científico.

Eduardo: Durante meu ensino médio estudei a importância de mecanismos de reparo de DNA na manutenção da estabilidade genômica e sua possível aplicação para potencializar o tratamento do câncer de colo de útero. Já no ano passado participei de um projeto cujo objetivo era produzir teia de aranha em microalgas geneticamente modificadas visando a geração de um curativo biocompatível com propriedades antibióticas para auxiliar vítimas de queimaduras. Esse projeto foi apresentado na competição internacional iGEM (International Genetically Engineered Machine) e fomos premiados! Pretendo seguir pesquisando em Oncologia, área que me chama muito a atenção, talvez agora com uma abordagem mais translacional, unindo a ciência básica e a clínica médica.

SM: Qual sua ambição na música? Conte um pouco como a experiência artística influi na sua vida.

Eduardo: Houve uma época em que minhas ambições em relação à música eram maiores, confesso. Já participei de festivais internacionais, toquei em orquestra e concluí o curso Técnico em Instrumento Musical. Hoje, não considero fazer carreira como músico mas essa é definitivamente uma área que quero manter sempre em minha vida. Por mais que encontre prazer lidando com conceitos mais concretos e palpáveis no laboratório, por exemplo, acredito que a música em sua indescritibilidade e abstração toca pontos da mente (ou da alma, como se poderia dizer) que nenhuma outra atividade ou arte é capaz de alcançar.

SM: Algum lema motivacional?

Eduardo: Para citar a atriz e neurocientista Mayim Bialik: “Quando você se acostuma a estar preparado para rejeitar o senso comum, isso te deixa aberto para aprender mais”.

SM: Algum recado pra galera?

Eduardo: Sonhe alto e NUNCA desista dos seus sonhos! É preciso encontrar aquilo pelo que vale a pena levantar cada manhã e fazer desse seu objetivo. Cerque-se de pessoas que compartilhem interesses e que sonhem tão alto quanto você.

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Entrevista: Luiz Fernando Da Silva Borges




Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Luiz Fernando: Quando eu tinha cerca de 9 anos de idade não sabia o porquê das outras crianças da minha idade não “simpatizarem” com certos tipos de brincadeiras ou assuntos que eu tentava compartilhar com elas. Sempre tive uma imensa facilidade de aprender novos assuntos nos quais estava interessado, geralmente um tanto quanto em desconformidade com minha idade. Meu pais afirmam que comecei a formar frases completas muito antes de 1 ano de idade. Assim que comecei a ler meu passatempo favorito era, enquanto na 3ª série, deixar de fazer minhas obrigações (como alguma tarefa que me recusava a fazer pela ultra facilidade) para pegar livros de física e química na biblioteca da escola e tentar reproduzir seus experimentos em casa.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Luiz: Superdotação acadêmica, intelectual e produtivo criativa.

SM: Participaste de alguma iniciativa de apoio aos alto habilidosos? Em caso positivo fale um pouco mais sobre essa experiência, em caso negativo por que não?!

Luiz: Infelizmente não quando era mais necessário. Eu sempre estudei em escolas públicas, que até hoje não estão preparadas para identificar e encaminhar estudantes que tenham dificuldade com aprendizado, muito menos estudantes com altas habilidades.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Luiz: Quando eu entrei no IFMS em 2013, logo fui apontado pela psicóloga do meu campus (Aquidauana) para o Núcleo de Atividades em Altas Habilidades/Superdotação – NAAH/s de Campo Grande, por aconselhamento dos professores que logo notaram meu exímio desempenho em toda e qualquer disciplina ou desafio proposto em sala. Gostei muito do contato que tive com outros estudantes superdotados de todas as partes do estado de Mato Grosso do Sul e logo notei que tínhamos muito em comum. Minhas esporádicas participações no núcleo foram bem proveitosas, ainda mais por poder ter um aconselhamento acadêmico com profissionais preparados para atender às necessidades de um AH.

SM: Você já nos contou em seu relato pessoal como sua tia deu a seu primo um kit de química e como isso acabou mudando a sua vida, diga-nos o quanto e como a sua família contribuiu para o seu desenvolvimento escolar e acadêmico?

Luiz: Minha única apoiadora vitalícia nesse processo foi minha mãe, que nunca mediu esforços para, quando criança, adquirir os materiais para meus experimentos e até hoje, costumo brincar, é a principal stakeholder de todos os meus projetos, pois quando a verba ínfima que recebo do governo acaba é ela que custeia materiais suplementares, frete, etc para minhas pesquisas. Foi minha mãe e minha tia-madrinha que me adquiria todas as sortes de materiais educativo-científicos que uma criança superdotada sonharia e ter. Tínhamos também uma TV que ficava travada em canais educativos como Tous Sur Orbite, Evas Funkarprogram, Beakman’s World e Cosmos (versão do Carl Sagan), onde tive meu primeiro contato com o método científico. Tive a sorte tremenda de não ter uma família que me pressiona para seguir seus desejos e planos, com concursos públicos ou outras profissões que, virtualmente, oferecem “maior estabilidade”. Aprendi desde cedo que o negócio é encontrar algo pelo que você se encanta, se importa, e meter a cara o resto da vida: seja no palco fazendo as pessoas rirem com um show de humor ou apresentando uma nova terapia para uma doença.

SM: A educação e o ensino brasileiros estão longe de ideais, você conseguiria propor intervenções e medidas pragmáticas a serem tomadas em prol de uma cultura de desenvolvimento científico e cultural? Em caso positivo, quais?

Luiz: Sim, muito simples. Se nosso ensino médio só serve para produzir pessoas que “tecnicamente” estariam prontas para encarar um vestibular, seria economia em tempo de vida e dinheiro sair do ensino fundamental e encarar um cursinho intensivo de 1 ano ou 2 para preparar o indivíduo especificamente para um tipo de vestibular, seja ENEM, FUVEST, etc.
Agora, se quisermos formar pessoas que estejam preparadas para assumir o compromisso de tornar cada dia de suas vidas uma parte da jornada necessária para transformarmos nosso país, precisamos fazer com que nossa métrica de avaliação seja mais que simplesmente quantificar o quanto um jovem consegue regurgitar em um pedaço de papel daquilo que lhe foi posto goela a baixo durante as aulas. Enquanto nossos estudantes de ensino médio precisam decorar fórmulas matemáticas que não lhes serão úteis ou quais eram as “capitanias hereditárias”, há jovens no hemisfério norte deste planeta aprendendo a cozinhar, cuidar de bebês, aprimorar suas habilidades artísticas com teatro, música, dança, estão aprendendo finanças para gerenciar seus futuros pagamentos e até mesmo viajando o mundo para ganhar novas perspectivas de vida, ah, esqueci, AINDA NO ENSINO MÉDIO. Aqui gastamos 3 anos da nossa vida em um lugar onde não aprendemos absolutamente nada de útil para vida comum e ainda somos ineficientes na única tarefa que somos preparados para: decorar informações para rabiscá-las em provas estupidamente longas e cansativas ao final desse período.
Antes que pensem que tais soluções exigiriam voluptuosas quantias de investimento para se materializarem, é só imaginar o quanto os cofres públicos gastam com estudantes que demoram muito mais que 3 anos para ingressar na graduação (os que o fazem antes de desistirem) ou o que alguns pais gastam com “cursinhos”: mais dinheiro e mais tempo de vida de seus filhos.
Um sistema orientado aos interesses de grupos de alunos, onde estes pudessem desenvolver suas aptidões específicas e um sistema de ingresso na graduação que tivesse como um dos maiores pesos, as atividades extracurriculares desenvolvidas pelos estudantes no ensino médio, com certeza iniciaria algum tipo de mudança positiva no cenário atual.

SM: Você já desenvolveu amplificações de DNA para detectar doenças e paternidade, uma interface cérebro máquina que eventualmente desencadeia um rearranjo cortical e agora? Qual a sua nova linha de pesquisa?

Luiz: Vou construir um tipo de supercomputador que vai possibilitar o processamento de um programa que possibilitará que a mente de pessoas anteriormente classificadas em estado vegetativo, ou até mesmo coma, rompam a barreira de corpo inanimado e comuniquem seus desejos e anseios ao mundo exterior.

SM: Após todas as suas experiências academico-científicas no IFMS e na Febrace, qual a área de estudos a nível superior que você planeja seguir? Quais instituições de ensino estão na sua mira?

Luiz: Depois de perceber, com a pesquisa do novo método de controle para próteses, que o cérebro humano é o grande escultor da realidade, de todas as ações que a humanidade fez, faz ou fará, decidi que voltarei minha atenção a explorar os limites desse universo feito de sinapses que reside entre nossas orelhas. Eu pretendo estudar engenharia biomédica e neurociência em uma das universidades que formam pesquisadores que hoje estão liderando essas áreas como MIT, Johns Hopkins, Yale, Duke University, Harvard, entre outras.

P.S.: Foi assustador quando eu percebi que, devido a todas as pesquisas que realizei e todos reconhecimentos que recebi, estou muito mais preparado para competir com estudantes norte-americanos a fim de ingressar nas melhores universidades do mundo que ter que desperdiçar tempo estudando para algum vestibular de universidades brasileiras.

SM: Algum lema motivacional?

Luiz: Nada mais que quase uma oração matinal de um cineasta argentino: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, e ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Então para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar. ”


SM: Algum recado pra galera?

Luiz: Literalmente quando se sonha e se busca todos os dias um sonho impossível, até mesmo o fracasso vale a pena. Os resultados que serão produzidos na jornada da tentativa da realização de um sonho impossível são, com certeza, muito maiores que os resultados da realização de um sonho medíocre. O perigo não é sonhar grande demais e fracassar, é sonhar pequeno e conseguir. Ninguém além de você vai carregar para sempre o peso de suas escolhas. Temos hoje uma geração de adultos frustrados que são escravos do fim de semana para se divertirem pois não trabalham com o que gostam, seja porque foram pressionados pelos pais ou por suas próprias condições. A todos lendo isso, eu imploro: não importa o que disserem, descubram pelo que vocês se importam na vida e trabalhem em direção a isso, não importa se é ser atleta, um humanitário em missões para países em guerra, um comediante que diverte milhares ou um cientista, ninguém além de você vai carregar para sempre o peso das escolhas que te forçam a fazer.

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Relato Pessoal: Eduardo Padilha Antonio

Eduardo Padilha Antonio

Eduardo Padilha Antonio, 19 anos


“Enquanto todos têm heróis e carros na capa do caderno, Eduardo tem uma célula”. Foi o que eu ouvi de alguns colegas por um bom tempo do meu Ensino Fundamental. Não me lembro de ter ficado particularmente chateado ou de o tom adotado para os comentários ter sido propositalmente ácido, mas essa situação é representativa de muitas outras que se repetiram durante toda a minha vida.
Aprendi a tocar piano sozinho por volta dos 6 anos de idade. Encontrei alguns métodos de iniciação musical que minha mãe tinha guardados e comecei a estudá-los, eventualmente tirando dúvidas com ela. Desde então mantive relação próxima com a Música e com outra grande paixão: a Ciência. Tão próxima era essa relação que antes de ingressar no Ensino Médio já estava acostumado a ouvir a pergunta “de onde veio seu interesse por ciência?” à qual respondia: “não sei, sempre gostei”.
Durante o ensino fundamental eu praticamente perseguia minha professora de Ciências até que consegui acesso ao pequeno laboratório do colégio em períodos extra-classe para organizá-lo e preparar os experimentos a serem realizados posteriormente com a turma. Posso dizer que foi uma ‘experiência cristalizadora’ no que diz respeito ao meu interesse pelas ciências e que o estímulo que recebi de minha professora foi decisivo para o meu sonho de me tornar pesquisador. Já no 7º ano, comecei a frequentar os laboratórios do Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP) perto do meu colégio, nos intervalos de minhas aulas de violino e teoria musical na Academia Adventista de Arte, dentro do campus. Até o momento, me sentia muito sozinho pois, apesar de manter boas relações com os colegas em geral, não tinha ninguém com quem conversar sobre a descoberta do DNA ou propriedades antibióticas de plantas medicinais, por exemplo. Mas agora eu podia acompanhar aulas de Anatomia, Zoologia e Microbiologia, e participava ativamente em monitorias de laboratório auxiliando alunos de graduação a estudar para as provas práticas.

Eduardo Padilha Antonio

No laboratório de Anatomia, por volta dos 11 anos.


No 9º ano alimentava o sonho de conhecer um laboratório de pesquisa (até o momento só tinha vivido em laboratórios didáticos) e resolvi escrever uma carta para alguns pesquisadores e professores da Universidade de São Paulo (USP). Para minha surpresa, uma das respostas que recebi veio da geneticista Mayana Zatz, uma das pesquisadoras mais influentes do Brasil, que me colocou em contato com um colega seu do Instituto de Ciências Biomédicas também da USP, o Prof. Dr. Carlos Menck. Foi assim que, aos 13 anos, num feriado de Tiradentes, entrei pela primeira vez no Laboratório de Reparo de DNA, ao qual iria ainda muitas e muitas vezes. Lá tive a oportunidade de trabalhar com uma doença rara chamada Xeroderma pigmentosum (XP) e com câncer de colo de útero. Convenci meus orientadores a submeter o projeto que ali desenvolvi para a Mostra Paulista de Ciências e Engenharia (MOP) e a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE). Em meio a várias inseguranças, correria com deadlines e posters caros para imprimir, uma sequência de inesperados aconteceu: fui contemplado com o 1º Lugar em Ciências Biológicas na MOP, selecionado para ir automaticamente para a FEBRACE (a lista de finalistas ainda não havia sido divulgada) e ganhei uma bolsa de Iniciação Científica Júnior do CNPq para continuar desenvolvendo meu projeto na USP enquanto aluno de Ensino Médio (sim, isso existe!). O mais inusitado é que não parou por aí: também fui agraciado com o 1º Lugar na FEBRACE e escolhido para compor a delegação que iria representar o Brasil na Intel International Science and Engineering Fair (Intel ISEF), a maior feira de ciências do mundo!
Todas as experiências que descrevi até aqui se deram em meio a uma série de características pessoais que identifiquei ao longo do tempo e considero difíceis de explicar. Por exemplo, sinto uma paixão quase compulsiva pelas áreas de meu interesse (Genética Molecular, Oncologia e Ciências Forenses, entre outras), tenho dificuldade em me adequar ao modelo de ensino vigente – em especial no que tange às aulas expositivas, que considero extremamente maçantes – e tenho preferência por aprender tudo o que puder de forma autodidata. Outra característica é a constante necessidade que sempre senti de estar, por assim dizer, em ‘movimento’. A sensação de que se não estiver envolvido com uma variedade de projetos e atividades intelectualmente estimulantes estarei…morto.
Muitos desses projetos são, por assim dizer, incomuns e me renderam um sem-número de experiências que me ensinaram, entre outras coisas, que: um microscópio não é o presente de aniversário mais desejado por crianças ‘normais’; que colecionar espécimes conservados em vidros com formol pode causar repulsa em seus colegas; que tentar reviver os primórdios da genética cultivando drosophilas (mosca-da-fruta) na cozinha de casa pode deixar sua mãe no mínimo incomodada; que desenterrar sua coelha de estimação morta para recuperar seus ossos e articular o esqueleto pode te render o apelido de ‘coveiro’ na faculdade e que ver o sangue circulando pelas veias da cauda de um girino foi provavelmente a experiência mais linda da minha infância.

Fotos tiradas com meu primeiro microscópio de brinquedo evidenciando estágios de desenvolvimento dos ovinhos dos meus peixes Betta de estimação :)

Fotos tiradas com meu primeiro microscópio de brinquedo evidenciando estágios de desenvolvimento dos ovinhos dos meus peixes Betta de estimação 🙂


Talvez por isso tenha me identificado tanto com a antropóloga Dana Kollmann, autora de ‘Nunca Coloque a Mão de um Cadáver na Boca’, que parava na beira da estrada para recolher animais mortos e depois enterrá-los no quintal e que dormiu por quase um ano com ossos debaixo do colchão até que seu pai fosse investigar de onde vinha aquele cheiro estranho. Nem preciso dizer que se trata de um dos meus livros preferidos e que me fez sentir que eu não era a única pessoa estranha o suficiente para colecionar esqueletos ou ir à aula no ensino fundamental com um livro de Anatomia debaixo do braço.
Foi só aos 18 anos que descobri o termo Altas Habilidades e passei a ler sobre o assunto. Senti uma grande identificação com as características elencadas nas fontes que consultei e aos 19 anos busquei uma avaliação. Não nego que enfrentei um dilema ao tentar entender o que de fato implicaria ser portador de AH pois, assim como o filósofo Michel Foucault, acredito que ‘definir é limitar’. Mas como me disse a psicóloga Christina Cupertino: “É importante dar nome aos bois”.
É evidente que o “avaliar” e “classificar” é repleto de vieses e contradições, que a experiência humana é muito mais do que qualquer rótulo ou teste jamais será capaz de apontar mas, ainda assim, saber que existe um nome para tudo o que sempre senti e que não estou sozinho nessa condição representa o fim da tentativa exaustiva de modular meu comportamento e modo de agir em termos de “certo e errado”. É aceitar que o diferente não é melhor nem pior, mas simplesmente diferente. É não mais me sentir desconfortável por ter uma célula na capa do caderno. No fim das contas, tudo se resume a uma busca por respostas e uma tentativa de entender a si mesmo enquanto sujeito individual e social, dotado de peculiaridades e necessidades particulares mas ao mesmo tempo inserido num contexto repleto de exigências externas.

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