Relato Pessoal: Angela Nardelli

Angela Nardelli

Angela Nardelli

Superdotação na maturidade!

 

Eu sempre me senti diferente das crianças da minha idade. Sentia, nos adultos, certa expectativa e admiração pela minha demonstração de agilidade mental.

Era comum ouvir “ela aprende as coisas rápido!”.

Internamente, os interesses e curiosidade sobre “como as coisas funcionavam” eram imensos. Realmente um comportamento que destoava do jeito da maioria de crianças com mesma idade, a minha volta…

O mais ruim de sentir-se “diferente” é quando a gente não tem claro “em que” somos diferentes.

Conversadeira, desde cedo falava de forma direta e sem freios, tudo o que enxergava, pensava e achava que era correto. Mesmo sem entender nada da vida, era capaz distinguir com clareza quando uma pessoa estava mentindo. Se estava bem intencionada ou não. Se estava triste ou alegre. Conseguia “ler” suas emoções e intenções.

Por volta dos 4 anos, sabia que não existiam Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa, mas fingia para não frustrar os esforços que os adultos da família faziam para nos presentear.

Era capaz de criar desfechos absolutamente inusitados para as histórias da vida real que ouvia os adultos contando.

Aos 5 anos, ficava por horas sentada numa varanda, olhando para a rua, criando mentalmente histórias de vida para as pessoas desconhecidas que passavam.

Muito sensível, chorava tanto e por qualquer coisa que minha mãe me chamava de manteiga derretida (rs).

Não seria problema ser uma criança esperta, agitada e com o vocabulário elaborado desde cedo, não isso não tivesse gerado nas pessoas a expectativa de que a mesma robustez intelectual se aplicasse também nas reações emocionais. Era comum as pessoas atribuírem mais idade e maturidade do que eu tinha de fato e estranharem quando eu demonstrava alta intensidade nas emoções.

O choro da infância foi substituído por rompantes de ataques de fúria (violentos) na adolescência. Num desses episódios um psiquiatra disse que era comportamento típico de doença mental e seria preciso uso de medicamento.

A juventude e fase adulta foram marcados por altos e baixos em diversas áreas da vida e aquela constante sensação de deslocamento.

Há pouco anos alguém perguntou se eu havia sido uma boa aluna e refleti:

Eu fui péssima aluna!

O ambiente escolar me parecia hostil. Lembro-me de sentir deslocada desde sempre, como se fosse um satélite que gravitava em torno de algo estranho a mim.

Os primeiros anos foram em colégio de freira, depois do 4º ano escolas públicas. Aprendi a ler sozinha em bulas de remédio e listas de ofertas em armazéns. Aos 12 anos minha leitura de cabeceira era o dicionário.

Gostava de estudar, mas não tinha orientação nem incentivo à minha volta. Sempre ouvi dizer que era “difícil de lidar comigo”. Perguntava demais e contestava mais ainda.

Para o pavor de minha mãe, fui suspensa inúmeras vezes, até que abandonei a escola aos 15 anos, no 1º final do ano do técnico em desenho arquitetônico (nível médio).

Aos 16 anos comecei dar aulas de pintura em tecido para umas senhoras na pequena cidade, na qual eu morava e continuei dando aulas de técnicas de pintura e artes manuais. Aprendia autodidaticamente para ensinar as alunas.

A partir daquele momento, mais de 20 anos se passaram sem que eu voltasse ao ensino formal com comprometimento. Estudei muito e de tudo, autodidaticamente. Filosofia, História da Arte e das Religiões e um sem-fim de outros estudos de âmbito corporativo.
Inquieta, não conseguia decidir o que fazer da vida, mas queria experimentar de tudo. Trabalhei numa multinacional, depois numa estatal, o mesmo tempo em que desenvolvia algum tipo de hobby lucrativo.

Passei em 8 concursos públicos, fui nomeada e pedi exoneração de 6 (em 2 nem compareci). Aos 30 anos montei minha primeira empresa de design de eventos. Simultaneamente, fui mãe, atriz, cenógrafa, cantei em banda, dei aulas, formei pessoas, dei palestras e empreendi muito.

Com quase 45 anos decidi voltar a estudar. Terminei o ensino médio ao mesmo tempo que fazia a faculdade e, sem para pra respirar, engatei em duas especializações.

Simultaneamente, fui convidada a integrar a um grupo de trabalho e pesquisas no meu campo de estudos e atuação, numa empresa pública e um ano depois e assumi como responsável técnica num edital federal para diagnóstico de potencialidade em comunidades tradicionais dentro de uma Universidade Federal.

Bom, já que estava na Universidade, porque não fazer um Mestrado para otimizar o tempo?

Hoje meu Currículo Lattes parece um livro de tanto certificado. Tenho artigos publicados em revistas A1. Sou mestre, com duas graduações em áreas distintas e duas especializações em Educação e Gestão de Pessoas.

Sou superdesenvolvida em visão sistêmica. Sei otimizar recursos e oportunidades de forma multidimensional.

Quando estava entrando no mestrado, conheci a superdotação, porque minha filha caçula foi identificada como tal, e na sequencia meu filho mais velho também foi identificado.

Utilizei intuição, amor de mãe e experiência profissional para fazer o enriquecimento curricular que minha filha precisava e não conseguia acessar. Claro que tive de estudar a superdotação e acabei migrando meu projeto no mestrado e pesquisando indicadores de AH/SD em alunos da Educação Superior.

Pode se dizer que ainda hoje não sou boa aluna. Sinto dificuldades para escrever e tenho aversão à sistemas engessados. Sou inquieta.

Demorei para aceitar que Eu Sou Superdotada, me escondi, neguei, me diminuí inúmeras vezes, tentei ficar quietinha para ver se sumia…rs….Mas agora sinto orgulho.

Aprendi a usar minhas altas habilidades em meu favor.

Angela Nardelli
Turimóloga e Historiadora
Especialista em Desenvolvimento Endógeno
Articuladora em Ecossistemas Colaborativos

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Entrevista: Katia Pessanha

Katia Pessanha

Katia Pessanha

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Katia Pessanha: Não foi de repente, foi progressivo. Sou neta mais velha na família de minha mãe e me senti sempre muito incentivada e apoiada, mas não atribuía isso a qualquer característica excepcional.
O fato de ter sido sempre a melhor aluna e líder das classes durante o ensino fundamental e segundo grau e de obter as melhores colocações nos exames de admissão me levou a concluir que eu era muito inteligente, enfim foi algo pelo qual eu sempre fui reconhecida.
Ao participar de um processo seletivo na General Motors no final da década de 70 tive o feedback de que minha inteligência era 80% acima da média e novo teste no Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA) e o entusiasmo do avaliador reforçaram isso.
Um fato curioso foi que nessa época, um jovem engenheiro que trabalharia no mesmo projeto se aproximou de mim para comentar que havia visto os resultados do meu teste de QI e que havíamos tido o mesmo resultado.
O projeto acabou não acontecendo, mas esse engenheiro, recém-formado como primeiro de sua turma no ITA, se tornou meu marido e o pai da minha filha.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Katia: Expressão artística, lógica, criatividade, liderança, relacionamento interpessoal, sensibilidade, automotivação.

SM: A sua filha Érika também é superdotada? Em caso positivo compartilhe conosco como foi a experiência de criar uma filha superdotada.

Katia: Ela é doutoranda em Educação, apontada como muito inteligente por seus professores, mas não identificada como superdotada. Seu pai (meu ex-marido) e eu queríamos criar uma pessoa feliz, não necessariamente superdotada. Tentamos educá-la com muito estímulo, mas sem demasiada pressão e sem expectativas advindas da condição de ambos.

SM: De quais modos você considera que as instituições sociais poderiam colaborar com e acomodar as necessidades e interesses neurodiversos pertinentes aos adultos e também aos superdotados na terceira idade?

Katia: Estímulos, estímulos, estímulos! Somos, ao menos eu sou, famintos de estímulos.
Ambientes que proporcionem estímulos a seus colaboradores, cidadãos, alunos com práticas de aprendizado, de troca de conhecimento, de oportunidades de expressão artística são o melhor que as instituições poderiam fazer para saciar essa fome além de propiciar encontros e interações profícuas entre pessoas com interesses semelhantes.
Ao mesmo tempo, apoio psicopedagógico de qualidade seria muito bem-vindo porque o real anseio humano é pela felicidade e não por resultados excepcionais.
A sensação de solidão, de ser diferente, de não pertencer é algo que eu vejo ser comum entre superdotados.
Espaços públicos e políticas públicas que privilegiem esse desenvolvimento e essa interação serão benéficos não apenas para as pessoas mas para o país.

SM: Do que se trata seu livro Marrana?

Katia: “Marrana! Amor e intolerância em tempos de Inquisição” é um romance, um livro de suspense embalado em ação e mistério ao falar de uma mãe judia que na Amsterdã de 1633 se depara com o desaparecimento de seu filho e que resolve buscá-lo em terras onde a Inquisição perseguia como hereges cristãos-novos que persistissem em suas práticas judaicas .
Como estima-se que de cada três portugueses vindos para o Brasil Colônia um fosse judeu convertido, Marrana trata de um importante componente da identidade nacional perdido pela força da coerção.

SM: Como a escrita de Marrana influenciou a sua própria identidade enquanto pessoa?

Katia: Eu sempre quis me realizar como escritora e escrevi poemas e crônicas ao longo da vida, mas escrever Marrana, ser capaz de pesquisar e escrever um romance me definiu como escritora e me deu um senso de realização profundo e longamente desejado.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Katia: Fiz décadas de terapia com diferentes profissionais e devo a eles e à poesia minha saúde mental. Ser ouvida, ter um espaço seguro para me expor e a orientação de um profissional qualificado deveria fazer parte dos cuidados básicos de qualquer pessoa, superdotada ou não.

SM: Algum lema motivacional?

Katia: Não brigue com a vida porque ela pode ir embora.
Cunhei essa frase ao me recuperar da retirada de um carcinoma in situ no seio. Vinha de uma fase muito difícil e o tumor serviu para que eu acordasse e saísse do estado de depressão que me levava a enxergar todos os problemas como difíceis e quase insolúveis.

SM: Algum recado pra galera?

Katia: O equilíbrio entre ser alguém consciente de sua superdotação e ser uma pessoa arrogante é muito tênue.
Eu sempre me senti muito à vontade em ambientes estimulantes ou em culturas como a norte-americana ou judaica em que uma pessoa que se orgulhe de seus resultados não é vista com maus olhos como no Brasil.
Como não cair na arrogância?
Lembro-me de chegar entusiasmada em casa logo nos primeiros anos de vida escolar, anunciando um bom resultado aos quatro ventos. Meu pai, embora estimulasse o desenvolvimento pleno do meu potencial, me lembrou que eu deveria buscar exercer a modéstia, que cada pessoa tem um talento diferente e que eu jamais deveria humilhar as pessoas.
Desenvolver plenamente meu potencial sem me deixar dominar pelo orgulho, a competição e os impulsos egocêntricos tem sido o desafio de uma vida.
Ao longo de minha vida tive outros mestres, convivi com muitos superdotados e aqueles que eu mais admiro e que observo serem mais felizes são aqueles que exercitam essa superdotação como um serviço, sabendo como disse Saramago que “em terra de cegos só aumenta a responsabilidade dos que tem olhos”.

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Entrevista: Fernanda Iris

Fernanda Iris

Fernanda Iris

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Fernanda Iris: Isso.
Eu também não tinha nenhuma consciência.
Sempre me acharam diferente das demais crianças.
E após ouvir inúmeras vezes dessas pessoas eu comecei a observar e reconhecer essas diferenças.
Entretanto, nunca dei muita importância.
Por diversas vezes tentei até me igualar aos demais considerados neurotipicos.
Contudo, o resultado foi sofrimento psíquico.
Sempre fui muito elogiada com todos os indicativos de um sd.
Como sempre tive sucesso no que eu gostava, devido a isso não ligava.
Após alguns problemas comecei a investigar estas minhas diferenças como: meu raciocino rápido, e forma atípica de pensar.
Assim como também procurei alguns profissionais do âmbito, que chegaram à conclusão de Superdotação, no entanto, não tive nada formal.
Hodiernamente, por necessidade de resolver minha vida acadêmica, procurei um profissional capacitado para fazer uma avaliação minuciosa.
Isto posto, fui submetida a vários testes.
No momento que estava realizando os testes não vou mentir, me gerou um incômodo, pois eu queria mais saber como funcionava do que responder.
Assim sendo, a minha Neuropsicóloga me submeteu a uma avaliação que foram utilizados como instrumentos avaliativos: uma entrevista de anamnese, teste psicométricos padronizados e autorizados pelo Conselho Federal de Psicologia tais como: WAIS – III, Teste de Aprendizagem Auditivo Verbal (de Rey) – RAVLT, o BPA- Bateria Psicológica para Avaliação da Atenção, o Teste de Pirâmides coloridas de Pfister, a Bateria Fatorial de Personalidade- BFP, exercícios de avaliação qualitativa e observação do comportamento durante a execução das atividades.
Que teve avaliada as áreas: funções cognitivas de linguagem, organização espacial, memória, funções executivas, atenção, pensamento, leitura, escrita, cálculo, funções espaciais e visioconstrutivas através do funcionamento dos fatores neuropsicológicos
de regulação e controle voluntariados do comportamento, retenção áudio-verbal , estado de alerta (fator de ativação geral inespecífica) e ativação emocional inespecífica.
Após todos os teste acima citados, de acordo com os resultados qualitativos e quantitativos obtidos, ela chegou à conclusão que eu apresento inteligência superior e altas habilidades.

SM: Quais são as suas áreas de alta habilidade?

Fernanda: Após análise foi chegado a tese que eu tenho altas habilidades verbal que diz respeito a conceitos: verbais, linguagem, ideias, vocabulário, compreensão e interpretação de textos e situações que envolvem conhecimento social ou cultural.

SM: Que tecnologia para os deficientes visuais você idealizou ainda bem jovem?

Fernanda: Minha idealização de tecnologia para os deficientes visuais, era de criar um método auditivo nos transportes públicos para informar a localização e nome do ônibus, para que assim eles pudessem saber e viverem de forma mais independente, para que não precisem da ajuda de outrem, no momento de desempenhar tal tarefa.
E essa ideia, foi após uma curiosidade em saber como eles sabiam o seu local de chegada.
Eu sei que devido à falta deste sentido visual, os demais sentidos são mais desenvolvidos.
Contudo, a visão possui sua importância como todos nós sabemos.

SM: Sobre o que você escreve? O que lhe atrai na filosofia?

Fernanda: Eu escrevo mais sobre tudo que envolve a humanidade.
Meu fascínio pela filosofia é devido a ser a esfera que estuda as questões gerais e fundamentais relacionadas com a natureza da existência humana.

SM: Conte para nós como foi sua experiência na graduação de biomedicina, o que não funcionou?

Fernanda: Foi uma experiência boa, porém eu percebi que meu objetivo era algo mais aprofundado como a Medicina .
Tanto que pretendo fazer Medicina e aproveitar as disciplinas cursadas em biomedicina que também fazem parte do curso de medicina.

SM: Qual área do direito lhe fascina mais?

Fernanda: As áreas jurídicas que me fascinam são as que envolvem direitos humanos.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Fernanda: Sobre o aconselhamento sempre precisei, mas nunca fiz.
Neste momento que eu vou começar a fazer, porém , como ainda não fiz não possuo nenhum aconselhamento.
Entretanto, devido algumas pesquisas sobre o assunto percebo que me trará muitos benefícios.

SM: Algum lema motivacional?

Fernanda: A aceitação, conhecimento e a busca para compreensão da Superdotação nos faz estimular nossas habilidades.
E não deixa que a emoção iniba nossa capacidade superior.
Somos como um todo, e não só o intelecto.
Diante disso, trabalhar nossas emoções é crucial.

SM: Algum recado pra galera?

Fernanda: Amar sua superdotação, pois é que nem a cor dos olhos é algo inato que não pode mudar.

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Relato Pessoal: Fernanda Iris

Fernanda Iris

Fernanda Iris

Desejado pelos que não possuem, negligenciado pela sociedade e omitido
pelos que detêm.

Bem-vindo ao mundo dos invisíveis, sim muitos nem sabem da nossa
existência. Ou nutrem uma ideia utópica da superdotação.

Prazer, possuo SD/AH, me chamo Fernanda Iris, tenho 28 anos e venho
contar desde minha gênese até a fase hodierna.

A princípio, cabe evidenciar que eu sempre fui uma criança divergente
das demais. Com todos indicativos de indivíduos com superdotação/
altas habilidades.

Uns dos meus indicativos que sempre foram bem evidentes são:
Vocabulário avançado; perfeccionista; crítica; contestadora; grande
interesse por temas abordados por adultos; facilidade de expressão;
gosto de trabalhar de forma individual dentre outros. Além disso, Q.I
superior.

Aprendi a ler muito cedo com quatro anos e chamada para ler nos
lugares devido a deter de uma ótima leitura.

Interesse pela etimologia das palavras. Sempre muito curiosa não tive
uma fase do porquê, vivo nesta fase que a cada momento fica mais
intensa. Curiosidade demasiada que chegava a desmontar brinquedos para
saber como eram feitos. Com uma comunicação além para minha faixa
etária e convívio social. Capacidade de liderança. Gostava de dialogar
com os adultos e os menores eu liderava, considerada mandona por
alguns colegas.

Na escola nunca tive dificuldades, contestava os professores. E muitos
não gostavam, outros até ouviam e concordavam com meus argumentos sobre
determinada questão.

Sempre gostei do ambiente escolar até começar a precisar ter que
sempre esperar os demais aprenderem, devido a minha facilidade de
assimilar o conteúdo. Isso até então eu entendia e respeitava, porém
ser parado pelos professores você sabendo seu potencial, é ruim.

Ser barrada quando você possui uma necessidade de avançar. Necessidade
de saber mais. Querer adquirir conhecimento, prazer em aprender.
Gostar e admirar assuntos mais complexos. Chegou um certo instante que
pra mim a escola não era mais um lugar de obter conhecimento e sim de
repetir ideias, e até hoje possuo esta concepção. Para quem possui uma
idiossincrasia de originalidade, imaginativa, criativa, não
convencional é ruim viver em um sistema educacional deste.  E então,
eu refletia do que adianta ter uma inteligência superior e não poder
fazer uso dela, se torna algo inútil. Dependendo do docente, eu
ajudava até os demais colegas a compreender o assunto.

Com interesses diversificados. Uma criança que não é neurodivergente,
falando especificamente da superdotação/ altas habilidades, e com base
na minha experiência, os meus colegas  costumavam falar que queriam
fazer esporte ou só dança ou até em alguns casos os dois. Enquanto eu
queria fazer: dança, música, esporte, artes e moda.

Ainda na infância fui líder de um grupo de dança. Organizava, ensaiava,
criava as danças e sempre com muita facilidade para a área artística. Eu
criava brinquedos, histórias, roupas, etc. Preferência por brinquedos
que exercitassem a mente. Como também ficava pensando em criações para
melhoria da humanidade uma delas logo depois foi criada, é uma
tecnologia que contribui para os deficientes visais. Como também,
pensei e penso em várias outras.

Fui dançarina, modelo, estudante de biomedicina.

Atualmente sou musa, escrevo, estudante de direito, pretendo cursar
filosofia, pois em muitos dos meus instantes pensantes falam que fico
filosofando (risos), medicina, letras, psicologia. Design de ambiente
internos etc….

Vejo isso como normal, tenho prazer e gosto de ler, saber e estudar
áreas diversificadas, alguns temas possuo mais interesses. Contudo,
para grande parte da Sociedade não é normal e gera o incômodo esta
minha gama de interesse. As pessoas perguntam você deseja fazer tudo
isto? E ficam impressionados com a minha confirmação.

No momento que eu respondo automaticamente vem na minha mente: Isaac
Newton foi um astrônomo, alquimista, filósofo natural, teólogo e
cientista inglês, mais reconhecido como físico e matemático. E eu não
vejo problemas em fazer isso tudo.

Enquanto as pessoas analisam de forma superficial eu faço uma análise
minuciosa. Sempre autodidata e pesquisadora nata.

Após ter inúmeros rótulos e realizar uma reflexão cheguei a conclusão
do propósito que eu sou tão intensa, pois sou ou 0,8 ou 8.000, e após
conversas com outros sds percebi que eles também possuem essa mesma
peculiaridade e que conforme algumas pesquisas a superdotação e
intensidade andam lado a lado. Desta maneira, comecei a procurar
entender mais como meu cérebro e minha emoção funcionavam. A única
parte negativa é minha intensidade emocional em razão que, eu sinto
minhas emoções muito fortes tanto as boas como as ruins.

Diante de tudo que foi evidenciado, admito que sou feliz mesmo que a todo
momento esteja me sentindo diferente. Eu no pretérito dizia que me sentia
uma E. T. (risos).

Passei por um momento difícil como qualquer outro ser humano,
todavia, foi bom para eu procurar e encontrar indivíduos
neurodivergentes, busquei uma profissional para reabilitação
neuropscológica que irá contribuir para amadurecimento das funções
executivas. E fazer um equilíbrio entre o Q.I. verbal que foi o que
deu mais elevado e o executivo.

Percebi que tentar ser igual aos demais só me trouxe infelicidade,
frustração, ansiedade e angustia. Presentemente eu aceito minha
superdotação visto que, não é algo que eu escolhi é como eu sou. Para
exemplificar, a superdotação, assim como a cor dos olhos ou a sua
altura não é algo que você pode escolher. É como eu fui projetada. Eu
sou biologicamente projetada para ver o mundo de determinado modo. E é
algo que eu não posso mudar. Já até tentei e a consequência foi
sofrimento psíquico.

Hoje procuro aprender o máximo possível sobre a superdotação para o
meu bem-estar.

E vale deixar nítido que eu sou superdotada e não perfeita.

Que eu não sei tudo e a superdotação tem relação maior com o meu potencial
para aprender. Coisa que também muitas pessoas não vão entender.

Destarte, possuo uma vontade extensa em tornar a Sociedade melhor.

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Relato Pessoal: Katia Pessanha

Katia Pessanha

Katia Pessanha

Com sete anos de idade, ao aprender a ler e escrever, eu defini o que queria ser quando crescesse: queria ser escritora!
Foram muitas voltas, foram muitos anos, mas quase cinquenta anos depois, não posso descrever a satisfação quando me perguntam qual minha profissão e eu posso finalmente dizer: Escritora!
Ao longo da vida poderia ter dito “poetisa” já que nunca deixei de escrever poemas, já que a poesia me salvou, me permitiu refletir, sonhar, me expressar, mas eu sempre tinha outra função mais “respeitável” da qual tirava meu sustento e que eu podia considerar como profissão.
No entanto, eu sempre soube que cada uma dessas profissões respeitáveis seria temporária.
Foi para ser escritora que, no final da adolescência, resolvi ser secretária.
Eu vasculhava os cadernos de emprego e não via um único anúncio para escritores, professores de línguas ou jornalistas mas os anúncios buscando secretárias bilíngues cobriam páginas do jornal.
Fiz o curso técnico, comecei a trabalhar em grandes empresas e planejava viver e estudar em São Paulo. Porém, aos 20 anos me casei com um engenheiro aeronáutico do CTA e me mudei para São José dos Campos.
Consegui um emprego na Johnson & Johnson onde pude trabalhar como secretária bilíngue e continuei a escrever poesias, crônicas e pequenos textos que deixava engavetados.
No nosso primeiro ano de casados, ficamos grávidos e isso provocou uma nova mudança profissional.
Quando minha querida filha Érika nasceu, eu decidi parar de trabalhar para ficar com ela para acompanhar seu primeiro ano de vida resistindo à tentação de uma promoção e de um generoso aumento de salário.
Antes que esse ano terminasse, meu marido foi convidado a fazer um estágio na Califórnia, no Stanford Research Institute e fomos de mala e cuia para os Estados Unidos.
Ali pude aperfeiçoar meu inglês, redigir composições nesta língua e receber o incentivo da professora para seguir a carreira de escritora. Redigia mensalmente cartas para meus familiares com o título de “Vivendo na Gringolândia” onde relatava nosso dia a dia em outro país.
Mas, foi nos EUA que minha carreira profissional sofreu nova guinada.
Ao fazer um curso de atualização tecnológica para secretárias, vislumbrei um novo mundo: a automação de escritórios. Processadores de texto, fax, correio eletrônico, videoconferências, tudo isso era absoluta novidade nos escritórios do Brasil no início da década de 80.
À pergunta feita pela professora: o que você quer fazer nos próximos 5 anos, eu respondi: quero ajudar a implementar a automação de escritórios no meu país.
Fiz cursos, mergulhei na biblioteca da faculdade, tive livre acesso ao Stanford Research Institute, na época uma das instituições de ponta na pesquisa deste tema, visitei a IBM local e participei de um congresso que foi determinante para o meu futuro.
No Congresso de Automação de Escritórios no Moscone Center em São Francisco, eu conheci o vice-presidente de Finanças da Johnson & Johnson onde eu havia trabalhado e lhe disse que eu estava decidida a levar essas inovações para o Brasil.
Quando retornei, meses depois, a empresa estava concluindo o processo seletivo para alguém que seria responsável por automação de escritórios na empresa e meu nome tinha a recomendação deste vice-presidente.
Cheguei bem a tempo de ser entrevistada e admitida.
Foi um período de muito crescimento intelectual que requereu uma intensa dedicação. Fiz uma pós-graduação em análise de sistemas e não parei mais de estudar para me manter atualizada em uma área onde mudanças são uma constante.
Além de todo o aprendizado tecnológico, havia o desafio da competição corporativa, dos jogos de poder que eu nunca havia jogado enquanto secretária.
Eu me sentia dividida, deixava minha filha chorando na creche, entrava no carro e era minha vez de chorar. Começava a trabalhar ainda abalada, mas ao revê-la no final do dia era a empresa que ocupava minha mente e eu levava um tempo para me “encaixar” novamente, para estar presente.
Felizmente, como pesquisador, seu pai tinha maior disponibilidade de tempo do que eu. Nossa empregada era excelente, meus pais moravam a 40 quilômetros e eu não fui sobrecarregada por tarefas domésticas.
Como os embates pelo poder na empresa me incomodavam cada vez mais, pensei em ser tradutora técnica o que me colocaria mais próxima da carreira de escritora. Eu havia entregue o “Vivendo na Gringolândia” para o Henfil e recebera dele uma carta maravilhosa que guardo até hoje.
Ao buscar o Datanews, o mais conhecido jornal de informática da época, para oferecer meus serviços de tradução, recebi do editor o pedido de um artigo sobre automação de escritórios.
Um artigo! Publicado! Parecia a realização de um sonho, mas me colocou mais longe da carreira de escritora porque um grande centro de treinamento, a Compucenter, me convidou para ministrar seminários e comecei então nova carreira, tornei-me empresária.
Aproveitando minha experiência na Johnson & Johnson, montei uma empresa de consultoria e treinamento que visava o mercado do Vale do Paraíba porém a demanda maior acabou ocorrendo em São Paulo, um mercado mais maduro.
Eu chegava a passar a semana toda em São Paulo, longe da minha família mas amava ensinar, apoiar empresas com soluções tecnológicas e, graças a isso, conseguíamos ter um padrão de vida excelente.
O comichão por escrever voltou a me assaltar e, em 1987, como despedida da área, reuni meu conhecimento sobre o tema da automação de escritórios e submeti um livro para a editora Mc-Graw Hill. Quando o editor me ligou confirmando que sim, eles queriam publicar o livro, eu mal podia conter minha alegria. Desliguei e saí saltando e gritando de alegria. Um livro!!!!
Eu estava decidida a me dedicar às traduções e à literatura.
Mas, depois deste livro, um dos primeiros sobre o tema no Brasil, meu trabalho como consultora só fez aumentar!
Depois de dois anos de divisão entre São Paulo e São José dos Campos, me mudei para São Paulo com minha filha e meu casamento terminou meses depois.
Eu tinha 30 anos.
Nos anos seguintes criar minha filha praticamente sozinha em São Paulo foi bastante desgastante mas a poesia foi minha companheira constante, meu ponto de equilíbrio, minha tábua de salvação:
“Aqui me tens, poetisa e analista.
Duas faces, duas pistas.
Meu eterno vai-e-vem.”
Publiquei outro livro em 2006 e continuei a escrever artigos e a dar entrevistas para a mídia especializada. Como consultora, instrutora ou autora, ficava cada vez mais claro que a comunicação era a chave para meu sucesso profissional.
Por fim, aos 40 anos, farta de crises e planos econômicos sucessivos, desisti de ser empresária e resolvi voltar ao mercado de trabalho.
Ao disputar uma vaga de consultora na Lotus, uma empresa americana de software, eu fui “cooptada” pelo diretor comercial para sair da minha zona de conforto trabalhar em vendas.
O trabalho externo de atender às necessidades dos clientes com soluções tecnológicas não mudou muito e eu me sentia extremamente gratificada por participar de iniciativas com grande impacto social ao atender ao governo estadual.
No entanto, voltar a trabalhar em uma corporação que depois foi integrada à IBM, a maior empresa de informática do mundo, requereu toda a maturidade que eu havia acumulado com o passar dos anos e eu até que consegui seguir adiante por algum tempo…
Cotas, planos de vendas, hierarquia, processos, reuniões, eu já não era a consultora que trabalhava sozinha ou em um pequeno grupo com total autonomia.
Passado o período de alegria inicial quando eu me sentia em um transatlântico depois de ter cruzado o oceano em uma pequena lancha, toda essa estrutura me tolhia, os jogos competitivos me desgastavam e eu sentia a vida como um imenso fardo agravado por um relacionamento que já durava anos e que me infelicitava tremendamente.
Eu via meus planos de ser escritora cada vez mais distantes já que a “cenoura” dos bônus e incentivos fazia com que eu trabalhasse 10 horas por dia em média.
Felizmente um carcinoma “in situ” retirado do meu seio direito em 2003 me fez confrontar a mortalidade. Parada geral de 2 meses para refletir enquanto me recuperava da cirurgia e fazia a radioterapia e a escrita mais uma vez me salvou.
Escrevi muito nesse período, revi minha vida, transcrevi sonhos e reuni os escritos em um livro que nunca cheguei a publicar.
Era uma exposição enorme de minha alma despida, mas foi um trabalho de análise interna, acompanhada por um terapeuta antroposófico que me transformou radicalmente.
A vida deixou de ser um fardo e passou a ser uma benção.
Rompi o relacionamento e mudei minha postura profissional.
Passei a enxergar a organização da empresa não como um fardo mas a me beneficiar da estrutura corporativa que me apoiava, fiquei leve e as pessoas disseram que eu mudei da água para o vinho.
Os resultados de venda daquele ano foram excepcionais e eu fui capaz de comprar um apartamento excelente praticamente à vista.
Quando comuniquei à IBM que não gostaria mais de trabalhar em vendas, recebi uma missão que parecia vinda dos céus: ser responsável pelo relacionamento da IBM com as universidades.
Foram cinco anos fantásticos em que eu implementei um programa de voluntariado de funcionários junto às universidades e com o apoio de 200 voluntários conseguimos multiplicar exponencialmente o número de escolas que utilizavam o software IBM em seus cursos de tecnologia.
O contato com o meio acadêmico, com instituições de pesquisa, professores e, especialmente, com voluntários e alunos me contagiava de fervor pela inovação.
Em 2010, nova missão me encantou: ajudar os vendedores de software a perseguir o autodesenvolvimento, a fazer vendas com o perfil de consultoria, agregando aos clientes o valor do seu conhecimento.
Nas duas missões eu tinha que criar textos curtos, diferentes, instigantes para romper o bloqueio das caixas postais lotadas e motivar as pessoas para a ação.
Foram desafiantes exercícios para minha escrita, além de eu me sentir dando de volta o que tinha aprendido ao longo da vida, não mais preocupada com questões do ego, com competições mas com fazer o que tivesse sentido, propósito.
Ainda em 2010 eu descobri minha possível ascendência marrana, as possíveis raízes de minha família materna que teriam sido judeus convertidos à força. Mergulhei no universo judaico e na história da Península Ibérica, da Holanda e do Brasil colonial.
O que eu faria com todo o material pesquisado, com o curso de História do Brasil Colonial I que fiz como ouvinte na USP?
Bem, eu já estava pensando na aposentadoria e sonhava em fazer um doutorado em História para ser professora universitária.
Uma noite, ao voltar para casa, um pensamento quase me fez bater o carro.
O que aconteceria se eu morresse sem ser professora de história?
Nenhum sentimento.
E se eu morresse sem publicar um romance?
Dor profunda no peito! Ali ficava claro que estava chegando a hora de eu parar de adiar meus sonhos.
Fazer um doutorado para ser professora de história para poder me aposentar e escrever??? Que caminho mais torto!
Vi que era melhor começar a escrever imediatamente o romance para o qual eu já tinha muitas idéias e seguir trabalhando na IBM.
A IBM pagou minha formação em coaching que tinha tudo a ver com o trabalho que eu desenvolvia ali e passei a considerar essa carreira como carreira suplementar à de escritora quando eu me aposentasse.
Em 2012 fui morar em Portugal com meu noivo, Ayrton, um executivo brasileiro da IBM que estava em designação na Europa desde 2007.
Passei a trabalhar remotamente para a IBM Brasil. Eu já havia visitado Amsterdam, a Itália e Israel em minhas pesquisas e não era a primeira vez que ia para a Península Ibérica mas viver em Portugal ampliou meu raio de pesquisa e meu romance cresceu muito, tanto o romance que eu vinha crescendo como o romance com meu noivo com quem me casei em janeiro de 2013.
De Portugal fomos enviados para o México em fevereiro de 2013, prossegui escrevendo o livro, atuei como gerente estratégica de gestão de mudanças e coach de vários líderes em um projeto que terminou inesperadamente em outubro de 2013. A IBM México se comprometeu a encontrar uma vaga para mim já que meu marido deveria ali continuar.
No início de 2014 foi com muita tranquilidade que recebi a notícia que eu seria incluída no programa de cortes que demitiu milhares de pessoas no mundo inteiro caso a IBM México não me oferecesse algo de imediato.
Eu não apenas estava preparada, eu desejava isso. Havia trabalhado muito, poupado, feito reservas e me dispunha a diminuir o consumo em troca de qualidade de vida e liberdade para perseguir meus sonhos em período integral.
Meu marido e eu decidimos que era hora de voltar para o Brasil, para junto de nossos familiares, seus filhos e netos, minha filha e, principalmente, meus pais que sofreram problemas graves de saúde durante minha ausência e que precisavam tanto de mim por perto.
Ayrton pediu para ser incluído no programa de cortes também, fomos ambos desligados da empresa e voltamos para o Brasil em julho de 2014 acompanhados de uma cachorrinha resgatada e adotada no México que é nossa paixão.
Resolvemos tirar um período sabático para nos dedicarmos à mudança internacional, ao convívio com os familiares, à organização da papelada, aos cuidados com a saúde e à nossa casa.
Cuidar da casa que compramos em um condomínio fechado na zona rural de Paulínia tem me dado muito prazer. Ela sofreu pequenas e intermináveis reformas, fizemos sua adequação ao uso sustentável de água e energia, a decoramos e organizamos. Depois de uma vida inteira como um ser urbano e apressado, hoje cultivo um jardim e o prazer de ver um pé de jasmim florescer ou de sentir o aroma do alecrim e do manjericão são insubstituíveis.
Enfim, colocamos a vida em ordem e agora sim estou criando uma rotina de aposentada com muitos objetivos gratificantes.
Comecei a trabalhar no projeto da publicação do meu romance a divulgar meu trabalho como coaching, a propor iniciativas comunitárias de sustentabilidade no condomínio onde vivo.
Mas o chamado da experiência de gestão e desenvolvimento de pessoas, a tentação de ficar na zona de conforto ainda fizeram com que eu tivesse alguns desvios. Em 2015 e 2016 atuei como coach em São Paulo e, em 2017, fui eleita presidente da Associação de Moradores do residencial onde vivo.
Apenas no final do ano passado tive forças para lutar pela publicação do meu livro.
Percebi que o que vinha fazendo em paralelo às atividades principais: lutar pela publicação com auxílio da Lei Rouanet, buscar patrocínios, participar de concursos eram apenas maneiras de adiar o sonho, de não ser fiel a mim mesma, de colocar nas mãos dos outros a realização do meu projeto de vida.
Publiquei Marrana! pela Amazon primeiro na versão Kindle e na versão impressa usando meu conhecimento anterior de marketing e vendas para lançar essas versões e adquirindo outros para atuar no mundo digital, para criar uma plataforma de conexão com leitores, enfim, para tomar em minhas mãos a responsabilidade não apenas pela criação, mas pela comercialização do meu produto querido.
Encontrei na Primavera Editorial uma grande parceira, busquei aliados no mundo judaico e tenho nas amigas e amigos uma grande rede de apoio.
“Marrana! Amor e intolerância em tempos de Inquisição” é uma realidade, um livro impresso com ilustrações de mestres da pintura holandesa, acompanhado de uma playlist do Spotify com músicas que me inspiraram.
Em eventos de lançamento, faço questão de embalá-lo em saquinhos de tecido e de oferecer a meus convidados um aroma exclusivo, desenvolvido a partir de elementos da história.
Agora, olhando para trás, tudo parece fazer sentido, eu tinha muito o que amealhar antes de me dedicar integralmente à escrita, eu precisava ter conteúdo, vida, experiência. Abençoados desvios!

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Relato Pessoal: Daniel Cruz

Daniel Cruz

Daniel Cruz

Como seria a vida de um adulto que tenha passado pela juventude sem pleno desenvolvimento de seu potencial?

Me chamo Daniel e durante a minha juventude, fui um garoto quieto, sempre em meu mundo, meus pensamentos e meus projetos, fiz pouquíssimas amizades, percebi que alguns se aproveitavam de mim por fazer todos os trabalhos em grupo de forma individual (confesso que o único beneficiado fui eu). Os professores gostavam de mim, sempre me elogiaram, mas eu tinha dificuldade em sustentar a atenção, acredito que de certa forma as altas habilidades compensaram de alguma forma meu TDAH.

Aos 17 anos devido a algumas comorbidades como ansiedade, problemas com habilidades sociais e frustrações, decidi buscar ajuda profissional onde fui diagnosticado com TDAH e superdotação (hoje tenho 20), mais um caso de dupla excepcionalidade, após isso, passei por uma busca incessante em descobrir o funcionamento de minha mente e da mente humana em geral, confesso que sou fascinado pelo assunto.

Sempre tive bastante facilidade em algumas áreas de meu interesse por isso ouvi e ouço por diversas vezes coisas como “não consigo acompanhar seu raciocínio”, “você é superdotado”, “você é acelerado”, mas o grande ponto que quero chegar é que geralmente por conta de interesses profundos peculiares não pude construir base sólida em habilidades sociais, também por não ter empatia com assuntos fúteis e conversas sem sentido (pra mim).

Algumas destrezas e particularidades:

– Aprendi tocar 4 instrumentos musicais aos 10 anos de forma autoditada, mesmo achando que essa não é uma de minhas habilidades;
– Aos 12 empezei a aprender idiomas, inicialmente estudei japonês também de forma autoditada, o qual consegui maior “sucesso”, visto que geralmente não levo meus “milhões” de projetos a frente;
– Com 14 criei e configurei 3 jogos online, coisas que achei simples; no período escolar, tive algumas façanhas, fui adiantado por saber ler e escrever, mas confesso que nunca fui o melhor da turma, apenas tinha fluência em aprender, mas por não ter interesse nas atividades acadêmicas e não concordar com o sistema de educação, meus pais tiveram problemas em perceber o que acontecia comigo, levando em consideração que a sincronia entre o TDAH e AH/SD dificulta ainda mais o prévio conhecimento na fase infantil;
– Gosto de resolver todo tipo de problema e de todas as formas buscar suas resoluções;
– Sou criativo, busco coisas novas a todo momento, também bastante pensante, buscando compreender tudo que rodeia a humanidade e o universo;
– Sou hipersensível às emoções podendo ir até os extremos da tristeza ou o extremo da euforia, felicidade, sentidos como tato, audição, dentre outros;

Concluí o ensino médio com 16 anos, durante esse período fui um aluno mediano, não estudava os assuntos que me eram passados, apenas aprendia e estudava aquilo que gostava, e que não tinham relação com meus estudos relacionados a escola, confesso que fui um pouco prejudicado por isso. Somente com 20 anos decidi cursar faculdade. Na faculdade participo de um grupo de amigos, mas sou muito introspectivo, não participando de conversas corriqueiras. Tenho boas notas mas não presto atenção nas aulas, algumas coisas por já saber, outras por não ter interesse, mas ainda assim consigo me sair bem (risos). Durante o ensino médio trabalhei na área comercial no turno vespertino, pois trabalhava pela manhã, assim que conclui passei a trabalhar em período integral até hoje, restando tempo para estudar o que gosto apenas de madrugada após chegar em casa.

Por conta disso, busco de todas as formas a compreensão e conhecimento para divulgar informações sobre superdotação na fase adulta, existe uma inviabilização e negligência acerca desse período, como se as altas habilidades fossem restritas e exclusivas apenas aos menores de idade. Acredito que o autoconhecimento é o ponto chave para um pleno desenvolvimento em aspectos cognitivos, habilidades sociais e inteligência emocional.

Provavelmente não falei muita coisa nesse relato e futuramente terei desejo em alterar, mas por enquanto, esta é uma parte de minha vida e como eu enxergo as coisas.

“Uma forma de utilizar inteligência é passar informações complexas de forma acessível.”

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Entrevista: Marcos

Marcos preferiu não se identificar com nome completo nem foto de rosto por razões pessoais

Marcos preferiu não se identificar com nome completo nem foto de rosto por razões pessoais

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência do conceito de superdotação, contextualize para nós como você se familiarizou com o contexto neurodiverso.

Marcos: Desde criança eu me destaquei entre todos os demais da sala de aula. Nunca havia pergunta à qual eu não oferecesse resposta no ato ou caso não pudesse, sempre busquei pela resposta. A dúvida me incomoda, quero responder a cada uma. Muitas coisas me impediram de me enxergar como superdotado, mas considero que acabei inserindo em minha vida muita informação. Através de material de leitura, da faculdade, documentários. Parece arrogante de minha parte posto nestes termos, mas sou movido à racionalidade. Se há algo que eu necessite me aprofundar, é exatamente o que eu faço.

SM: Você tem um filho superdotado. Em quais áreas as altas habilidades dele têm sido expressas?

Marcos: Outro dia ele apresentou aos seus colegas de escola Stephen Hawking. Muito surpreso veio me indagar do porquê de seus colegas não o conhecerem. Posso dizer que venera como eu os mistérios do cosmos. Como eu, é fã de Carl Seagan, quer ser astrônomo pela USP. Além disso, ele é apaixonado por história. Principalmente história europeia. Lê muito sobre Cartago, uma das suas maiores paixões.

SM: Já considerou fazer uso de aconselhamento psicopedagógico? E para o seu filho? Comente seu posicionamento.

Marcos: Já busquei algumas alternativas que me tangenciaram para esta autodescoberta. Acredito que eu e minha família somos felizes por estabelecer um diálogo e isso dispensa tais alternativas.

SM: Apresentaste teu filho a alguma iniciativa de apoio aos alto habilidosos? Em caso positivo fale um pouco mais sobre essa experiência, em caso negativo por que não?!

Marcos: Não o apresentei. Contatei uma Associação, mas a idade dele impossibilita quaisquer auxílios psico-pedagógicos. Segundo tal associação, após os doze, que é idade do meu filho, não há como auxiliar no direcionamento dos estudos, mas tão somente atestar sua habilidade. E somente isso não é de meu interesse.

SM: Quais cursos universitários você cursou e o que lhe atraiu em cada um deles?

Marcos: Fiz dois anos de letras, abandonei. Atualmente faço engenharia. Não fui muito incentivado por meus pais, ou mesmo pelo ambiente em que vivi por anos a enveredar pelo caminho acadêmico. Acredito que por isso não sou formado. Muito me atraiu no curso de letras o conhecimento etimológico das palavras. Como se originavam, seus radicais originados em grego ou latim. Lá tive aulas de latim. Sempre fui fascinado em línguas estrangeiras. Desde os doze eu estudo por conta o inglês. Hoje, não posso me dizer fluente em inglês porque nunca pude sair do país. Mas continuo aprendendo através de aplicativos. Além do inglês sei um pouco de francês, italiano e espanhol. A engenharia acabei escolhendo, porque através dos livros, fiquei fascinado pelo modo como se aplica física e matemática para se descobrir o universo. Por exemplo, ao assistir o seriado “Cosmos” de Carl Seagan, muito me impressionou a teoria de Kepler que instaura uma relação matemática entre a distância dos planetas ao sol e o seu respectivo período de órbita, que mantêm uma proporção única para todos os planetas. Isso é fascinante. Escolhi um curso onde eu poderia me aprofundar tanto em física como em matemática. Mas ainda desejo fazer mais, quero continuar estudando.

SM: Quais foram suas dificuldades adaptativas no contexto acadêmico? Que atendimento ou acomodações você gostaria que entrassem em vigor a fim de tornar o curso superior tolerável ou até mesmo prazeroso?

Marcos: Gostaria que o curso se iniciasse pelo fim. Parece besteira, mas faz sentido quando você vê alunos de engenharia começando a testar as resistências de colunas lá no final do curso. É como se você só pudesse dirigir no último dia do curso pra conseguir uma habilitação.

SM: Quais mudanças estruturais você gostaria de ver efetivadas num futuro próximo visando o melhor aproveitamento das instituições pelo seu filho superdotado? De que modo podemos enquanto indivíduos contribuir para a integração neurodiversa no substrato social?

Marcos: Eu acredito num mundo onde nós poderemos enxergar que nosso maior trunfo é a tecnologia. Ainda que existam outras necessidades humanas, como a psicológica e a médica, por exemplo, a tecnologia nos impulsiona ao futuro inegavelmente de maneira a obtermos sempre o melhor aproveitamento de nossos meios, e isso inclui todas as demais áreas mencionadas. Creio num futuro onde as escolas sejam tão somente voltadas ao desenvolvimento tecnológico.

SM: Algum lema motivacional?

Marcos: “Se eu pude ver além, é porque estive sobre os ombros de gigantes”

SM: Algum recado pra galera?

Marcos: Devemos abandonar a industrialização de pensamento. As pessoas estão carentes de identidade. Por isso tentam fazer de tudo para parecerem diferentes. Por isso somos hoje obrigados a suportar coisas que antes não eram admitidas, como, por exemplo, essa exacerbada exposição quase pornográfica de mulheres na TV. Há quase 20 anos eu não vejo Silvio Santos, Faustão, Gugu ou quaisquer programações abertas. Simplesmente vou no youtube e busco por documentários. De preferência Carl Seagan e seu inestimável “Cosmos” que é uma herança para a humanidade tão valiosa (no meu conceito, ao menos) quanto as “Quatro Estações” de Vivaldi. As informações estão no ar, quase são infinitas. Então, por que todos só falam das mesmas coisas?

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