Entrevista: Rejane Vieira

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Rejane Vieira: Desde os cinco anos comecei a perceber coisas nas pessoas, no contexto que me rodeava e nas situações do dia-a-dia em que parecia ninguém mais ver. Isso começou a me intrigar e então me tornei alguém extremamente introspectiva e observadora. As pessoas sempre me tratavam como se eu fosse muito responsável, sempre acabava sendo líder de turma e dando um jeito de organizar as coisas. Raramente tinha amigas na minha idade, não gostava da conversa delas e sempre fui muito impaciente com coisas mal feitas, isso não só me estressava como me fazia causar problemas com as pessoas.
Quando tive um filho aos 33 anos e com um ano ele começou a ser observado pelas outras mães por ter comportamentos que denominavam como de um homenzinho eu comecei a ficar atenta e procurar conhecimentos para os “assincronismo dele”, no começo suspeitei até de Autismo. Eu já tinha tomado a decisão de mudar da engenharia/ consultoria para área de formação humana e educação, então iniciei a pós em Neuropsicopedagogia. Durante o curso, na aula de AH/SD tomei um susto com um relato de um alto habilidoso projetado na lousa, parecia que ele tinha acessado minha cabeça. Fiquei tonta, desorientada e completamente assustada. Ao estudar melhor a matéria, percebi que finalmente eu parecia ter encontrado um nome para todos os meus sintomas e sentimentos, foi muito assustador no início. Então procurei minhas professoras, elas me ajudaram em meu processo, tive acesso a vários instrumentos e literaturas e durante o curso de AH/SD em 2020, após realizar várias atividades com estas professoras e uma psicóloga do antigo NAAS-CE, chegaram a definição de que de fato eu tenho AH/SD. Eu reiniciei uma nova ávida a partir dali.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Rejane: Produtivo-criativo, social, intelectual e psicomotor.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Rejane: Como já relatei em meu processo de descoberta acima, aqui me deterei em lhe dizer minha percepção sobre a qualificação dos profissionais que se intitulam aptos a identificar e, se me permite estenderei também minha percepção à população em geral.
Ao meu ver existe uma questão maior, diante de tantas áreas que compõem o universo inclusivo. Vejo que existe: ignorância, baixo investimento em pesquisas, ausência de ações de marketing e divulgação sobre o universo das AH/SD e isso poderá ter como bastidores o baixo nível de autoconhecimento em geral, não só dos profissionais que identificariam, pois estes precisam de outros protagonistas, como educadores e pais, nos quais muitas vezes lhes faltam autoconhecimento, como podem apresentar até a vaidade e o medo individual de tratar alguém e situações que vão além da “própria capacidade”, quando se imaginando em uma posição inferior. Ao que me parece é difícil que hajam frentes interessadas em descobrir potenciais talentosos em outros seres. O nível social em geral não tem interesse nisso e a ignorância diminui a visibilidade positiva e o tamanho do retorno social que proporcionariam tais indivíduos.

SM: O que você trouxe consigo do curso em engenharia de alimentos pela universidade federal do Ceará?

Rejane: Embora eu não tenha seguido na área, mas foi lá minha primeira experiência universitária, minhas maiores ações ativistas e de enfrentamento do sistema medíocre de condicionamento educacional. Sempre fui líder de turma, isso quase virou uma profissão (kkk). Mas na universidade foi a primeira vez que eu exercitei minha habilidade de liderança para transformar vidas e impactar o sistema. Eu descobri minha força de atuação, planejamento e mobilização. E meu segundo presente foram meus amigos, que estão comigo até hoje.

SM: Você é sócia diretora na empresa CelonCoach, conte para nós sobre o papel do empreendedorismo na sua vida.

Rejane: A CelonCoach é a última das minhas tentativas de aplicar meus conhecimentos, criatividade e capacidade construtiva para entregar resultados de excelência, uma necessidade que vai além da entrega em si e sustento, mas um alimento para manter o ânimo da minha alma, uma vez que sempre fui muito limitada em TODAS as empresas pelas quais passei. Não acho que podemos empreender apenas em negócios próprios, tentei fazer empreendedorismo dentro dos negócios que tive acesso, buscando novas linhas de atuação, formas diferentes de fazer as coisas… enfim, os empresários em geral são muito inseguros e esquecem-se de se profissionalizar e desenvolver novos líderes para poderem voar mais alto e mais longe. Isso limita o empreendedorismo dentro das empresas.

SM: Você tem pretensão de continuar contribuindo na área de pesquisa? Em qual segmento?

Rejane: Sim, pretendo inclusive fazer uma terceira faculdade, mas agora presencialmente e me envolver em atividades de laboratório e pesquisa, tudo relacionado à área de neurociência e desenvolvimento humano.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Rejane: Não, eu mesma já tentei por conta do meu histórico de vida, mas infelizmente foi um fracasso, Ela parecia perdida com as coisas que eu contava, não senti progresso, durante ou após. Desisti.

SM: Como a sua formação em neuropsicopedagogia influi na criação do seu filho?

Rejane: A Neuropsicopedagogia me serviu como mentora-teórica na condução das minhas abordagens deducionais: atividades cognitivas, modulações comportamentais e desenvolvimento de atividades lúdicas. Hoje com o avanço da neurociência eu tenho uma maior percepção e conhecimento sobre áreas “físicas do cérebro”. Eu trabalhei e continuo a trabalhar a medida que ele cresce e vai manifestando, em seus comportamentos, expressões literárias, vocabulários e rabiscos, tentando potencializar habilidades e ampliar suas percepção de si e do mundo.

SM: Nós vivemos numa cultura empresarial, acadêmica e institucional, onde o assédio moral é mais comum do que gostaríamos. Como diz o título do livro “Não Basta Não Ser Racista: SEJAMOS ANTIRRACISTAS”. Como podemos propor um apoio moral em contraposição ao assédio moral existente, conivente e estrutural?

Rejane: Imagino que a primeira defesa de qualquer indivíduo seja o conhecimento, então acredito na criação de espaços para falar sobre a temática como fazemos nos grupos, divulgação de informações sobre as temáticas, rodas de conversas e disseminação de conteúdos informativos, além de momentos para troca de práticas de autoproteção bem sucedidas. Tudo isto pode contribuir em grande medida para combater e diminuir a ignorância que leva alguns a cometer tal atitude e também nos protege de quem o faz por pura maldade.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Rejane: Não, ninguém recebe este tipo de atendimento formalmente, o que eu como profissional da área faço é inserir nas rotinas domésticas e na educação parental as práticas neuropsicopedagógicas principalmente relacionadas às funções executivas: memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e autorregulação, da mesma forma procuro trabalhar estas mesmas funções em minha mãe, ela é idosa.

SM: Algum lema motivacional?

Rejane: Simmmmmmmmmmm! “Mesmo com medo vá, coragem não é a ausência de medo e sim a superação dele para chegar a um pouco mais longe!”
Quando aprendemos algo do tipo, nos permitimos experimentar e experimentamos o resultado disso, então fica mais fácil da próxima vez optar por ir avante.

SM: Recentemente você tem flertado com a dramaturgia e as artes cênicas, você já teve experiências prévias nesse meio? O que atrai sua criatividade e interesse para essas performances?

Rejane: Na escola tínhamos as famosas gincanas e feiras de ciências, sempre ansiei por decorar textos, fazer apresentações, ser as personagens nas gincanas. Quando tentei fazer teatro minha mãe não deixou. Então fiquei com isto. Gosto de criar personagens para falar de coisas diferentes de uma forma mais humorística ou caricaturada, deixa a gente livre de padrões e para falar de assuntos polêmicos usando o storytelling.

SM: O que é ser uma mãe e esposa superdotada?

Rejane: Um arco-íris de emoções, possibilidades e dificuldades (kkkkkkk), porque em alguns momentos as potencialidades dinamizam, trazem criatividade, adaptabilidade e ânimo, ao mesmo tempo geram grandes expectativas, ansiedade e auto-cobranças da minha parte e do outro, requerendo de mim um trabalho constante no sentido do equilíbrio. Preciso domar um gigante interior constantemente, para me fazer metre e exemplo para meu filho, sem deixar de ser uma aprendente e parceira do marido. A sensação de “autopoder” me traz desafios diários que os encaro como meu oxigênio, preciso deles para me manter viva, mas o oxigênio que te permite a vida, também é o que te mata…, então tudo é muito dúbio e mutável, o que me dá esperança constante, pois quando está ruim, sei que vai ficar bom. Às vezes sinto que gostaria de sair correndo pelo mundo e logo depois enxergo que tenho um mundo gigante, mais seguro, cheio de amor e alegria para ser explorado exatamente onde estou.

SM: Algum recado pra galera?

Rejane: Hummmm, começarei respondendo da seguinte forma. Neste momento, diante das minhas experiências, limitações e nível evolutivo eu recomendo que as pessoas lutem para ter saúde, paz de espírito, autoconhecimento e excelentes relacionamentos. Hoje vejo que estas coisas são temperos do que alguns chamariam de felicidade. Chegamos a terra e recebemos nosso corpo, acumularemos coisas (materiais, títulos, experiências, networking e etc.) com as quais, se não criarmos uma relação de propósito, não levaremos nada, pois nem o corpo que recebemos ao chegar, levaremos conosco.

É isso!!!!!!!
Mais uma vez foi um prazer compartilhar um pouco da minha alma em forma de letras, palavras, frases e sentido.

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Altas Habilidades Altas Conversas: S1 E2 Discutindo as terminologias Altas Habilidades e Superdotação

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Relato Pessoal: Filipe Russo

Encanto por Filipe Russo

Encanto

Há 8 anos atrás eu fundei este blog, logo após publicar de modo independente o meu primeiro livro, o romance autoficcional Caro Jovem Adulto (2012). Mas eu acredito que a minha história começou muito antes, na minha infância no Amazonas. Eu nasci em São Paulo e cresci em Manaus, costa a costa com o Parque do Mindu, comendo flores de jambeiro e jambo, banda de tambaqui e pirarucu; temendo o chupa-cabra e a velha de branco, o bandido da luz vermelha e o cadeirudo, assim como a cisticercose e o barbeiro e o candiru.

Sempre fui uma pessoa muito sensível, desde criança. Algumas crianças notavam isso também e parte delas partiam para me assediar, adoravam me provocar até que eu explodisse, inclusive e principalmente minha irmã e meu irmão, mais velhos. Aliás sou o caçula, nasci com uma bronquite asmática diagnosticada e uma rinite subnotificada, passei a infância frequentando hospitais para fazer inalações com oxigênio ou tomar injeções antialérgicas, no início minha frequência era semanal, depois mensal, somente na adolescência deixei os hospitais e de me medicar diariamente com xaropes e anti-alérgicos. Por conta das crises de asma e das crises de sobre-excitabilidade emocional aprendi desde cedo a controlar meus impulsos, domar meu corpo, a ser disciplinado, controlador e calculista. Logo apliquei isso a rotina escolar, nunca precisei que me pedissem para fazer a lição ou me ajudassem com ela, mas muitas vezes pedia ajuda nas revisões pré-provas apenas para ter a atenção e momentos com minha mãe.

Eu fui uma criança muito criativa e imaginativa, desde então gosto de andar em círculos e falar sozinho, os amigos da minha mãe tinham medo que eu fosse autista. Eu demorei a desenvolver um controle esfincteriano da minha imaginação, em um mesmo ano caí três vezes na piscina durante festas de aniversário à noite, absorto que eu estava em minhas andanças e falanças. Nunca fui de muitos amigos, preferi ter poucos melhores amigos, amizades mais profundas, de maior cumplicidade e estes eu escolhia a dedo como quem escolhe um brinquedo de presente no Natal. Sempre me soube diferente, certa vez aos 7 anos de idade eu disse para meu pai numa praça ao voltar do parquinho: pai, eu acho que eu sou deficiente mental. Ele me perguntou por quê? Eu respondi: porque eu não sou como as outras crianças.

Até a sétima série fui um aluno nota 10, o modelo de aluno exemplar que os professores exibiam e com o qual criticavam os alunos problema. Sempre fui discreto, sabia as respostas para todas as perguntas que os professores perguntavam em sala de aula, mas respondia apenas quando ninguém mais conseguia. Na quinta série o colégio no qual eu estudava participou de uma olimpíada de matemática, competiram alunos da quinta série do fundamental até o terceiro ano do ensino médio, eu tirei a maior nota da escola, fui para a segunda fase competindo pela região Norte do país e ganhei notoriedade por uns 3 meses, mas logo retornei ao anonimato anterior, meus pais estavam mais interessados nos meus irmãos tenistas e o meu colégio com aprovações no vestibular. Vale notar que eu organizei todo meu estudo de matemática sozinho: peguei os livros dos meus irmãos, até 5 séries mais avançadas que a minha, peguei todos os livros de matemática da pequena biblioteca escolar, isolei as questões desafio e passava meus sábados resolvendo-as com meu pai, engenheiro civil. Este evento caiu em esquecimento social, mas jamais na minha alma, onde um dia ainda viria a florir.

Meu pai também me ensinou a jogar damas, xadrez e frequentemente competíamos em natação. Aos 10 anos eu sempre perdia para ele no xadrez, aos 12 às vezes eu ganhava e aos 14 ele sempre perdia para mim tanto na natação quanto no tênis e no xadrez. Até os 12 eu já havia praticado natação, judô, tênis e capoeira, eu queria ser ginasta, mas minha mãe falou que não tinha filho viado em casa. Aos 14 empolgadíssimo com as primeiras aulas de química e física eu quis um kit de química infantil, mas ela também negou, era muito perigoso. Compensei as represálias maternas criando meu próprio site sobre poesia e imagens góticas ou de video game, programando meus próprios jogos, assistindo ao canal infinito e me ensinando a praticar tai chi chuan e yoga. Há 3 anos sofrendo bullying na escola sem nenhuma atitude institucional, seja familiar ou escolar eu decidi que não toleraria mais o autoritarismo da escola, muito menos a violência estudantil, se não me mudassem de escola eu não sairia mais de casa. Eu finalmente me tornara o aluno problema que eu sempre fora.

Nos próximos 3 anos eu passaria por 4 colégios, reprovaria de ano e faria 1 supletivo. Mas ainda houve uma constelação, um arquipélago de pousadas e encruzilhadas por esse caminho tortuoso e nada linear. Fui parar em São Paulo, morando com minha avó paterna que morria de uma síndrome de Alzheimer diagnosticada e um câncer subnotificado. Eu tinha 16 anos, não queria ir para escola, conviver com pessoas que nada tinham a ver comigo, eu podia aprender tudo lendo, à época e desde então sou apaixonado por Clarice Lispector, com essa idade lembrei que 1 ou 2 anos atrás meu irmão ficava fazendo testes online de QI e QE na expectativa lúdica de se descobrir genial, de repente uma forte intuição me invadiu, eu suspeitei pela primeira vez que talvez os outros não fosse burros como eu costumava dizer, mas sim que… eu era inteligente, eu sou inteligente, particular e excepcionalmente inteligente. Eu precisava saber se era superdotado, após faltar 70% das aulas eu gabaritei a prova de química e o professor zerou a minha prova me acusando de cola. Houve uma briga entre meu pai e a direção da escola, mas a diretora logo notou que o fenômeno que apresentei na matéria de química se repetia por todas as outras matérias, ela me olhou bem nos olhos e disse que eu era superdotado, que quando ela trabalhara numa escola de judeus ela chegara a ir para Israel e conhecido turmas especiais para superdotados. Poucos meses depois a APAHSD (Associação Paulista de Altas Habilidades e Superdotação) confirmaria que eu tenho superdotação acadêmica e intelectual, verbo-linguística, lógico-matemática. Feliz com tal encontro revelador eu me ensinei o sistema de numeração binário!

Nesta época eu canalizava minha criatividade torrencial em literatura, dramaturgia, escultura, fotografia e música, lia livros como quem respira e muitas vezes apresentava distúrbios do sono. Peguei o gosto por ler livros no original em inglês assim como obras completas, meu primeiro livro em inglês foi Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, minha primeira obra completa foi do Oscar Wilde. Protagonizei uma peça de teatro e abandonei a escola, fiz supletivo e antes de experimentar o curso de Design de Games na Anhembi Morumbi produzi o vídeo teatral Material de Salvação ou O HORROR. Abandonei a graduação no primeiro semestre, decidi fazer o que fazia mais sentido para mim: criar uma fonte tipográfica, fotografias e literatura experimental. Em 2012 aos 22 anos de idade eu publicaria de modo independente pelo Clube de Autores o romance autoficcional Caro Jovem Adulto, pro qual desenvolvi a fonte tipográfica Limite Circular e a capa Iluminado Expandido, assim como fiz todo trabalho de edição e diagramação.

Menção Honrosa no 25º Programa Nascente da USP em 2017

Menção Honrosa no 25º Programa Nascente da USP em 2017

Eu escrevi e publiquei o livro e nada mudou, o mundo continuou atarefado, indiferente e hostil. Daí eu decidi retomar a pauta superdotação e altas habilidades, projetei o que seria este blog, não para falar de mim, mas para dar abertura para outros superdotados ou alto habilidosos falarem de si, por meio de relatos pessoais e entrevistas, os ensaios serviriam apenas para chamar-lhes a atenção e o interesse. O portal de referência que eu procurara avidamente na internet em 2006 eu começara a construir em 2012.

Menção Honrosa no 24º Programa Nascente da USP em 2016

Menção Honrosa no 24º Programa Nascente da USP em 2016

A publicação de Caro Jovem Adulto seria o início do fim, a partir de 2013 eu comecei a afrontar a agorafobia e os distúrbios de ansiedade que desenvolvi por conta do estresse pós-traumático. Comecei a escrever o romance de terror Asfixia e o publiquei em 2014, utilizando para tanto a fonte tipográfica Cristoforo, uma remasterização da typeface Columbus (1892) de Hermann Ihlenburg por Thomas Phinney, por meio de um projeto de crowdfunding e a capa seria feita pelo artista Thiago Bentancour que conheci pelo facebook.

Na Feira Retina no Instituto Internacional Juarez Machado em Joinville (2019)

Na Feira Retina no Instituto Internacional Juarez Machado em Joinville (2019)

Em 2016 eu retornaria à educação formal iniciando o curso de licenciatura em matemática noturno do IME-USP, faria pesquisa nas áreas de análise real, bioinformática e ensino de matemática. Fui intercambista na Universidade Técnica de Munique, estudei latim, alemão e francês, assim como ciência de dados e compus os grupos estudantis DiversIME e a Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. Ao fim da graduação cofundei a startup SagaPro, a Edtech do Bem-estar Escolar e juntos alcançamos a incubação no Cietec, a maior incubadora da América Latina. Atualmente sou diretor executivo nesta empresa e pós-graduando em computação aplicada à educação no ICMC-USP, assim como pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, na Cátedra Oscar Sala, sob a orientação de Lucia Santaella. Concomitantemente nunca abandonei a arte, a literatura e toda a diversidade de atividades e projetos que me caracterizam enquanto o indivíduo que sou e que almejo ser, nunca pensei que chegaria até aqui, aos 30 anos, a quem ou ao que quer que eu seja.

Véu do Entardecer (2021) por Filipe Russo

Véu do Entardecer (2021)

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Sobre-excitabilidades: Emocional

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Entrevista: Luciano Brígida

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Luciano Brígida: Só fui conhecer essa minha face na idade adulta. Minha esposa foi quem identificou tais características e me incentivou a procurar acompanhamento profissional para que eu possa aprender melhor a lidar com as assincronias e ansiedades que me incomodavam e eu não tinha consciência disso.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Luciano: Não sei. Nunca passei por avaliação formal, mas posso descrever minhas áreas de interesse e habilidades potenciais. Gosto de programação, que é meu trabalho principal, e estudo Machine Learning para me qualificar mais profissionalmente; Faço música sempre que posso e comecei a publicar algumas coisas de autoria própria; Mexo com audiovisual por hobby, seja na edição de vídeos ou de imagens, produzindo ilustrações vetoriais e produção e edição de músicas também; Gosto de escrever poemas e estou me aventurando na produção de narrativas romanceadas; Gosto de ler, escutar podcasts e conversar sobre astronomia; Mergulho em jogos eletrônicos sob vários aspectos, até já transitei em projetos de desenvolvimento de jogos; No aspecto religioso, sou do tipo que busca compreender os significados e histórico dos ensinamentos para poder melhor pô-los em prática;

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Luciano: Não passei ainda pela identificação formal. Minha psicóloga já me indicou pois de fato parece ser a hipótese mais adequada ao meu perfil. Não tenho dados suficientes sobre acessibilidade do serviço a diferentes camadas da população. Minha visão empírica me diz que há um desconhecimento sobre a importância do processo de avaliação e até mesmo sobre o que é uma pessoa com altas habilidades.

SM: Durante a sua formação acadêmica você pousou na licenciatura em música, correto? Conte-nos um pouco da sua relação passada e atual com a música.

Luciano: Minha relação com a música começa desde muito muito cedo. Tenho memórias da primeira infância de quando ficava prestando atenção nas músicas da igreja, imitando os músicos com os instrumentos, às vezes querendo dançar e sendo reprimido pela família por isso. Comecei a tocar violão por volta dos 14 anos. A partir daí, a paixão se enraizou. Não me via e não me vejo mais sem a Música. Hoje diminui meus estudos dos compositores eruditos e me concentro mais nas músicas que divertem a mim, minha família e amigos; seja Toquinho, Mundo Bita, Bruno e Marrone ou Falcão, se traz alegria e emociona as pessoas é o que toco.

SM: Você é jornalista de formação, quais foram as contribuições mais pungentes do jornalismo na sua vida e carreira?

Luciano: Como amante da escrita e leitura, fui atraído para a faculdade de Comunicação Social. O ambiente acadêmico me proporcionou acesso a conhecimentos que até hoje embasam muitas das minhas visões de mundo. Disciplinas como Semiótica, Estatística, Psicologia, Sociologia, História, Direito tiveram forte impacto em mim. Mas não lembro de ter passado por uma disciplina sequer sem questionar o professor quanto a algum tema específico. Sempre fui crítico. Critico, principalmente, o foco no fazer técnico que a universidade dava ao invés de fortalecer a produção acadêmica e pesquisas científicas de impacto duradouro. Foi na faculdade também, que aprendi a aceitar o meu espírito de liderança. Sempre passara a vida introspectivo, observando e anotando histórias; evitando o protagonismo direto. Mas na faculdade eu fui quase que empurrado a ser representante de turma no meio do curso. E, tendo começado a vida profissional concomitantemente, parti para o empreendedorismo e conheci um lado mais extrovertido de minha persona. Classifico como ápice a apresentação do meu Trabalho de Conclusão de Curso, quando fui na contramão do senso comum de não convidar amigos para assistir à apresentação e chamei logo toda a comunidade de Blogueiros Paraenses num evento que precisou ser televisionado no auditório da Universidade ao invés de ficar restrito a uma sala de aula com meia dúzia de pessoas.

SM: Conte-nos como você começou a se envolver com programação, a transparência hacker e encontros de desenvolvedores.

Luciano: Meu TCC se chama Blogs e o Jornalismo Cidadão. Uma pesquisa analisando o discurso empregado por blogs versus outros canais na cobertura do Fórum Social Mundial que ocorrera em Belém naquela época. Para melhor compreender o fenômeno dos blogs me dispus a escrever em vários blogs temáticos para estudar e conhecer a prática. Aos poucos fui querendo melhorar meu blog com ideias que demandaram que eu aprendesse programar pra web. Me identifiquei bastante com o raciocínio abstrato necessário para a prática de programação e segui me aprofundando, por conta própria, em linguagens diferentes, técnicas diferentes e vários outros conceitos tangentes. Somei tudo com a visão de comunicação para montar uma empresa de marketing digital. Durante um trabalho num evento de empreendedorismo, conheci um palestrante de São Paulo, com uma cabeça meio acelerada e vanguardista; logo fomos tomar umas cervejas depois do evento e assim fui apresentado à Transparência Hacker, grupo de hackers focados em promover transparência de dados governamentais. A amizade e projetos desenvolvidos junto a esta turma, me levou a sair de Belém para morar em São Paulo e posteriormente, Brasília, onde também ajudei a constituir comunidade de Python local, o PyDataBSB.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Luciano: Passei por 3 psicólogos antes de encontrar uma profissional com conhecimento especializado em AH/SD com quem me identifiquei e sigo até hoje. Nenhum processo terapêutico é fácil e milagroso. O auto-conhecimento pode ser até doloroso às vezes, mas é necessário para o longo prazo. Me sinto caminhando a passos curtos para um estado onde saberei aprender a lidar melhor com sentimentos negativos, eliminar preconceitos sobre mim e outros e evoluir na inteligência emocional também.

SM: A insônia o assombra há anos, como e quando isso começou? Como a sociedade encara e trata os insones?

Luciano: A insônia me acompanha desde a adolescência. Na idade adulta foi piorando. Minha hipótese é que tem relação com ansiedade em querer produzir muitas coisas o mais rápido possível. Existem muitos mitos sobre sono, tanto que o reconhecimento de diferentes ciclos circadianos só veio à tona recentemente. Respeitar o ritmo de sono é essencial para a saúde.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Luciano: Não buscamos nenhum acompanhamento psicopedagógico.

SM: Algum lema motivacional?

Luciano: “Sou mil possibilidades em mim. Não posso me resignar a querer ser apenas um só” Roger Bastide.

SM: Além de tudo isso você ainda é poeta! Qual seu gênero, escritora(o) e obra favoritos da literatura nacional?

Luciano: Há muitos talentos no Brasil que admiro por motivos diversos, contudo alguns nos impactam tanto que chegamos a os imitar em certo grau. Os autores que, conscientemente, me influenciaram são: Luis Fernando Veríssimo, pela sua versatilidade e complexidade na simplicidade; Vinicius de Moraes, pela música e pela poesia; Machado de Assis, pela ousadia na narrativa; JM Trevisan, um dos autores do RPG Tormenta, jogo que fortaleceu minha paixão por contação de histórias.

SM: O que é ser um pai e esposo superdotado?

Luciano: Essa minha característica apresenta certos desafios, mas tenho certeza que com a psicoterapia o impacto desses conflitos vai diminuir. Minha filha tem indicativos de altas habilidades também, por isso acho ainda mais importante que eu passe por um processo de auto-conhecimento, afinal preciso aprender a orientá-la caso ela enfrente dificuldades similares as que passei.

SM: Algum recado pra galera?

Luciano: Permita-se a curiosidade. Seja sempre cético. Aceite o infinito entre o 0 e o 1. Existe um provérbio latino, cuja origem desconheço que diz: “Ubi dubium ibi libertas”, “Onde há dúvida há liberdade”. Um espírito livre precisa ser curioso e se permitir explorar além do que se vê. O lema da Royal Society de Londres é “Nullius in Verba”, “Nas palavras de ninguém”, que conclama a resistir à dominação por qualquer autoridade e só aceitar afirmações verificáveis por experimentação. Na liberdade da própria curiosidade você vai conseguir enxergar além do binarismo perverso perpetuado na sociedade e poder admirar a beleza assustadora do infinito.

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Altas Conversas Altas Habilidades: S1 E1 Apresentação

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Relato Pessoal: Rejane Vieira

UM POUCO DE MIM E DE MINHA HISTÓRIA!

Como assim, falar de si, alguém que você conhece melhor que qualquer um? É, simplesmente é a coisa mais difícil de fazer!

Pois é, falar de nossa história pode ser algo bem complexo, principalmente quando se tem muitas histórias para contar, que é o meu caso.

Começarei voltando há alguns anos, mais precisamente em 1985, quando eu tinha cinco anos e desde já, advirto que não contarei todas as histórias de que lembro, porque daria um livro gigante, o que para mim não seria um problema, você vai descobrir o porquê.  Também não me deterei a detalhes, embora isso faça parte espontaneamente de quase tudo que faço. Buscarei trazer para o relato algumas situações em que as altas habilidades/superdotação me colocaram em apuros ou me salvaram. Vamos lá? (Risos).

Um belo dia, ao abrir a janela da sala, senti uma sensação muito forte que mesmo hoje, depois de 36 anos, eu ainda não saberia descrever; aquela sensação me trouxe para um estado permanente de curiosidade pela vida, sendo ali ativada para mim a função: busca por conhecimentos! Desde aquele momento, o conhecimento funciona como cordas e portas, que me permitiram escalar e acessar novos e mais lugares. Meu modus operandi foi “iniciado” ali “conscientemente” e, por causa disso, eu cresci como cresci, sorri do que sorri, sofri e me vi em apuros também.

Ao escrever um pouco sobre minha história de vida, pensei sobre quais habilidades me ajudaram a sobreviver aos desafios e problemas que ESTA existência me trouxe. Nessa jornada, passei frio em diversos momentos, fui agredida física e emocionalmente diversas vezes, vi a fome tão de perto que doeu a barriga, vi pessoas que eu amo sofrerem, vi minha mãe ser massacrada em seus sonhos, ser espancada e violada, mas ela sobreviveu, era meu exemplo de líder, eu não poderia aprender de um modo diferente. Também me diverti um bocado, muitas e muitas vezes sozinha, explorando a natureza, observando os bichos minúsculos e lendo livros dos quais me lembro até hoje, como: A estranha máquina extraviada e o feliz ano velho era um deles. Também brincava com meus irmãos, principalmente de restaurante, acho que é por isso que aprendi a cozinhar aos 7 anos de idade.

Quando eu quase morri em um acidente de carro em 2010, onde eu não esqueço o filme de toda uma vida que passou em milésimos de segundos, entendi ali, vendo aquelas rodas do caminhão passarem em minha frente por cima do capo, que eu deveria ser muito grata por cada dia, cada segundo, cada milésimo de vida que tenho até hoje. Ali percebi que, alguns de meus vícios como: sonhar acordada, viver apaixonada, mesmo que às vezes “iludidamente”, sorrir de mim e com minhas lembranças amigas e peçonhentas, em momentos de solitude, faziam muito sentido.

Três coisas vivenciei intensamente em minha infância e adolescência: a escassez, a criatividade e a superação. Observei que, nas ocasiões em que nos faltava o mínimo, até para comer, eu sempre acabava encontrando uma forma de usar minha criatividade e capacidade de aprender, rápido e só, para produzir coisas que pudessem ser vendidas. Uma vez aprendi a criar papeis de carta, usando o saco transparente que pegava “emprestado” no mercantil (risos) e canetinhas, também emprestadas da minha amiga Rafaely, amiga que inclusive, me emprestava amorosamente seus livros para eu estudar, pois não tinha como comprá-los. Aos nove anos, comecei a dar aulas de reforço e com o que recebia ajudava minha mãe a comprar as frutas da semana, que inclusive eram transportadas em um carrinho de mão, porque a granel saia mais barato. Assim, posso dizer que hoje valorizo a variedade de opções de frutas com muito prazer (risos).

Naquele tempo, também descobri o vício em fazer cursos, que inclusive tenho até hoje. Fazia todos que me eram permitidos e eu aguentasse. No CSU – Centro Social Urbano, lojas de artesanatos e ABCs – Centros profissionalizantes para Adolescentes, pois ou eram de graça, ou a preços muuuuito camaradas. Adquiria as mais variadas habilidades, afinal não dava para escolher, as oportunidades eram aproveitadas com unhas e dentes e nessa jornada aprendi a fazer bijuterias, biscuit, arranjos de flores, móbiles para quartos de crianças, gesso, sabonete, velas, sachês, tudo que pudesse vender e ajudar a comprar comida, afinal eu estava na base da pirâmide de Maslow (risadas).

Meu pai era alcoólatra e fumante, não tinha trabalho fixo, embora fosse referência em projetos elétricos até para engenheiros eletricistas, sem ao menos ter o segundo grau completo. É, ele era muito inteligente, mas tinha muitas dificuldades com disciplina e constância de humor, o que acabou tornando nossa jornada um “pouco” mais difícil e o progresso dele na Terra, imagino. À medida que crescia, fui ganhando um pouco mais de autonomia e liberdade, já podia pegar um ônibus e expandir meu market share, (risos) tinha clientes até no Fórum Central de Fortaleza. Detalhe: eu morava a 20km e levava até 1 hora e 30 minutos de ônibus para chegar lá. E eu só tinha 13 anos. Valia muito a pena. Dava dicas de bijuterias para as clientes em acordo com seu estilo de roupas, e às vezes construía peças customizadas para as mesmas.

Mas o tempo foi passando e eu fui me tornando uma adolescente, já tinha 14 anos e busquei fazer cursos mais profissionalizantes, então passei a frequentar o ABC, próximo de casa. Fiz cursos de pintor letrista, computação, técnicas de escritório e eletrônica básica, pensando em como adquirir mais habilidades que pudessem me levar a um emprego com carteira assinada, pois queria subir para o segundo nível da pirâmide de Maslow. Não estava dando muito certo e até latinhas de refrigerantes eu fui vender no Fortal. Preciso falar que foi tudo muito legal, sempre gostei de conversar e nunca tive vergonha para abordar ninguém. Vendia bem, mas, ao que me parece, eu desaprendi um pouco ao longo do tempo (uma carinha pensante).

Na escola, resolvi participar de um desfile para ganhar uma bolsa de estudos e aliviar mais as contas. Foi quando descobri que poderia malhar por mais de 7 horas sem me sentir exausta. Corria mais de 15 quilômetros, experimentei natação e kung-fu e às vezes fazia mais de uma destas atividades no mesmo dia. Quanto mais exercícios fazia, mais elétrica eu ficava. Até um ano atrás não sabia como poderia denominar aquilo, hoje eu sei, o nome é: sobre-excitabilidade psicomotora. Também entrei para os times de futsal e vôlei da escola. Trouxemos um ouro e uma prata (risos), foi um momento maravilhoso e terrível de minha vida, eu estava em plena adolescência, precisava ocupar a mente e gastar uma energia que nunca acabava. Diziam que eu recarregava minha bateria correndo (risos), na mesma época tentei também teatro, cantar e dançar ballet, mas não havia como investir. Então, eis que chega a época dos estudos para o vestibular e descubro uma capacidade acadêmica que também desconhecia até então, eu conseguia ficar focada em um livro de Biologia por quase 20 horas e se pudesse não parava mais, isso também tem nome, é a sobre-excitabilidade intelectual, que era incrível: a ausência de vontade de ir ao banheiro, parar para comer ou fazer qualquer outra coisa até terminar o livro; na época, minha mãe chamou de compulsividade e era um pouco disso também, por isso é tão importante o trabalho da flexibilidade cognitiva, mas nem eu e nem ela sabíamos disso. Nessa mesma época, ela passou a ser minha algoz, traumatizada com um relacionamento terrível com o meu pai, tentava me desanimar a todo custo com a ideia de namorar, mas eu queria viver um grande amor. Eu estava no 1º ano do segundo grau e teria a grande oportunidade de namorar pela primeira vez o cara que eu gostava desde a 4ª do ensino fundamental. Até se concretizar, preciso dizer que houve muitas coisas: intrigas, mentiras e falsidade de uma amiga também apaixonada por ele, se eu contar vão achar que estou falando de um filme.

Foi um momento muito difícil, já tinha meus problemas em casa e o mundo também estava dificultando as coisas. Preciso dizer que tive muita vontade de ir embora da Terra. (Cara de tristeza) O ápice foi quando confiei a este namorado o meu translado para a minha primeira prova do vestibular. Já tínhamos um ano de namoro, mas ele me fez chegar atrasada 2 minutos, porque precisou deixar a irmã primeiro.

Eu tentei escalar o muro da Universidade Federal do Ceará – UFC e quase fui presa, mas tinha que voltar para casa e aí sim, foi meu pior pesadelo. Fui quase expulsa de casa, fui rejeitada, sofri agressões de todas as formas, nunca desejei tanto conhecer outros mundos… e ir embora da Terra. Hoje sei que a voz da consciência, que é maior que eu mesma, sempre me salvou de grandes enrascadas. Eu havia saído do status de esperança da casa para uma baita decepção, eu tinha consciência disso, mas esquecia quando a dor doía. Foi quando ele, esse mesmo namorado, resolveu me escrever para a escola técnica, o CEFET-CE, atual Instituto Federal do Ceará – IFCE. Hoje sei que um anjo me ajudou a chutar as questões corretamente (risos), pois eu estava tão revoltada com tudo que sequer lia direito as questões antes de responder, mas deu certo, eu tinha de estar lá, pois foi onde conheci meu segundo namorado e atual esposo Paulo, uma história tão looonga, engraçada e instigante que se eu fosse contar, levaria mais umas cinco páginas dentro do relato (gargalhadas).

Eis que chagamos ao fim da adolescência, e novos desafios foram se desenhando nessa fase da vida. Eu pensava basicamente em quatro coisas: namorar, estudar, trabalhar e fazer atividades físicas, nessa mesma ordem. Quanto a trabalho, como mal tinha dinheiro para me alimentar, tentei conseguir uma vaga no laboratório de microbiologia da própria escola técnica, então, passei a perseguir meu professor de Microbiologia, o professor Benvindo. Por dias e dias, chegava cedo e ficava sentada na porta do laboratório meio que fazendo pressão para ele me aceitar, pelo menos como voluntária, e deu certo! Trabalhei duro em todas as horas livres que tinha, aprendi em tempo recorde a fazer as análises e até implantei algumas melhorias no local. Passei a receber uma ajuda de custos que me permitiu passar a almoçar, porque a escola fornecia os lanches das 9 e das 15h de graça, mas não o almoço e eu mal podia pagar minhas passagens. Depois que eu e Paulo começamos a namorar, ele repartia o almoço dele comigo (coraçõezinhos e risos), um príncipe mesmo, um anjo em minha vida.

Fiz alguns amigos de verdade, os quais me acompanharam por um longo tempo. Fui indicada para participar de uma seleção em uma empresa de refrigerantes, mas ela ficava em outro município, e eis que surge um fato interessante, eu não tinha dinheiro para pagar a passagem interurbana e tive de desenrolar o telefone da supervisora do setor, contar minha situação e pedir uma carona no ônibus da empresa. Deu certo, eu fui, fiz a entrevista e, para minha surpresa, fiquei com a vaga, mas, mal sabia eu que meu desempenho chamaria a atenção da líder do setor, que passou a me perseguir. Fui humilhada verbalmente e na frente de colegas, procurei me superar cada vez mais, mostrar que eu era superior e podia fazer ainda mais e melhor, mas as perseguições não pararam, então marquei uma reunião com a Gerência – que audácia, você deve estar pensando, uma estagiária? Pois é, meu gerente da época era um cara maneiro, gente boa e um líder de verdade. Contei tudo que ela estava fazendo para todos na presença dela e pedi para sair. Foi a primeira vez que vi o quanto o universo corporativo podia ser bem perigoso para o ego e cheio de cobras. Também percebi com clareza a força que tinha para cuidar de mim mesma. Eu foquei tanto em me melhorar, que alcancei um recorde de análises e organização da rotina, fora dos padrões já vistos. Assim me disseram. Sai dali e fui buscar um outro local.

Fui parar em uma fábrica de farinhas e, mais uma vez, meu desempenho me traria grandes e graves problemas, além de mais perseguições. Essa eu preciso contar com um pouquinho mais de detalhes, porque a história já foi tema de evento teatral em um Sarau entre pessoas superdotadas (risos).

Eu entrei como estagiária e fui efetivada antes de outra estagiária, que trabalhava há mais tempo, a qual deveria ter sido efetivada na minha frente, mas isso não aconteceu, causando sérios conflitos com a pessoa e o setor. Depois, ela acabou sendo efetivada também, mas a entrada de um estagiário específico parece ter aflorado novamente o problema com força, então se uniram e começaram fazer coisas horríveis e bem estranhas, parece até script de filme de terror. Só após uma outra chefe assumir o meu setor, porque a titular havia saído de licença maternidade, é que tudo foi descoberto. Para vocês terem uma ideia, eu trabalhava com análises reológicas, de farinhas, então minhas folhas de laudos eram rasgadas ou sumiam, as soluções que eu utilizava, apareciam supersaturadas, os aparelhos eram descalibrados, etc e etc.

Eu fiz o que sei fazer de melhor, superei! (Gargalhadas) Dava um jeito de esconder as folhas de laudos para não faltar, deixava para preparar as soluções na hora, fui me desviando e aumentando cada vez mais minha produtividade e organização, aprendi a calibrar os equipamentos e até consertá-los. Um “belo” dia os funcionários se reuniram para me cobrar uma “revisão em meu ritmo”, digamos que eu estava indo rápido demais e elas poderiam estar sendo cobrados também… é mole? Chupa essa manga! Nem eu acreditei no que estava ouvindo. Então fica uma reflexão: um ponto fora da curva em uma análise estatística é desconsiderado, mas na vida real ela é perseguida! Enfim, foram atitudes como essas que me fizeram ser percebidas por quem valorizava a excelência, algo raro em minha jornada, diga-se de passagem.

Estes boicotes que relatei foram algumas das coisas que tive de passar ali, um outro grande desafio foi superar o sono e o cansaço. Eu já tinha terminado meu curso técnico em Química Industrial no CEFETE-CE e entrado para Engenharia de Alimentos na UFC, e vou explicar porque foi um novo período muito difícil. Minha chefe ignorava minhas falas sobre os problemas do setor e eu não podia pedir demissão, afinal era meu primeiro emprego de carteira assinada, eu tinha comprado muitas coisas para a casa da minha mãe. Desde 1993, quando meu pai ateou fogo em nossa casa de forma criminosa, havíamos ficado desprovidos de muitas coisas, meu colchão me permitia imaginar como era dormir nos trilhos do trem! Exagero?! É por conta das madeiras no meio do trilho, para quem não conhece (risos). Eu conheço, tinha um em frente à minha casa!

Realmente o mundo corporativo podia ser um ambiente bem perigoso e tóxico e de fato meu desempenho iria incomodar muuuita gente. Como a faculdade no primeiro semestre tinha aulas às segundas, quartas e sextas, das 8:00 às 17:00, eu acabei pedindo para me transferirem para à noite na empresa de trigo. Passei a trabalhar das 22:00 às 6:00, e quando saia do trabalho, ia direto para a faculdade. Eu também inventei de fazer um curso no SENAI das 18 às 21h, um curso de PCP – Planejamento e Controle da Produção, pois estava desesperada para sair do setor da qualidade. Aquela situação me levou a um esgotamento físico, afinal eu só dormia as terças, quintas, sábados e domingos pela manhã, dias em que eu não tinha aulas da faculdade. Foi “trash”, não recomendo abstinência de sono para ninguém, pode matar.

Foram momento bem tensos, acho que ali forjei minha segunda camada de resiliências, mas eu nunca deixei de sorrir por isso. O médico da empresa perguntava quando eu ia mudar e sempre respondi: Nunca! (Risadas)

Fiz muitas coisas legais no meu primeiro emprego. Criei cursinho para que os operadores pudessem sonhar com o curso técnico, criei uma revista para a capatazia (a galera que passava o dia carregando sacos de 50 quilos na cabeça), ela falava sobre vários assuntos; da higiene básica à ciência nuclear (risos), eles gostavam. Eu adorava sentar com eles na hora do almoço e tirar as dúvidas sobre os materiais que havia criado, ganhei o apelido de Xuxa (risos).

Na época, conheci meu segundo exemplo de líder corporativo, meu gerente da época, que, vendo meu desejo de estudar e minha condição de vida, me concedeu minha primeira demissão. Terminei de pagar as dívidas e pude me sustentar por um tempo na faculdade, local em que voltei a vivenciar novamente a escassez, lá fiz amigos que guardo no meu coração e traga para meu convívio, mesmo virtual, até hoje. Lá exercitei, o que considero ser uma das minhas melhores habilidades, a liderança. Eu havia sido líder de turma desde a 2ª série do ensino fundamental, não me recordo da série que não fui líder de turma desde então e isso segui pelo cursinho, curso diversos e etc.; se era para fazer as coisas acontecerem, fazer montinho, colocar as coisas no lugar, podia contar com meu total empenho. Eu era um ímã para a função de liderança onde ninguém queria assumir qualquer responsabilidade ou bater de frente com o sistema. Era minha praia, sempre adorei desafios, acho que me viciei nisso, até levar um grande tombo, em meio a uma galera medíocre e covarde que encontrei pelo caminho já depois de adulta, casada e mãe de um filho, vergonhoso! Como foi algo bem recente, não vou esmiuçar, infelizmente (risos).

Acho que minha capacidade de peitar as situações, enfrentar o errado, vasculhar e conectar prováveis irregularidades acabam tanto me ajudando quanto me ferrando feio. Na faculdade, resolvi ser presidente do C.A. – Centro Acadêmico do curso de Engenharia e acabei colocando a mão em um vespeiro até a DCE – Diretoria Estudantil nos ajudar. Depois de uma sala ser invadida e vandalizada e muitas discussões com professores, conseguimos organizar a casa (C.A.), montar ciclos de palestras, implantar os 5S, que havia aprendido na indústria de refrigerantes, e o nosso maior ganho, que só veio se concretizar quase 10 anos depois: a reforma da grade curricular. Foi uma outra época de muita perseguição, foi loucura, loucura, como diria Luciano Hulk, mas foi massa, foram muuuuitas histórias para rir e morrer de raiva (êxtase).

Terminando a faculdade, tive esperança de seguir uma carreira na área de alimentos e muito trabalho me levou a receber um convite para trabalhar em uma empresa de iogurtes, quando também busquei pela minha primeira pós-graduação em Logística. No começo, foi muito legal, dei aulas de Logística em uma escola técnica e assumi a auditoria dos CDs – Centros de Distribuições do norte e nordeste, viajei bastante, mas depois de um tempo comecei novamente a incomodar e sofri mais um golpe profissional, que os advogados chamam de assédio moral. Consegui minha segunda demissão, desenvolvi uma forte depressão e busquei superar montando minha própria empresa de consultoria. Tinha esperança que conseguiria aplicar todo o conhecimento que eu tinha adquirido até ali, mas encontrei novamente barreiras, me deparei com empresários de pensamentos medíocres, onde suas maiores necessidades eram apenas documentos para constar na Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. Resolvi voltar para o universo privado, em outra área, uma fábrica têxtil. Foi quando decidi fazer minha segunda pós-graduação, agora em Engenharia de Produção e Qualidade, e quando tudo parecia que ia engrenar, novas perseguições e novas decepções. No entanto, agora eu tinha Pedro Lucas, meu primeiro e único filho até o momento. Mesmo assim eu pedi demissão, tentei voltar para o universo da consultoria, mas fui frustrada no terceiro mês, já que não consigo conviver com pessoas que vivem de aparências, que economizam em competência e esbanjam em expectativas para o cliente. Eu estava sofrendo com a sobre-excitabilidade emocional e os resultados dos clientes, então tomei a decisão de mudar de área de uma vez por todas. Percebi que talvez tudo isso que eu estava passando tivesse realmente a ver com a educação destas pessoas, suas formações como indivíduos e resolvi dar dez passos para trás, aprender como se forma um homem. Afinal, eu também tinha um projeto chamado Pedro Lucas, juntamente com meu esposo Paulo, e resolvemos que eu deveria investir nesta área, focar nele primeiro, e depois ajudar a outros com a experiência. Assim, fiz minha formação em Life Coach e Coach Educacional, segui para a Neuropsicopedagogia e, à medida que eu conhecia todo esse universo e a Neurociência, aplicava os conhecimentos em minha vida e em casa. Descobri que a tarefa mais difícil deste mundo é educar alguém. Foi na Neuropsicopedagogia que eu descobri que tenho altas habilidades/superdotação, quando um sol se abriu dentro da minha alma. Eu me senti como o indivíduo que fugiu da caverna de Platão (risos), o mundo tinha novas cores e eu tinha que começar a me entender melhor para entender melhor meu filho.

Essa jornada que começou nos meus 37 anos ainda está no começo, mas devo minhas poucas quedas nesse início de jornada a três grandes seres e amigas que atuaram em minha vida como faróis e apoio, Rosana Melo, Flavia Brandão e Auxiliadora Piava, pois foram e são minhas mentoras de vida. Assim cheguei a outros, que assim como eu, vivenciam angústias similares às minhas, formas de ver o mundo como eu vejo, ou a maneira e intensidade com a qual, raros se identificaram ou entenderam quando me expresso. Eu de fato me sentia uma extraterrestre. O autoconhecimento é como uma luz que acendemos em uma sala cheia de jogos quando ainda somos crianças, ele nos traz a percepção das inúmeras possibilidades que existem e a vontade extrema de experimentar, sentir e descobrir. Mas a consciência que venho buscando arduamente dia após dia, esta sim, é como uma mentora a te guiar por essa sala de brinquedos, te apresentando com segurança cada canto, gerando o máximo de aproveitamento e aprendizado dessa experiência, trazendo para o entendimento das coisas e possibilitando as melhores decisões. Somos crianças, porque nossa ignorância não nos permite ver além do que nos apresentam os olhos pouco hábeis e pobres de repertórios de vida consciente. Eles acabam por esconder de nós a verdadeira beleza que é o viver, o não se comparar com um outro, porque cada um é único, vive esta existência de uma forma única e talvez irreprodutível, que finda e que não deveria ter tempo para perder com coisas fúteis e que não agregam à nossa jornada. Assim encerro este relato, deixando para você, a minha intenção mais íntima. Reflitam sobre como eu poderia ser alguém pior do que sou? Como eu poderia ter escolhido caminhos mais fáceis e não o lado mais estreito? Eu sei que não foi muito bom experimentar espinhos, mas não deixei de estar perto e sentir o cheiro das flores também.

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Sobre-excitabilidades: O que são?

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Relato Pessoal: Luciano Brígida

Falar sobre mim sempre foi difícil demais. Acho mais fácil escrever devaneios sob a condição humana no universo do que falar sobre quem eu sou. Talvez por conta disso eu tenha adotado desde cedo como lema pessoal a frase “Eu sou mil possíveis em mim, portanto não posso me resignar a querer ser apenas um só” de Roger Bastide. Então, deixarei que a história se revele.

Quem primeiro me levantou a hipótese de superdotação foi minha esposa. Ela é professora e convive com alunos de condições diversas. E, além disso, o fato dela estar entre as pessoas mais importantes da minha vida me fez considerar essa hipótese como verdadeira. Na época eu sofria demais com insônia – e ainda sofro – eu deitava mas não sentia sono algum, pois na minha cabeça estavam passando ideias sobre jogos, músicas, poemas, desenhos, contos… Isso estava atrapalhando minha saúde e até a rotina de casa.

Um dia, numa conversa no intervalo de almoço do meu trabalho, com o ar de Brasília bastante seco e céu sem nuvens, ela me perguntou se eu já havia sido diagnosticado como AH/SD. Eu nunca olhara para mim desse jeito. Sempre repeti a mim mesmo que eu não era diferente dos outros, que todos tínhamos a mesma capacidade de aprendizagem e cognição. Mas os fatores que ela foi me apontando começaram a fazer sentido: auto-didata em quase tudo, correlacionar ideias incomuns, fixação em detalhes que passam despercebidos por muitos etc.

Procurei sessões de hipnoterapia. Eu só queria dormir direito e me sentir em paz. Eu não sabia se eu seria suscetível a hipnose ou não, mas arrisquei. A experiência foi interessante, porém ainda que eu conseguisse entrar no transe com facilidade eu também não conseguia reter o transe e me distraia facilmente com ideias aleatorias. Lembro de uma sessão que fiquei querendo compor um solo por sobre uma outra música que eu escutava ao fundo do consultório. Anos mais tarde a terapeuta disse que eu fui um dos pacientes mais difíceis. Mas não desisti da busca, sabia que na psicoterapia eu encontraria o caminho para melhor lidar comigo mesmo.

A busca continuou. Eu tinha que acabar com essa insônia e tentar ter um ciclo circadiano normal. Eu já convivia com essa falta de sono desde a adolescência. Perdi a conta de quantas alvoradas observei da janela do meu quarto no nono andar de um edifício em Belém do Pará. E o que falar das noites que passei sozinho, quando mudei para Brasília, no meu apartamento tocando violão ou escrevendo por várias noites seguidas? Devo ter perturbado demais meus vizinhos. Mas o preço foi alto. Dormir apenas 4h por semana não é nada divertido. Desenvolvi inflamações musculares sérias que me impediram de me movimentar direito. Mas um músculo dolorido não me define e ainda consegui desenvolver um jogo mobile nesse período. Uma vez tratadas as inflamações, procurei exames de polissonografia e minhas hipóteses se confirmaram. Depois de uma noite dormindo na clínica, os aparelhos detectaram que eu não tinha o sono reparador, que nas poucas horas que adormeci já caí direto no sono mais profundo. Tratar com anti-depressivos não deu certo. O que melhor funcionou para mim foi reposição hormonal de melatonina. E mais uma vez recebi recomendação de psicoterapia.

Sem saber para onde correr comecei a procurar por grupos online que tivessem dores parecidas. Assim, meio por acaso, encontrei uma comunidade e fui convidado pra um grupo de whatsapp bastante acolhedor e onde pude me sentir em casa. Foi aí que recebi uma boa recomendação de uma terapeuta que tem me acompanhado desde então e me ajudado nessa caminhada de auto-conhecimento.

Sete meses após acompanhamento psicológico, reconheci que realmente me faltava a habilidade de focar mais em mim mesmo, de aceitar minhas potencialidades e explorá-las. Hoje, sigo aprendendo a não me limitar mais pelas expectativas alheias; buscando superar processos de auto-sabotagem; e de conhecer mais sobre um Eu que ainda me era misterioso.

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Identificação: Competências Necessárias para a Avaliação

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