2E: Superdotação & TEA

Referências

Nakano, T. C., & Alves, R. J. R. (2015). A dupla excepcionalidade: Relações entre Altas Habilidades/Superdotação com a Síndrome de Asperger, TDAH e transtornos de aprendizagem.

Vilarinho-Rezende, Fleith e Alencar (2016). Desafios no diagnóstico de dupla excepcionalidade. Um estudo de caso.

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Entrevista: Marina Carvalho

Marina Carvalho

Marina Carvalho

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Marina Carvalho: Não foi um processo fácil. Ele começou com reflexões a respeito de meu desenvolvimento escolar, que era, a um só tempo, academicamente louvável e, pelas sensações que me gerava, um catalisador de sofrimento e inadequação. A busca por respostas me levou primeiro a uma profissional especializada em aprendizagem e depois a uma psicóloga especializada em AH/SD (Altas Habilidades e Superdotação).

No geral, posso dizer que estou aprendendo a lidar com meu próprio cérebro.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Marina: Acadêmico Geral/Intelectual, Artes e Criatividade – o que foi levantado até o momento. Há suspeitas que podem estender um pouco essa lista, e eu ainda devo participar de um mapeamento de Altas Habilidades que considera as Inteligências Múltiplas propostas e estudadas por Howard Gardner.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Marina: Meu processo de identificação foi conduzido por uma psicóloga especializada em Altas Habilidades, mas, para além disso, existem testes específicos (as chamadas avaliações neuropsicológicas) que, sim, eu considero ainda pouco acessíveis à maior parte da população brasileira devido aos seus custos. Uma pessoa precisa desembolsar valores consideráveis para passar por essas avaliações, e eu mesma, nesse cenário, não pude estabelecê-las como uma prioridade, e devo fazê-las somente quando estiver confortável em muitas outras áreas da minha vida.

SM: Nos conte mais sobre a sensibilidade que atravessa a lógica.

Marina: Em nosso tempo atual, vigora, creio eu, uma tendência à separação entre faculdades lógicas e mensuráveis e faculdades abstratas e subjetivas (como a sensibilidade). Eu não costumo funcionar exatamente assim, e percebo que deixar que a sensibilidade convirja e atravesse a lógica pode trazer inúmeros benefícios sociais e humanísticos, além de nos permitir descobrir novas lógicas escondidas ao que nos era previamente conhecido.

SM: Você é autora do livro de poesias “Rasgados: do Acaso, da Angústia e do Caminho”, como se deu o seu processo criativo para a obra e sobre quais temas versam suas poesias?

Marina: Meu processo criativo está muito conectado ao ritmo e à melodia das palavras. Eu procuro encontrar essa pulsação dentro de mim e depois a transponho para o papel.

Gosto de escrever em estado de imersão, diminuindo o volume do mundo ao redor. Quando escrevo sobre personagens fictícias, é importante que haja verdade, veracidade em suas histórias; então, naquele preciso momento no qual estou digitando, a vida das personagens toma o palco, e, de certa forma, eu sinto o que elas sentem. É uma espécie de empatia.
“Rasgados” foi, para mim, uma ponte de diálogo com o mundo. Eu me interesso muito pelas relações humanas, e todos os poemas da coletânea, embora possam ser lidos separadamente, também foram ordenados de modo a desenhar a linha do tempo do relacionamento de um casal. O pano de fundo de “Rasgados” é o choque resultante do contato com o amor versus o papel esperado das mulheres em conjunturas românticas.

SM: Qual a sua forma de arte favorita e como você se relaciona com ela?

Marina: Eu não tenho preferência por um ou outro tipo de arte muito por conta de como as diferentes manifestações artísticas reverberam em mim… eu as sinto profundamente conectadas entre si. Poeticamente falando, é quase uma sinestesia.

SM: Nos conte mais sobre as metodologias de ensino próprias que você desenvolve(u) para aprender as mais diversas disciplinas e habilidades.

Marina: Bom, eu acabei reparando que, na maior parte das vezes, eu não aprendia literalmente quando o professor ensinava, mas sozinha mesmo e através de algo que era como um mergulho científico, uma pesquisa sobre determinado assunto atrelada a uma construção de contexto entre ele e sua área geral do conhecimento. Eu me valho muito de contextualizações e da coerência interna de informações inseridas juntas em um panorama. Sentido e significado também importam bastante.

SM: Qual a sua forma de ciência favorita e como você se relaciona com ela?

Marina: Talvez seja um hobby do momento, mas tenho me interessado por tudo que diz respeito à Nutrição, o que me aproxima um tanto mais de áreas como a Química e a Biologia. Isso é diferente para mim – costumava gostar mais da Física e da Matemática. Acho que, no fim das contas, o que predomina aqui é a aplicabilidade: o que posso, hoje, adotar em meu cotidiano que gere uma transformação real?

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Marina: Sim. Minhas irmãs fazem terapia atualmente e eu já fiz análise junguiana por alguns anos. Acho que a terapia foi muito benéfica a todas nós como uma provocadora de jornadas de autorreflexão. Quando fiz análise, eu me interessei pelo trabalho de Jung, por sua abordagem do Inconsciente, dos sonhos… tive o imenso benefício de poder me ver através de outras lentes.

SM: Algum lema motivacional?

Marina: “Enquanto há vida, há esperança”. Por mais que eu tenha lido a respeito de um artigo científico que, em tese, contradiz essa sentença, acho que podemos, dia a dia, trabalhar por algo melhor que também nos permita o vislumbre de novas e empolgantes esperanças.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Marina: Não, mas, falando por mim, gostaria bastante de ter essa experiência de apoio continuado.

SM: Algum recado pra galera?

Marina: Comunidade AH/SD do Brasil, agradeço pelo espaço de expressão.

Filipe, agradeço pelas perguntas atenciosas e interessadas.

Até breve, pessoal!

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Saúde Mental: Como contribuir para a saúde emocional da criança com altas habilidades ou superdotação?

Como posso contribuir na saúde emocional da criança com altas habilidades/superdotação?
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Altas Conversas Altas Habilidades: S1 E9 Pesquisa de Doutorado de Patrícia Gonçalves

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Sobre-excitabilidades: Imaginativa nas Altas Habilidades ou Superdotação

O que é A Sobre-excitabilidade Imaginativa nas Altas Habilidades ou Superdotação
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Entrevista: Poliana Vogel

Poliana & Família

Poliana & Família

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Poliana Vogel: Desde criança eu sentia que meu modo de funcionar era diferente, notava a facilidade com o processo de aprendizagem e a facilidade para ocupar lugares de liderança; essas foram as primeiras características evidentes. O que eu não sabia é que isso tinha um nome e nem que haviam mais coisas no pacote, como o pensamento acelerado, a inquietação, a alta sensibilidade, a profundidade e a intensidade que me compõe. Já na fase adulta, procurei respostas para uma intensa sensação de não realização intelectual. Eu sentia desejo de estudar mais, pesquisar, criar, mas não conseguia realizar esse desejo. Encontrei um post sobre dificuldades comuns em pessoas superdotadas e me identifiquei imediatamente. Lembrei das percepções da infância sobre as facilidades e comecei a pesquisar mais sobre o tema, e quanto mais pesquisava mais me identificava. As peças foram se encaixando, e após essas percepções, decidi passar pelo processo de identificação profissional.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Poliana: Acadêmico-intelectual na área linguística e liderança.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Poliana: Minha avaliação foi, ao meu ver, bem detalhada. Respondi a diversos questionários investigando traços dos diferentes tipos de inteligência e sobre excitabilidades. Realizei um teste de QI também que era opcional.
É certamente um serviço acessível apenas a uma pequena parcela da população, o que é lamentável. Cada vez que percebo que a minha identificação proporcionou autoconhecimento, clareza, e contribui para o meu processo de desenvolvimento atual, penso sobre a quantidade de talentos escondidos existentes por aí.

SM: Como você expressa os seus talentos em liderança?

Poliana: Meu primeiro impulso é dizer que não expresso, porque atualmente não ocupo um lugar que costumeiramente imaginamos como o lugar de líder. Então eu lembro que liderar é conduzir um grupo, seja do tamanho que for, a alcançar êxito em um objetivo. Posso colocar então que me expresso como líder nas mais diversas situações familiares, entre amigos, estudos e trabalho. Quando me observo como a pessoa que está liderando uma situação, procuro fazer uma leitura do grupo, observando quais as características sobressalentes de cada pessoa, tanto habilidades quando dificuldades, então procuro comunicar-me da forma mais clara e gentil possível, pontuando qual nosso objetivo comum e traçando em conjunto estratégias para alcançar. Costumo perguntar como cada um gostaria de colaborar e vou entrelaçando suas falas com as minhas observações iniciais. Sempre que possível me mantenho motivada de modo a inspirar os outros para também manterem-se assim. Amo essa troca, amo ser testemunha da capacidade e do potencial humano ao observar meus amigos, familiares, pacientes e colegas trazerem as mais variadas ideias de soluções. Ao final, se o objetivo é alcançado, acho super importante o hábito de comemorar; cada pequena conquista é importante! E caso o resultado seja diferente do esperado, reavalio o que pode ser aproveitado da experiência.

SM: Qual o seu gênero literário favorito e por quê?

Poliana: Eu não sei dizer. Nunca pensei sobre isso. Quando li a pergunta, pensei: Será que eu tenho um? Devo ter, mas creio que a dificuldade em responder esteja ligada ao longo tempo em que estive afastada da leitura. Sendo que a retomada desse prazeroso hábito é muito recente, ficarei devendo essa resposta precisa. O que posso colocar, é que como você verá mais a baixo, há pouco tempo conheci as obras de Shakespeare e fiquei realmente apaixonada! Sua riqueza de detalhes e a profundidade dos personagens me emocionam! Aqui deve ter uma pista.

SM: Conte para nós como foi sua trajetória acadêmica no nível superior.

Poliana: Complicada! Uma montanha russa onde o encantamento com o conhecimento me colocava no ponto alto da montanha e as questões psicoemocionais nos pontos mais baixos. Em alguns momentos e em matérias especificas fluí com a rapidez, o foco e a produtividade com que estava habituada na infância. Em outros, tive crises de ansiedade ou encontrei-me altamente desmotivada. No primeiro ano fui aprovada com notas altas em neuroanatomia e reprovei em saúde pública, por deixar de fazer as provas e pelas faltas. Hoje observo que sentia muito medo de reviver os momentos de hostilidade e exclusão social ocorridos nos anos anteriores de estudos, e isso prejudicou todo o processo de desenvolvimento acadêmico.

SM: Você tem pretensão de seguir na área de pesquisa? Em qual segmento?

Poliana: Ainda não sei. Posso dizer que, a princípio, não será logo. Alguns ramos das neurociências me interessam, como as pesquisas com neurônios espelho e empatia, e neurociências e inteligência emocional. Também sinto interesse em pesquisar divulgação científica, pois já pensei em atuar futuramente nesta área. Ou quem sabe eu sinta atração por outra área daqui a algum tempo, enfim, isso está bem indefinido por enquanto.

SM: Como a sua pós-graduação em neurociências influi na criação do seu filho?

Poliana: Vou precisar escolher alguns pontos para comentar, porque a cada módulo eu trouxe alguns conhecimentos para a prática. Um dos pontos ajustados foi o sono. Definimos em conjunto, e com base nos novos conhecimentos adquiridos, a quantidade de horas, bem como o melhor horário para dormir. Tive insights importantes sobre como melhorar a qualidade do nosso vínculo afetivo nas aulas sobre ocitocina (hormônio produzido quando expressamos afeto). Também coletei ideias para a educação emocional dele nas aulas sobre modulação emocional; e como incentivar novos aprendizados, de forma geral, com base nos novos estudos sobre neuroplasticidade.
Tenho várias formações diferentes, e todas acabam influenciando no meu estilo parental. Espero que seja possível ter uma ideia acerca dos conhecimentos da pós graduação nesta breve pontuação.

SM: Você foi alvo de bullying na escola, como os pais podem contribuir com a comunidade escolar de modo a mitigar os estragos e promover uma cultura mais empática e menos agressiva?

Poliana: Creio que o caminho seja a educação emocional. Dr. Daniel Goleman em seu livro sobre inteligência emocional, aponta que a empatia surge a partir do autoconhecimento. Quanto mais sei sobre mim, mais consigo compreender o outro. Se as crianças aprendessem desde cedo a reconhecer seus sentimentos, e compreender que eles são sua responsabilidade, certamente direcionariam menor volume de agressividade para com o outro.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Poliana: Atualmente não.

SM: Algum lema motivacional?

Poliana: Certa vez aprendi em uma aula do Dr. Daniel Goleman, que por sua vez relata ter ouvido do Dalai Lama, a seguinte organização: “Ao decidir fazer algo, se pergunte se o que você irá fazer é bom pra você, é bom para o outro e é bom para o mundo. Se a resposta for sim para as três perguntas, faça!”

SM: Nos recomende 3 livros de cabeceira: 1 para a infância, 1 para a adolescência e 1 para a vida adulta.

Poliana: Para a infância, o primeiro e mais querido livro que me vem à mente é: Pollyanna (Eleanor H. Porter). Foi meu livro favorito quando criança; e sinto que o “jogo do contente” praticado pela Pollyanna do livro pode ser inspirador em muitos momentos de vida.

Para a adolescência, indicarei um livro que eu gostaria de ter lido nesta fase: A coragem de ser você mesmo (Brene Brown). Essa fase da vida pode ser bem desafiadora, principalmente em relação a nossa identidade e nossa relação com os outros. Neste livro, Brene esplana de forma simples e assertiva sobre essas questões. Não é voltado para adolescentes, mas sinto que cabe muito bem nessa fase.

Para a fase adulta, para quem ainda não sentiu a inspiração de ler Shakespeare, eu recomendo que experimente! Eu não cogitava essa leitura, mas assim que comecei a ler Hamlet, entendi imediatamente porque William Shakespeare faz sucesso há mais de 400 anos.

SM: O que é ser uma mãe e esposa superdotada?

Poliana: Que pergunta difícil! Consigo observar que a superdotação deve atravessar muitos pontos da minha relação com o meu marido e meu filho. Vou escolher alguns para comentar: Existe a relação bem fácil de imaginar, que é o auxílio aos estudos. Mesmo que eu não lembre do tema que o meu filho está estudando, tenho facilidade pra relembrar o conteúdo e assim oferecer apoio. Meu marido prestou concurso recentemente, e foi possível que eu estudasse com ele em alguns momentos. A curiosidade característica da superdotação também se mostra útil para pesquisar e buscar novas ideias, seja para a organização da casa, da rotina, ou uma viagem em família.
Creio que um desafio pra nós três seja o manejo das minhas sobre excitabilidades. Posso ficar bastante sensível em muitos momentos, seja a barulhos ou cheiros; ou fisicamente sensível, como com mudanças de temperaturas ou outras questões físicas. Até mesmo as reações de uma vacina podem ser bem desafiadoras, e isso demanda cuidado da família toda. A sobre excitabilidade emocional e intelectual pode ser cansativa para eles também, em momentos de pico, tenho preferido ficar mais sozinha para não gerar sobrecarga.

SM: Algum recado pra galera?

Poliana: Se expressem! Contem suas histórias, suas experiencias. Ouçam os outros, se relacionem! Relacionamentos nos curam, nos fazem crescer, nos inspiram, nos fazem sentir mais conectados e menos inadequados. E se vocês chegaram até aqui, ao final desta entrevista, eu agradeço pela troca! Um abraço. Poli.

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Proficiência: A importância de fatores não cognitivos para o alto rendimento na vida adulta

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Saúde Mental Crítica: S1 E7 Psicologia Histórico-cultural, Clínica e Saúde Mental

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Entrevista: Oriana Comesanha

Oriana Comesanha

Oriana Comesanha

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Oriana Comesanha: Descobri em uma avaliação neuropsicológica, quando fui investigar dificuldades com noção de tempo, ordenação de eventos, números e letras, entre outras coisas. Eu achava que tinha dislexia e tdah, mas descobri que não era bem isso.

SM: Quais são as suas áreas de altas habilidades?

Oriana: Minha avaliação não foi clara com relação a isso, mas falou das minhas habilidades precoces e acima da média (arte, motricidade e linguagem – apesar da dificuldade em colocar as letras na ordem certa dentro das palavras quando as escrevo) e do meu QI (142). Acho que essas são minhas áreas.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Oriana: Foi uma avaliação com neuropsicóloga longa. Foram umas 16 ou 18 sessões. A profissional se sentiu bem desafiada com o meu caso, levou para supervisão e falou que precisou consultar os profissionais que ela julgava os mais especializados, pois teve dificuldade por conta da dupla excepcionalidade. Ela usou testes padronizados, escalas e protocolos nacionais e internacionais, conversou com minha mãe e esposa. Acho que foi bem completo. Depois disso, consultei outra neuropsicóloga e dois psiquiatras, para confirmar o TEA. Foi um processo longo, mas foi importante para mim ter percorrido cada passo. Hoje estou me formando em neuropsicologia, muito inspirada por este processo que passei.
Sobre a segunda pergunta: sim. Acho que todo serviço voltado à promoção da saúde emocional e para funções mais nobres do funcionamento do nosso organismo é ainda muito elitizado, infelizmente. Pude realizar esta avaliação pois tenho condições que a maioria das pessoas não tem e porque me programei financeiramente para ela, já que o que me levou à avaliação foi a necessidade de esclarecer “déficits” que julgava impactantes para minha vida profissional e pessoal.

SM: Quais são as suas áreas de formação acadêmica? O que lhe despertou o interesse?

Oriana: Sou psicóloga. Tenho um grande interesse nos fenômenos que me parecem misteriosos: o funcionamento da dimensão temporal, os comportamentos de algumas pessoas, as diferenças individuais, as diferenças entre as espécies, por que temos linguagem… Sempre tive esta curiosidade em saber sobre linguagem. Aos 15 anos, li sobre uma pesquisa de linguagem com macacos e resolvi que queria estudar aquilo. No meu 1° semestre na faculdade, estava no laboratório de psicologia estudando comportamento simbólico em macacos-prego. Daí, fui para o desenvolvimento atípico e me apaixonei por estudar sobre autismo.

SM: Quais barreiras capacitistas são ou foram impostas à sua trajetória educacional e profissional?

Oriana: De uma maneira geral, consigo perceber que todas as minhas experiências neste sentido têm a ver com a insensibilidade do mundo com relação a quem eu sou. Com uma invisibilidade triste. E uma tentativa diária minha de me impor ser alguém menos vulnerável às coisas ruins do mundo e acabar me sufocando com tantas capas de proteção e disfarces. Foram barreiras emocionais bem significativas.

SM: De que forma o seu autismo é lido socialmente?

Oriana: Acredito que a maioria das pessoas não me lê enquanto pessoa autista. Algumas podem achar que sou diferente da maioria das pessoas, mas não tenho certeza disso. Depende muito de onde a pessoa me conheceu e do quanto eu posso estar camuflando na interação com ela. Me considero muito boa em camuflagem, portanto, acho que a maioria com quem convivo não tem oportunidade de me ler realmente. Os que sabem com certeza do meu diagnóstico são meus familiares, amigos próximos e profissionais que me acompanham (E agora quem ler o blog). Não é um segredo, é uma intimidade. Não saio por aí falando tudo sobre mim, mas, se for relevante, falo.

SM: O que é camuflagem no contexto da neurodiversidade e da xenofobia neurocognitiva?

Oriana: Bem, vou explicar como é para mim a camuflagem.
Ela começa como uma máscara desconfortável que você põe para tentar se sentir confortável ao fazer os outros ficarem confortáveis. É uma forma de doar sua intimidade para a sociedade e deixar que ela use ao invés de você. E nem você e nem a sociedade percebem o mal que estão causando uma à outra.
Daí, você tira a máscara e seu rosto verdadeiro é novo até para você… E a sociedade se assusta e você se assusta!
E então, você cogita usar a máscara de novo, pois já está habituada e ninguém vai olhar estranho, mas a máscara não cabe mais… E você fica por um tempo neste limbo onde não é confortável ficar com a máscara e nem sem ela.
Depois, tem o momento em que você passa a: 1) ver que a máscara é uma ferramenta; 2) que você pode escolher usar esta ferramenta de forma negativa ou positiva; 3) que você usa se quiser e de acordo com seus critérios! 4) Que não é um médico ou psicólogo ou outro autista que vai dizer se você deve ou não usar, ou quando. É só você. Sempre foi só você. Estou nessa fase, eu acho.
Não sei se consegui explicar… Deixa-me tentar com exemplos:
Um uso negativo da ferramenta é quando a gente tenta fugir de uma pressão social através da camuflagem. Ou seja, a gente cede a pressão que os outros fazem para que sejamos neurotípicas. Este tipo de camuflagem geralmente pode aparecer em situações aversivas e significa que a gente está experimentando sensações/sentimentos desagradáveis e quer fugir ou se esquivar delas através da camuflagem. Momentaneamente, evitamos ser olhadas, comparadas, “chacoteadas” etc, porém o custo é alto e vem em forma de sentimentos negativos de não-pertencimento, sentir-se vazia, deslocada e invalidada intimamente enquanto pessoa. Estes sentimentos são mais fortes quanto mais consciências temos da camuflagem.
Quando alguém se incomoda com a forma como participo das aulas e busco ser menos participativa e não trazer tantas questões ou informações. Ou quando busco não me aprofundar em um assunto para não “entediar” alguém na mesa.
Exemplo: Digamos que alguém se incomoda com o fato de eu sempre querer ficar em casa e sempre que todos saem e eu fico, eu sou chamada de chata. Daí, para que eu pare de ser chamada assim, eu passo a sair mesmo não gostando. Assim, todos ficam felizes (menos eu, claro) e me falam “Viu, só. Você só precisava tentar de verdade. Agora está você aproveitando a vida.” O som alto, as pessoas falando, a conversa, as luzes… tudo me incomoda e eu sorrio, danço, bebo e conto piadas prontas. E de repente sou “legal”. A festa acaba e eu não me sinto bem por horas… Dor de cabeça, mágoa, culpa, tristeza e arrependimento…
Bem, agora um uso que considero positivo é quando gente está buscando produzir sentimentos e conexões reais através da camuflagem. Sim, isso é possível a meu ver. Camuflagens neste contexto geralmente surgem em contextos não aversivos, ao contrário, surgem em relações de trocas afetivas reais e verdadeiras. E produzem sentimentos muito positivos em mim quando a camuflagem é efetiva.
Quando consigo acolher alguém com um sorriso programado no momento certo. Quando consigo soltar aquela frase pronta no momento que a pessoa mais precisa ouvir exatamente o que falei. Quando sou competente em fazer bem a quem me faz bem dando a ela o que ela neurotipicamente precisa, justamente porque ela me dá o que eu preciso na minha neuroatipicidade (sendo ela consciente ou não disso). Ambas nos esforçando para nos respeitarmos.
Exemplo: Digamos que tenho uma amiga que precisa iniciar uma atividade física e que, por insegurança, teria muito mais facilidade de se engajar em um esporte se ingressasse na primeira aula com alguém tão inexperiente quanto ela. E esta amiga, precisando de apoio, me chamasse para a primeira aula com ela. Seria possível que eu me esforçasse para não ter o meu melhor desempenho nesta primeira aula com ela. Justamente para que isso não prejudicasse as intenções da minha amiga em se engajar em uma atividade física.
O exemplo não importa… O que quero dizer é que tanto no que diz respeito ao TEA, quanto à condição de AH/SD, enxergo a capacidade de mimetizar comportamentos neurotípicos uma habilidade fantástica. O que considero violento é quando nos obrigam (ou nos obrigamos) a fazê-lo para satisfazer o prazer do outro tão somente e não para nosso benefício ou para um bem maior que a gente.

SM: O que é ser uma esposa autista e superdotada?

Oriana: Bem, não sei se é muito diferente de ser qualquer coisa, no fim das contas. Acho que num relacionamento você está sempre buscando se equilibrar, buscando adaptações. Nós estamos nesse processo desde sempre e, enquanto houver interesse de ambas as partes, permaneceremos nesta caminhada. Acho que pra ela pode ser mais difícil ter que pedir para eu parar de falar excessivamente dos meus hiperfocos e de maneira gentil para que eu não me sinta muito mal. Ter que saber que depois de um dia com muita interação social ela vai ficar sozinha por um tempo e entender que não é com ela. Por outro lado, me sinto muito bem em poder contribuir com minhas habilidades em encontrar padrões nas coisas, por exemplo. Em perceber micro mudanças de comportamento nos nossos cachorros e logo a gente descobre que estão doentes antes de piorar. Não acho difícil ser esposa. Obrigada pela pergunta, me fez refletir sobre algo interessante.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Oriana: Sim. Faço terapia desde fim da adolescência. Fiz longas pausas, mas com as crises de ansiedade voltei e não parei mais.

SM: Algum lema motivacional?

Oriana: Não, não.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Oriana: Não.

SM: Algum recado pra galera?

Oriana: Sim. Um diagnóstico certamente tem seu valor simbólico e social, mas não pode jamais ser uma permissão para sermos quem somos. Nossa individualidade vai muito além do laudo.

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Controvérsias: QI na média, abaixo ou elevado? Eis a questão!

QI na média, abaixo ou elevado? Eis a questão!

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