Altas Conversas Altas Habilidades: S2 E2 Aspectos Socioemocionais e o Impacto na Escola

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Entrevista: Tassiana Livi

Tassiana Livi

Tassiana Livi

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Tassiana Livi: Foi um processo de descoberta mas a partir da descoberta do meu filho. Me via nele e fui atrás de identificar a minha. Depois da confirmação houve um tempo de pensar: “hummm então agora as coisas finalmente fazem sentido.”

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Tassiana: Sou multipotencial. Áreas de liderança, artística, construtiva, criativa, corporal-cinestésica, intrapessoal, interpessoal e naturalística.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Tassiana: Foi tranquilo. Acho que ainda carecemos de profissionais habilitados para a identificação completa mas ela é de suma importância para um desenvolvimento psicológico saudável. E quanto mais cedo for feita esta identificação melhor é para o indivíduo.

SM: O que é ser uma esposa superdotada?

Tassiana: É como estar em todos os lugares ao mesmo tempo. É quase ser onisciente hehehe e nunca parar de ler e estudar.

SM: Quais os desafios e as delícias na identificação e acompanhamento da comunidade superdotada?

Tassiana: Os benefícios estão no campo pessoal. Dar sentido a si mesmo e compreender que nada foi por acaso. Os desafios são educar nossos filhos principalmente se eles também são neurodivergentes.

SM: Como o ambiente escolar produziu sofrimento no seu filho sd?

Tassiana: Pela falta de conhecimento. Um aluno SD tem uma demanda diferente, reações diferentes e expectativas diferentes. A intensidade de cada um é vista no ambiente escolar como desregramento de comportamento. Completamente desnecessário quando se sabe que esta criança é SD.

SM: Como você considera o mercado de trabalho para pessoas com AH/SD?

Tassiana: Muito promissor! Já vemos algumas iniciativas bem concretas nessa área. Para o superdotado é tranquilo.

SM: O que é ser uma mãe superdotada com um filho superdotado?

Tassiana: Esta é a parte mais fácil. Fácil porque vc entende certos funcionamentos, e quando vc não tem uma expectativa irreal sobre a educação do teu filho fica mais leve. Acaba criando um vínculo profundo e forte com teu filho. Uma espécie de: “ok, eu também agiria assim e está tudo bem”.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Tassiana: Não.

SM: Algum lema motivacional?

Tassiana: Meu filho disse sentir orgulho de mim porque descobri que “com pedras construí meu castelo” e que “pontapé joga a gente para frente”. E é exatamente isso que ensino para ele. A vida não bate com carinho, podemos ter um tempo de luto, mas depois sacudir a poeira e levantar a cabeça porque eu até posso cair mas quando eu me levantar… corre.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Tassiana: Sim eu mesma faço com meu filho. Sou neuropsicopedagoga. Funciona muito bem porque somos muito parecidos. Suplemento aquilo que falta na escola com atividades do interesse dele a fim de promover a capacidade criativa, construtiva e cognitiva dele.

SM: Algum recado pra galera?

Tassiana: Não deixar a identificação para a adultez. Crianças SDs sofrem muito com as adversidades da vida porque encaram de maneira mais intensa os problemas e acabam levando para a vida adulta crises emocionais e situações psicológicas já cristalizadas que poderiam ter sido facilmente evitadas.

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Sobre-excitabilidades: Estratégias para Lidar com as Sobre-excitabilidades Parte 2

Referência da Live

MARGIS, Regina; PICON, Patrícia; COSNER, Annelise F.; SILVEIRA, Ricardo O. Relação entre estressores, estresse e ansiedade. Revista Psiquiátrica, n.25, (suplemento 1), 2003, pp. 65-74.

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Relato Pessoal: Daniele Pendeza

Daniele Pendeza

Daniele Pendeza

Meu nome é Daniele Pendeza, sou gaúcha e no momento da escrita desse texto, tenho 33 anos. Fui identificada como pessoa com Altas Habilidades/Superdotação aos 27 anos, mas essa história começa anos antes.

Minhas lembranças mais antigas me levam aos meus 4 anos, quando eu falava para a minha avó materna que não precisava aprender a fazer as coisas de casa, pois seria doutora e teria uma empregada para fazer tudo para mim (ela sabiamente me disse que eu precisaria aprender, para poder ensinar para a tal empregada como as coisas deveriam ser feitas ou para saber avaliar se o trabalho era adequado). Nessa época já era alfabetizada e realizava leitura fluente, interpretando o significado dos textos. Como eu sempre pedia que histórias fossem lidas antes de eu dormir, e o que era lido para mim nunca era o suficiente, pedi para aprender a ler, então eu poderia ler à vontade aquilo que eu desejava. Minha mãe, mesmo sem ter completado a educação formal, me ensinou o alfabeto e como as sílabas se juntavam, e logo eu estava lendo.

Nesse momento havia acabado de ingressar na Educação Infantil, onde as professoras ensinavam o alfabeto para a turma, e eu acabava por demonstrar péssimo comportamento, bagunçando na sala e brigando com colegas. Como já sabia aqueles conteúdos, terminava as atividades muito rápido e ficava ociosa, sem receber materiais extra para realizar, sem nenhuma adaptação curricular. Houve reunião com a minha mãe, pois desconfiavam que ela me obrigava a estudar em casa, mas todo o processo de alfabetização precoce e a minha curiosidade em aprender coisas novas partiam de mim mesma. Lembro de apenas uma professora que levava atividades extra, alguns desenhos para que eu pintasse e permanecesse ocupada enquanto os colegas terminavam a atividade principal. Mas isso partiu dela, de seu estudo e boa vontade.

Fui oradora na formatura da Educação Infantil e soube que nesse momento houve nova reunião com minha família, sobre a possibilidade de eu ser avançada de série, indo para o segundo ano do fundamental, ao invés de iniciar no primeiro, tendo em vista que eu já havia dominado os conteúdos de forma autodidata. Uma das pessoas que deveriam autorizar esse processo foi contra, alegando que eu não teria maturidade para um segundo ano. Não foi feita nenhuma avaliação ou acompanhamento com profissional especializado (a). A decisão foi tida a partir de achismo e falta de competência de pessoas que deveriam saber sobre inclusão escolar.

Isso ocasionou um início difícil no Ensino Fundamental. Tive dificuldade de me enturmar com os colegas, especialmente com as meninas. Eu fiz amizade com alunos e alunas dos anos mais avançados (2 e 4 anos na minha frente), tendo mais em comum com eles do que com os meus pares. Os problemas emocionais aconteceram mesmo eu tendo que cumprir o currículo usual, pois era exaustivo ir para a escola, havia bullying e muitas brigas, inclusive com agressões físicas, mas eu conseguia me defender e revidava.

Lembro que saí em defesa de uma colega que possuía dificuldade de aprendizagem. Nossas mães se conheciam e eventualmente brincávamos fora da escola, então me aproximei dela também no ambiente escolar. Um dia fui comprar lanche e ela ficou me esperando perto de um viveiro com animais que havia no pátio da escola. Um grupo de outras meninas a estava estrangulando em um canto escondido. Bati em três meninas (não lembro detalhes desse momento) e fui parar na direção para assinar o “caderno” da escola, mesmo eu tendo ido em socorro de quem realmente estava sofrendo, também saí como culpada. Depois de um tempo essa colega saiu da escola e nunca mais tive contato com ela. Esse triste momento é minha lembrança mais antiga de eu lutar por justiça social, de não discriminar alguém pelo simples fato de ser diferente. Conforme fui crescendo, fui ficando “respondona” e “inadequada” nas minhas colocações, enfrentando as pessoas e tendo que lidar com muitas surras e castigos devido ao meu comportamento.

Ainda na escola, comecei a buscar por atividades extra que sanassem minha curiosidade, pois as aulas nunca eram suficientes, tudo parecia fácil demais, superficial demais (e exceto nas aulas de matemática, eu tinha muita facilidade e frequentemente gabaritava todos os trabalhos e provas). Não lembro em qual série exatamente, mas tivemos uma ótima professora de educação física que criou laboratórios de esportes, onde podíamos ter contato mais aprofundado com futebol, handball, vôlei e ginástica olímpica. Fiz todos. Mais ou menos na mesma época tivemos aulas de dança, também me inscrevi (a escola era filantrópica, e por ser de baixa renda eu tinha bolsa, o que me proporcionou ter tantas experiências legais mesmo sem ter poder aquisitivo).

Infelizmente, professores (as) que se destacam crescem e vão para ambientes onde suas habilidades são melhor acolhidas, então perdi a professora de esportes e o professor de dança. Mas sempre surgiam pessoas legais na minha vivência, como a professora de artes, que também criou laboratórios de desenho e pintura, e lá fui eu novamente.

A vida escolar não se resumia apenas à escola, pois eu tinha amigos na rua onde eu morava, primos mais velhos e a tarde toda mais os finais de semana para ir atrás dos meus interesses. Apesar de ter muitos amigos e amigas, eu sempre gostei mais de brincar sozinha e de me perder no mundo da minha imaginação. Queria ser cientista, assistia a programas como X-tudo e imitava experiências em casa (às vezes com a ajuda dos meus pais, outras vezes sozinha e escondida, foi assim que eu fiz uma fogueira gigante que gerou pânico na rua, ou quando eu tentei fazer remédios com plantas e acabei com uma grande dor de barriga). Eu morava em uma casa com pátio e criei uma bancada de cientista para fazer meus experimentos, do lado de fora. Buscava pedrinhas, plantas (algumas eu plantava, cheguei a ter um jardim todo cuidado por mim), insetos e tentava entender mais sobre eles. Eventualmente ganhava dinheiro e comprava revistas e gibis na revistaria perto de casa, escrevia poemas e histórias.

Meu amor pelos livros começou quando eu descobri as bibliotecas de duas tias, que são professoras de letras, e deixaram eu ter livre acesso aos materiais. Todo final de semana eu escolhia algum livro infanto-juvenil e levava para casa. Aos poucos um livro não era mais suficiente e eu levava dois, três…. Até hoje rimos de uma história engraçada: uma de minhas tias me emprestou o Caçador de Pipas, o livro mais extenso que eu havia pego até então. Eu disse que, como o livro era muito grande, eu demoraria para devolver, e ela disse que não tinha problema. Três dias depois eu devolvia o livro e queria debater sobre a história.

Nos dois últimos anos do ensino fundamental (sétima e oitava séries) parti para aulas de violão, canto e uma exploração da biblioteca da escola (a da família já não tinha tantos atrativos). Havia aulas de redação, onde podíamos retirar um livro por mês e devolver junto com uma resenha valendo nota. Eu queria ler Shakespeare (não seria a primeira vez), mas a professora proibiu, pois, segundo ela, era muito avançado para a minha turma. Peguei Hamlet escondido em baixo de algum livro da coleção Vagalume e ao final do mês entreguei as duas resenhas. A professora pediu desculpas e a partir daquele momento deixou eu escolher o que eu queria, inclusive fazendo uma espécie de curadoria para me direcionar a livros que poderiam me interessar.

E os colegas? Nessa época eu era mais “popular”, pois todo mundo queria fazer trabalhos comigo ou colar nas provas. Alguns anos depois, quando eu terminava o ensino médio, uma ex-colega do Fundamental me achou nas redes sociais e pediu desculpas por ter se aproveitado de mim na escola, contou que quando “me perdeu”, não deu mais conta dos conteúdos e começou a repetir de ano, tendo muitas frustrações.

Apesar disso, eu estava cada vez mais focada nas coisas que eu gostava e me importando cada vez menos com quem não me servia (isso não significa que eu não sofria, mas que eu era capaz de ter minhas alegrias). Na oitava série comecei a me afastar ainda mais, pois no turno inverso das aulas eu fazia cursinho para entrar em uma escola técnica de Ensino Médio que funcionava dentro de uma universidade pública, e que possuía processo seletivo. Basicamente, só estudava. Muitas pessoas diziam que eu não passaria na prova, porque “fulano e ciclano fizeram a prova e não conseguiram”. Hoje vejo como esses comentários eram fruto de machismo e apesar das minhas habilidades, sempre tinha alguém disposto a me diminuir, ou dizer que eu não fazia mais que a minha obrigação em ir bem na escola e estudar.

Foram apenas 60 vagas e eu era uma delas! Lá, pude ter acesso a uma biblioteca infinitamente maior (cheguei a ler 75 livros por ano nessa época – eu tinha um caderninho onde anotava tudo o que lia, hoje já abandonei essa prática e não conto mais), ter liberdade de horários (não se rodava por falta, inclusive eu matava aulas que eu ia bem para estudar aquelas que eu tinha dificuldade – e, sim, eu também tinha dificuldades, especialmente nas exatas) e ter contato com colegas tão nerds quanto eu. Não existiam mais brigas e problemas, o ambiente era colaborativo e quase toda a escola se conhecia (eram 6 turmas de ensino médio e mais os cursos técnicos). Para não dizer que tudo foram flores, nesse período eu comecei a ter problemas para dormir. Cheguei a ficar 3 dias acordada, sempre querendo estudar e fazer mais.

No segundo ano havia outra seleção, agora para o curso técnico. Cheguei a me inscrever para a prova de eletrônica, mas durante a prova eu pensei: eu quero estudar música, não gosto de ficar sofrendo com matemática e física! Abandonei a prova antes de terminar de responder todas as questões (se tivesse feito todas, talvez tivesse passado).

Assim, passei a estudar música todos os dias, para prestar o teste de aptidão para o Curso de Música. Meus colegas do Ensino Médio faziam piada, pois eu havia feito a maior média do PEIES (processo seletivo seriado que existia na época) da história do curso de música.

A faculdade foi um momento de emoções mistas, variando entre muitas alegrias e muitas tristezas. Como a média de idade dos alunos e alunas era mais alta, existia uma seriedade maior com os estudos, mas isso não queria dizer que não havia competição, “puxar tapete”, intrigas e muita falsidade (inclusive por parte de professores/as). Eu seguia me refugiando nas bibliotecas (onde consegui um estágio remunerado, meu primeiro emprego) e fiz alguns bons amigos e amigas, com os quais tenho contato até hoje. Foi na faculdade que eu repeti uma cadeira pela primeira vez, e uma segunda e uma terceira. Esses eventos deixaram marcas muito fortes na minha memória. Meu perfeccionismo me fazia perceber que a faculdade havia sido um fracasso, que eu não era capaz e não possuía habilidade suficientes para cursar música. Após a formatura, ao ver meu histórico de notas, vi que havia sido um ótimo curso (considerando as notas e o que aprendi durante essa jornada). As atividades extracurriculares eu fiz mais que o dobro de horas exigidas, sempre enchendo minha agenda com coisas que me dava prazer e não apenas com obrigações. Dentre elas eu participei de corais, fiz recitais e apresentações em hospitais, lares de idosos e casas de acolhimento para crianças com câncer (ideias que eu tinha e organizava com os grupos que eu participava).

Durante o bacharelado comecei a dar aula em escolas de música e tive contato com alguns alunos com deficiência. Resolvi que também cursaria licenciatura em música, pois havia me interessado pelo ensino desse público em especial. Já havia feito várias disciplinas de forma complementar, então faltava pouco para o segundo diploma. Nessa mesma época comecei a ler sobre a música ser utilizada em tratamentos de saúde, como música em medicina e Musicoterapia, então buscava nas bibliotecas e na internet sobre esses assuntos, tentando entender mais e mais.

Ainda durante a segunda faculdade fiz minha primeira especialização, em Psicopedagogia, onde aprendi o que era currículo adaptado e adentrei no mundo da ciência e das publicações científicas. Logo emendei em outra especialização, de ensino estruturado para pessoas autistas. Nesse período passei a dar aulas de música apenas para pessoas com deficiência em uma clínica multidisciplinar. Esse novo espaço me motivou a seguir carreira acadêmica e me abriu portas para uma bolsa de iniciação científica.

Em 2013 houve o incêndio da Boate Kiss, onde perdi pessoas que eu amava. Depois desse episódio eu foquei ainda mais em estudar e trabalhar, como forma para tentar esquecer o que me fazia sofrer e tentar afogar o transtorno de estresse pós-traumático que virou depressão. Nesse período eu comecei a ser paciente de psicoterapia. Ao longo dos anos fui mudando de profissionais de acordo com minhas necessidades, mas nunca mais fiquei muito tempo sem fazer, como forma de me conhecer melhor, de evoluir e de buscar a felicidade.

Quando ingressei no Mestrado em Educação (na linha de pesquisa de Educação Especial), tive a oportunidade de fazer outra especialização, agora em Musicoterapia (o terceiro curso dentro da área da Música), em outra cidade, sendo que eu teria que viajar uma vez por mês, por 300km, para participar das aulas. Não tive escolha, fiz os dois cursos ao mesmo tempo, e além disso trabalhava para poder sustentar as viagens e o curso de Musicoterapia, que era em instituição privada. Foram anos cansativos, mas de intenso aprendizado!

Durante o Mestrado eu tive minha identificação. Uma colega com quem eu trabalhava desconfiou que eu possuía sinais de AH/SD e me convidou para participar de um processo de identificação na universidade. Eu aceitei, mas mais pelo prazer de fazer testes e participar de uma pesquisa. Ao final recebi o parecer, informando que eu apresento o tipo Intelectual e Acadêmico mesclados, envolvendo as áreas naturalista, linguística, musical e intrapessoal.

Após a identificação eu frequentei um grupo de acompanhamento com outra pessoa identificada, mas eu não gostava e não aceitava o resultado que me fora dado. Estava sedimentado em mim o entendimento de que eu não fazia mais que a minha obrigação, de que as outras pessoas que eram burras ou preguiçosas, que era só querer para poder fazer algo bem feito. Eu estava com 27 anos e apenas 5 anos depois, quando havia me mudado para outra cidade, alavancado minha carreira como Musicoterapeuta e estava trabalhando integralmente com pessoas público alvo da Educação Especial (incluindo crianças com AH/SD) que eu resolvi revisitar esse assunto.

Descobri uma psicóloga na internet, que fazia o processo de avaliação e pedi para refazê-lo. Os resultados foram os mesmos, com acréscimo do conhecimento que meu QI era de 126. Esse momento foi muito intenso e trabalhamos as questões que me impediam de aceitar quem eu realmente era, como eu realmente era.

Também busquei avaliação de Terapeuta Ocupacional, pois me via muito nas crianças com quem eu trabalhava, quando o assunto era o sensorial. Para minha surpresa, também recebi o diagnóstico de que tenho Transtorno do Processamento Sensorial, que somado à sobre-excitabilidade das AH/SD vinham me causando muito estresse, desconforto e raiva.

Daniele Pendeza

Daniele Pendeza

Atualmente trabalho com o que amo, compreendo melhor quem eu sou de verdade e sigo buscando me aperfeiçoar, sem me comparar ou tentar competir com ninguém. Quero ser melhor por mim mesma, quero buscar o que me completa. Por isso sigo minha carreira acadêmica, agora em busca do título de doutora que eu queria desde os 4 anos, novamente estou reestruturando meu trabalho e organizando outra mudança. O que posso concluir até aqui é que cada fase tem sido melhor que a anterior, que a busca por aprender não tem fim e que eu preciso comemorar cada nova vitória ou objetivo alcançado, pra ser feliz agora.

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Teorias: Modelo dos Três Anéis de Joseph Renzulli

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Família Superdotada: Como ser uma criança com altas habilidades ou superdotação?

Como ser uma criança superdotada com altas habilidades/superdotação?
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Altas Conversas Altas Habilidades: S2 E1 Assincronia na Superdotação

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Publi: Jornada Literária para Superdotados Adultos

Jornada Literária para Superdotados Adultos

Jornada Literária para Superdotados Adultos

O Projeto Kepardo – atenção multidisciplinar a pessoas com AH/SD, sob direção de Adriana Mendonça, tem o prazer de anunciar que fechou parceria com Edgar W. Santos – escritor, editor e terapeuta – para ministrar juntos um programa para você SD que gosta de escrever e tem histórias para trazer ao mundo.
Serão encontros online, ao longo de seis meses, tempo em que vamos praticar a escrita artística, conectando mente e coração, para que nossos escritos cumpram seu propósito.
Para dar atenção individualizada, o grupo será pequeno. Portanto, o primeiro passo é manifestar seu interesse e enviaremos todas as informações (como será, agenda, programa, valores etc).
Aposto que, só de saber desta possibilidade, as palavras já estão alvoroçadas aí dentro de você!
Bora escrever como SDs!

Adriana 19991759893
Edgar 19982885088

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Sobre-excitabilidades: Estratégias para Lidar com as Sobre-excitabilidades Parte 1

Referência da Live

TILLIER, William. Personality Development through Positive Disintegration: the work of Kazimierz Dabrowski. Anna Maria: Maurice Basset, 2018.

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Relato Pessoal: Cícero Moraes

Cícero Moreas por Martin Dlouhý / Koktejl

Cícero Moraes por Martin Dlouhý / Koktejl

Como e por quê descobri que sou uma Pessoa com Altas Habilidades/Superdotação (PAH/SD) na adultez

Cícero Moraes
Dr.h.c. FATELL/FUNCAR, OrtogOnLine – Teacher and developer, Arc-Team Brazil – 3D Designer.
www.ciceromoraes.com.br
https://scholar.google.com.br/citations?user=u33uvHUAAAAJ&hl=pt-BR
https://www.researchgate.net/profile/Cicero-Moraes

Não, não foi pelo QI, muito menos pelo status de indivíduo dotado de grande inteligência que entrei no mundo das Pessoas com Altas Habilidades/Superdotação (PAH/SD). Ao longo dos meus quase 40 anos de vida, sempre julguei as minhas habilidades dentro da normalidade e atribuía o sucesso de algumas empreitadas ao esforço e à disciplina pessoal.

Tudo começou efetivamente em novembro de 2021, naquele ano a Pandemia da COVID-19 estava dando sinais de arrefecimento, as fronteiras dos países aos poucos começaram a reabrir, o que muito alegrou a mim e a minha esposa, pois estávamos com as passagens compradas e a República Tcheca nos esperava para comemorarmos romanticamente nossos 12 anos de relacionamento. Além disso, fazia pouco tempo que a edição do Guinness World Records 2022 havia sido lançada e nela constava um trabalho que eu havia participado, uma honra inefável e inesperada. Evoluíram também as tratativas para o um título de Doutor Honoris Causa, que eu receberia no começo do próximo ano, graças às minhas contribuições para a Arqueologia, História, Medicina Humana e Veterinária. Nada mal para um autodidata que fora muito pobre na infância.

Na noite de 8 de novembro de 2021 senti que um forte quadro de ansiedade se aproximava, algo que eu estava relativamente acostumado frente ao histórico que descreverei mais adiante, mas naquele momento não consegui entender o motivo de tal inquietação, afinal, tudo indicava que a minha vida estava plena e realizada. Percebendo o quadro, minha esposa perguntou-me o que se passava, expliquei por alto e disse não entender o que estava acontecendo. Ela então, sabiamente, aventou para a possibilidade de ser algo relacionado ao aniversário, o que eu prontamente discordei, mas não de modo completo, posto que assim que ela dormiu, eu peguei o smartphone e pesquisei o termo “crise dos 39 anos”. Foi uma profusão de artigos e para a minha surpresa descobri que estava passando pela crise da meia-idade ou metanoia, grosso modo, uma espécie de adolescência adulta onde o mundo psicológico sofre profunda turbulência, fazendo com o que o indivíduo reveja seus conceitos e reestruture a forma com que encara a própria existência.

Como era de praxe, busquei conhecimento e entrei de cabeça na leitura de materiais que revelassem o que estava acontecendo comigo. Um livro que me ajudou muito foi A Passagem do Meio: da Miséria do Significado da Meia-idade, de James Hollis. Graças a essa obra tomei os primeiros contatos com Carl G. Jung, e os conceitos formulados por ele sobre tal fase da vida se mostraram bastante compatíveis com o que eu sofria naquela feita.

Havia alguns meses que eu era atendido pelo psicólogo Lucas Caversan, especialista em ansiedade. Vendo a minha inquietação, acompanhando a evolução dela e percebendo uma tendência clara, ele indicou-me outro livro intitulado Pessoas altamente sensíveis: Como lidar com o excesso de estímulos emocionais e usar a sensibilidade a seu favor, de Elaine N. Aron. Assim como a obra anterior, o que li caiu como uma luva, não apenas frente às inquietações da meia-idade, mas também a minha própria sensibilidade ao longo da vida.

Durante muitos anos eu imaginava que fazia parte do espectro autista ou algo parecido, pois desenvolvi comportamentos de aversão a grandes grupos de pessoas e/ou ambientes “poluídos” (déficit de inibição latente), hiperfoco, sensibilidade à luz, aversão a alguns sons (misofonia), conseguia mapear com facilidade o estado de humor de quem estava próximo, a fome me deixava muito irritado, tinha pouca tolerância a injustiça a ponto de estourar, o que me fez imaginar ter transtorno explosivo intermitente (TEI). O meu hiperfoco era tão grande que quando eu me dedicava a uma tarefa, parecia que o mundo girava em torno daquilo e eu não relaxava até terminar o projeto proposto, com muita resiliência e motivação. Por sorte, quando a saturação batia, naturalmente a minha mente se protegia, a ponto de, se um dia eu me dedicava demais até queimar as energias, no outro eu me entregava ao ócio completo e passava horas fazendo “nada”, ou seja, assistindo filmes sem muito sentido, vídeos sobre assuntos leves, arrumando algumas coisas em casa, etc. Isso me permitia recarregar as forças para, posteriormente, continuar “teimando” até a tarefa ser executada ou o objetivo alcançado.

Ao descobrir que eu era uma PAS (pessoal altamente sensível), aprendi algo novo e muito importante: descansar de verdade, ou seja, não fazer nada para realmente recarregar as energias, evitando a saturação e logo, a ansiedade. Além disso passei a consumir muitos materiais (vídeos e textos) sobre o assunto, e entre estes, alguns citavam a questão das altas habilidades e superdotação. Em um primeiro momento eu ignorei tal possibilidade, pois para mim o superdotado era aquele indivíduo com memória totalmente fotográfica, que fazia cálculos complexos de cabeça, sendo praticamente um computador humano imune a erros. No entanto, quanto mais eu escavava por informações, mais evidenciava-se a compatibilidade com aquele espectro. Passei então a assistir vídeos e lives em canais especializados e para a minha total surpresa, a descrição apresentada neles coadunava-se com a minha realidade. De modo a complementar o conhecimento extraído nos vídeos, baixei uma série de artigos sobre o tema no Google Scholar, dentre eles um inicialmente me chamou muito a atenção, a tese de doutorado da Dra. Susana Graciela Pérez Barrera Pérez intitulada Ser ou não ser, eis a questão : o processo de construção da identidade na pessoa com altas habilidades/superdotação adulta. Os conceitos expostos acerca do comportamento de indivíduos com AH/SD foi significativamente compatível com a minha própria história de vida. Para ilustrar melhor, eu tenho memórias de quando era bebê, aos meus poucos meses de vida minha mãe estava jogando canastra com o meu pai e amigos e eu me interessei pelas cartas. Ao tentar pegar uma delas na mesa, o meu curto braço não a alcançou, daí minha mãe me deu uma colher, tomei a colher com a mão esquerda, encostei na carta, puxei-a e finalmente peguei-a. Todos na mesa vibraram com a ação e eu me recordo muito bem daquele momento. Além disso, comecei a andar cedo, a falar cedo, a ler algumas palavras com pouco mais de um ano de idade e a minha memória é ininterrupta desde os 3 anos, de modo eu recordo até do momento que isso passou a acontecer, pois foi no dia que eu dei uma pirueta sobre a cama e de lá pra cá lembro de quase tudo. Apesar desses fatores serem comuns em indivíduos com AH/SD, não foram eles que me causaram mais interesse, uma abordagem notória foi a dos três anéis de Renzulli, conceito que está bem documentado na tese supracitada. Segundo tal abordagem as AH/SD são a intersecção de três características: 1) Capacidade acima da média, 2) Criatividade e 3) Comprometimento com a tarefa. A descrição documental batia com o que eu chamava de “esforço pessoal e disciplina”, pois era justamente o que eu fazia com os meus projetos e um dos que mais tenho carinho, para exemplificar, é a minha revista científica/livro chamada/o OrtogOnLineMag. Pouca gente sabe, mas o projeto nasceu no início da década de 1990, quando assisti a um episódio do desenho dos Muppets Baby, onde a trupe montou um jornalzinho . Fiquei maravilhado com o conceito de trabalho em grupo, como eles juntaram peças (matérias) que ao final se converteu no The Daily Muppet. Décadas se passaram até o ano de 2019, na oportunidade eu estava de saco cheio das licenças de revistas científicas, bem como a morosidade do processo de revisão por pares e decidi lançar minhas próprias publicações para que, ao menos parte dos meus estudos já não se encontrassem defasados quando publicados. A essa altura eu havia me cadastrado para gerar ISBN, código DOI e tinha estudado tecnologias como Latex, CSS para HTML e o maravilhoso SPHINX, uma plataforma escrita em Python que permite publicar um material de modo online e em PDF a partir de um mesmo código. Comecei a escrever junto com os meus sócios os primeiros capítulos e rapidamente meus alunos se juntaram ao grupo, fazendo com que, na prática a experiência do desenho dos Muppets Baby acontecesse, só que, diferente da ficção a OrtogOnLineMag já está no seu quinto volume, tem os artigos anexados ao Google Scholar e conta com publicações muito importantes no campo do planejamento cirúrgico facial, documentação digital de patrimônio, ferramentas de análise estrutural anatômica e outros tantos materiais. Há alguns dias a publicação foi até citada na versão online da revista Galileu, uma das mais importantes sobre ciência no Brasil.

Todo o conhecimento utilizado no caso da revista/livro é fruto de estudos ligados ao autodidatismo. Desde muito jovem eu aprendo o que me interessa por meio de estudos solitários, não digo que aprendo sozinho porque o faço com material de terceiros, sejam artigos, livros, vídeos e outras mídias. Desde o final dos anos 1990 me apeteceu o campo da computação gráfica 3D e desde então não parei de estudá-lo. Inicialmente trabalhando com maquetes eletrônicas, pois portei para o mundo digital o conhecimento analógico que adquiri a partir dos 12 anos, quando eu era um desenhista auxiliar de alguns escritórios de arquitetura. Como eu já ganhava o meu dinheirinho desde aquela época, me pareceu uma boa ideia começar a fazer o trabalho nos computadores, pois poupava um tempo precioso, além de permitir que os dados ficassem armazenados em uma mídia diferente do que apenas o papel. Os estudos evoluíram, conheci o Linux, passei a usar esse sistema operacional, comecei a prestar serviços para a área da publicidade e em 2011 aconteceu algo que mudaria a minha vida para sempre, fui assaltado e reagi a dois ladrões armados, levei um tiro de raspão na cabeça e, mesmo tendo ajudado a salvar a minha família do pior, o ocorrido fez com que um quadro de ansiedade se desenvolvesse a ponto de eu temer sair de casa por 15 dias.

Não foi a primeira vez que eu testemunhara grande violência, quando eu tinha 4 anos, vi meu pai tirando a sua própria vida de modo muito brutal, algo que aguçou a minha sensibilidade posteriormente, posto que, como a minha memória era plena, lembro de todos os detalhes, de tudo o que as pessoas falaram e fizeram naquele momento e esse ponto é outro que me liga às AH/SD. No caso do meu pai eu era muito novo e na época eu não entendia a gravidade da situação, mas no assalto o nível de sofrimento foi muito grande pois, apesar de ter feito os ladrões empregarem fuga, a ansiedade, a culpa e o medo tomaram conta de mim por algum tempo. Como supramencionado, passei 15 dias praticamente trancado em casa, com muita indignação e sem vontade de fazer quase nada. Mas eu sabia que precisava lutar contra aquilo e a forma que busquei resolver a situação diz muito sobre o campo abordado neste material, eu decidi estudar. Como me via desgostoso de quase tudo o que me rodeava, busquei aprender sobre um campo que me havia chamado a atenção, curiosamente também no início da década de 1990, na ocasião eu havia assistido um quadro chamado Isto é Incrível! ou um programa chamado Acredite se Quiser, não me recordo qual dos dois. O fato é que em um deles apresentaram a técnica de reconstrução facial forense, onde a partir de um crânio reconstruíam o que seria a face do indivíduo em vida. Novamente o projeto ficou hibernando por décadas, até que passei a ler sobre o assunto, comprei (e paguei super caro n’) o livro Forensic Art and Illustration, de Katen T. Taylor e a partir dele e outras fontes aprendi a efetuar a técnica. Em pouco tempo superei a ansiedade acerca do assalto e fechei parcerias com pesquisadores internacionais, apresentando o trabalho em vários países. Um dos desdobramentos desse projeto foi o interesse por parte de médicos e cirurgiões dentistas acerca a abordagem 3D digital sobre a face, que se desdobraram em parcerias de desenvolvimento de tecnologia culminando em soluções para o planejamento cirúrgico humano (hoje o meu ganha pão) e a confecção de próteses animais e humanas. Desde o assalto que sofri, a recuperação foi tão plena que além de “voltar à vida”, passei a viajar por outros países, a ter dezenas de parceiros de pesquisas e a ver o meu trabalho noticiado em mais de 100 idiomas em volta do globo, nos principais sites de notícias, jornais impressos e canais de TVs.

Parecia que tudo estava resolvido e encaminhado, mas a metanoia exacerbou algo que me liga também às AH/SD, a sobre-excitabilidade. Ao ler acerca do trabalho de Dabrowski e a Teoria da Desintegração Positiva, uma série de situações ao longo da minha vida passou a fazer muito, muito sentido e foi esse o motivo final que me inspirou a buscar por um “diagnóstico”.

Percebi que eu funciono com parte dos sentidos muito aguçados, de modo que é um grande sofrimento ficar exposto demais a situações que muitas pessoas encaram com normalidade. Por sorte eu consegui me adaptar ao mundo, ajustando a minha realidade ao que eu consigo gerenciar. Desde muito novo passei a trabalhar em casa, sempre que possível evito sair em público, as aulas que ministro presencialmente são feitas para grupos específicos que estão lá porque querem e precisam, então fico muito à vontade para explanar o conteúdo. Apesar de eventualmente almoçar em restaurantes, procuro fazer as refeições em casa ou no escritório, de modo que evito sofrer com a misofonia originada a partir da mastigação alheia ou me irritar com aquela bateção constante de talheres, além das conversas em voz alta. Com a atual tecnologia e as adaptações digitais motivadas pela Pandemia, muitas tarefas outrora presenciais, podem ser executadas de modo online, o que evita a cansativa e burocrática tarefa de ir a locais físicos para gerar documentação. Apesar de tudo não descuido da vida social, todos os dias faço longas caminhadas, vou à academia de musculação e sempre que possível procuro conversar com outras pessoas, afinal, eu não detesto elas, nem a sociedade, nem a infraestrutura, eu só me canso com muita facilidade ao elevado número de estímulos e isso é involuntário.

Mesmo diante de todo esse sofrimento, ao longo de todas essas décadas eu nunca fiz uso de medicamentos. A única vez que tomei meio calmante foi próximo ao ano 2000, quando tive a minha primeira crise de ansiedade ou uma espécie de semi-pânico. O médico entendeu na hora o que se passava, me deu meio comprimido, o qual tomei e dormi como uma criança. A partir daquele episódio procurei superar a situação e o consegui estudando e aprendendo como trabalhar no computador. Foi naquele momento que eu entendi que apreciava ficar sozinho, estudar sozinho, mas igualmente não descuidei da vida social. Se eu soubesse o que era sobre-excitabilidade já naquela época, creio que teria evitado muito sofrimento, mas mesmo na ignorância, dei o meu jeito e é absolutamente impossível eu reclamar da minha trajetória.

Isso explica os motivos reais da minha busca pelo “diagnóstico”, nunca foi sobre status, mas sobre autoconhecimento. A metanoia meio que me obrigou a entender a mim mesmo, sob pena de eu não ter paz até fazê-lo. Era como se eu me desfragmentasse em várias entidades dentro da mente e encontrar o verdadeiro eu se convertesse no objetivo quase único da existência. Desde novembro do ano passado eu simplesmente mergulhei nos estudos sobre psicologia, lendo vários livros e muitos artigos sobre o tema. Todo o estudo foi naturalmente se direcionando para as AH/SD e por algum motivo, apesar de ficar evidente que eu fazia parte daquilo, o acompanhamento profissional me pareceu essencial para chegar a um veredito.

Entrei em contato com a Dra. Daiane Alex Seccon de Azevedo e procedemos com as avaliações. Geralmente ser avaliado me incomoda bastante, mas consegui segurar a onda e seguir com todo o protocolo, até receber o laudo final, indicando efetivamente que eu pertenço ao espectro de PAH/SD. Quando recebi a notícia fiquei bastante emocionado e aliviado, foi como tirar um imenso peso das costas.

O mais agradável de toda essa experiência e conhecimento adquirido é que parece que eu fiz as pazes comigo mesmo, pois passei a me entender melhor, a respeitar os limites, as características, a saber descansar ao passo que ganhei mais coragem para exercer atividades que outrora me cansavam bastante. Ao saber que tenho sobre-excitabilidade meio que espero uma reação mais exacerbada do meu corpo frente a algumas situações e acontecimentos, isso reduz a ansiedade e se algo foge ao controle, consigo lidar melhor com o ocorrido, sem colocar expectativas inalcançáveis oriundas de um comportamento mais ideal do que viável.

Outra coisa positiva foi a compreensão do hábito de estudar e esmiuçar tópicos, até a exaustão. Durante um tempo focar em determinadas linhas de conhecimento me pareceu perda de tempo, mas hoje entendo que isso é algo natural da minha pessoa e, desde que eu alimente a curiosidade com prudência, sem exagerar no tempo de estudo, me alimentando bem, descansando e não me saturando, está tudo bem, pois estudar é mesmo divertido! Não se trata de eu ter resolvido a vida, pois este é um estado distante da realidade, o fato é que agora tenho ferramental para lidar melhor com as situações e isso é o suficiente. Só quem sofreu com o excesso de estímulos de uma mente em ebulição constante sabe do que estou falando.

Para concluir, decidi por livre e espontânea vontade, seguindo minhas características de compartilhamento informativo, escrever este material que creio, ajudará muitas pessoas em condições iguais às minhas. Calculando por alto, trata-se de 6 a 10 milhões de indivíduos apenas no Brasil, muitos deles sem a mínima ideia do motivo das suas inquietações.

Espero que esse material chegue ao máximo possível de pessoas e que elas encontrem a tranquilidade que eu tenho vivido, isso não é ser nem melhor nem pior do que ninguém, mas se conhecer e ter consciência de que a sua vida é digna, respeitando as suas características e festejando o precioso regalo de ser um indivíduo único.

Cícero Moraes
Sinop-MT, 25 de setembro de 2022.

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