Relato Pessoal: Katia Pessanha

Katia Pessanha

Katia Pessanha

Com sete anos de idade, ao aprender a ler e escrever, eu defini o que queria ser quando crescesse: queria ser escritora!
Foram muitas voltas, foram muitos anos, mas quase cinquenta anos depois, não posso descrever a satisfação quando me perguntam qual minha profissão e eu posso finalmente dizer: Escritora!
Ao longo da vida poderia ter dito “poetisa” já que nunca deixei de escrever poemas, já que a poesia me salvou, me permitiu refletir, sonhar, me expressar, mas eu sempre tinha outra função mais “respeitável” da qual tirava meu sustento e que eu podia considerar como profissão.
No entanto, eu sempre soube que cada uma dessas profissões respeitáveis seria temporária.
Foi para ser escritora que, no final da adolescência, resolvi ser secretária.
Eu vasculhava os cadernos de emprego e não via um único anúncio para escritores, professores de línguas ou jornalistas mas os anúncios buscando secretárias bilíngues cobriam páginas do jornal.
Fiz o curso técnico, comecei a trabalhar em grandes empresas e planejava viver e estudar em São Paulo. Porém, aos 20 anos me casei com um engenheiro aeronáutico do CTA e me mudei para São José dos Campos.
Consegui um emprego na Johnson & Johnson onde pude trabalhar como secretária bilíngue e continuei a escrever poesias, crônicas e pequenos textos que deixava engavetados.
No nosso primeiro ano de casados, ficamos grávidos e isso provocou uma nova mudança profissional.
Quando minha querida filha Érika nasceu, eu decidi parar de trabalhar para ficar com ela para acompanhar seu primeiro ano de vida resistindo à tentação de uma promoção e de um generoso aumento de salário.
Antes que esse ano terminasse, meu marido foi convidado a fazer um estágio na Califórnia, no Stanford Research Institute e fomos de mala e cuia para os Estados Unidos.
Ali pude aperfeiçoar meu inglês, redigir composições nesta língua e receber o incentivo da professora para seguir a carreira de escritora. Redigia mensalmente cartas para meus familiares com o título de “Vivendo na Gringolândia” onde relatava nosso dia a dia em outro país.
Mas, foi nos EUA que minha carreira profissional sofreu nova guinada.
Ao fazer um curso de atualização tecnológica para secretárias, vislumbrei um novo mundo: a automação de escritórios. Processadores de texto, fax, correio eletrônico, videoconferências, tudo isso era absoluta novidade nos escritórios do Brasil no início da década de 80.
À pergunta feita pela professora: o que você quer fazer nos próximos 5 anos, eu respondi: quero ajudar a implementar a automação de escritórios no meu país.
Fiz cursos, mergulhei na biblioteca da faculdade, tive livre acesso ao Stanford Research Institute, na época uma das instituições de ponta na pesquisa deste tema, visitei a IBM local e participei de um congresso que foi determinante para o meu futuro.
No Congresso de Automação de Escritórios no Moscone Center em São Francisco, eu conheci o vice-presidente de Finanças da Johnson & Johnson onde eu havia trabalhado e lhe disse que eu estava decidida a levar essas inovações para o Brasil.
Quando retornei, meses depois, a empresa estava concluindo o processo seletivo para alguém que seria responsável por automação de escritórios na empresa e meu nome tinha a recomendação deste vice-presidente.
Cheguei bem a tempo de ser entrevistada e admitida.
Foi um período de muito crescimento intelectual que requereu uma intensa dedicação. Fiz uma pós-graduação em análise de sistemas e não parei mais de estudar para me manter atualizada em uma área onde mudanças são uma constante.
Além de todo o aprendizado tecnológico, havia o desafio da competição corporativa, dos jogos de poder que eu nunca havia jogado enquanto secretária.
Eu me sentia dividida, deixava minha filha chorando na creche, entrava no carro e era minha vez de chorar. Começava a trabalhar ainda abalada, mas ao revê-la no final do dia era a empresa que ocupava minha mente e eu levava um tempo para me “encaixar” novamente, para estar presente.
Felizmente, como pesquisador, seu pai tinha maior disponibilidade de tempo do que eu. Nossa empregada era excelente, meus pais moravam a 40 quilômetros e eu não fui sobrecarregada por tarefas domésticas.
Como os embates pelo poder na empresa me incomodavam cada vez mais, pensei em ser tradutora técnica o que me colocaria mais próxima da carreira de escritora. Eu havia entregue o “Vivendo na Gringolândia” para o Henfil e recebera dele uma carta maravilhosa que guardo até hoje.
Ao buscar o Datanews, o mais conhecido jornal de informática da época, para oferecer meus serviços de tradução, recebi do editor o pedido de um artigo sobre automação de escritórios.
Um artigo! Publicado! Parecia a realização de um sonho, mas me colocou mais longe da carreira de escritora porque um grande centro de treinamento, a Compucenter, me convidou para ministrar seminários e comecei então nova carreira, tornei-me empresária.
Aproveitando minha experiência na Johnson & Johnson, montei uma empresa de consultoria e treinamento que visava o mercado do Vale do Paraíba porém a demanda maior acabou ocorrendo em São Paulo, um mercado mais maduro.
Eu chegava a passar a semana toda em São Paulo, longe da minha família mas amava ensinar, apoiar empresas com soluções tecnológicas e, graças a isso, conseguíamos ter um padrão de vida excelente.
O comichão por escrever voltou a me assaltar e, em 1987, como despedida da área, reuni meu conhecimento sobre o tema da automação de escritórios e submeti um livro para a editora Mc-Graw Hill. Quando o editor me ligou confirmando que sim, eles queriam publicar o livro, eu mal podia conter minha alegria. Desliguei e saí saltando e gritando de alegria. Um livro!!!!
Eu estava decidida a me dedicar às traduções e à literatura.
Mas, depois deste livro, um dos primeiros sobre o tema no Brasil, meu trabalho como consultora só fez aumentar!
Depois de dois anos de divisão entre São Paulo e São José dos Campos, me mudei para São Paulo com minha filha e meu casamento terminou meses depois.
Eu tinha 30 anos.
Nos anos seguintes criar minha filha praticamente sozinha em São Paulo foi bastante desgastante mas a poesia foi minha companheira constante, meu ponto de equilíbrio, minha tábua de salvação:
“Aqui me tens, poetisa e analista.
Duas faces, duas pistas.
Meu eterno vai-e-vem.”
Publiquei outro livro em 2006 e continuei a escrever artigos e a dar entrevistas para a mídia especializada. Como consultora, instrutora ou autora, ficava cada vez mais claro que a comunicação era a chave para meu sucesso profissional.
Por fim, aos 40 anos, farta de crises e planos econômicos sucessivos, desisti de ser empresária e resolvi voltar ao mercado de trabalho.
Ao disputar uma vaga de consultora na Lotus, uma empresa americana de software, eu fui “cooptada” pelo diretor comercial para sair da minha zona de conforto trabalhar em vendas.
O trabalho externo de atender às necessidades dos clientes com soluções tecnológicas não mudou muito e eu me sentia extremamente gratificada por participar de iniciativas com grande impacto social ao atender ao governo estadual.
No entanto, voltar a trabalhar em uma corporação que depois foi integrada à IBM, a maior empresa de informática do mundo, requereu toda a maturidade que eu havia acumulado com o passar dos anos e eu até que consegui seguir adiante por algum tempo…
Cotas, planos de vendas, hierarquia, processos, reuniões, eu já não era a consultora que trabalhava sozinha ou em um pequeno grupo com total autonomia.
Passado o período de alegria inicial quando eu me sentia em um transatlântico depois de ter cruzado o oceano em uma pequena lancha, toda essa estrutura me tolhia, os jogos competitivos me desgastavam e eu sentia a vida como um imenso fardo agravado por um relacionamento que já durava anos e que me infelicitava tremendamente.
Eu via meus planos de ser escritora cada vez mais distantes já que a “cenoura” dos bônus e incentivos fazia com que eu trabalhasse 10 horas por dia em média.
Felizmente um carcinoma “in situ” retirado do meu seio direito em 2003 me fez confrontar a mortalidade. Parada geral de 2 meses para refletir enquanto me recuperava da cirurgia e fazia a radioterapia e a escrita mais uma vez me salvou.
Escrevi muito nesse período, revi minha vida, transcrevi sonhos e reuni os escritos em um livro que nunca cheguei a publicar.
Era uma exposição enorme de minha alma despida, mas foi um trabalho de análise interna, acompanhada por um terapeuta antroposófico que me transformou radicalmente.
A vida deixou de ser um fardo e passou a ser uma benção.
Rompi o relacionamento e mudei minha postura profissional.
Passei a enxergar a organização da empresa não como um fardo mas a me beneficiar da estrutura corporativa que me apoiava, fiquei leve e as pessoas disseram que eu mudei da água para o vinho.
Os resultados de venda daquele ano foram excepcionais e eu fui capaz de comprar um apartamento excelente praticamente à vista.
Quando comuniquei à IBM que não gostaria mais de trabalhar em vendas, recebi uma missão que parecia vinda dos céus: ser responsável pelo relacionamento da IBM com as universidades.
Foram cinco anos fantásticos em que eu implementei um programa de voluntariado de funcionários junto às universidades e com o apoio de 200 voluntários conseguimos multiplicar exponencialmente o número de escolas que utilizavam o software IBM em seus cursos de tecnologia.
O contato com o meio acadêmico, com instituições de pesquisa, professores e, especialmente, com voluntários e alunos me contagiava de fervor pela inovação.
Em 2010, nova missão me encantou: ajudar os vendedores de software a perseguir o autodesenvolvimento, a fazer vendas com o perfil de consultoria, agregando aos clientes o valor do seu conhecimento.
Nas duas missões eu tinha que criar textos curtos, diferentes, instigantes para romper o bloqueio das caixas postais lotadas e motivar as pessoas para a ação.
Foram desafiantes exercícios para minha escrita, além de eu me sentir dando de volta o que tinha aprendido ao longo da vida, não mais preocupada com questões do ego, com competições mas com fazer o que tivesse sentido, propósito.
Ainda em 2010 eu descobri minha possível ascendência marrana, as possíveis raízes de minha família materna que teriam sido judeus convertidos à força. Mergulhei no universo judaico e na história da Península Ibérica, da Holanda e do Brasil colonial.
O que eu faria com todo o material pesquisado, com o curso de História do Brasil Colonial I que fiz como ouvinte na USP?
Bem, eu já estava pensando na aposentadoria e sonhava em fazer um doutorado em História para ser professora universitária.
Uma noite, ao voltar para casa, um pensamento quase me fez bater o carro.
O que aconteceria se eu morresse sem ser professora de história?
Nenhum sentimento.
E se eu morresse sem publicar um romance?
Dor profunda no peito! Ali ficava claro que estava chegando a hora de eu parar de adiar meus sonhos.
Fazer um doutorado para ser professora de história para poder me aposentar e escrever??? Que caminho mais torto!
Vi que era melhor começar a escrever imediatamente o romance para o qual eu já tinha muitas idéias e seguir trabalhando na IBM.
A IBM pagou minha formação em coaching que tinha tudo a ver com o trabalho que eu desenvolvia ali e passei a considerar essa carreira como carreira suplementar à de escritora quando eu me aposentasse.
Em 2012 fui morar em Portugal com meu noivo, Ayrton, um executivo brasileiro da IBM que estava em designação na Europa desde 2007.
Passei a trabalhar remotamente para a IBM Brasil. Eu já havia visitado Amsterdam, a Itália e Israel em minhas pesquisas e não era a primeira vez que ia para a Península Ibérica mas viver em Portugal ampliou meu raio de pesquisa e meu romance cresceu muito, tanto o romance que eu vinha crescendo como o romance com meu noivo com quem me casei em janeiro de 2013.
De Portugal fomos enviados para o México em fevereiro de 2013, prossegui escrevendo o livro, atuei como gerente estratégica de gestão de mudanças e coach de vários líderes em um projeto que terminou inesperadamente em outubro de 2013. A IBM México se comprometeu a encontrar uma vaga para mim já que meu marido deveria ali continuar.
No início de 2014 foi com muita tranquilidade que recebi a notícia que eu seria incluída no programa de cortes que demitiu milhares de pessoas no mundo inteiro caso a IBM México não me oferecesse algo de imediato.
Eu não apenas estava preparada, eu desejava isso. Havia trabalhado muito, poupado, feito reservas e me dispunha a diminuir o consumo em troca de qualidade de vida e liberdade para perseguir meus sonhos em período integral.
Meu marido e eu decidimos que era hora de voltar para o Brasil, para junto de nossos familiares, seus filhos e netos, minha filha e, principalmente, meus pais que sofreram problemas graves de saúde durante minha ausência e que precisavam tanto de mim por perto.
Ayrton pediu para ser incluído no programa de cortes também, fomos ambos desligados da empresa e voltamos para o Brasil em julho de 2014 acompanhados de uma cachorrinha resgatada e adotada no México que é nossa paixão.
Resolvemos tirar um período sabático para nos dedicarmos à mudança internacional, ao convívio com os familiares, à organização da papelada, aos cuidados com a saúde e à nossa casa.
Cuidar da casa que compramos em um condomínio fechado na zona rural de Paulínia tem me dado muito prazer. Ela sofreu pequenas e intermináveis reformas, fizemos sua adequação ao uso sustentável de água e energia, a decoramos e organizamos. Depois de uma vida inteira como um ser urbano e apressado, hoje cultivo um jardim e o prazer de ver um pé de jasmim florescer ou de sentir o aroma do alecrim e do manjericão são insubstituíveis.
Enfim, colocamos a vida em ordem e agora sim estou criando uma rotina de aposentada com muitos objetivos gratificantes.
Comecei a trabalhar no projeto da publicação do meu romance a divulgar meu trabalho como coaching, a propor iniciativas comunitárias de sustentabilidade no condomínio onde vivo.
Mas o chamado da experiência de gestão e desenvolvimento de pessoas, a tentação de ficar na zona de conforto ainda fizeram com que eu tivesse alguns desvios. Em 2015 e 2016 atuei como coach em São Paulo e, em 2017, fui eleita presidente da Associação de Moradores do residencial onde vivo.
Apenas no final do ano passado tive forças para lutar pela publicação do meu livro.
Percebi que o que vinha fazendo em paralelo às atividades principais: lutar pela publicação com auxílio da Lei Rouanet, buscar patrocínios, participar de concursos eram apenas maneiras de adiar o sonho, de não ser fiel a mim mesma, de colocar nas mãos dos outros a realização do meu projeto de vida.
Publiquei Marrana! pela Amazon primeiro na versão Kindle e na versão impressa usando meu conhecimento anterior de marketing e vendas para lançar essas versões e adquirindo outros para atuar no mundo digital, para criar uma plataforma de conexão com leitores, enfim, para tomar em minhas mãos a responsabilidade não apenas pela criação, mas pela comercialização do meu produto querido.
Encontrei na Primavera Editorial uma grande parceira, busquei aliados no mundo judaico e tenho nas amigas e amigos uma grande rede de apoio.
“Marrana! Amor e intolerância em tempos de Inquisição” é uma realidade, um livro impresso com ilustrações de mestres da pintura holandesa, acompanhado de uma playlist do Spotify com músicas que me inspiraram.
Em eventos de lançamento, faço questão de embalá-lo em saquinhos de tecido e de oferecer a meus convidados um aroma exclusivo, desenvolvido a partir de elementos da história.
Agora, olhando para trás, tudo parece fazer sentido, eu tinha muito o que amealhar antes de me dedicar integralmente à escrita, eu precisava ter conteúdo, vida, experiência. Abençoados desvios!

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Relato Pessoal: Daniel Cruz

Daniel Cruz

Daniel Cruz

Como seria a vida de um adulto que tenha passado pela juventude sem pleno desenvolvimento de seu potencial?

Me chamo Daniel e durante a minha juventude, fui um garoto quieto, sempre em meu mundo, meus pensamentos e meus projetos, fiz pouquíssimas amizades, percebi que alguns se aproveitavam de mim por fazer todos os trabalhos em grupo de forma individual (confesso que o único beneficiado fui eu). Os professores gostavam de mim, sempre me elogiaram, mas eu tinha dificuldade em sustentar a atenção, acredito que de certa forma as altas habilidades compensaram de alguma forma meu TDAH.

Aos 17 anos devido a algumas comorbidades como ansiedade, problemas com habilidades sociais e frustrações, decidi buscar ajuda profissional onde fui diagnosticado com TDAH e superdotação (hoje tenho 20), mais um caso de dupla excepcionalidade, após isso, passei por uma busca incessante em descobrir o funcionamento de minha mente e da mente humana em geral, confesso que sou fascinado pelo assunto.

Sempre tive bastante facilidade em algumas áreas de meu interesse por isso ouvi e ouço por diversas vezes coisas como “não consigo acompanhar seu raciocínio”, “você é superdotado”, “você é acelerado”, mas o grande ponto que quero chegar é que geralmente por conta de interesses profundos peculiares não pude construir base sólida em habilidades sociais, também por não ter empatia com assuntos fúteis e conversas sem sentido (pra mim).

Algumas destrezas e particularidades:

– Aprendi tocar 4 instrumentos musicais aos 10 anos de forma autoditada, mesmo achando que essa não é uma de minhas habilidades;
– Aos 12 empezei a aprender idiomas, inicialmente estudei japonês também de forma autoditada, o qual consegui maior “sucesso”, visto que geralmente não levo meus “milhões” de projetos a frente;
– Com 14 criei e configurei 3 jogos online, coisas que achei simples; no período escolar, tive algumas façanhas, fui adiantado por saber ler e escrever, mas confesso que nunca fui o melhor da turma, apenas tinha fluência em aprender, mas por não ter interesse nas atividades acadêmicas e não concordar com o sistema de educação, meus pais tiveram problemas em perceber o que acontecia comigo, levando em consideração que a sincronia entre o TDAH e AH/SD dificulta ainda mais o prévio conhecimento na fase infantil;
– Gosto de resolver todo tipo de problema e de todas as formas buscar suas resoluções;
– Sou criativo, busco coisas novas a todo momento, também bastante pensante, buscando compreender tudo que rodeia a humanidade e o universo;
– Sou hipersensível às emoções podendo ir até os extremos da tristeza ou o extremo da euforia, felicidade, sentidos como tato, audição, dentre outros;

Concluí o ensino médio com 16 anos, durante esse período fui um aluno mediano, não estudava os assuntos que me eram passados, apenas aprendia e estudava aquilo que gostava, e que não tinham relação com meus estudos relacionados a escola, confesso que fui um pouco prejudicado por isso. Somente com 20 anos decidi cursar faculdade. Na faculdade participo de um grupo de amigos, mas sou muito introspectivo, não participando de conversas corriqueiras. Tenho boas notas mas não presto atenção nas aulas, algumas coisas por já saber, outras por não ter interesse, mas ainda assim consigo me sair bem (risos). Durante o ensino médio trabalhei na área comercial no turno vespertino, pois trabalhava pela manhã, assim que conclui passei a trabalhar em período integral até hoje, restando tempo para estudar o que gosto apenas de madrugada após chegar em casa.

Por conta disso, busco de todas as formas a compreensão e conhecimento para divulgar informações sobre superdotação na fase adulta, existe uma inviabilização e negligência acerca desse período, como se as altas habilidades fossem restritas e exclusivas apenas aos menores de idade. Acredito que o autoconhecimento é o ponto chave para um pleno desenvolvimento em aspectos cognitivos, habilidades sociais e inteligência emocional.

Provavelmente não falei muita coisa nesse relato e futuramente terei desejo em alterar, mas por enquanto, esta é uma parte de minha vida e como eu enxergo as coisas.

“Uma forma de utilizar inteligência é passar informações complexas de forma acessível.”

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Entrevista: Marcos

Marcos preferiu não se identificar com nome completo nem foto de rosto por razões pessoais

Marcos preferiu não se identificar com nome completo nem foto de rosto por razões pessoais

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência do conceito de superdotação, contextualize para nós como você se familiarizou com o contexto neurodiverso.

Marcos: Desde criança eu me destaquei entre todos os demais da sala de aula. Nunca havia pergunta à qual eu não oferecesse resposta no ato ou caso não pudesse, sempre busquei pela resposta. A dúvida me incomoda, quero responder a cada uma. Muitas coisas me impediram de me enxergar como superdotado, mas considero que acabei inserindo em minha vida muita informação. Através de material de leitura, da faculdade, documentários. Parece arrogante de minha parte posto nestes termos, mas sou movido à racionalidade. Se há algo que eu necessite me aprofundar, é exatamente o que eu faço.

SM: Você tem um filho superdotado. Em quais áreas as altas habilidades dele têm sido expressas?

Marcos: Outro dia ele apresentou aos seus colegas de escola Stephen Hawking. Muito surpreso veio me indagar do porquê de seus colegas não o conhecerem. Posso dizer que venera como eu os mistérios do cosmos. Como eu, é fã de Carl Seagan, quer ser astrônomo pela USP. Além disso, ele é apaixonado por história. Principalmente história europeia. Lê muito sobre Cartago, uma das suas maiores paixões.

SM: Já considerou fazer uso de aconselhamento psicopedagógico? E para o seu filho? Comente seu posicionamento.

Marcos: Já busquei algumas alternativas que me tangenciaram para esta autodescoberta. Acredito que eu e minha família somos felizes por estabelecer um diálogo e isso dispensa tais alternativas.

SM: Apresentaste teu filho a alguma iniciativa de apoio aos alto habilidosos? Em caso positivo fale um pouco mais sobre essa experiência, em caso negativo por que não?!

Marcos: Não o apresentei. Contatei uma Associação, mas a idade dele impossibilita quaisquer auxílios psico-pedagógicos. Segundo tal associação, após os doze, que é idade do meu filho, não há como auxiliar no direcionamento dos estudos, mas tão somente atestar sua habilidade. E somente isso não é de meu interesse.

SM: Quais cursos universitários você cursou e o que lhe atraiu em cada um deles?

Marcos: Fiz dois anos de letras, abandonei. Atualmente faço engenharia. Não fui muito incentivado por meus pais, ou mesmo pelo ambiente em que vivi por anos a enveredar pelo caminho acadêmico. Acredito que por isso não sou formado. Muito me atraiu no curso de letras o conhecimento etimológico das palavras. Como se originavam, seus radicais originados em grego ou latim. Lá tive aulas de latim. Sempre fui fascinado em línguas estrangeiras. Desde os doze eu estudo por conta o inglês. Hoje, não posso me dizer fluente em inglês porque nunca pude sair do país. Mas continuo aprendendo através de aplicativos. Além do inglês sei um pouco de francês, italiano e espanhol. A engenharia acabei escolhendo, porque através dos livros, fiquei fascinado pelo modo como se aplica física e matemática para se descobrir o universo. Por exemplo, ao assistir o seriado “Cosmos” de Carl Seagan, muito me impressionou a teoria de Kepler que instaura uma relação matemática entre a distância dos planetas ao sol e o seu respectivo período de órbita, que mantêm uma proporção única para todos os planetas. Isso é fascinante. Escolhi um curso onde eu poderia me aprofundar tanto em física como em matemática. Mas ainda desejo fazer mais, quero continuar estudando.

SM: Quais foram suas dificuldades adaptativas no contexto acadêmico? Que atendimento ou acomodações você gostaria que entrassem em vigor a fim de tornar o curso superior tolerável ou até mesmo prazeroso?

Marcos: Gostaria que o curso se iniciasse pelo fim. Parece besteira, mas faz sentido quando você vê alunos de engenharia começando a testar as resistências de colunas lá no final do curso. É como se você só pudesse dirigir no último dia do curso pra conseguir uma habilitação.

SM: Quais mudanças estruturais você gostaria de ver efetivadas num futuro próximo visando o melhor aproveitamento das instituições pelo seu filho superdotado? De que modo podemos enquanto indivíduos contribuir para a integração neurodiversa no substrato social?

Marcos: Eu acredito num mundo onde nós poderemos enxergar que nosso maior trunfo é a tecnologia. Ainda que existam outras necessidades humanas, como a psicológica e a médica, por exemplo, a tecnologia nos impulsiona ao futuro inegavelmente de maneira a obtermos sempre o melhor aproveitamento de nossos meios, e isso inclui todas as demais áreas mencionadas. Creio num futuro onde as escolas sejam tão somente voltadas ao desenvolvimento tecnológico.

SM: Algum lema motivacional?

Marcos: “Se eu pude ver além, é porque estive sobre os ombros de gigantes”

SM: Algum recado pra galera?

Marcos: Devemos abandonar a industrialização de pensamento. As pessoas estão carentes de identidade. Por isso tentam fazer de tudo para parecerem diferentes. Por isso somos hoje obrigados a suportar coisas que antes não eram admitidas, como, por exemplo, essa exacerbada exposição quase pornográfica de mulheres na TV. Há quase 20 anos eu não vejo Silvio Santos, Faustão, Gugu ou quaisquer programações abertas. Simplesmente vou no youtube e busco por documentários. De preferência Carl Seagan e seu inestimável “Cosmos” que é uma herança para a humanidade tão valiosa (no meu conceito, ao menos) quanto as “Quatro Estações” de Vivaldi. As informações estão no ar, quase são infinitas. Então, por que todos só falam das mesmas coisas?

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Sentimento & Senso de Inadequação

por Adriana Vazzoler-Mendonça.*

Muitas vezes na vida podemos nos sentir inadequados. Todos os dias pode haver um motivo pelo qual nos frustramos, pensando que fomos mal interpretados e incompreendidos por alguém. Não é raro chegarmos a um local ou evento e acharmos que nossa roupa está inadequada, ou falarmos algo a alguém que lhe cai mal e nos sentimos inadequados por isso. Vamos combinar que dar bolas fora e pagar micos faz parte de nossa vida em sociedade.

Esse sentimento é decorrente da comparação que, como diz Torres (2011, p.181), é indevida, porém inevitável. Comparamos o tempo todo, mas não se pode afirmar que a comparação seja inerente ao ser humano ou que seja um construto da vida em sociedade (TORRES, 2011, p.181).

Torres (2011) explica que o próprio termo “inadequado” sugere que haveria uma forma “adequada” correta e melhor, enquanto que o inadequado seria errado, ruim, doente. O mal estar subjacente ao SI é decorrente da incoerência do que se pensa e acredita com os resultados observados na vida. A pessoa sente-se incomodada por não estar confortável na vida, passando a questionar se suas convicções estão mesmo corretas ou se ela não deveria ser como é.

O sentimento de inadequação (SI) foi definido por Torres (2008, p.14) como “o indício de um modo de existência no qual se constata um estado de diferença ou peculiaridade, independentemente das reações assumidas a partir dessa constatação”. O SI pode vir a ser problema quando ele é constante e chega a doer na alma, dia e noite, ao longo dos anos. Esse quadro crônico pode levar a pessoa a manifestar um sem-número de fenômenos como stress, depressão, baixa autoestima, perda da autoconfiança, transtornos de ansiedade e até o suicídio. Os motivos pelos quais as pessoas podem se sentir inadequadas são infinitos, mas são basicamente de dois tipos: os “de dentro” e os “de fora”.

Os “de fora” todo mundo vê, como, por exemplo, aparência física: é comum pessoas se sentirem inadequadas porque são muito altas ou muito baixas, muito gordas ou muito magras, com orelhas de abano, nariz grande, pele desta ou daquela cor, escamas, antenas ou cauda. Crianças e adolescentes podem ser considerados inadequados por motivos como esses e mais tantos outros como etnia, sotaque, corte do cabelo, dentes tortos, aparelhos para audição, estilo de roupas, o formato da aba do boné etc. Qualquer característica inadequada para um grupo pode ser motivo de bullying, exclusão, violência contra a pessoa. Esse tipo de sentimento de inadequação surge no sujeito que se sente inadequado perante os padrões de um grupo em que está ou deseja estar inserido.

Fonte: Barrionuevo, 2016

Fonte: Barrionuevo, 2016

Os motivos “de dentro”, por sua vez, ninguém vê, mas causam igualmente Sentimento de Inadequação. Esse tipo decorre do julgamento do sujeito sobre o que ele mesmo considera certo e errado para a própria vida, e não do que os outros pensam. Por exemplo: uma menina que se torna mãe aos 15 anos, sem o desejar, pode se sentir inadequada porque ela não está correspondendo às suas próprias expectativas. Um idoso que precisa usar um andador pode se sentir inadequado porque ele queria estar saudável nessa idade e andando com facilidade. Mesmo que todo mundo diga para a mãezinha “Qual o problema de você ser mãe nova? Veja pelo lado bom, logo teu filho estará criado e você poderá fazer o que quiser da vida ainda jovem!” ou para o idoso “Qual o problema de ter que usar um andador? Veja pelo lado bom, você está sendo bem cuidado, não te falta nada, erga a cabeça, isso não é o fim do mundo!”, além de não ser nada empático, isso não reduz o sentimento de inadequação que ocorre dentro deles e ainda pode piorar a situação, pois eles podem interpretar que não é adequado sentir-se inadequado.

O Psicólogo César Borella sugere que o Sentimento de Inadequação gera o Sentimento de Inferioridade. E, para nos livrarmos deste, temos que ter um olhar atento e honesto para nós mesmos, objetivando diminuir as barreiras erguidas pelo Sentimento de Inferioridade, tais como a autopiedade, a vitimização – que é atribuir às diferenças a responsabilidade por nossos resultados -, agressividade, falta de metas e objetivos na vida, autocrítica exacerbada e acomodação (BORELLA, 2017).

Em casos mais severos, indivíduos que se consideram inadequados podem passar a evitar a interação social com medo de serem ridicularizados, rejeitados ou humilhados. Segundo Meldau (2017), esse comportamento pode se tornar constante e levar à Síndrome da Ansiedade Esquiva, também conhecida como Transtorno da Ansiedade Esquiva ou ainda Transtorno da Personalidade Ansiosa. Trata-se de um transtorno de personalidade em que o sujeito passa a evitar contatos sociais e qualquer situação que ele imagina que possa lhe causar embaraço ou ansiedade.

As manifestações clínicas desta síndrome podem envolver sensibilidade exacerbada a críticas e rejeição, isolamento social voluntário, timidez ou ansiedade extrema em situações que envolvem interação social, evitação de contato físico, podendo este ser associado a estímulo desagradável ou doloroso; extrema baixa autoestima; desconfiança constante das outras pessoas; distanciamento emocional; autocrítica; uso da fantasia para explicar a realidade (MELDAU, 2017).

A psicologia considera como emoções autênticas naturais do ser humano a alegria, a tristeza, o medo e a raiva (LOPES, 2017). Elas não são exclusivas dos seres humanos e podem ser observadas em animais como cães, gatos e cavalos. As emoções são benéficas porque nos ajudam a tomar decisões, a nos proteger e a superar desafios da vida.

Contudo, há emoções derivadas destas que não são funcionais, posto que resultam em mal estar. No SI estão envolvidas as emoções de inveja, ciúme e vergonha, que são derivadas do medo, do temor de não sermos aceitos por nossas expressões no mundo. Na inveja e no ciúme, olhamos o outro com crítica, enquanto que na vergonha, o alvo da crítica somos nós.

A pessoa que tem SI pode ter ciúme e inveja das pessoas consideradas por ela melhores e ter vergonha de si, por ser como é e não conseguir ser de outra forma.

Aplainamento da Subjetividade e Aplainamento da Objetividade

Diante do sentimento de inadequação, seja ele causado pelos julgamentos vindos dos outros, de nós mesmos ou de ambas as partes, nós adotamos posturas para consertar a situação e, para isso, oscilamos entre tentar nos consertar e tentar consertar o mundo.

Fonte: Chris

Fonte: Chris

Tentamos nos consertar quando nos julgamos culpados, imperfeitos, errados, maus, feios, então nós é que temos que melhorar e mudar a qualquer custo, crendo que assim seremos aceitos e amados pelo mundo. Tentamos consertar o mundo quando julgamos que os outros, a sociedade, os familiares, os colegas é que são uns ignorantes, limitados, errados, maus, feios, que não nos entendem e por isso não conseguem nos aceitar e amar como somos.

Quem nunca chorou sozinho perguntando “por que eu nasci assim?” e prometeu a si mesmo mudar, melhorar, consertar-se? E quem nunca teve raiva dos outros e prometeu a si mesmo fazer algo para mudá-los, melhorá-los, consertá-los? Quem nunca?

Só que não funciona…

Fonte: Twitter

Fonte: Twitter

Estas tentativas de Aplainamento da Subjetividade (AS) definindo o movimento de se consertar, ou de Aplainamento da Objetividade (AO), que é o movimento de consertar o mundo (Torres, 2008) são, no fundo, respectivamente, manifestações de violência contra nós e contra os demais.

Mas o SI não é de todo ruim, dado que pode convidar o sujeito ao crescimento. Para Piaget (PILETTI e ROSSATO, 2011), o homem pensa e age para satisfazer a necessidades, para superar desequilíbrios e para adaptar-se a novas situações do mundo em que está inserido. O SI é, neste contexto, um alarme, um aviso de que o sujeito está em desequilíbrio e, portanto, está diante de uma oportunidade de aprendizado e desenvolvimento.

O processo de adaptação à situação que gera o SI assume duas formas básicas: assimilação, na qual a pessoa integra um novo dado às estruturas psíquicas que já possui e, acomodação, quando essas estruturas psíquicas não são suficientes e a pessoa tem que construir novas. Assim, na assimilação, o sujeito modifica o objeto para poder entendê-lo (AO) e, na acomodação, o próprio sujeito é que se modifica para adquirir um novo conhecimento (AS). A organização psíquica, por sua vez, articula esses processos de maneira constante e progressiva, logo, a pessoa constrói e reconstrói sua estrutura cognitiva, tornando-se mais apta a manter seu equilíbrio (PILETTI e ROSSATO, 2011).

Empatia consigo próprio

Tratar-se empaticamente pode ser explicado como reconhecer que se está fazendo o melhor que se pode com os recursos que se tem no momento e honrar esse lugar de onde o ser se manifesta no mundo.

Rosenberg (2006) demonstra que para desenvolvermos uma atitude não-violenta conosco mesmos e com os outros, temos que considerar quatro etapas da comunicação: Observar o que está acontecendo dentro de si de fato, sem julgamento e sem juízo de valores; Identificar, nomear o que se está sentindo em relação ao que se observa; Tomar consciência das reais necessidades que lhe fizeram sentir daquela maneira; Declarar e pedir o que deseja ou necessita de forma concreta. Estas quatro etapas valem tanto para nossa relação com os outros como para nossa relação conosco mesmos. É preciso ser empático consigo mesmo e acolher suas necessidades com continência, para que o autocuidado não deixe espaço para nenhuma forma de autoagressão.

Senso de Inadequação (SsI)

Uma terceira postura diante do SI seria o desenvolvimento do Senso de Inadequação (SsI), termo também cunhado por Torres (2008). O conceito do SsI sugere que o indivíduo acolha empaticamente suas diferenças em relação ao meio em que se encontra no dado momento sociohistórico, abrindo mão de suas expectativas de conformidade com os referenciais alheios e também com os seus próprios que não reflitam sua autenticidade. Seria um reconhecimento de ser um indivíduo único e de abdicar de funcionar na dualidade, na polaridade do julgamento bem/mal, certo/errado, ajustado/desajustado, consciente de que poderá haver desafios, obstáculos, angústias, como em toda situação na vida. A vantagem é que o indivíduo estaria coerente com os seus valores, o que poderia conferir-lhe leveza, humor e criatividade nas relações, em vez da angústia vivenciada quando se acredita ser inadequado.

Referências

BARRIONUEVO, R. O CEO, os Gerentes e o Elefante na Sala de Reunião. Site LinkedIn.com. 01 fev 2016. Disponível em Acesso em 18 abr 2017.

BORELLA, C. A. S. Livre-se dos sentimentos de inferioridade. Disponível em Acesso em 29 mar 2017.

CHRIS. O legado universal e eterno de Charles Schulz, criador da série Peanuts. Site Achados da Chris. Disponível em Acesso em 18 abr 2017.

LOPES, R. B. As Emoções. Disponível em Acesso em 30 mar 2017.

MELDAU, D. C. Síndrome da Ansiedade Esquiva. Disponível em Acesso em 29 mar 2017.

PILETTI, N.; ROSSATO, S. Psicologia da aprendizagem: da teoria do condicionamento ao construtivismo. São Paulo: Contexto, 2011. cap.4 p. 65-80.

ROSENBERG, M. B. Comunicação não-violenta. Técnicas para aprimorar
relacionamentos pessoais e profissionais. 3. ed. São Paulo: Ágora, 2006.

TORRES, A. R. R. Sentimento de Inadequação: Estudo Fenomenológico-Existencial. 2008. 153 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia), Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas-SP.

TORRES, A. R. R. Sentimento de Inadequação, prática psicológica e contemporaneidade. In: ANGERAMI, V. A. (org.). Psicoterapia e Brasilidade. São Paulo, Cortez, 2011.

TWITTER. “X-Men 2” (2003) cena inesquecível de um dos melhores filmes da franquia. Site Twitter Universo X-Men. Disponível em Acesso em 18 abr. 2017.

*Adriana Vazzoler-Mendonça está no Facebook e LinkedIn. Coach para Diversidade, Inclusão e Acessibilidade, Treinadora de Neurofeedback e formanda em Psicologia em Campinas-SP. adriana.italia@gmail.com

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Descaso: A Singuralidade de Cada Superdotação

Quem és tu?

Quem és tu?

“Assim como cada criança é única, não há duas crianças dotadas exatamente iguais!” – Hélio Caloi Cruz Leão

O mesmo pode ser extrapolado para adultos ou seres humanos com qualquer idade, aliás o quanto mais velho um indivíduo se torna mais ele se distancia daquela origem supostamente universal e mais se aproxima de sua identidade singular, alguns poucos se atrevem a se adensar nessa matéria pegajosa e sombria onde reside o mistério de ser a si mesmo, de conhecer esse outro lado colado ao nosso avesso, um verso inerente que emerge à flor da pele a expressar-se explicitamente no que se convencionou a chamar de personalidade.

travessia

travessia

Na Era dos Testes Padronizados sejam de QI, sejam da Fuvest o que estamos medindo? O que estamos procurando? O quanto escamoteamos a individualidade e truncamos o passado e as vivências de nossos alunos e funcionários com porcentagens, notas e avaliações de uma futilidade narcisística, quando não abertamente ineficaz e mórbida? Qual a grande dificuldade em se criticar e problematizar os pontos fraquíssimos de seja qual sistema for? Talvez porque a própria estima de si e de seus colegas dependem dos sistemas de validação e recompensa que lhes levou de subalterno à chefia? Me poupe dessas hierarquizações vãs e recursivamente viciosas.

estrada menos percorrida

estrada menos percorrida

Quem tem propósito próprio não se desvia de seu destino por conta de obstáculos de uma dificuldade artificial, projetada conceitualmente para se autojustificar. Quando enxergamos o indivíduo quanto uma entidade singular vemos que essa singularidade transborda para suas demais características. Do modo de pensar, sentir e ver o mundo até ao seu tom de voz, ao seu cheiro e a sua caligrafia quando rabisca uma anotação qualquer no caderno, é tão único quanto um número na reta real. Diferentemente de números somos dotados de identidade, pensamentos, sentimentos, propósitos e personalidade tão únicos quanto incopiáveis, incompatíveis com uma sociedade que não enxerga isso. Uma sociedade que só enxerga o que sua programação permite está fadada a reproduzir um sistema repressor de autoflagelação, a produzir uma xenofobia contra tudo que não pertence ao modelo vigente, ao ideal do momento, ao sonho americano ou brasileiro de uma vida dita de sucesso social. Mas há quem escolha algo diverso, tão neurodiverso quanto eu e você, uma felicidade outra e não algo empacotado, sugestionado e embalado com incontáveis películas de viés.

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Relato Pessoal: Marcos

Marcos

Marcos preferiu não se identificar com nome completo nem foto de rosto por razões pessoais

Antes de iniciar meu relato, preciso destacar que não sou formado, não obtive em minha vida sucesso com a vida acadêmica, até agora. Não pude comprovar meu nível intelectual de nenhuma forma, nunca fui declarado superdotado por ninguém. Me autodeclarei superdotado apenas pautado nas experiências que vivi e que aqui passo a relatar em parte.

Aos 5 anos eu já lia e escrevia. Roubava gibis do quarto de meu irmão mais velho para ler. Na escola, minha professora me pedia para ficar em silêncio enquanto os demais alunos faziam a leitura dos textos na lousa junto com ela, porque eu lia muito rápido. E quando eu terminava os deveres de sala, ia de mesa em mesa auxiliando aos demais.

No antigo ginásio, sempre foi assim: montávamos grupos para os trabalhos, nos reuníamos na casa de alguém para realizá-los, mas eu sempre fazia tudo sozinho.

Desde que me conheço por gente, quando alguém me traz algum problema pessoal, tomo-o por meu e tento resolvê-lo, não necessariamente por compaixão, mas por vontade de dar soluções. Sempre fui obcecado por resolver problemas.

Quando eu tinha entre doze e treze anos, não me lembro como, mas tomei conhecimento da máxima de platão “Não existe verdade absoluta”. De imediato passei a refletir sobre isso e tentar aplicar. Eu dizia uma verdade considerada indubitável e depois a desconstruía segundo o princípio de Platão. Me animei com essa atividade mental e comecei a discutir isso com alguns colegas. Foi aí que alguém me desafiou a aplicar isso sobre os conceitos da Bíblia, tomando por princípio que não se pode duvidar de nenhum de seus textos. Discordei e comecei a pensar sobre os milagres de Jesus bem como os demais eventos bíblicos como alegorias. Acabei duvidando da Bíblia. Comecei a pensar sobre a existência de Deus, e quase não recebi a primeira comunhão por discutir minhas dúvidas com um padre, a contragosto de minha mãe, extremamente católica, que me obrigou a retratar minha primeira confissão.

Nesta época, aos 13 anos, meu pai morreu, comecei a ser muito mais isolado e me afundei nos meus próprios pensamentos, cada vez mais longe dos interesses dos demais.

Como desde criança sempre fui fascinado por leitura, com quatorze ou quinze anos minha mãe me deu de presente a assinatura de três revistas, uma delas científica. Eu lia todas, mas gostava muito mais da revista científica. Cursava inglês através de três velhos livros que meu pai tinha comprado há anos, e que salvei de irem parar no lixo, assim como muitos outros livros antigos que levei pro meu quarto.

Sempre li muito, tirando ótimas notas em português e literatura. Assim, aos dezoito anos entrei na faculdade no curso de letras, mas nessa época minha mãe precisou ficar com minha vó doente em outro estado, durante mais de um ano. Como a faculdade ficava há 100km de minha casa, em outra cidade, o que demandava três horas de viagem diária, não foi difícil eu acabar perdendo o interesse e após dois anos de curso, desisti. Depois de algum tempo tive um filho e formei minha família. Me dediquei a construir minha casa e passei a não mais me importar com faculdade. Mas, ainda assim, sentia muita frustração. Sempre gostei de conversar com alguns amigos sobre assuntos que envolviam filosofia. Comecei a compor algumas músicas, algumas até gravei.
Até então, morava no estado de Mato Grosso do Sul, onde não havia muitas oportunidades de carreira. Perdi meu trabalho, não havia terminado minha casa, tudo ficou difícil. Decidi vir pro estado de São Paulo e ingressei em um cargo público estadual. Dentro deste novo cargo, ganhando razoavelmente bem, até me acomodei, mas logo comecei a sentir muita frustração pois não me senti realizado.

Já passei por alguns psicólogos pra tentar descobrir o que havia de errado comigo. Sentimento de insatisfação com a vida, apesar de amar muito a minha família. Com o tempo, via que psicólogos não ajudavam, pois me diziam coisas que eu já sabia, decidi ser psicólogo de mim mesmo e iniciei uma introspecção.

Visando aprovação em concursos internos, comecei a estudar matemática e passei a gostar muito, especificamente de geometria, por isso ingressei em uma faculdade relacionada a matemática. Estou no segundo ano de engenharia, ainda pretendo no futuro fazer uma faculdade voltada à física ou astronomia.

Tenho receio de ficar me “anunciando” como superdotado, então trago isso apenas comigo, apesar de meus colegas sempre elogiarem minha inteligência, até mesmo se referindo a mim como tal. Na realidade, não sei com exatidão como atestar isso e, diferentemente de alguns dos relatos que li aqui neste site, nunca fui reconhecido como superdotado na minha infância. Obviamente não posso dizer que sou igual aos outros.

Hoje eu procuro me acostumar à vida que eu conquistei mas busco crescer intelectualmente, através da faculdade que passei a vida deixando de lado e hoje decidi tomar a sério. Tenho um filho de 12 anos o qual tem um elevado grau de inteligência, que procuro incentivar sempre, lhe dando livros e uma boa escola, além de muito conversar sobre suas aspirações e sobre o que ele se interessa a aprender. Ele já fala espanhol e inglês elementares, está aprendendo francês. Autodidata, como eu. Seu QI, segundo um teste aplicado por um profissional, é de 120. Uma inteligência acima do normal que eu cultivo com todo o cuidado, como se fosse uma flor no meio do deserto. Nossas conversas sobre o futuro que ele pode construir para si mesmo sempre lhe enche de estímulo e me inspira a continuar a estudar, para ser exemplo para ele e para, quem sabe, eu possa vir a ser alguém respeitável na área científica algum dia.

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Entrevista: Eduardo Padilha Antonio

Eduardo Padilha Antonio

Eduardo Padilha Antonio

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Eduardo Padilha: Cresci acostumado a ouvir expressões de espanto e admiração sobre o meu comportamento: ainda muito jovem comecei a fazer estágio em laboratórios, tinha grande comprometimento com a tarefa e apresentava preferência por aprender o que fosse possível de forma autodidata. Talvez essas devessem ter sido as primeiras pistas para um diagnóstico, mas o próprio conceito de Altas Habilidades/Superdotação era desconhecido para meus familiares e professores. Foi somente há cerca de dois anos que tomei conhecimento do assunto e me pus a pesquisar a respeito. Foi assim que cheguei aos NAAHs e ao Núcleo Paulista de Atenção à Superdotação (NPAS). Fiz contato, mas só alguns meses depois tive recursos para passar pelo processo de avaliação.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Eduardo: Fui diagnosticado com Altas Habilidades acadêmicas e intelectuais

SM: Participaste de alguma iniciativa de apoio aos alto habilidosos? Em caso positivo fale um pouco mais sobre essa experiência, em caso negativo por que não?!

Eduardo: Minha experiência com AH é bem recente e, até o ano passado, não havia participado de nenhuma iniciativa do gênero mas, acabo de me juntar à Mensa, sociedade que cultiva a inteligência “para o benefício da humanidade”. Estou animado com as perspectivas, mas ainda não houve tempo de vivenciar a sociedade em si.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Eduardo: Atualmente não, mas considero fazer acompanhamento com a psicóloga que me diagnosticou, por exemplo, ou com outros psicólogos do Núcleo Paulista de Atenção à Superdotação. Acredito que um acompanhamento do gênero teria sido particularmente benéfico durante minha vida escolar.

SM: Eduardo, você apresenta uma certa bagagem no que tange experimentos em laboratório, quais experimentos você aconselharia para o enriquecimento curricular e diversão estudantil que poderiam sem grandes esforços serem implementados nas escolas ainda no ensino fundamental 2? Elabore um pouco sobre os mesmos.

Eduardo: Um dos movimentos com os quais tenho me envolvido e que fornece ferramentas interessantes nesse sentido é o Biohacking, que se dedica a democratizar os conhecimentos científicos. É possível, por exemplo, fazer um microscópio com ótima capacidade de aumento usando apenas uma webcam e papel ou, caso disponível, uma cortadora a laser. Basta desmontar a webcam (até a mais barata serve bem ao propósito) e inverter a lente! Esse microscópio permite ver as células de uma película de cebola ou da mucosa da boca, por exemplo. Também é possível ver protozoários cultivados a partir de uma amostra de água de um rio ou lago mantida em frasco com folhas de alface por alguns dias.
Outra possibilidade é observar os bactérias fermentadoras do leite (lactobacillus), espalhando uma gota de iogurte natural sobre uma lâmina de vidro e pingando um pouco de corante Lugol, encontrado em farmácias. Esses mesmos microorganismos e vários outros (leveduras fermentadoras da cerveja, por exemplo), podem ser cultivados em gelatina sem sabor, simulando técnicas utilizadas em laboratórios de microbiologia.
Em Química, há vários kits vendidos em lojas de brinquedo cujos experimentos podem ser reproduzidos com reagentes obtidos da cozinha de casa ou em farmácias, como bicarbonato de sódio e vinagre para ver a liberação de gás carbônico, uso de corante de iodo para detectar a presença de amido nos alimentos

SM: Sua jornada educacional foi quando não mediada, no mínimo estimulada por uma série de tutores, na música sua mãe, sua professora de ciências no ensino fundamental e seus orientadores que eventualmente inscreveram sua pesquisa na Mostra Paulista de Ciências e Engenharia (MOP) e na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE). Qual importância você julga que essa tutoria tem no desenvolvimento escolar, acadêmico, profissional e pessoal de um cidadão? De que modo poderíamos implementar uma cultura de tutoria no Brasil?

Eduardo: Eu considero a tutoria/mentoria crucial para o desenvolvimento humano em qualquer âmbito de atuação.Trata-se de uma via de mão dupla em que mentor e mentorado são beneficiados e aprendem com o processo, e sinto que foi exatamente isso o que experimentei nos casos acima descritos, e em vários outros. Ter um mentor é ter alguém com quem compartilhar experiências, alguém cuja vivência pode ser útil ao direcionamento de sua própria trajetória. De fato, se não fosse por meus mentores, meu percurso teria sido muito dificultado ou, no mínimo, mais nebuloso.

SM: Você cansado das aulas expositivas prefere aprender de modo autodidata. Em parte devido a sua natureza, mas há um fator pedagógico e psicopedagógico, não? De que modo o sistema educacional vigente poderia melhorar de forma a acomodar as necessidades estudantis de neurodiversos e até mesmo da juventude do século XXI?

Eduardo: Acho difícil pontuar tudo o que é passível de mudança em termos de educação, já que acredito estarmos vivendo um momento de crise estrutural nesse setor. Pessoalmente falando, percebo um “gap” muito grande entre teoria e prática, um dos fatores que mais me desanimam quanto ao ensino formal. É absurdamente diferente aprender anatomia enquanto se disseca um cadáver (experiêcia que tive a honra de vivenciar) e passar quatro horas sentado assitindo um professor passar slides, por exemplo. Nesse sentido, a diversidade de métodos de avaliação e transmissão de conteúdo se coloca como aspecto fundamental. Na Europa muitas instituições não cobram presença dos alunos em aulas expositivas, dando liberdade para que persigam os métodos que geram mais resultados individualmente. Já aqui, o número de aulas assistidas tem um peso enorme na aprovação/reprovação de um aluno, independentemente de a aula ter sido útil a esse aluno ou não. O ambiente acadêmico é absolutamente engessado, ainda mais em instituições que fazem do ensino um comércio e validam seu ensino pelo número de alunos aprovados no vestibular, o que exclui automaticamente qualquer tentativa de atender os neurodiversos. Uma mudança de paradigma se faz cada vez mais urgente e necessária!

SM: Qual linha de pesquisa você está seguindo no momento ou pretende num futuro próximo? Compartilhe conosco um pouco sobre seu trabalho científico.

Eduardo: Durante meu ensino médio estudei a importância de mecanismos de reparo de DNA na manutenção da estabilidade genômica e sua possível aplicação para potencializar o tratamento do câncer de colo de útero. Já no ano passado participei de um projeto cujo objetivo era produzir teia de aranha em microalgas geneticamente modificadas visando a geração de um curativo biocompatível com propriedades antibióticas para auxiliar vítimas de queimaduras. Esse projeto foi apresentado na competição internacional iGEM (International Genetically Engineered Machine) e fomos premiados! Pretendo seguir pesquisando em Oncologia, área que me chama muito a atenção, talvez agora com uma abordagem mais translacional, unindo a ciência básica e a clínica médica.

SM: Qual sua ambição na música? Conte um pouco como a experiência artística influi na sua vida.

Eduardo: Houve uma época em que minhas ambições em relação à música eram maiores, confesso. Já participei de festivais internacionais, toquei em orquestra e concluí o curso Técnico em Instrumento Musical. Hoje, não considero fazer carreira como músico mas essa é definitivamente uma área que quero manter sempre em minha vida. Por mais que encontre prazer lidando com conceitos mais concretos e palpáveis no laboratório, por exemplo, acredito que a música em sua indescritibilidade e abstração toca pontos da mente (ou da alma, como se poderia dizer) que nenhuma outra atividade ou arte é capaz de alcançar.

SM: Algum lema motivacional?

Eduardo: Para citar a atriz e neurocientista Mayim Bialik: “Quando você se acostuma a estar preparado para rejeitar o senso comum, isso te deixa aberto para aprender mais”.

SM: Algum recado pra galera?

Eduardo: Sonhe alto e NUNCA desista dos seus sonhos! É preciso encontrar aquilo pelo que vale a pena levantar cada manhã e fazer desse seu objetivo. Cerque-se de pessoas que compartilhem interesses e que sonhem tão alto quanto você.

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