Superdotado: Você sabe o que é altas habilidades ou superdotação?

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Relato Pessoal: Poliana Vogel

Como pode alguém, apaixonada por palavras, de repente, encontrar-se às voltas com as mesmas, sem conseguir organizá-las em forma de relato? Pois é, caro leitor… Acontece! Hoje, vou contar para você uma história de amor, com encontros e desencontros entre mim e a escrita, entre mim e os livros!

Adorei receber a oportunidade de escrever esse relato, mas ao sentar para escrevê-lo… Nada! Ao longo das próximas linhas, você compreenderá um pouco mais sobre esse paradoxo: amo escrever, mas nem sempre me sinto segura para estar imersa nesse mundo: das letras, das palavras, da escrita e da leitura! Essa oportunidade, também, trouxe-me a compreensão da importância que é, para mim, escrever para você, visto que passei a me auto identificar a partir de relatos de outros pares.

Pois bem, te convido a vir comigo para compreender esse paradoxo. Gosto de escrever, mas passei tanto tempo paralisada que comecei a duvidar de minha capacidade para organizar as palavras em textos. Gosto de falar sobre minhas experiências, faz com que eu consiga organizá-las melhor, internamente, e faz com que eu me sinta conectada com outras pessoas que vivem experiências similares e… eu amo pessoas; amo conhecê-las e tenho um desejo enorme de conhecer, cada vez mais, outros humanos, como eu, e suas histórias. Embora eu já tenha passado por muitas situações onde conhecer pessoas não foi uma experiência tão positiva, pois sofri ataques, dores e sensação de inadequação, esse desejo pulsa dentro de mim.

Uma pausa aqui, pois identifico mais um ponto que me separa da delícia de transmitir minhas vivências para você: a angústia de não conseguir contar tudo. Você pode pensar: “minha amiga, é obvio que você não poderia contar toda a sua história em um texto, não é?” Até é, mas mesmo assim, só vou conseguir escrever após delimitar e esse limite é desafiador para mim. Querido leitor, nos próximos minutos de leitura, você vai acompanhar uma parte da minha história com a superdotação linguística acadêmica. Deixarei de fora, aqui, a outra área de minhas altas habilidades, a liderança; como eu amo escrever, é provável que eu escreva sobre ela também; porém, hoje, trarei alguns recortes de como foi minha vida com essa condição de funcionamento cerebral e mental, permeada por um desejo profundo de contato com o universo linguístico e por um afastamento estratégico de proteção à minha sobrevivência.

Quero apresentar os personagens da minha história de hoje para vocês:

Eu: Poliana, desde a infância, convivo com vários medos e angústias, dentre os quais se destacam o medo de perder pessoas que amo e a angústia de ser excluída, também já me senti insegura, magoada e destilei algumas doses de raiva por aí. Apesar disso, sempre me identifiquei com aquela Poliana do Livro da Eleanor Porter, alegre, cheia de vida e de esperança, com uma mania incorrigível de ver as coisas como potenciais positivos e, desde bem cedinho, apaixonada pelos livros e por seus conteúdos.

Os livros: peço que quando ler a palavra livros, imagine tudo o que rodeia esse universo: aquisição de conhecimento, emoção através da leitura de um lindo romance, desenvolvimento da escrita e por aí vai…

Pessoas dificultadoras do caminho: você verá que trarei, em alguns trechos, informações sobre interações nada positivas que já vivi, com pessoas que foram agressivas em relação as minhas características ou insensíveis às minhas dores. Gostaria de fazer um pedido, aqui, se possível for, não as julgue! Até porque, eu já fiz isso, bastante! E fiz ainda pior, convenci outras pessoas a me ajudarem a julgá-las! Hoje, não sinto mais essa necessidade e, reavaliando os acontecimentos, noto que todos estamos sujeitos a machucar uns aos outros, mesmo sem perceber! Penso que quanto menos perpetuarmos atitudes de julgamentos, menos resistência colocamos no processo de melhor convívio social.

Pessoas auxiliadoras do caminho: aquelas que me deram e dão a mão, que me incentivaram, clareando minha visão sobre mim mesma, sobre as pessoas e sobre o mundo que me cerca. Aquelas que acreditaram e que acreditam em mim, corrigindo os erros com carinho e elogiando as minhas potências. Sem essas pessoas, creio que a vida tornar-se-ia muito difícil, se não inviável.

O emaranhado: as pessoas dificultadoras são sempre dificultadoras? As pessoas auxiliadoras são sempre auxiliadoras? A mesma pessoa nos auxilia em um aspecto, dificulta-nos em outro? Pois bem, na minha história, as pessoas que encontrei pelo caminho ocuparam os dois lugares, auxiliaram aqui e dificultaram ali, muitas vezes.

Feitas as apresentações, decidi organizar essa história em pequenas partes e de forma cronológica, vamos lá?

Dos 03 aos 07: os primeiros flertes!

Não, não são tantas as lembranças dessa fase, mas foi uma época em que apareceram os indícios do romance que se seguiria pelos próximos anos; algumas das mais vívidas lembranças que trago da infância, relacionam-se com livros.

Há uma informação da qual não me lembro; ninguém se lembra: como e quando aprendi a ler. Descobri isso apenas no ano passado, pois me lembro de chegar no processo de alfabetização já sabendo ler e, ao questionar meus pais e tias com quem convivi, ninguém soube explicar! Portanto, esse primeiro encontro ainda é um mistério!

As primeiras lembranças que tenho são de aproximadamente aos três anos; na casa da minha avó, sentada em cima da mesa da sala que tinha uma toalha branca de renda, com vários livros ao meu entorno e bem feliz!

Mais à frente, com 07 anos, tenho claras e emocionantes memórias. Já no primeiro ano escolar, eu me lembro que me sentava bem em frente à professora, que sempre usava saias até os joelhos e o cabelo preso em um bonito coque; ela apresentava, à turma, as letras, depois as sílabas e, então, as múltiplas combinações destas para formarem as palavras. Consigo lembrar de como isso me fascinava, mesmo eu já conhecendo as letras e algumas sílabas, naquele momento eu estava em um lugar onde passaria a conhecer cada vez mais! Essa professora organizava um exercício de incentivo à leitura e à escrita: um concurso de palavras; todas às sextas, ao final da aula, tínhamos um tempo para escrever o maior número de palavras que conseguíssemos. O aluno que escrevesse mais palavras ganhava um prêmio: um lápis, uma borracha, um apontador ou uma caixinha de chicletes. Eu ganhei todos e, como se não bastasse, minha coleguinha de trás começou a me pedir ajuda. Então, passei a fazer o meu e um pedaço do trabalho dela; sempre um pouco a menos do que o meu, é claro, assim ela ficava com o segundo lugar.

Essa memória já teve alguns pesos diferentes para mim; aos 07, alegria! como era incrível descobrir novas palavras e ganhar um prêmio por escrevê-las! A partir da adolescência, vergonha! Como eu pude ser tão egoísta e ganhar sempre, sem permitir que outros colegas ganhassem também? Na fase adulta, compreensão! Nunca foi uma competição justa! Eu já sabia ler e nasci com essa capacidade de funcionamento cerebral que traz maior velocidade e complexidade de associações, portanto, eu e meus colegas não saíamos do mesmo ponto nem nas mesmas condições. Aqui, já trago uma reflexão sobre a importância da identificação de um superdotado; para ele ou ela e para os colegas com quem convive porque, como você verá mais adiante, essa diferença não compreendida tornou-se um problema futuro.

Aos 08: adorável enciclopédia Barsa!

Certo dia, aos 08 anos, cheguei na escola e a professora havia faltado. Fui ao quadro e brinquei de explicar a matéria. A diretora entrou na sala, viu o que estava no quadro e percebeu que estava correto; olhou um caderno e observou que aquela matéria ainda não havia sido ensinada. Veio até mim e perguntou com quem eu havia aprendido; respondi que foi com o livro, eu tinha o hábito de ler os livros didáticos, assim que os recebia no início do ano. Lembro-me dela conversando com meus pais e me fazendo algumas perguntas e isso foi o mais próximo que eu cheguei de uma identificação das minhas habilidades antes dos meus 33 anos. Para meus pais, que precisavam trabalhar muito para nossa sobrevivência e tinham muitos problemas para resolver, a investigação da diretora trouxe um alívio, “Ufa! Ela vai bem na escola, não precisamos nos preocupar com isso”. A partir desse dia, as visitas deles à escola não foram muitas. Não havia tempo nem dinheiro, nem em minha família nem na escola, para estimular ou apoiar um maior desenvolvimento para mim. O que tinha era usado, apenas, para a solução de problemas e de demandas maiores. Realidade de uma menina, com poucas condições financeiras, do interior (cidade com cerca de três mil habitantes).

Mas essa parte da história não é triste, pelo contrário, é um dos mais belos trechos! Apesar de não haver forte apoio ao romance, não havia impedimentos; apenas, alguns desencontros, talvez, que foram contornados facilmente. Em visita a uma amiga, possivelmente entre meus 8 ou 9 anos, avistei um livro na estante da casa dela. O título da obra era: Como as Coisas Funcionam. “Uau!!! Existe um livro que explica como as coisas funcionam? Eu quero ler! Será que vou compreender como tudo funciona?” Pedi minha amiga que me deixasse ler o livro, ela respondeu: “Claro que não, nós vamos brincar!” Nunca li o livro, mas fiquei pensando muito nele! Penso até hoje!

Então, certo dia, ganhei uma coleção da enciclopédia Barsa (se você for muito jovem, você busca ajuda no Google, mas quero dizer que as enciclopédias, da era pré-internet, eram uma das mais incríveis formas de se fazer pesquisa). A coleção que ganhei era um pouco antiga, da década de 70 se não me engano, quando a vi, com muitos volumes, pensei: aqui sim, deve estar todo o conhecimento do mundo! Essa ilusão durou até o dia em que recebi um cartão postal da minha tia, de um país chamado Sri Lanka e, como de costume fui pesquisar na Barsa, e esse país não estava lá. Se você imaginou que minha paixão diminuiu, enganou-se; lembro-me de sentar-me ao chão, rodeada pelas enciclopédias, com muita frequência, sempre curiosa e admirada! Foram anos onde ler, pesquisar e escrever, foram atividades frequentes e prazerosas.

Dos 11 aos 14: Romance, e vida, em perigo:

Esse período foi bem marcante, porque seu final marca um dos momentos mais decisivos da minha vida. O início desse período, aos meus 11 anos, foi leve e prazeroso por um lado. Ao iniciar os estudos em um colégio novo, descobri uma biblioteca, com uma estante cheia de livros e que eu podia trocar de livro sempre que quisesse; pois bem, em pouco tempo, como era uma estante apenas, eu li todos os livros e como foram agradáveis esses momentos. Mas esse hábito, essa sede por conhecimento, não funcionavam muito bem como estratégia para fazer amigos. Ter, sempre, as notas mais altas da turma e, depois das aulas, saber as respostas das perguntas dos professores, fazendo perguntas complexas como devolutiva, bem… isso não me tornou muito popular; pelo contrário, isso contribuiu para que se iniciasse um período de solidão e de bullying, ambos tão disfarçados que ninguém notou! Trancar-me no banheiro durante todo o intervalo; esperar na sala para sair depois de todos, ao final da aula, foram algumas das estratégias utilizadas para tentar fugir de todos os ataques.

Logo eu que amo conversar, como você já deve ter notado, via-me sozinha frequentemente; dava alguns suspiros, quando alguma colega me direcionava um tanto de atenção, que eu agarrava como se fosse a última garrafa de água do deserto. Ninguém sabia das crises de pânico no domingo à noite, por medo de ir à escola na segunda; nem das noites chorando e rezando, enquanto pedia a Deus que me enviasse uma amiga de verdade, uma que realmente gostasse de mim e que não me deixasse sozinha nos momentos difíceis.

Enquanto eu vivia meu drama invisível (tão disfarçado que quando eu o relato, atualmente, para pessoas que conviviam comigo naquele tempo, sou descredibilizada, muitas vezes: “Não é possível, você estava sempre bem!”), os outros adolescentes iam a festas, saiam juntos, faziam confissões uns aos outros. Então, determinado dia, recebi um convite para ir a uma festa. Pensamentos: “Será que é real? Agora deu certo? Eu vou fazer parte!” Muito animada e totalmente vulnerável, eu fui à festa, de onde sai direto para o hospital, quase sem vida, decorrente de excesso de bebida alcoólica, um coma! Ao contrário dos períodos de angústia vividos em segredo, desse evento, todo mundo soube! Não sei relatar o que houve na festa, não me lembro! Ao acordar, perdida, no hospital, fui hostilizada pela enfermeira, que me questionou sobre como fui capaz de fazer “aquilo”. Após a atitude hostil da enfermeira, uma sequência de agressões e mais solidão. Meus pais mantiveram-se ao meu lado, mas outros familiares ainda me atacam, vinte anos depois, por esse episódio; os colegas da festa não fizeram contato comigo, eu, perdida, também não procurei me conectar. Recebi, apenas, uma visita enquanto me recuperava, mas me lembro bem do desconforto dela; notei que a visita não era espontânea, senti com mais intensidade, ainda, a solidão.

Dos 14 aos 20 e poucos: o congelamento protetor!

Para superar essa dificuldade, que tal uma mudança de escola e de cidade? “Pode ser incrível!”, pensei. E, lá vou eu, empolgada, para o primeiro dia de aula; todavia, ao entregar uma redação para uma professora, encontrei, novamente, dois velhos conhecidos: o destaque e o bullying; o primeiro, quando a professora me elogiou muito e se admirou com a minha facilidade para escrever; o segundo, quando encontrei um papel colado na porta da sala, lotado de ataques dos colegas direcionados a mim. Então, eu congelei! “Tem algo de errado comigo, eu não posso ser assim!”

Bem, não há muito o que dizer sobre o romance, nessa época, pois como já disse, eu me mantive afastada, o quanto possível, dos livros, durante muitos anos. O que pode ser curioso é que um tanto da paixão, uma faísca, sempre esteve presente comigo. Se um colega de estudos, de qualquer etapa da minha vida, fosse entrevistado e questionado sobre sua visão da minha relação com os estudos, arrisco-me a dizer que muitos, se não todos, diriam que era uma relação próxima; portanto, só eu sabia que havia um afastamento. Esse afastamento me trouxe uma dor invisível. Eu a senti sozinha, por muitos anos. Aos olhos dos outros, tudo estava bem; dentro de mim, dor, angústia e desespero.

Esse afastamento não era sem motivo. Como disse antes, estar muito próxima das minhas paixões, fazia com que eu me sentisse muito esquisita; acessar minhas paixões era sinal de ficar muito sozinha, afastada dos pares e dos colegas de mesma idade. Então, eu me mantinha segura, afastada dos livros também, assim, consegui aproximar-me dos pares, fazendo o que todos faziam; algumas vezes, sentindo-me bem, outras (muitas) vezes, desconfortável. Externamente, tudo parecia estar 100%, mas eu me sentia totalmente deslocada internamente. Foi uma época em que eu mal sabia de mim, mal sabia o que sentia, passei a maior parte desse período me esforçando para estar no grupo. Acabei pertencendo! Mas a qual preço?

Dos 20 e tantos aos 33: o doloroso afastamento!

“Eu amo livros!” E você poderia me perguntar: “Legal, qual você está lendo?” A resposta seria: “Nenhum…”

Que incoerente! Se tivesse, mesmo, essa paixão, certamente estaria lendo, eu pensava. Então parei de falar sobre o meu amor. Mas parar de falar sobre ele e parar de ler não me fizeram esquecê-lo. Sempre estava faltando algo, meus desejos e minhas ações não eram coerentes. Eu queria estudar, conhecer mais e mais coisas, mantinha o mesmo desejo da menina de 08 anos que ficou hipnotizada pela capa do livro na casa da amiga; o desejo de saber como as coisas funcionavam, e o porquê de elas funcionarem, se fosse possível. Todavia, toda vez que eu tentava dedicar-me mais aos estudos, o mal-estar físico era enorme: taquicardia, angústia, sensação de sufocamento, falta de concentração, seguidos de forte alívio quando eu me afastava do material de estudo.

Foi, então, que decidi pedir ajuda, uma busca para aliviar essas dores e me reaproximar do que me move, minha paixão. Vários profissionais tentaram me auxiliar. Quando eu trazia o imenso desconforto existencial que sentia, rotulavam as minhas falas sobre como eu era na infância e como me sentia no momento como “ego inflado”. Eu acreditava e seguia paralisada. “Para que você quer estudar mais? Só para ser melhor do que os outros!”

Uma criança que leu todos os livros da biblioteca da escola e aprendeu a ler com tão pouco estímulo, aos 03 anos de idade, sem que ninguém se lembre como aconteceu, tornou-se uma adulta que não conseguia concluir um livro porque sente fortes dores e vários desconfortos ao tocar em um; uma adulta que passou anos afastada dos estudos e da leitura. Estranho, não é? Será que o ego inflado causou tudo isso? “Vai ver sim!”, pensei. E segui, assim, por um tempo, sempre tentando compreender e resolver essa questão: Porque eu amava tanto esse universo dos livros, mas não conseguia me aproximar dele?

Até que…

Aos 33: Amor à segunda vista!

Em uma fria manhã de junho de 2020, navegando pela internet, deparei-me com um post, trazendo informações sobre as dificuldades comuns a pessoas superdotadas, identifiquei-me com todas as dificuldades e comecei a pensar melhor sobre isso! Segui minhas pesquisas e encontrei o site da autora da postagem: Patrícia Neumann. Ao abrir o site, deparei-me com a frase: “Nenhum talento a menos!” Essa frase, nossa! Como me fez refletir, profundamente, sobre a importância de passar por um processo de identificação de altas habilidades e sobre como isso poderia contribuir para que eu, finalmente, pudesse reaproximar-me daquela minha parte, há tempos desconectada.

Todo o processo de identificação foi de intenso autoconhecimento. Escolho relatar, brevemente, a você, sobre o dia da devolutiva e os seus desdobramentos. Abri meu notebook, na hora marcada com a Patrícia, estava um pouco ansiosa, mas tinha uma expectativa de resultado positivo. Eu imaginava que ela me diria que eu, até, possuía um nível de inteligência mais elevado em alguma área; provavelmente, na linguística, mas não pensei que fosse compatível com superdotação. Para a minha surpresa, a resposta foi bem diferente! A primeira frase que ouvi foi: ‘Você é, sem sombra de dúvidas, superdotada! Ops! Eu não estava preparada para isso, e agora? O que fazer com essa informação? Pensei, rapidamente, em esconder o resultado, mas eu já havia anunciado para algumas pessoas que faria o teste. Ao encontrar-me com meu marido, eu não sabia como contar. Tive algumas crises de ansiedade, eu sentia que, a partir daquele momento, eu perderia meus vínculos; meu marido e meus amigos não me amariam mais! Uma releitura dos anos de solidão que vivi na adolescência.

Felizmente, foi possível superar esse medo e, hoje, com vínculos mais bem estabelecidos, sinto-me segura para ser quem sou, incluindo minhas limitações e minhas altas habilidades! Tudo! E os meus livros, ah, eles seguem ao meu lado. Não é mais perigoso ser a menina, agora mulher, dos livros! Já é seguro. Será?

Ao pensar em assumir a superdotação, publicamente, mais um desafio foi avistado, tendo em vista tudo o que já foi experienciado: os ataques! Mas espera, os ataques vêm porque há algo errado comigo ou porque ainda vivemos em uma sociedade agressiva? Opa! Mais um ponto aqui! Serei eu agressiva com os outros seres vivos também? Como o processo de autoconhecimento é importante e fundamental para aumentar nossa compreensão sobre nós mesmos e sobre o outro, além de melhorar essas relações, tanto a forma como me vejo, como a forma de ver o outro, trazem-me uma reposta a qual amei!

Após uma Live, na qual abordei o meu processo de identificação com as altas habilidades e discorri, abertamente, sobre como foi minha vida e como me sinto, considerando essa condição de funcionamento cerebral e mental, surgiu o seguinte diálogo interno (partindo de lembranças, pois a frase a seguir já me foi dita algumas vezes na vida):

“Ei, você está se achando, não é!? – vários autores.

“Ah, que bom que você notou! Sabe, eu já estive perdida e é bem desconfortável! Então, eu fui me procurando, até me encontrar/achar! E vou te contar uma coisa: a sensação é ótima! Você deveria experimentar, procurar-se até se achar!”

E, uma vez, mais consciente sobre mim, sobre o mundo e sobre as minhas relações, foi possível retomar o romance, carregado de emoções. Hoje, escrevo esse relato emocionada, com os olhos marejados e agradeço a você, por conectar-se comigo e por acompanhar-me até aqui! Não posso dizer que os desafios acabaram, mas posso dizer que me sinto cada vez mais apta a contorná-los. Assim, meu estimado leitor, podes imaginar que esse romance, agora mais forte do que nunca, certamente continua…

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Saúde Mental Crítica: S1 E1 Apresentação (episódio piloto)

Assistam ao podcast na íntegra pelo Spotify clicando aqui.

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Entrevista: Filipe Russo

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Filipe Russo: Aos 16 anos, após me mudar para São Paulo, eu faltava as aulas e gabaritava as provas. Comecei a desconfiar que os outros talvez não fossem burros, mas eu quem era inteligente, especial e excepcionalmente inteligente. Eu então intuí minha superdotação, a diretora da escola sugeriu e a APAHSD confirmou.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Filipe: Minha superdotação é acadêmica, lógico-matemática, verbo-linguística. Ela também abrange as artes (literatura, fotografia, design, tipografia, vídeo, teatro e música) e tem se manifestado com dimensões também de liderança, o que pode ser visto no meu trabalho com empreendedorismo, sou diretor executivo da SagaPro, A Edtech do Bem-estar Escolar. Há suspeita de multipotencialidade, dado também meu histórico diverso com esportes e atividades físicas.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Filipe: Minha avaliação, leia-se identificação formal/profissional, se deu pela Associação Paulista para Altas Habilidades/Superdotação (APAHSD) em 2007. Houveram uns quatro momentos de avaliação.

Primeiro, de matemática: me pediram para fazer contas de soma, subtração, adição e multiplicação, avaliaram o tempo e a forma como esquematizei essas demandas, em seguida me deram um desafio de lógica: dado um conjunto de bolas e uma balança eu deveria desenvolver um algoritmo para identificar uma com o peso distinto das demais, eu tinha um minuto para resolver e resolvi em 10 segundos.

Segundo, de artes: me apresentaram um baralho, onde cada carta possuía a ilustração de uma obra de arte historicamente notória, eu deveria agrupar as cartas por semelhança e/ou diferença, e explicar quais semelhanças e diferenças eu utilizei para os agrupamentos.

Terceiro, de geografia e biologia: foi mais uma conversa informal sobre quais meus interesses e desinteresses com essas disciplinas.

Quarto, de português e criatividade: me pediram para durante uma hora redigir um roteiro de cinema, eu achei bem chato e escrevi uma história simples sobre uma viagem ao campo, a uma cidade constituída ao redor de um lago. Lembro de terem se decepcionado com meu enredo e terem tido que não vinham talento naquela produção literária, sendo que eu produzia crônicas semanais para minha professora de literatura formada na USP e num acesso de revolta produzi um textão sobre diversos aspectos meus e da sociedade, com alto teor político, após isso a Ada reconheceu meus talentos literários.

Ao fim deste ciclo de confirmação não me foi oferecido nenhum programa, curso, tutoria, mentoria, apoio psicológico, psicopedagógico, jurídico, educacional, plano de estudos ou de desenvolvimento. Eu saí de lá sem nenhum encaminhamento ou devolutiva documental. O suposto grande argumento foi de que eu já estava desenvolvido demais e eles não possuíam nada adequado para alguém do meu nível e idade.

Sim, eu acredito que este serviço de identificação formal seja raro e quando presente ainda bastante limitado. Os profissionais que oferecem o serviço de modo particular costumam cobrar uma soma significativa, o que inviabiliza que muitas famílias obtenham um apoio de qualidade. As escolas e demais instituições educacionais, tanto públicas quanto privadas, deveriam fornecer avaliações contínuas dessa natureza de modo gratuito, desde as séries mais iniciais até os níveis mais avançados.

SM: Quais suas impressões sobre a vivência e (in)visibilidade de pessoas com altas habilidades no ensino superior? Há alguma experiência pessoal que queira compartilhar para exemplificar?

Filipe: Eu tive muito mais oportunidades no nível superior, na USP, do que em qualquer uma das várias escolas em que estudei e infelizmente não foi o suficiente. Por quê? Porque não há políticas efetivas e assertivas para a população com superdotação ou altas habilidades, o que há é uma grande concorrência por disciplinas eletivas e optativas, programas, cursos, vagas em grupos de pesquisa, bolsas e intercâmbios. Acomodações e programas especiais são inacessíveis, quando não inexistentes. Trabalha-se com uma economia da escassez. Na maioria das minhas experiências ora me subestimavam, ora me sobrecarregavam com conteúdo ou trabalho numa dimensão quantitativa, raramente qualitativa. As dimensões do desafio, da empolgação e do interesse não eram levadas em consideração na elaboração dos processos educacionais, científicos ou nas propostas de colaboração. Não raro o ego dos docentes se intimidava e competia com a dedicação acadêmica dos discentes. Impera uma lógica de poder estrutural e de alto desempenho, não de diversidade e criatividade. Apenas duas vezes na graduação encontrei docentes que me deram liberdade criativa e autoral de elaborar um produto acadêmico complexo, sendo que no último ainda sofri censura em um dado evento após ter meu trabalho selecionado para apresentação. Há uma política de castração que parte de egos frágeis e invejosos.

SM: O que motivou você a participar do grupo estudantil DiversIME e da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP? Como tem sido o engajamento da comunidade acadêmica?

Filipe: Entrei no DiversIME no fim do segundo ano de graduação, eu fui convidado por uma das participantes e desde então comecei a participar das reuniões. Enquanto indígena agênero eu considero essencial a existência de espaços de acolhimento e inclusão, sejam estes organizações estudantis e/ou institucionais. É uma forma de ocupar um espaço historicamente dominado por um grupo privilegiado, detentor dos saberes e práticas hegemônicos. O engajamento acadêmico é líquido como a nova geração, com períodos de maior e menor intensidade. Nos picos conseguimos organizar colaborações, trazendo convidados de coletivos externos à universidade para palestrar e dividir conosco seus saberes e práticas dissidentes. Organizamos cinedebates, rodas de conversa, festas, ciclos de palestras, intervenções urbanas, entre outros eventos. Quando a Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP ressurgiu eu participei desde o início representando o DiversIME.

DiversIME

DiversIME

SM: Poderia contar mais a respeito de sua experiência de intercâmbio na Alemanha?

Filipe: Eu realizei dois intercâmbios na Alemanha, um de pesquisa e outro de graduação.

No que diz respeito ao de pesquisa, eu fazia parte de um grupo de pesquisa do Instituto de Química (IQ-USP), eu pesquisava redes de proteínas coexpressas de microalgas. Durante as férias de verão brasileiras eu tive a oportunidade de estagiar no Instituto Max Planck de Fisiologia Molecular Vegetal em Golm, próximo a Potsdam, uma vez que minha orientadora no Brasil me recomendou para o seu colega pesquisador da Alemanha. Lá eu desengavetei um de seus projetos de pesquisa e o levei adiante, se tratava do uso potencial de Multivariate Granger Causality (MVGC) com dados ômicos. Eu estudei as implementações de MVGC nas linguagens de programação python e R, explicando como os modelos são construídos, quais testes estatísticos são válidos e como interpretá-los.

The Max Planck Institute of Molecular Plant Physiology (MPI-MP)

The Max Planck Institute of Molecular Plant Physiology (MPI-MP)

No que diz respeito ao intercâmbio de graduação, eu fui para o departamento de informática da Universidade Técnica de Munique, lá eu me dividi em disciplinas da matemática e de ciência de dados. Eu aproveitei bastante a universidade, a maioria das visitas guiadas às cidades históricas e festividades tradicionais eu me inscrevia, incluindo idas ao planetário, opera, teatro e ballet. Desse modo visitei boa parte da Bavária e suas famosas cervejarias.

Nas duas oportunidades cursei aulas intensivas de alemão no contraturno noturno nos dias de semana.

Ich war auf dem Oktoberfest

Ich war auf dem Oktoberfest

SM: Você relatou ter canalizado sua criatividade nas áreas de literatura, dramaturgia, escultura, fotografia e música. Conte mais sobre sua imersão nas artes.

Filipe: Minha introdução à literatura veio por meio dos paradidáticos na terceira série do ensino fundamental, comecei a ler literatura ficcional e não ficcional extracurricular a partir da quinta série e chegou um momento que ler diversos livros de diversos autores não era mais o suficiente, eu precisava escrever meus próprios textos, livros e literatura.

A fotografia eu comecei sendo o fotógrafo da família na pré-adolescência, meus pais admiravam a firmeza das minhas mãos e meu enquadramento da câmera, mas o grande desenvolvimento fotográfico se deu quando obtivemos nossa primeira câmera digital que me permitiu experimentar a gosto sem custos adicionais de rolos de filme, logo em seguida veio a manipulação digital das fotos, prática que levo comigo até hoje.

Quando eu tinha 15, 16 anos eu escrevi uma novela e queria que ela fosse ilustrada, mas eu não desenhava o quão bem gostaria e os ilustradores cobravam um valor que eu não tinha condições de pagar. Um ano depois eu resolvi esculpir as imagens que eu tinha em mente em arame farpado, sentávamos eu e meu pai na sala de estar do apartamento e torcíamos, cortávamos e amarrávamos os segmentos de arame de acordo com as minhas instruções, era um trabalho dispendioso, com seus riscos.

Sweet Sixteen (2007)

Sweet Sixteen (2007)

No último colégio em que estudei presencialmente fui selecionado pelo professor de teatro para ser um dos protagonistas da peça a ser apresentada à comunidade escolar. Isso me despertou um talento cênico latente que eu tinha de interpretação, que só encontrara até então alguma vazão na literatura e na fotografia. A peça foi um sucesso! Cheia de aplausos, apertos de mãos, tapinhas nos ombros e elogios. Isso me animou para anos mais tarde produzir o vídeo teatral Matéria de Salvação ou O HORROR.

Eu me identifico muito com o som e a lógica do piano, durante um semestre tive aulas semanais e ainda pretendo retornar ao instrumento algum dia. Por enquanto sigo cantando e escrevendo letras de músicas, que ainda carecem de ser musicadas. O canto sempre foi reprimido na minha infância pela minha família, utilizava-se do riso para constranger quem ousasse se expressar dessa forma e eu sempre cantei, assim como a poesia é simplesmente algo que me vem, é como eu sinto, expresso, elaboro e dou vazão a uma forte carga emocional e intelectual. Na adolescência escrevi minhas primeiras músicas e só tinha 3 gravadas a cada tempo, pois era o máximo que a memória do meu celular suportava.

SM: Como você concilia atividades e projetos artísticos e responsabilidades acadêmicas e profissionais?

Filipe: É muito difícil, porque envolve um grande malabarismo de tempo, espaço, energia, dinheiro, cansaço, fome e sono. Mas é possível! Na dimensão ativismo neurodiverso eu tenho tentado manter o blog com uma publicação por semana, algo equivalente para minhas poesias. Ao mesmo tempo estas poesias atuais versam sobre tecnologia, o que pude relacionar com o momento histórico de pandemia em que vivemos e também com temas acadêmicos e de pesquisa. Enquanto diretor executivo da SagaPro é necessário que eu tenha uma visão estratégica de tendências econômicas, educacionais e tecnológicas, o meu vínculo com a academia e a pesquisa me permitem suprir parte dessa demanda. Eu divido as atividades enquanto diárias, semanais e mensais, por ordem de prioridade (prazos aqui são um fator importante) e tento separar o profissional/acadêmico/científico para dias úteis, enquanto guardo o fim de semana para os ativismos e as artes. Frequentemente faço listas temáticas, nas quais enumero os afazeres em tópicos e subtópicos, quebro as atividades em seus fatores mínimos. Com o tempo as divisões vão borrando e eu preciso retornar ao princípio reforçando-as, geralmente no fim/início do mês. A natureza inter, trans, multi, pandisciplinar dos meus interesses e projetos permitem um fortuito intercâmbio de práticas, saberes e analogias entre eles, o que possibilita uma certa reciclagem e combinação dos meus esforços.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Filipe: Não que eu saiba, mas na quinta serie e no primeiro ano do ensino médio eu tive acompanhamento psicológico. Lembro de ser tudo muito circular e pouco propositivo, mas do meu primeiro contato com o serviço na pré-adolescência obtive um grande conhecimento: a inveja envenena as pessoas e há quem jorre inveja de todos os poros.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Filipe: Não que eu saiba, no fim do primeiro ano do ensino médio e até metade do supletivo no ano seguinte eu fui acompanhado por uma psicopedagoga. Num primeiro momento ela me propôs montar post-its com meus mais diversos interesses e depois tentar agrupá-los em categorias mais abrangentes, feito isso eles ficariam reservados para um aprofundamento de estudos quando o supletivo acabasse. Sendo que eu nunca pude esperar e ela não soube dar suporte a essa minha demanda, portanto interrompi o acompanhamento e fiz meu próprio enriquecimento, aprofundamento, diversificação de estudos e práticas.

SM: Algum lema motivacional?

Filipe: Nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma. A árvore sabe como ela quer crescer e no fundo você também.

SM: Algum recado pra galera?

Filipe: Acredite na sua capacidade de autodeterminação. Só você sabe qual marca você quer deixar no mundo e na vida das pessoas ao seu redor, desenhe o seu destino e tenha a coragem de atravessar as vastidões sombrias pelas quais flui os seus talentos.

SM: Como uma pessoa com altas habilidades, diagnosticada ou autoidentificada, pode participar de seu blog com relatos e entrevistas? 

Filipe: Quem quiser contribuir com o blog, seja com seu relato pessoal, entrevista e/ou ensaios, pode me contatar em: supereficientemental@gmail.com

Releitura de Véu do Entardecer de Filipe Russo por Luciano Brígida

Releitura de Véu do Entardecer de Filipe Russo por Luciano Brígida

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Superdotação: Em Diferentes Culturas

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Entrevista: Rejane Vieira

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Rejane Vieira: Desde os cinco anos comecei a perceber coisas nas pessoas, no contexto que me rodeava e nas situações do dia-a-dia em que parecia ninguém mais ver. Isso começou a me intrigar e então me tornei alguém extremamente introspectiva e observadora. As pessoas sempre me tratavam como se eu fosse muito responsável, sempre acabava sendo líder de turma e dando um jeito de organizar as coisas. Raramente tinha amigas na minha idade, não gostava da conversa delas e sempre fui muito impaciente com coisas mal feitas, isso não só me estressava como me fazia causar problemas com as pessoas.
Quando tive um filho aos 33 anos e com um ano ele começou a ser observado pelas outras mães por ter comportamentos que denominavam como de um homenzinho eu comecei a ficar atenta e procurar conhecimentos para os “assincronismo dele”, no começo suspeitei até de Autismo. Eu já tinha tomado a decisão de mudar da engenharia/ consultoria para área de formação humana e educação, então iniciei a pós em Neuropsicopedagogia. Durante o curso, na aula de AH/SD tomei um susto com um relato de um alto habilidoso projetado na lousa, parecia que ele tinha acessado minha cabeça. Fiquei tonta, desorientada e completamente assustada. Ao estudar melhor a matéria, percebi que finalmente eu parecia ter encontrado um nome para todos os meus sintomas e sentimentos, foi muito assustador no início. Então procurei minhas professoras, elas me ajudaram em meu processo, tive acesso a vários instrumentos e literaturas e durante o curso de AH/SD em 2020, após realizar várias atividades com estas professoras e uma psicóloga do antigo NAAS-CE, chegaram a definição de que de fato eu tenho AH/SD. Eu reiniciei uma nova ávida a partir dali.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Rejane: Produtivo-criativo, social, intelectual e psicomotor.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Rejane: Como já relatei em meu processo de descoberta acima, aqui me deterei em lhe dizer minha percepção sobre a qualificação dos profissionais que se intitulam aptos a identificar e, se me permite estenderei também minha percepção à população em geral.
Ao meu ver existe uma questão maior, diante de tantas áreas que compõem o universo inclusivo. Vejo que existe: ignorância, baixo investimento em pesquisas, ausência de ações de marketing e divulgação sobre o universo das AH/SD e isso poderá ter como bastidores o baixo nível de autoconhecimento em geral, não só dos profissionais que identificariam, pois estes precisam de outros protagonistas, como educadores e pais, nos quais muitas vezes lhes faltam autoconhecimento, como podem apresentar até a vaidade e o medo individual de tratar alguém e situações que vão além da “própria capacidade”, quando se imaginando em uma posição inferior. Ao que me parece é difícil que hajam frentes interessadas em descobrir potenciais talentosos em outros seres. O nível social em geral não tem interesse nisso e a ignorância diminui a visibilidade positiva e o tamanho do retorno social que proporcionariam tais indivíduos.

SM: O que você trouxe consigo do curso em engenharia de alimentos pela universidade federal do Ceará?

Rejane: Embora eu não tenha seguido na área, mas foi lá minha primeira experiência universitária, minhas maiores ações ativistas e de enfrentamento do sistema medíocre de condicionamento educacional. Sempre fui líder de turma, isso quase virou uma profissão (kkk). Mas na universidade foi a primeira vez que eu exercitei minha habilidade de liderança para transformar vidas e impactar o sistema. Eu descobri minha força de atuação, planejamento e mobilização. E meu segundo presente foram meus amigos, que estão comigo até hoje.

SM: Você é sócia diretora na empresa CelonCoach, conte para nós sobre o papel do empreendedorismo na sua vida.

Rejane: A CelonCoach é a última das minhas tentativas de aplicar meus conhecimentos, criatividade e capacidade construtiva para entregar resultados de excelência, uma necessidade que vai além da entrega em si e sustento, mas um alimento para manter o ânimo da minha alma, uma vez que sempre fui muito limitada em TODAS as empresas pelas quais passei. Não acho que podemos empreender apenas em negócios próprios, tentei fazer empreendedorismo dentro dos negócios que tive acesso, buscando novas linhas de atuação, formas diferentes de fazer as coisas… enfim, os empresários em geral são muito inseguros e esquecem-se de se profissionalizar e desenvolver novos líderes para poderem voar mais alto e mais longe. Isso limita o empreendedorismo dentro das empresas.

SM: Você tem pretensão de continuar contribuindo na área de pesquisa? Em qual segmento?

Rejane: Sim, pretendo inclusive fazer uma terceira faculdade, mas agora presencialmente e me envolver em atividades de laboratório e pesquisa, tudo relacionado à área de neurociência e desenvolvimento humano.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Rejane: Não, eu mesma já tentei por conta do meu histórico de vida, mas infelizmente foi um fracasso, Ela parecia perdida com as coisas que eu contava, não senti progresso, durante ou após. Desisti.

SM: Como a sua formação em neuropsicopedagogia influi na criação do seu filho?

Rejane: A Neuropsicopedagogia me serviu como mentora-teórica na condução das minhas abordagens deducionais: atividades cognitivas, modulações comportamentais e desenvolvimento de atividades lúdicas. Hoje com o avanço da neurociência eu tenho uma maior percepção e conhecimento sobre áreas “físicas do cérebro”. Eu trabalhei e continuo a trabalhar a medida que ele cresce e vai manifestando, em seus comportamentos, expressões literárias, vocabulários e rabiscos, tentando potencializar habilidades e ampliar suas percepção de si e do mundo.

SM: Nós vivemos numa cultura empresarial, acadêmica e institucional, onde o assédio moral é mais comum do que gostaríamos. Como diz o título do livro “Não Basta Não Ser Racista: SEJAMOS ANTIRRACISTAS”. Como podemos propor um apoio moral em contraposição ao assédio moral existente, conivente e estrutural?

Rejane: Imagino que a primeira defesa de qualquer indivíduo seja o conhecimento, então acredito na criação de espaços para falar sobre a temática como fazemos nos grupos, divulgação de informações sobre as temáticas, rodas de conversas e disseminação de conteúdos informativos, além de momentos para troca de práticas de autoproteção bem sucedidas. Tudo isto pode contribuir em grande medida para combater e diminuir a ignorância que leva alguns a cometer tal atitude e também nos protege de quem o faz por pura maldade.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Rejane: Não, ninguém recebe este tipo de atendimento formalmente, o que eu como profissional da área faço é inserir nas rotinas domésticas e na educação parental as práticas neuropsicopedagógicas principalmente relacionadas às funções executivas: memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e autorregulação, da mesma forma procuro trabalhar estas mesmas funções em minha mãe, ela é idosa.

SM: Algum lema motivacional?

Rejane: Simmmmmmmmmmm! “Mesmo com medo vá, coragem não é a ausência de medo e sim a superação dele para chegar a um pouco mais longe!”
Quando aprendemos algo do tipo, nos permitimos experimentar e experimentamos o resultado disso, então fica mais fácil da próxima vez optar por ir avante.

SM: Recentemente você tem flertado com a dramaturgia e as artes cênicas, você já teve experiências prévias nesse meio? O que atrai sua criatividade e interesse para essas performances?

Rejane: Na escola tínhamos as famosas gincanas e feiras de ciências, sempre ansiei por decorar textos, fazer apresentações, ser as personagens nas gincanas. Quando tentei fazer teatro minha mãe não deixou. Então fiquei com isto. Gosto de criar personagens para falar de coisas diferentes de uma forma mais humorística ou caricaturada, deixa a gente livre de padrões e para falar de assuntos polêmicos usando o storytelling.

SM: O que é ser uma mãe e esposa superdotada?

Rejane: Um arco-íris de emoções, possibilidades e dificuldades (kkkkkkk), porque em alguns momentos as potencialidades dinamizam, trazem criatividade, adaptabilidade e ânimo, ao mesmo tempo geram grandes expectativas, ansiedade e auto-cobranças da minha parte e do outro, requerendo de mim um trabalho constante no sentido do equilíbrio. Preciso domar um gigante interior constantemente, para me fazer metre e exemplo para meu filho, sem deixar de ser uma aprendente e parceira do marido. A sensação de “autopoder” me traz desafios diários que os encaro como meu oxigênio, preciso deles para me manter viva, mas o oxigênio que te permite a vida, também é o que te mata…, então tudo é muito dúbio e mutável, o que me dá esperança constante, pois quando está ruim, sei que vai ficar bom. Às vezes sinto que gostaria de sair correndo pelo mundo e logo depois enxergo que tenho um mundo gigante, mais seguro, cheio de amor e alegria para ser explorado exatamente onde estou.

SM: Algum recado pra galera?

Rejane: Hummmm, começarei respondendo da seguinte forma. Neste momento, diante das minhas experiências, limitações e nível evolutivo eu recomendo que as pessoas lutem para ter saúde, paz de espírito, autoconhecimento e excelentes relacionamentos. Hoje vejo que estas coisas são temperos do que alguns chamariam de felicidade. Chegamos a terra e recebemos nosso corpo, acumularemos coisas (materiais, títulos, experiências, networking e etc.) com as quais, se não criarmos uma relação de propósito, não levaremos nada, pois nem o corpo que recebemos ao chegar, levaremos conosco.

É isso!!!!!!!
Mais uma vez foi um prazer compartilhar um pouco da minha alma em forma de letras, palavras, frases e sentido.

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Altas Conversas Altas Habilidades: S1 E2 Discutindo as terminologias Altas Habilidades e Superdotação

Assistam ao podcast na íntegra pelo Spotify clicando aqui.

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Relato Pessoal: Filipe Russo

Encanto por Filipe Russo

Encanto

Há 8 anos atrás eu fundei este blog, logo após publicar de modo independente o meu primeiro livro, o romance autoficcional Caro Jovem Adulto (2012). Mas eu acredito que a minha história começou muito antes, na minha infância no Amazonas. Eu nasci em São Paulo e cresci em Manaus, costa a costa com o Parque do Mindu, comendo flores de jambeiro e jambo, banda de tambaqui e pirarucu; temendo o chupa-cabra e a velha de branco, o bandido da luz vermelha e o cadeirudo, assim como a cisticercose e o barbeiro e o candiru.

Sempre fui uma pessoa muito sensível, desde criança. Algumas crianças notavam isso também e parte delas partiam para me assediar, adoravam me provocar até que eu explodisse, inclusive e principalmente minha irmã e meu irmão, mais velhos. Aliás sou o caçula, nasci com uma bronquite asmática diagnosticada e uma rinite subnotificada, passei a infância frequentando hospitais para fazer inalações com oxigênio ou tomar injeções antialérgicas, no início minha frequência era semanal, depois mensal, somente na adolescência deixei os hospitais e de me medicar diariamente com xaropes e anti-alérgicos. Por conta das crises de asma e das crises de sobre-excitabilidade emocional aprendi desde cedo a controlar meus impulsos, domar meu corpo, a ser disciplinado, controlador e calculista. Logo apliquei isso a rotina escolar, nunca precisei que me pedissem para fazer a lição ou me ajudassem com ela, mas muitas vezes pedia ajuda nas revisões pré-provas apenas para ter a atenção e momentos com minha mãe.

Eu fui uma criança muito criativa e imaginativa, desde então gosto de andar em círculos e falar sozinho, os amigos da minha mãe tinham medo que eu fosse autista. Eu demorei a desenvolver um controle esfincteriano da minha imaginação, em um mesmo ano caí três vezes na piscina durante festas de aniversário à noite, absorto que eu estava em minhas andanças e falanças. Nunca fui de muitos amigos, preferi ter poucos melhores amigos, amizades mais profundas, de maior cumplicidade e estes eu escolhia a dedo como quem escolhe um brinquedo de presente no Natal. Sempre me soube diferente, certa vez aos 7 anos de idade eu disse para meu pai numa praça ao voltar do parquinho: pai, eu acho que eu sou deficiente mental. Ele me perguntou por quê? Eu respondi: porque eu não sou como as outras crianças.

Até a sétima série fui um aluno nota 10, o modelo de aluno exemplar que os professores exibiam e com o qual criticavam os alunos problema. Sempre fui discreto, sabia as respostas para todas as perguntas que os professores perguntavam em sala de aula, mas respondia apenas quando ninguém mais conseguia. Na quinta série o colégio no qual eu estudava participou de uma olimpíada de matemática, competiram alunos da quinta série do fundamental até o terceiro ano do ensino médio, eu tirei a maior nota da escola, fui para a segunda fase competindo pela região Norte do país e ganhei notoriedade por uns 3 meses, mas logo retornei ao anonimato anterior, meus pais estavam mais interessados nos meus irmãos tenistas e o meu colégio com aprovações no vestibular. Vale notar que eu organizei todo meu estudo de matemática sozinho: peguei os livros dos meus irmãos, até 5 séries mais avançadas que a minha, peguei todos os livros de matemática da pequena biblioteca escolar, isolei as questões desafio e passava meus sábados resolvendo-as com meu pai, engenheiro civil. Este evento caiu em esquecimento social, mas jamais na minha alma, onde um dia ainda viria a florir.

Meu pai também me ensinou a jogar damas, xadrez e frequentemente competíamos em natação. Aos 10 anos eu sempre perdia para ele no xadrez, aos 12 às vezes eu ganhava e aos 14 ele sempre perdia para mim tanto na natação quanto no tênis e no xadrez. Até os 12 eu já havia praticado natação, judô, tênis e capoeira, eu queria ser ginasta, mas minha mãe falou que não tinha filho viado em casa. Aos 14 empolgadíssimo com as primeiras aulas de química e física eu quis um kit de química infantil, mas ela também negou, era muito perigoso. Compensei as represálias maternas criando meu próprio site sobre poesia e imagens góticas ou de video game, programando meus próprios jogos, assistindo ao canal infinito e me ensinando a praticar tai chi chuan e yoga. Há 3 anos sofrendo bullying na escola sem nenhuma atitude institucional, seja familiar ou escolar eu decidi que não toleraria mais o autoritarismo da escola, muito menos a violência estudantil, se não me mudassem de escola eu não sairia mais de casa. Eu finalmente me tornara o aluno problema que eu sempre fora.

Nos próximos 3 anos eu passaria por 4 colégios, reprovaria de ano e faria 1 supletivo. Mas ainda houve uma constelação, um arquipélago de pousadas e encruzilhadas por esse caminho tortuoso e nada linear. Fui parar em São Paulo, morando com minha avó paterna que morria de uma síndrome de Alzheimer diagnosticada e um câncer subnotificado. Eu tinha 16 anos, não queria ir para escola, conviver com pessoas que nada tinham a ver comigo, eu podia aprender tudo lendo, à época e desde então sou apaixonado por Clarice Lispector, com essa idade lembrei que 1 ou 2 anos atrás meu irmão ficava fazendo testes online de QI e QE na expectativa lúdica de se descobrir genial, de repente uma forte intuição me invadiu, eu suspeitei pela primeira vez que talvez os outros não fosse burros como eu costumava dizer, mas sim que… eu era inteligente, eu sou inteligente, particular e excepcionalmente inteligente. Eu precisava saber se era superdotado, após faltar 70% das aulas eu gabaritei a prova de química e o professor zerou a minha prova me acusando de cola. Houve uma briga entre meu pai e a direção da escola, mas a diretora logo notou que o fenômeno que apresentei na matéria de química se repetia por todas as outras matérias, ela me olhou bem nos olhos e disse que eu era superdotado, que quando ela trabalhara numa escola de judeus ela chegara a ir para Israel e conhecido turmas especiais para superdotados. Poucos meses depois a APAHSD (Associação Paulista de Altas Habilidades e Superdotação) confirmaria que eu tenho superdotação acadêmica e intelectual, verbo-linguística, lógico-matemática. Feliz com tal encontro revelador eu me ensinei o sistema de numeração binário!

Nesta época eu canalizava minha criatividade torrencial em literatura, dramaturgia, escultura, fotografia e música, lia livros como quem respira e muitas vezes apresentava distúrbios do sono. Peguei o gosto por ler livros no original em inglês assim como obras completas, meu primeiro livro em inglês foi Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, minha primeira obra completa foi do Oscar Wilde. Protagonizei uma peça de teatro e abandonei a escola, fiz supletivo e antes de experimentar o curso de Design de Games na Anhembi Morumbi produzi o vídeo teatral Material de Salvação ou O HORROR. Abandonei a graduação no primeiro semestre, decidi fazer o que fazia mais sentido para mim: criar uma fonte tipográfica, fotografias e literatura experimental. Em 2012 aos 22 anos de idade eu publicaria de modo independente pelo Clube de Autores o romance autoficcional Caro Jovem Adulto, pro qual desenvolvi a fonte tipográfica Limite Circular e a capa Iluminado Expandido, assim como fiz todo trabalho de edição e diagramação.

Menção Honrosa no 25º Programa Nascente da USP em 2017

Menção Honrosa no 25º Programa Nascente da USP em 2017

Eu escrevi e publiquei o livro e nada mudou, o mundo continuou atarefado, indiferente e hostil. Daí eu decidi retomar a pauta superdotação e altas habilidades, projetei o que seria este blog, não para falar de mim, mas para dar abertura para outros superdotados ou alto habilidosos falarem de si, por meio de relatos pessoais e entrevistas, os ensaios serviriam apenas para chamar-lhes a atenção e o interesse. O portal de referência que eu procurara avidamente na internet em 2006 eu começara a construir em 2012.

Menção Honrosa no 24º Programa Nascente da USP em 2016

Menção Honrosa no 24º Programa Nascente da USP em 2016

A publicação de Caro Jovem Adulto seria o início do fim, a partir de 2013 eu comecei a afrontar a agorafobia e os distúrbios de ansiedade que desenvolvi por conta do estresse pós-traumático. Comecei a escrever o romance de terror Asfixia e o publiquei em 2014, utilizando para tanto a fonte tipográfica Cristoforo, uma remasterização da typeface Columbus (1892) de Hermann Ihlenburg por Thomas Phinney, por meio de um projeto de crowdfunding e a capa seria feita pelo artista Thiago Bentancour que conheci pelo facebook.

Na Feira Retina no Instituto Internacional Juarez Machado em Joinville (2019)

Na Feira Retina no Instituto Internacional Juarez Machado em Joinville (2019)

Em 2016 eu retornaria à educação formal iniciando o curso de licenciatura em matemática noturno do IME-USP, faria pesquisa nas áreas de análise real, bioinformática e ensino de matemática. Fui intercambista na Universidade Técnica de Munique, estudei latim, alemão e francês, assim como ciência de dados e compus os grupos estudantis DiversIME e a Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. Ao fim da graduação cofundei a startup SagaPro, a Edtech do Bem-estar Escolar e juntos alcançamos a incubação no Cietec, a maior incubadora da América Latina. Atualmente sou diretor executivo nesta empresa e pós-graduando em computação aplicada à educação no ICMC-USP, assim como pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, na Cátedra Oscar Sala, sob a orientação de Lucia Santaella. Concomitantemente nunca abandonei a arte, a literatura e toda a diversidade de atividades e projetos que me caracterizam enquanto o indivíduo que sou e que almejo ser, nunca pensei que chegaria até aqui, aos 30 anos, a quem ou ao que quer que eu seja.

Véu do Entardecer (2021) por Filipe Russo

Véu do Entardecer (2021)

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Sobre-excitabilidades: Emocional

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Entrevista: Luciano Brígida

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Luciano Brígida: Só fui conhecer essa minha face na idade adulta. Minha esposa foi quem identificou tais características e me incentivou a procurar acompanhamento profissional para que eu possa aprender melhor a lidar com as assincronias e ansiedades que me incomodavam e eu não tinha consciência disso.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Luciano: Fui avaliado com altas habilidades nas áreas acadêmico-intelectual (área linguística e lógico-matemática), em artes e em liderança. Não sei. Posso descrever minhas áreas de interesse e habilidades potenciais. Gosto de programação, que é meu trabalho principal, e estudo Machine Learning para me qualificar mais profissionalmente; Faço música sempre que posso e comecei a publicar algumas coisas de autoria própria; Mexo com audiovisual por hobby, seja na edição de vídeos ou de imagens, produzindo ilustrações vetoriais e produção e edição de músicas também; Gosto de escrever poemas e estou me aventurando na produção de narrativas romanceadas; Gosto de ler, escutar podcasts e conversar sobre astronomia; Mergulho em jogos eletrônicos sob vários aspectos, até já transitei em projetos de desenvolvimento de jogos; No aspecto religioso, sou do tipo que busca compreender os significados e histórico dos ensinamentos para poder melhor pô-los em prática;

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Luciano: Não passei ainda pela identificação formal. Minha psicóloga já me indicou pois de fato parece ser a hipótese mais adequada ao meu perfil. Não tenho dados suficientes sobre acessibilidade do serviço a diferentes camadas da população. Minha visão empírica me diz que há um desconhecimento sobre a importância do processo de avaliação e até mesmo sobre o que é uma pessoa com altas habilidades.

SM: Durante a sua formação acadêmica você pousou na licenciatura em música, correto? Conte-nos um pouco da sua relação passada e atual com a música.

Luciano: Minha relação com a música começa desde muito muito cedo. Tenho memórias da primeira infância de quando ficava prestando atenção nas músicas da igreja, imitando os músicos com os instrumentos, às vezes querendo dançar e sendo reprimido pela família por isso. Comecei a tocar violão por volta dos 14 anos. A partir daí, a paixão se enraizou. Não me via e não me vejo mais sem a Música. Hoje diminui meus estudos dos compositores eruditos e me concentro mais nas músicas que divertem a mim, minha família e amigos; seja Toquinho, Mundo Bita, Bruno e Marrone ou Falcão, se traz alegria e emociona as pessoas é o que toco.

SM: Você é jornalista de formação, quais foram as contribuições mais pungentes do jornalismo na sua vida e carreira?

Luciano: Como amante da escrita e leitura, fui atraído para a faculdade de Comunicação Social. O ambiente acadêmico me proporcionou acesso a conhecimentos que até hoje embasam muitas das minhas visões de mundo. Disciplinas como Semiótica, Estatística, Psicologia, Sociologia, História, Direito tiveram forte impacto em mim. Mas não lembro de ter passado por uma disciplina sequer sem questionar o professor quanto a algum tema específico. Sempre fui crítico. Critico, principalmente, o foco no fazer técnico que a universidade dava ao invés de fortalecer a produção acadêmica e pesquisas científicas de impacto duradouro. Foi na faculdade também, que aprendi a aceitar o meu espírito de liderança. Sempre passara a vida introspectivo, observando e anotando histórias; evitando o protagonismo direto. Mas na faculdade eu fui quase que empurrado a ser representante de turma no meio do curso. E, tendo começado a vida profissional concomitantemente, parti para o empreendedorismo e conheci um lado mais extrovertido de minha persona. Classifico como ápice a apresentação do meu Trabalho de Conclusão de Curso, quando fui na contramão do senso comum de não convidar amigos para assistir à apresentação e chamei logo toda a comunidade de Blogueiros Paraenses num evento que precisou ser televisionado no auditório da Universidade ao invés de ficar restrito a uma sala de aula com meia dúzia de pessoas.

SM: Conte-nos como você começou a se envolver com programação, a transparência hacker e encontros de desenvolvedores.

Luciano: Meu TCC se chama Blogs e o Jornalismo Cidadão. Uma pesquisa analisando o discurso empregado por blogs versus outros canais na cobertura do Fórum Social Mundial que ocorrera em Belém naquela época. Para melhor compreender o fenômeno dos blogs me dispus a escrever em vários blogs temáticos para estudar e conhecer a prática. Aos poucos fui querendo melhorar meu blog com ideias que demandaram que eu aprendesse programar pra web. Me identifiquei bastante com o raciocínio abstrato necessário para a prática de programação e segui me aprofundando, por conta própria, em linguagens diferentes, técnicas diferentes e vários outros conceitos tangentes. Somei tudo com a visão de comunicação para montar uma empresa de marketing digital. Durante um trabalho num evento de empreendedorismo, conheci um palestrante de São Paulo, com uma cabeça meio acelerada e vanguardista; logo fomos tomar umas cervejas depois do evento e assim fui apresentado à Transparência Hacker, grupo de hackers focados em promover transparência de dados governamentais. A amizade e projetos desenvolvidos junto a esta turma, me levou a sair de Belém para morar em São Paulo e posteriormente, Brasília, onde também ajudei a constituir comunidade de Python local, o PyDataBSB.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Luciano: Passei por 3 psicólogos antes de encontrar uma profissional com conhecimento especializado em AH/SD com quem me identifiquei e sigo até hoje. Nenhum processo terapêutico é fácil e milagroso. O auto-conhecimento pode ser até doloroso às vezes, mas é necessário para o longo prazo. Me sinto caminhando a passos curtos para um estado onde saberei aprender a lidar melhor com sentimentos negativos, eliminar preconceitos sobre mim e outros e evoluir na inteligência emocional também.

SM: A insônia o assombra há anos, como e quando isso começou? Como a sociedade encara e trata os insones?

Luciano: A insônia me acompanha desde a adolescência. Na idade adulta foi piorando. Minha hipótese é que tem relação com ansiedade em querer produzir muitas coisas o mais rápido possível. Existem muitos mitos sobre sono, tanto que o reconhecimento de diferentes ciclos circadianos só veio à tona recentemente. Respeitar o ritmo de sono é essencial para a saúde.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Luciano: Não buscamos nenhum acompanhamento psicopedagógico.

SM: Algum lema motivacional?

Luciano: “Sou mil possibilidades em mim. Não posso me resignar a querer ser apenas um só” Roger Bastide.

SM: Além de tudo isso você ainda é poeta! Qual seu gênero, escritora(o) e obra favoritos da literatura nacional?

Luciano: Há muitos talentos no Brasil que admiro por motivos diversos, contudo alguns nos impactam tanto que chegamos a os imitar em certo grau. Os autores que, conscientemente, me influenciaram são: Luis Fernando Veríssimo, pela sua versatilidade e complexidade na simplicidade; Vinicius de Moraes, pela música e pela poesia; Machado de Assis, pela ousadia na narrativa; JM Trevisan, um dos autores do RPG Tormenta, jogo que fortaleceu minha paixão por contação de histórias.

SM: O que é ser um pai e esposo superdotado?

Luciano: Essa minha característica apresenta certos desafios, mas tenho certeza que com a psicoterapia o impacto desses conflitos vai diminuir. Minha filha tem indicativos de altas habilidades também, por isso acho ainda mais importante que eu passe por um processo de auto-conhecimento, afinal preciso aprender a orientá-la caso ela enfrente dificuldades similares as que passei.

SM: Algum recado pra galera?

Luciano: Permita-se a curiosidade. Seja sempre cético. Aceite o infinito entre o 0 e o 1. Existe um provérbio latino, cuja origem desconheço que diz: “Ubi dubium ibi libertas”, “Onde há dúvida há liberdade”. Um espírito livre precisa ser curioso e se permitir explorar além do que se vê. O lema da Royal Society de Londres é “Nullius in Verba”, “Nas palavras de ninguém”, que conclama a resistir à dominação por qualquer autoridade e só aceitar afirmações verificáveis por experimentação. Na liberdade da própria curiosidade você vai conseguir enxergar além do binarismo perverso perpetuado na sociedade e poder admirar a beleza assustadora do infinito.

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