Entrevista: Iana Lima

Iana Lima

Iana Lima

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Iana Lima: Eu comecei a querer investigar a superdotação quando, estudando sobre autismo, passei a me deparar com conteúdos também relacionados a isso, e fui me identificando. Aquela velha história: eu sabia que tinha mais facilidade que a média das pessoas no aprendizado e na execução de determinadas coisas, mas pensava que superdotado era quem estava na NASA construindo foguete, e esse título jamais se aplicaria a mim. Por isso também que eu quis começar a falar sobre superdotação em adição ao conteúdo que eu já vinha produzindo sobre autismo: para tirá-la de um pedestal, mostrar que ela pode fazer parte do nosso dia a dia, em diversas pessoas, sem sequer percebermos, e que não se trata apenas de ser inteligente, mas há toda uma consequência sensorial e emocional decorrente disso.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Iana: Meu teste foi o WAIS-III e no meu laudo emitido pela neuropsicóloga consta que sou superdotada na área linguística. Não fiz ainda uma avaliação focada nas múltiplas inteligências, tenho apenas alguma noção das que tenho em maior ou menor intensidade, mas não posso afirmar nada quanto a elas até o momento.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Iana: Fui a uma neuropsicóloga porque precisava do laudo de TEA, já que a minha psiquiatra – que foi quem sugeriu que eu era autista – não aplicava o formulário diagnóstico e eu queria um laudo oficial, pois acho importante ter documentação comprovando a minha neurodivergência, já que tenho direitos legais como tal. Conversando com a neuro, falei sobre querer investigar também SD/AH, já que tinha me identificado com algumas características, então ela aplicou o WAIS-III e tivemos a confirmação. Quanto à acessibilidade do serviço, infelizmente ele ainda é muito exclusivo. Uma avaliação neuropsicológica não custa menos de mil reais (e me referindo às mais baratas, pois há lugares em que o preço varia a partir de dois ou três mil), o que é completamente fora da realidade da grande maioria das famílias brasileiras. Por outro lado, entendo que o neuropsicólogo tem um trabalho gigantesco ao fazer uma avaliação. No meu caso, foram aproximadamente dez encontros (alguns duraram mais de 1h), e o meu laudo tem 15 páginas repletas de tabelas, gráficos, pontuações de atividades ou questionários e um parecer da neuropsicóloga sobre o meu caso. A avaliação neuropsicológica se situa no mesmo limbo que a psicoterapia, a meu ver: é um serviço extremamente importante e trabalhoso, cujos profissionais têm todo o direito a uma justa remuneração, no entanto vivemos em uma desigualdade econômica que leva pessoas a se enfileirarem para receber doação de ossos para terem de que se alimentar – e não seriam essas mesmas pessoas provavelmente as mais necessitadas de acompanhamento psicológico?

SM: Como foi a sua aceleração escolar?

Iana: Eu não tenho uma memória clara de como foi porque eu era muito nova. Só sei o que a minha mãe me contou, que a professora pediu uma reunião com os meus pais para dizer que eu estava muito desmotivada nas aulas por já saber o que eles estavam ensinando, e lembro vagamente de ter mudado de turma no meio do ano… Lembro também que eu fazia atividade de casa “por diversão” e a professora reclamava que não era pra fazer sem ela pedir, porque quando chegasse a hora de fazer em sala, eu não teria o que fazer. Deve ter sido nessa mesma época, haha.

SM: Do que se trata as suas teses de mestrado e doutorado?

Iana: A minha dissertação de mestrado analisa a constituição da persona poética de um satirista romano do século II d.C., Juvenal. Segundo o conceito de ethos da Análise do Discurso de Dominique Maingueneau, eu descrevi as principais características do “eu lírico” das sátiras juvenalianas. Já na tese de doutorado, ainda em andamento, pretendo defender que o vitupério (falar mal das pessoas) realizado nos gêneros de sátira e epigrama da poesia romana de II a.C. a II d.C. têm base na invectiva (sinônimo de vitupério) presente no iambo grego, um gênero poético da Grécia Arcaica, e para isso usarei poemas dos satiristas Lucílio, Horácio, Pérsio e Juvenal, e dos epigramatistas Catulo e Marcial (mas vamos ver se esse corpus de análise se mantém ou se serei forçada pelo prazo a diminuir).

SM: Como você relaciona a dupla neurodivergência e a síndrome do impostor?

Iana: Ser duplamente neurodivergente é muito complexo, porque há aspectos da SD/AH que “abafam” características autistas e vice-versa, logo há momentos em que me pergunto se sou mesmo capacitada para me pronunciar em nome de autistas ou em nome de outros SD/AH, porque é como se eu não estivesse inteiramente em nenhum dos lados. A síndrome do impostor entra nessa interação: ter ciência da minha superdotação me assegura de que sou cognitivamente competente para diversas atividades, mas a minha dificuldade de socialização/funcionamento executivo advinda do autismo me faz duvidar. Então vivo sempre um embate interno, por me considerar ao mesmo tempo capaz e incapaz de diversas funções cotidianas ou comuns à idade adulta, e estou sempre à mercê dos feedbacks que recebo, porque como eu sei a minha dificuldade para realizar X ou Y, quando eu consigo, fico pensando que poderia ter sido melhor, o que me leva a nunca estar satisfeita ou plenamente confiante.

SM: Quais são os seus livros, filmes e músicas favoritos?

Iana: Como é impossível escolher só um e não quero extrapolar nas recomendações, decidi trazer três de cada. Sobre livros, posso citar “As vantagens de ser invisível” (1999), de Stephen Chbosky; “A morte de Ivan Ilitch” (1886), de Leon Tolstói, e “A desumanização” (2013), de Valter Hugo Mãe. Como filmes preferidos, cito “Senhor Ninguém” (2012), de Jaco Von Dormael; “O Raio Verde” (1986), de Éric Rohmer; e “Mulher Oceano” (2020), de Djin Sganzerla. Quanto às músicas, e acho que esta é a categoria mais difícil, vou enaltecer vozes femininas contemporâneas e elencar os discos: “Petals for Armor” (2020), da Hayley Williams; “Stuffed and Ready” (2019), da banda Cherry Glazerr; Stranger in the Alps (2017), da Phoebe Bridgers. Para estudar, gosto muito de ouvir “O Lago dos Cisnes” (1877), do Tchaikovsky.

SM: Não raro crises existenciais fazem parte da rotina superdotada ou neurodivergente desde a infância, como você encaixa esse intenso transbordamento no quebra-cabeça da sua vida?

Iana: Ele já me influenciou positiva e negativamente. Em períodos em que passo por intensas dificuldades, é excessivamente fácil me perguntar por que eu continuo aqui se eu posso simplesmente acabar com isso, já que nada significa nada no fim das contas. Por outro lado, e é nesse estado em que eu tenho me encontrado agora – finalmente! –, penso que se nada faz sentido, nada vale meu estresse e a minha preocupação tanto assim, já que estou a apenas algumas gerações de não ser nem sequer uma memória para os que ficam depois que eu me for. No dia a dia, de modo geral, a crise existencial me proporciona muitos devaneios: adoro vídeos e documentários sobre a natureza selvagem e acho fascinante pensar como deve ser a vida de um passarinho, ou de uma cobra, a partir da perspectiva deles; semelhantemente, em qualquer lugar repleto de pessoas, penso que cada uma delas tem uma vida tão complexa quanto a minha própria, e também elas consideram as próprias questões mais importantes que as alheias, como também eu considero as minhas; olho para objetos e vou pensando no material de que ele é feito, como aquele material foi moldado naquele objeto, quem fez aquele trabalho, quem extraiu aquela matéria-prima, de quem foi a ideia de transformar aquela matéria naquele objeto pela primeira vez, e por aí vai. É como se eu constantemente pensasse na profundeza de tudo.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Iana: No momento, eu tenho feito psicoterapia com uma psicóloga que é SD/AH e se especializou em atendimento de SD/AH. Tenho gostado muito de ser acompanhada a partir da minha neurodivergência, que, como comentei no meu relato, era a peça que faltava que fazia com que eu sentisse que algo estava faltando das outras vezes em que fiz psicoterapia.

SM: Algum lema motivacional?

Iana: Não é bem um lema, mas um pensamento a que sempre recorro quando estou em dúvida diante de fazer ou não alguma coisa é: “qual é o pior que pode acontecer?”, porque essa resposta geralmente abre espaço para a solução. Se, no pior dos cenários, acontece X e eu desde já percebo que posso fazer Y para lidar com esse resultado, então eu vou em frente independentemente do que a minha cabeça ansiosa e hipervigilante esteja querendo me dizer – porque ela geralmente quer me fazer desistir de tudo que não seja ficar sozinha dentro da minha casa.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Iana: Nesta reta final do Doutorado, tenho recebido acompanhamento para conseguir escrever a tese no curto tempo de que ainda disponho e para me organizar quanto a metas e prazos que façam isso ser possível. Esta foi a minha primeira experiência do tipo, e tem sido excelente.

SM: Algum recado pra galera?

Iana: Obrigada aos que me mandaram mensagens positivas após a leitura do meu relato, e obrigada a quem tiver lido até aqui! Fico feliz de finalmente pertencer de verdade a algum lugar e de encontrar tantas pessoas parecidas comigo ao longo deste caminho.

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Entrevista: Amanda de Oliveira

Amanda de Oliveira

Amanda de Oliveira

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Amanda de Oliveira: Quando meu filho entrou no ensino fundamental comecei a suspeitar que ele tinha tdah e comecei a estudar sobre neurodiversidade. Estava certa que todos em casa tínhamos TDAH e/ou TEA. Brincava com uma amiga que estávamos fazendo tese de pós doc em neurodivergencia visto que estávamos super comprometidas a entender o neurodesenvolvimento humano e como era difícil encontrar profissionais que nos guiassem a gente ia estudando por conta e trocando informação uma com a outra. Ela com a mesma motivação que a minha: diagnosticar/identificar os filhos. Descobriu que sua filha era AHSD e estava certa que eu também era, me convenceu a buscar minha avaliação com especialista nessa área. Aos 35 recebi a confirmação bem como a resposta pra muita coisa na minha vida.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Amanda: Do tipo acadêmico/intelectual, nas área intrapessoal, naturalista e linguística principalmente.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Amanda: Por 2 meses tive encontros semanais com psicóloga especialista em AHSD. Não me parece acessível este serviço para a grande maioria da população tanto pelo valor, como pela dificuldade de encontrar profissionais qualificados.

SM: Como o sistema escolar não lhe serviu e de quais formas ele poderia ter lhe servido?

Amanda: Me parece insana a maneira que somos agrupados dentro do sistema escolar. Eu nunca me identifiquei com os pares e a socialização sempre foi sofrida. Eu não sou uma pessoa muito melancólica, então ao invés de me deprimir eu sentia raiva da maioria das crianças a minha volta. Achava eles bobos e de péssimo senso de maneira geral. Mas mesmo assim, me sentia pressionada a me encaixar num papel que já estava bem definido. Sinto que não fui estimulada como deveria academica e criativamente de maneira que foi mais um empecilho do que uma ferramenta na minha aprendizagem. Aprendi a estudar quando sai da escola. Não saberia nem como sugerir como poderia ter sido diferente, pois para mim a escola que conhecemos hoje é só mais uma instituição falida dentro do sistema que vivemos.

SM: Sobre o que se tratava o seu trabalho de conclusão de curso na graduação? O que lhe atraiu nesse tema?

Amanda: Ocorrência de pinipedes no estado em que moro. Pinipedia é um grupo de mamiferos marinhos que sempre me intrigou pois aparecem na região de forma erratica atualmente devido a ação antrópica. Eu sabia que queria trabalhar com eles então fui fazendo tudo que estava ao meu alcance nessa época para ir me especializando.

SM: O que é ser uma mãe e uma esposa superdotada?

Amanda: Não sei como responder essa pergunta.

SM: De quais formas você sofre uma dupla opressão por ser mulher e por ser mãe?

Amanda: O patriarcado é estruturante na nossa sociedade e o papel da mulher por si só já te transforma num alvo, ao se tornar mãe as expectativas duplicam automaticamente.

SM: Como é a vida de uma família atípica num mundo feito para típicos?

Amanda: Toda fora do padrao. Notoriamente quanto mais saímos dos padrões, mais qualidade de vida temos. Hoje temos o privilégio de viver bem.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Amanda: Eu e meu companheiro fazemos psicoterapia cognitivo comportamental eternamente. Nosso filho fez por um breve período, mas não pareceu ser tão efetivo naquele momento, porém, assim que cresça um pouco certamente retornará. Para nós adultos é essencial para entender nossas condições, bem como melhorar nossa comunicação. Eu sou AHSD e minha psico é TDAH, ele é TDAH e o psico dele é AHSD e isso foi uma grata surpresa.

SM: Algum lema motivacional?

Amanda: Não acredito em lemas e a palavra motivacional muito me incomoda devido ao sentido que ela é usada atualmente. Mas gosto muito e me identifico com a seguinte frase: em um mundo de concreto e ruído, quero ser de barro e silêncio.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Amanda: Não. Meu filho já fez, mas não vimos efetividade visto a limitação dos profissionais.

SM: Algum recado pra galera?

Amanda: Questione tudo, dogmas não servem para absolutamente nada. O que nos diferencia dos demais primatas é a nossa habilidade de comunicação, então busque ferramentas para melhorar a sua constante e eternamente.

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Relato Pessoal: Iana Lima

Iana Lima

Iana Lima

Meu nome é Iana (iana, não Lana!), tenho 28 anos e atualmente resido em Vitória/ES, onde vim fazer graduação em Letras e permaneci para dar continuidade aos estudos – no momento em que escrevo, estou no último semestre do meu Doutorado em Letras. A minha descoberta da superdotação anda de mãos dadas com o meu diagnóstico tardio de autismo, aos 27 anos, o que me caracteriza com o que se chama de Dupla Excepcionalidade (2E).

Desde criança estive a frente dos meus pares em faixa etária. Aprendi a ler sozinha, fui adiantada de série na escola segundo sugestão da professora aos meus pais – segundo ela, eu ficava entediada durante as aulas e forçava a aceleração do conteúdo, que eu já dominava –, e terminei o Ensino Médio com algumas medalhas de vitória em olimpíadas escolares de redação e soletração. Esse foi um período em que eu me culpava muito, por não me sentir merecedora de tantos louros, já que não me considerava suficientemente esforçada para tais conquistas. Meu EM foi em uma escola particular com diversas unidades em várias cidades, e na ocasião em que fui comunicada de que em um mês específico eu estava dispensada de pagar a mensalidade por ter ficado em 1º lugar geral na nota de redação, desabafei com a minha psicóloga que eu me sentia roubando o lugar de alguém que merecia aquilo mais do que eu. Creio que essa sensação de não merecimento pela falta de esforço seja um sentimento comum a muitos outros superdotados – e envolve muita solidão, já que ninguém vai acreditar que você esteja realmente desconfortável em ter sido o melhor em algo, afinal esse costuma ser o objetivo de muita gente. Inclusive, falar dessa forma das minhas próprias conquistas é desconfortável, pois parece simplesmente soberba, um vício aristotélico (rs), mas estar inserida hoje em comunidades AH/SD me permite trazer experiências do tipo como um exemplo, pois sei que há quem se identifique com o meu relato, como eu me identifico com tantos outros.

Iana Lima

Iana Lima

Eu percebo a AH/SD no meu dia a dia porque sempre quero aprender algo novo e compartilhar as descobertas que faço no caminho. Meus interesses sempre foram muito ligados à arte. Aprendi a tocar violão sozinha, sou uma autodidata em desenho, aquarela e cerâmica fria, faço crochê e bordado, escrevo poemas e sou uma voraz consumidora de literatura, cinema e música. Uma característica forte em mim quanto à aquisição de habilidades é a predileção pelo autodidatismo ao aprendizado formal com um tutor. Gosto também de tudo o que envolve aprendizado e ensino de línguas, o que faço profissionalmente, sendo professora de português, inglês e latim, e por hobby, tendo algum conhecimento de espanhol, francês, italiano e alemão. Como esses interesses acabam sendo também hiperfocos autísticos, por vezes eles parecem me devorar, e já virei noites acordada por estar engajada em alguma atividade relacionada a eles. Há momentos em que sinto quase que um desespero de querer desligar o meu cérebro e pensar em outra coisa, mas não conseguir.

A superdotação, em conjunto com o autismo, também afeta muito o meu emocional, que sempre percebi ser mais intenso e flutuante que o das pessoas mais próximas a mim – já cogitei ser borderline, tamanha a dor que o sentir me causou tantas vezes. Situações de injustiça me abalam muito e detesto hierarquias, pela subentendida tirania que permitem. No início da idade adulta, lembro de chorar no sofá de um psicólogo por me sentir impotente frente às desigualdades sociais no mundo, negligenciadas por quem teria condições de saná-las, o que não me incluía. Desde criança experimento crises existenciais que até hoje me acompanham e me trazem grande sofrimento, porque considero sufocante não saber a razão ou o propósito de existir (não tenho religião justamente porque nenhuma explicação me satisfaz), e me aterroriza que um dia minha consciência esteja permanentemente cessada – e tudo isso pareça aleatório e gratuito.

Hoje, sabendo de onde vem toda essa angústia, e ciente de que há uma explicação científica para que eu tenha tantos pensamentos e sentimentos na intensidade em que eles vêm, finalmente me aceito como sou. Me descobrir autista e superdotada foi um divisor de águas que virou a chave da minha autoestima, que por tanto tempo esteve ofuscada pela autodepreciação, e me proporcionou o autoconhecimento que uma vida inteira de psicoterapia jamais alcançaria – não sem a neurodivergência como a peça principal do quebra-cabeça. O autismo e a superdotação, portanto, passaram a integrar minha lista de interesses a ponto de eu hoje vislumbrar a possibilidade de, futuramente, estudar psicologia, para ajudar outros que vivam as mesmas aflições que conheço tão bem.

Só quem cresceu se sentindo um patinho feio, destacando-se acidentalmente e tendo grande dificuldade de encontrar outros semelhantes ao redor, entende a importância de encontrar uma comunidade de cisnes e se apropriar de um rótulo – este termo que tem um sentido pejorativo, mas que uso aqui com a melhor conotação possível – que é sinônimo de libertação e autoaceitação. Descobrir a minha dupla neurodivergência foi a melhor notícia que já recebi na vida, e hoje encaro como uma missão divulgar dentro do meu alcance, pelas minhas redes sociais, o que isso significa e como isso me afeta, na esperança de ajudar outras pessoas.

Informações para Contato

iana-cordeiro@hotmail.com

@iana___lima

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Entrevista: Cícero Moraes

Cícero Moraes

Cícero Moraes

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Cícero Moraes: Sempre achei que para alguém ser superdotado deveria necessariamente fazer contas super complexas de cabeça, bem como ser portador de uma memória excepcional, mas não é bem assim. No meu caso eu descobri que é muito mais sobre como sentimos e lidamos com o mundo do que prega a nossa atividade acadêmica.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Cícero: Profissionalmente no campo da computação gráfica 3D, envolvendo a modelagem, desenvolvimento de software e tecnologias de planejamento cirúrgico para humanos e outros animais.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Cícero: No meu caso correu tudo bem, pois a Dra. Daiane Azevedo conduziu os testes com grande maestria, respeitando a minha sobre-excitabilidade. É um fato que, além de termos poucos profissionais atuando no campo das AH/SD, os valores são proibitivos para parte significativa da população.

SM: O que é ser um esposo superdotado?

Cícero: É ser alguém que respeita a parceira em todos os sentidos, que a incentiva a ser ela mesma, que fomenta o seu desenvolvimento profissional, que é extremamente empático e entregue a uma vida a dois, regada por cuidado, respeito e amor.

SM: Qual o significado que você dá para o suicídio? E de que formas podemos enfrentar essa questão numa dimensão política e social?

Cícero: É uma ação que traz muito sofrimento para quem fica, no meu caso eu era muito novo quando meu pai faleceu, não tinha maturidade para entender, mas ao longo da vida percebi a tristeza que o ocorrido causou aos parentes e amigos. Sempre é importante buscar ajuda, principalmente de um profissional de saúde mental, para evitar tamanho sofrimento.

SM: Qual o seu nível de instrução formal? Você pretende continuar investimento no tripé ensino, pesquisa e extensão?

Cícero: Sou formado em Marketing por uma universidade EaD (Uninter). Sim, essa realidade é algo bem presente na vida daqueles que se dedicam à saúde humana e veterinária.

SM: O autodidatismo exerce um impacto e uma importância na sua vida. De quais formas a educação e a ciência poderiam celebrar os talentos autodidatas ao invés de embotá-los?

Cícero: De uma forma bem objetiva, tornando o processo de publicação menos burocrático e focando no assunto e sua importância, não nas instituições as quais os indivíduos pertencem.

SM: Você edita a sua própria revista científica, a OrtogOnLineMag. Elabore sobre as demandas de inovação em termos de política e metodologia que lhe levou ao desenvolvimento desta revista.

Cícero: Justamente a burocracia geral das publicações científicas. Foi uma forma que encontrei de permitir aos meus alunos e demais interessados, publicarem artigos sobre os seus trabalhos/linha de pesquisa, de uma forma mais prática, sem descuidar, evidentemente, dos aspectos éticos.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Cícero: Sim, tecnicamente todas as pessoas tem uma ou outra questão para cuidar. Ao se buscar um profissional da saúde mental, encontramos uma forma de falarmos dos nossos problemas e assim, curiosamente, ter um diálogo pessoal e produtivo, para, se não resolver, ao menos saber conviver com as nossas peculiaridades.

SM: Algum lema motivacional?

Cícero: Descanse, descansar é parte importante do trabalho.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Cícero: Não.

SM: Algum recado pra galera?

Cícero: Para aqueles que, como eu, vivem sob o signo da sobre-excitabilidade, sigam o meu lema motivacional supracitado, parece incoerente para aqueles que gostam de produzir, mas até um carro de Fórmula 1 precisa parar na corrida, para recarregar o combustível e recuperar a sua potência total.

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Entrevista: Daniele Pendeza

Daniele Pendeza

Daniele Pendeza

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Daniele Pendeza: Eu sempre me senti um pouco diferente das outras crianças, especialmente nos primeiros anos da minha escolarização. Eu tinha mais facilidade na escola, raciocínio mais rápido e muito fiquei de castigo por falar “o que não deveria”. Encontrei explicações para as coisas que me ocorriam, muitas vezes sendo preconceituosa, achando que os outros que eram burros, que não aprendiam ou não eram melhores porque não queriam. Já na idade adulta passei por uma primeira avaliação e não acreditei no resultado, mas isso sempre ficou em segundo plano nos meus pensamentos, até que escolhi uma outra profissional para refazer os testes e obtive o mesmo resultado. Essa segunda profissional era psicóloga e colaborou no meu processo de aceitação através de sessões de psicoterapia.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Daniele: Tenho mescla entre os perfis intelectual e acadêmico, com altas habilidades nas áreas naturalista, linguística, musical e intrapessoal.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Daniele: Minha avaliação aconteceu sem querer. Uma colega de trabalho me falou sobre um grupo de pesquisa na universidade onde eu fazia mestrado, que trabalhava com identificação de AH/SD, e me convidou para participar. Eu adoro fazer testes e colaborar em pesquisas, então fui por curiosidade, mas com certeza de que não seria identificada. Não aceitei bem e apenas 5 anos depois resolvi realizar uma segunda testagem, onde o primeiro resultado foi confirmado.

SM: Qual adaptação ou suporte pedagógico você gostaria de ter vivenciado no período escolar? E no período universitário?

Daniele: Eu consegui enriquecer meu currículo por conta própria, mas certamente os locais onde estudei colaboraram por propiciar oficinas extracurriculares e ótimas bibliotecas para todos os alunos e alunas. Tive muita sorte nesse ponto, pois se tivesse ficado apenas com as matérias básicas, a escola e a universidade teriam sido chatas. O que acredito que teria sido bom, era ter recebido avanço nas primeiras séries do Ensino Fundamental, tendo em vista que eu dominava os conteúdos, mas tive que cursar junto com pares de mesma idade.

SM: Você acredita que o seu comportamento superdotado na escola pudesse ser gatilho para comportamentos de bullying por parte de alguns colegas?

Daniele: Sim, eu era vista como diferente e sofri bullying no Ensino Fundamental. Mas eu me defendia como podia e com certa frequência me metia em brigas (inclusive para defender outros colegas).

SM: Quantos/quais instrumentos você toca?

Daniele: Violão, ukulele, banjo, flauta doce, teclado, pandeiro e violino.

SM: Qual o seu gênero musical favorito e como você se relaciona com ele?

Daniele: Atualmente sou eclética, gosto de músicas/artistas que me passem algo, seja musical, seja nas letras… Eu sempre fui apaixonada por música erudita, especialmente Beethoven, Mendelssohn, Puccini e Verdi. Mas na minha playlist também tem Anitta, Calle 13, Legião Urbana, Pink, Rammstein, Adele e Slipknot.

SM: Qual o seu livro favorito?

Daniele: Pergunta tão difícil quanto escolher um gênero musical preferido! Eu gosto de ler de tudo, mas atualmente me interesso mais por livros que me ensinem algo, especialmente romances históricos. Literatura mais “leve”, eu gosto de Stephen King (terror) e Jane Austen (romances e diálogos ferinos).

SM: O Brasil mal conta com uma educação artística satisfatória nas escolas, muito menos com uma educação musical, com raras exceções tais como nos colégios militares. Quais benefícios formativos e pedagógicos você reconhece na educação com e/ou para a música?

Daniele: Nesse ponto eu também tive muita sorte de poder participar de oficinas de música na escola onde estudei. A música colabora com a plasticidade neuronal, aumentando a conectividade entre os hemisférios. Ela, por si só, não deixa ninguém mais inteligente, mas dá ferramentas para desenvolvermos a inteligência (não apenas a musical). A própria estética é algo que se constrói. Precisamos aprender a ouvir para ouvir plenamente. Sem uma educação musical de qualidade desde as primeiras etapas da vida, as pessoas são privadas de um prazer artístico muito rico e de um recurso lúdico para a melhora na plasticidade neuronal.

SM: O que é musicoterapia? Quais os seus benefícios, em especial para as pessoas neurodivergentes?

Daniele: Segundo a UBAM (União Brasileira das Associações de Musicoterapia), a Musicoterapia “é um campo de conhecimento que estuda os efeitos da música e da utilização de experiências musicais, resultantes do encontro entre o/a musicoterapeuta e as pessoas assistidas. A prática da Musicoterapia objetiva favorecer o aumento das possibilidades de existir e agir, seja no trabalho individual, com grupos, nas comunidades, organizações, instituições de saúde e sociedade, nos âmbitos da promoção, prevenção, reabilitação da saúde e de transformação de contextos sociais e comunitários; evitando dessa forma, que haja danos ou diminuição dos processos de desenvolvimento do potencial das pessoas e/ou comunidades.”
Resumindo, é o uso da música com finalidades terapêuticas, necessitando de profissional formado (a) na área. Não é só colocar uma playlist para a pessoa se acalmar ou ficar mais feliz. Ouvir música pode ser terapêutico, mas não é terapia.
Eu trabalho com bebês em intervenção precoce, autistas, crianças superdotadas (geralmente com dupla excepcionalidade) e algumas crianças com síndromes raras. Os benefícios envolvem a melhora na plasticidade neuronal, melhoras na comunicação, no desenvolvimento social e da brincadeira, na prontidão escolar, comportamentos adaptativos e autoconhecimento, controle de comportamentos desafiantes e na motricidade, dentre outros. É uma aliada lúdica e prazerosa para a estimulação do desenvolvimento infantil.

SM: De que formas seu transtorno do processamento sensorial somado às sobre-excitabilidades das suas AH/SD lhe causam estresse, desconforto e raiva?

Daniele: Esse tema é algo que me fez mudar meu foco em pesquisas, inclusive. Eu percebo muitas semelhanças nas duas questões e ainda não sei o quanto elas se sobrepõem e têm traços em comum. O que sei nesse momento é que identificar o TPS e encontrar estratégias para não me sobrecarregar ao longo do dia a dia me ocasionou uma qualidade de vida imensa. Diminuiu dores físicas, como bruxismo, dor nas costas, dores de cabeça e uma eterna raiva de tudo que não dava certo. Assim fico mais calma, penso melhor e produzo mais. Muitas coisas me causavam mal e eu nem notava, como encostar em texturas na hora de cozinhar (coisas gordurosas ou carne crua), movimentos de pêndulo (enjoo só de olhar, ou em carro/ônibus). Atualmente, mesmo que tenha que lidar com algo que me incomoda, eu tenho estratégias de enfrentamento e sei dar o tempo que necessito para me reorganizar.

SM: Da onde surgiu a ideia de editar uma revista científica? E por que sobre neurodiversidade como tema transversal?

Daniele: Eu amo pesquisa, mas não me adapto totalmente ao sistema de publicação e luta pelo Qualis que existe no nosso país. Também sentia falta de um espaço que falasse sobre neurodiversidade, algo mais focado. Um dia pensei: por que não fazer uma revista independente? Eu tinha alguma experiência tanto para fazer um site quanto para montar as diretrizes e regras da revista. Um amigo que trabalha com marketing me presenteou com a logo, organizei tudo e contatei o Lucas Pontes para me ajudar, para dividir esse trabalho mais técnico de receber artigos e conferir se tudo estava dentro do esperado, ele também tem ótimo conhecimento de redes sociais e colabora tremendamente na divulgação. Eu tinha vários contatos que aceitaram serem os primeiros (as) pareceristas e em poucos dias a revista nasceu!

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Daniele: Sobre meus familiares, eu não saberia precisar. No momento eu não faço acompanhamento, mas sempre que necessito de suporte, eu sei a quem recorrer, faço algumas sessões. Nesse momento não tenho nada crítico a ser trabalhado, então geralmente são questões pontuais.

SM: Algum lema motivacional?

Daniele: Eu gostava dessa frase: tudo que merece ser feito, merece que se faça bem feito.
Acho que é muito conectado ao meu perfeccionismo, mas agora eu tento ter mais leveza e aproveitar mais as coisas, seja o processo, sejam os resultados.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Daniele: Não, nunca ninguém utilizou (que eu saiba).

SM: Algum recado pra galera?

Daniele: O autoconhecimento é algo incrível. O processo pode ser doloroso, aceitar-se como diferente, com suas habilidades e limitações é tão difícil quanto libertador. Eu espero que todas as pessoas possam, em algum momento de suas vidas, passar por um processo de terapia, de autoconhecimento e que possam desenvolver todo seu potencial, independente de quaisquer diagnósticos.

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10 Anos: Celebrando vidas superdotadas

Em janeiro de 2023 o blog Supereficiente Mental comemora 10 anos de existência, de promoção e apoio à neurodiversidade, às pautas neurodivergentes, com especial atenção à população superdotada em território lusófono.
Nesses 10 anos, foram realizadas 180 publicações, cerca de 18 publicações por ano, dentre ensaios, relatos pessoais e entrevistas, sendo estes dois últimos gêneros discursivos o foco principal do empreendimento ativista liderado por Filipe Russo.
Em 2022, o blog alcançou mais de 50.000 visualizações em um único ano, número que contabiliza mais de 100 visualizações por dia (ver gráfico). Esses números representam mais do que um crescimento de interesse nos temas neurodivergentes, mas também representam a expressão popular e documental de demandas sociais, muitas vezes invisibilizadas por questões políticas, ora institucionais, ora atitudinais.
É em ritmo de reivindicação do nosso espaço social e de celebração da nossa exuberância superdotada que comemoramos uma primeira década produtiva, criativa e crítica, de tantas outras que ainda estão por vir. Esta comemoração se dará ao longo do ano inteiro com publicações dedicadas a socializar os saberes divulgados, elaborados e registrados no blog Supereficiente Mental. Acompanhe as novidades pela categoria 10 Anos e pela tag ensaios comemorativos!

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Inteligências Múltiplas: Como desenvolvemos a inteligência musical?

Como desenvolvemos a inteligência musical?
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Altas Conversas Altas Habilidades: S2 E3 Compreendendo a Sobre-excitabilidade na Superdotação

Assistam ao podcast na íntegra pelo Spotify clicando aqui.

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Sobre-excitabilidades: Superdotação, Perguntas e Respostas

Superdotação e sobre-excitabilidade: perguntas e respostas

Referências

MIKA, Elisabeth. Gifted children, overexcitabilities, developmental asynchrony and positive disintegration: A preliminary clinical study. Disponível neste link.

MIKA, Elisabeth. Dąbrowski’s views on authentic mental health. In: MENDAGLIO, Sal (ed.). Dąbrowski’s Theory of Positive Disintegration. Scottdale: Great Potential Press, 2008, pp.139-153. Disponível neste link.

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Relato Pessoal: Amanda de Oliveira

Amanda de Oliveira

Amanda de Oliveira

Sou Amanda, tenho 37 anos e recebi minha identificação de pessoa com AHSD recentemente. Desde criança não me identifico com meus pares, tenho diversas sensibilidades e frequentemente na vida fui rotulada como do contra, revoltada e mal educada. Lembro com clareza de me sentir deslocada no ambiente escolar por não compartilhar dos mesmos gostos, desejos e princípios dos colegas. Tinha um desempenho escolar acima da média, mas não fui uma criança prodígio nem nada. Fazia amizades facilmente, mas elas não duravam pois meu comportamento destoava dos demais, o que me gerava desconforto e a constante sensação de que eu não cumpria o papel que era esperado de mim. Na adolescência meu rendimento escolar caiu drasticamente conforme minhas habilidades sociais “aumentavam”. Coloco entre aspas pois parecia positivo o fato de naquele momento eu participava de atividades com pares por vontade própria, mas hoje percebo o quanto isso me custou e acho que o saldo no final foi negativo. Minhas sensibilidades eram levadas ao limite todos os dias e em pouco tempo comecei a abusar do uso de álcool e drogas. Ao final do ensino médio aprendi de fato a estudar e já tinha clareza que o sistema escolar não servia para mim, nem para a grande maioria dos colegas. Na faculdade fui uma aluna mediana pois nas matérias que não eram do meu interesse eu tinha que mover uma montanha para conseguir me engajar. Ao passo que nas que eram do meu interesse eu ia excepcionalmente bem. Como exemplo cito o fato do meu trabalho de conclusão de curso ter sido publicado na revista latino americana mais prestigiada da área. Saindo da faculdade segui para o mestrado, porém, não gostei do curso e nunca cheguei a concluí-lo. Nessa época consegui o trabalho dos meus sonhos e em pouquíssimo tempo percebi que não seria possível seguir no mesmo também. Tanto pela demanda física, bem como a social, mas principalmente por perceber a corrupção absurda envolvida. Sempre me compadeci com injustiças e se há algo a ser feito que esteja ao meu alcance, eu preciso fazer. Isso me levou a trabalhar com resgate de fauna silvestre e na vida pessoal me dedicar ao resgate de animais domésticos. Aos 28 tive meu filho e sinto que este foi o momento que pude de fato começar a viver a vida que eu queria. Até aquele momento a vida parecia uma sequência de passos pré estabelecidos e eu nunca tinha motivos fortes o suficiente para desviar de caminho. Tenho uma vida bastante privilegiada e sempre tive opções, mas ao mesmo tempo tinha grande pressão para seguir a linha da vida padrão. Gostaria de salientar que a maternidade foi escolha minha (na medida do possível visto que nossos desejos são influenciados pelo entorno), até o ano anterior eu abominava a possibilidade de ser mãe e no momento que quis ser, engravidei e pari. Ironicamente, ao finalmente ter cumprido o papel social que era esperado de mim, pude ter mais clareza da realidade que me cerca. A vida inteira nós mulheres somos oprimidas mas quando viramos mãe a opressão vem em dobro. A partir daí comecei a estudar sobre comportamento e desenvolvimento humano, o que foi crucial para meu autoconhecimento. A pressão social para andar em bando diminuiu e pude de fato socializar na medida que me era confortável. Conforme meu filho foi crescendo, também foi crescente a percepção do quão destoante é o meu comportamento, bem como do meu companheiro e do nosso filho. Quando surgiu a suspeita do pequeno ser TDAH, me debrucei sobre o estudo das neurodivergências e logo ficou claro que somos todos atípicos. Hoje percebo que o meu nível de comprometimento, bem como minha função executiva, são bastante acima da média. Não consigo ter conversas superficiais em nenhuma situação, minha necessidade de aprofundar sobre absolutamente tudo e minha rigidez de pensamento tornam a socialização bastante desafiadora. Tenho uma série de hipersensibilidades sensoriais e para não me sobrecarregar diariamente preciso de diversas ferramentas. Não entendo a maioria dos rituais da nossa sociedade e a maioria das tomadas de decisões das pessoas me parecem absurdas. No ano passado fui identificada com super dotação acadêmica, naturalista, linguística e intrapessoal. Estudar e entender como meu cérebro funciona fizeram eu mudar completamente minha percepção sobre quem sou no mundo. Hoje tenho clareza das minhas limitações, bem como das potencialidades, o que faz com que eu consiga organizar minha vida de maneira a minimizar sofrimentos e ter qualidade de vida.

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