Relato Pessoal: Marcos

Marcos

Marcos preferiu não se identificar com nome completo nem foto de rosto por razões pessoais

Antes de iniciar meu relato, preciso destacar que não sou formado, não obtive em minha vida sucesso com a vida acadêmica, até agora. Não pude comprovar meu nível intelectual de nenhuma forma, nunca fui declarado superdotado por ninguém. Me autodeclarei superdotado apenas pautado nas experiências que vivi e que aqui passo a relatar em parte.

Aos 5 anos eu já lia e escrevia. Roubava gibis do quarto de meu irmão mais velho para ler. Na escola, minha professora me pedia para ficar em silêncio enquanto os demais alunos faziam a leitura dos textos na lousa junto com ela, porque eu lia muito rápido. E quando eu terminava os deveres de sala, ia de mesa em mesa auxiliando aos demais.

No antigo ginásio, sempre foi assim: montávamos grupos para os trabalhos, nos reuníamos na casa de alguém para realizá-los, mas eu sempre fazia tudo sozinho.

Desde que me conheço por gente, quando alguém me traz algum problema pessoal, tomo-o por meu e tento resolvê-lo, não necessariamente por compaixão, mas por vontade de dar soluções. Sempre fui obcecado por resolver problemas.

Quando eu tinha entre doze e treze anos, não me lembro como, mas tomei conhecimento da máxima de platão “Não existe verdade absoluta”. De imediato passei a refletir sobre isso e tentar aplicar. Eu dizia uma verdade considerada indubitável e depois a desconstruía segundo o princípio de Platão. Me animei com essa atividade mental e comecei a discutir isso com alguns colegas. Foi aí que alguém me desafiou a aplicar isso sobre os conceitos da Bíblia, tomando por princípio que não se pode duvidar de nenhum de seus textos. Discordei e comecei a pensar sobre os milagres de Jesus bem como os demais eventos bíblicos como alegorias. Acabei duvidando da Bíblia. Comecei a pensar sobre a existência de Deus, e quase não recebi a primeira comunhão por discutir minhas dúvidas com um padre, a contragosto de minha mãe, extremamente católica, que me obrigou a retratar minha primeira confissão.

Nesta época, aos 13 anos, meu pai morreu, comecei a ser muito mais isolado e me afundei nos meus próprios pensamentos, cada vez mais longe dos interesses dos demais.

Como desde criança sempre fui fascinado por leitura, com quatorze ou quinze anos minha mãe me deu de presente a assinatura de três revistas, uma delas científica. Eu lia todas, mas gostava muito mais da revista científica. Cursava inglês através de três velhos livros que meu pai tinha comprado há anos, e que salvei de irem parar no lixo, assim como muitos outros livros antigos que levei pro meu quarto.

Sempre li muito, tirando ótimas notas em português e literatura. Assim, aos dezoito anos entrei na faculdade no curso de letras, mas nessa época minha mãe precisou ficar com minha vó doente em outro estado, durante mais de um ano. Como a faculdade ficava há 100km de minha casa, em outra cidade, o que demandava três horas de viagem diária, não foi difícil eu acabar perdendo o interesse e após dois anos de curso, desisti. Depois de algum tempo tive um filho e formei minha família. Me dediquei a construir minha casa e passei a não mais me importar com faculdade. Mas, ainda assim, sentia muita frustração. Sempre gostei de conversar com alguns amigos sobre assuntos que envolviam filosofia. Comecei a compor algumas músicas, algumas até gravei.
Até então, morava no estado de Mato Grosso do Sul, onde não havia muitas oportunidades de carreira. Perdi meu trabalho, não havia terminado minha casa, tudo ficou difícil. Decidi vir pro estado de São Paulo e ingressei em um cargo público estadual. Dentro deste novo cargo, ganhando razoavelmente bem, até me acomodei, mas logo comecei a sentir muita frustração pois não me senti realizado.

Já passei por alguns psicólogos pra tentar descobrir o que havia de errado comigo. Sentimento de insatisfação com a vida, apesar de amar muito a minha família. Com o tempo, via que psicólogos não ajudavam, pois me diziam coisas que eu já sabia, decidi ser psicólogo de mim mesmo e iniciei uma introspecção.

Visando aprovação em concursos internos, comecei a estudar matemática e passei a gostar muito, especificamente de geometria, por isso ingressei em uma faculdade relacionada a matemática. Estou no segundo ano de engenharia, ainda pretendo no futuro fazer uma faculdade voltada à física ou astronomia.

Tenho receio de ficar me “anunciando” como superdotado, então trago isso apenas comigo, apesar de meus colegas sempre elogiarem minha inteligência, até mesmo se referindo a mim como tal. Na realidade, não sei com exatidão como atestar isso e, diferentemente de alguns dos relatos que li aqui neste site, nunca fui reconhecido como superdotado na minha infância. Obviamente não posso dizer que sou igual aos outros.

Hoje eu procuro me acostumar à vida que eu conquistei mas busco crescer intelectualmente, através da faculdade que passei a vida deixando de lado e hoje decidi tomar a sério. Tenho um filho de 12 anos o qual tem um elevado grau de inteligência, que procuro incentivar sempre, lhe dando livros e uma boa escola, além de muito conversar sobre suas aspirações e sobre o que ele se interessa a aprender. Ele já fala espanhol e inglês elementares, está aprendendo francês. Autodidata, como eu. Seu QI, segundo um teste aplicado por um profissional, é de 120. Uma inteligência acima do normal que eu cultivo com todo o cuidado, como se fosse uma flor no meio do deserto. Nossas conversas sobre o futuro que ele pode construir para si mesmo sempre lhe enche de estímulo e me inspira a continuar a estudar, para ser exemplo para ele e para, quem sabe, eu possa vir a ser alguém respeitável na área científica algum dia.

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Entrevista: Eduardo Padilha Antonio

Eduardo Padilha Antonio

Eduardo Padilha Antonio

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Eduardo Padilha: Cresci acostumado a ouvir expressões de espanto e admiração sobre o meu comportamento: ainda muito jovem comecei a fazer estágio em laboratórios, tinha grande comprometimento com a tarefa e apresentava preferência por aprender o que fosse possível de forma autodidata. Talvez essas devessem ter sido as primeiras pistas para um diagnóstico, mas o próprio conceito de Altas Habilidades/Superdotação era desconhecido para meus familiares e professores. Foi somente há cerca de dois anos que tomei conhecimento do assunto e me pus a pesquisar a respeito. Foi assim que cheguei aos NAAHs e ao Núcleo Paulista de Atenção à Superdotação (NPAS). Fiz contato, mas só alguns meses depois tive recursos para passar pelo processo de avaliação.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Eduardo: Fui diagnosticado com Altas Habilidades acadêmicas e intelectuais

SM: Participaste de alguma iniciativa de apoio aos alto habilidosos? Em caso positivo fale um pouco mais sobre essa experiência, em caso negativo por que não?!

Eduardo: Minha experiência com AH é bem recente e, até o ano passado, não havia participado de nenhuma iniciativa do gênero mas, acabo de me juntar à Mensa, sociedade que cultiva a inteligência “para o benefício da humanidade”. Estou animado com as perspectivas, mas ainda não houve tempo de vivenciar a sociedade em si.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Eduardo: Atualmente não, mas considero fazer acompanhamento com a psicóloga que me diagnosticou, por exemplo, ou com outros psicólogos do Núcleo Paulista de Atenção à Superdotação. Acredito que um acompanhamento do gênero teria sido particularmente benéfico durante minha vida escolar.

SM: Eduardo, você apresenta uma certa bagagem no que tange experimentos em laboratório, quais experimentos você aconselharia para o enriquecimento curricular e diversão estudantil que poderiam sem grandes esforços serem implementados nas escolas ainda no ensino fundamental 2? Elabore um pouco sobre os mesmos.

Eduardo: Um dos movimentos com os quais tenho me envolvido e que fornece ferramentas interessantes nesse sentido é o Biohacking, que se dedica a democratizar os conhecimentos científicos. É possível, por exemplo, fazer um microscópio com ótima capacidade de aumento usando apenas uma webcam e papel ou, caso disponível, uma cortadora a laser. Basta desmontar a webcam (até a mais barata serve bem ao propósito) e inverter a lente! Esse microscópio permite ver as células de uma película de cebola ou da mucosa da boca, por exemplo. Também é possível ver protozoários cultivados a partir de uma amostra de água de um rio ou lago mantida em frasco com folhas de alface por alguns dias.
Outra possibilidade é observar os bactérias fermentadoras do leite (lactobacillus), espalhando uma gota de iogurte natural sobre uma lâmina de vidro e pingando um pouco de corante Lugol, encontrado em farmácias. Esses mesmos microorganismos e vários outros (leveduras fermentadoras da cerveja, por exemplo), podem ser cultivados em gelatina sem sabor, simulando técnicas utilizadas em laboratórios de microbiologia.
Em Química, há vários kits vendidos em lojas de brinquedo cujos experimentos podem ser reproduzidos com reagentes obtidos da cozinha de casa ou em farmácias, como bicarbonato de sódio e vinagre para ver a liberação de gás carbônico, uso de corante de iodo para detectar a presença de amido nos alimentos

SM: Sua jornada educacional foi quando não mediada, no mínimo estimulada por uma série de tutores, na música sua mãe, sua professora de ciências no ensino fundamental e seus orientadores que eventualmente inscreveram sua pesquisa na Mostra Paulista de Ciências e Engenharia (MOP) e na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE). Qual importância você julga que essa tutoria tem no desenvolvimento escolar, acadêmico, profissional e pessoal de um cidadão? De que modo poderíamos implementar uma cultura de tutoria no Brasil?

Eduardo: Eu considero a tutoria/mentoria crucial para o desenvolvimento humano em qualquer âmbito de atuação.Trata-se de uma via de mão dupla em que mentor e mentorado são beneficiados e aprendem com o processo, e sinto que foi exatamente isso o que experimentei nos casos acima descritos, e em vários outros. Ter um mentor é ter alguém com quem compartilhar experiências, alguém cuja vivência pode ser útil ao direcionamento de sua própria trajetória. De fato, se não fosse por meus mentores, meu percurso teria sido muito dificultado ou, no mínimo, mais nebuloso.

SM: Você cansado das aulas expositivas prefere aprender de modo autodidata. Em parte devido a sua natureza, mas há um fator pedagógico e psicopedagógico, não? De que modo o sistema educacional vigente poderia melhorar de forma a acomodar as necessidades estudantis de neurodiversos e até mesmo da juventude do século XXI?

Eduardo: Acho difícil pontuar tudo o que é passível de mudança em termos de educação, já que acredito estarmos vivendo um momento de crise estrutural nesse setor. Pessoalmente falando, percebo um “gap” muito grande entre teoria e prática, um dos fatores que mais me desanimam quanto ao ensino formal. É absurdamente diferente aprender anatomia enquanto se disseca um cadáver (experiêcia que tive a honra de vivenciar) e passar quatro horas sentado assitindo um professor passar slides, por exemplo. Nesse sentido, a diversidade de métodos de avaliação e transmissão de conteúdo se coloca como aspecto fundamental. Na Europa muitas instituições não cobram presença dos alunos em aulas expositivas, dando liberdade para que persigam os métodos que geram mais resultados individualmente. Já aqui, o número de aulas assistidas tem um peso enorme na aprovação/reprovação de um aluno, independentemente de a aula ter sido útil a esse aluno ou não. O ambiente acadêmico é absolutamente engessado, ainda mais em instituições que fazem do ensino um comércio e validam seu ensino pelo número de alunos aprovados no vestibular, o que exclui automaticamente qualquer tentativa de atender os neurodiversos. Uma mudança de paradigma se faz cada vez mais urgente e necessária!

SM: Qual linha de pesquisa você está seguindo no momento ou pretende num futuro próximo? Compartilhe conosco um pouco sobre seu trabalho científico.

Eduardo: Durante meu ensino médio estudei a importância de mecanismos de reparo de DNA na manutenção da estabilidade genômica e sua possível aplicação para potencializar o tratamento do câncer de colo de útero. Já no ano passado participei de um projeto cujo objetivo era produzir teia de aranha em microalgas geneticamente modificadas visando a geração de um curativo biocompatível com propriedades antibióticas para auxiliar vítimas de queimaduras. Esse projeto foi apresentado na competição internacional iGEM (International Genetically Engineered Machine) e fomos premiados! Pretendo seguir pesquisando em Oncologia, área que me chama muito a atenção, talvez agora com uma abordagem mais translacional, unindo a ciência básica e a clínica médica.

SM: Qual sua ambição na música? Conte um pouco como a experiência artística influi na sua vida.

Eduardo: Houve uma época em que minhas ambições em relação à música eram maiores, confesso. Já participei de festivais internacionais, toquei em orquestra e concluí o curso Técnico em Instrumento Musical. Hoje, não considero fazer carreira como músico mas essa é definitivamente uma área que quero manter sempre em minha vida. Por mais que encontre prazer lidando com conceitos mais concretos e palpáveis no laboratório, por exemplo, acredito que a música em sua indescritibilidade e abstração toca pontos da mente (ou da alma, como se poderia dizer) que nenhuma outra atividade ou arte é capaz de alcançar.

SM: Algum lema motivacional?

Eduardo: Para citar a atriz e neurocientista Mayim Bialik: “Quando você se acostuma a estar preparado para rejeitar o senso comum, isso te deixa aberto para aprender mais”.

SM: Algum recado pra galera?

Eduardo: Sonhe alto e NUNCA desista dos seus sonhos! É preciso encontrar aquilo pelo que vale a pena levantar cada manhã e fazer desse seu objetivo. Cerque-se de pessoas que compartilhem interesses e que sonhem tão alto quanto você.

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Entrevista: Luiz Fernando Da Silva Borges




Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Luiz Fernando: Quando eu tinha cerca de 9 anos de idade não sabia o porquê das outras crianças da minha idade não “simpatizarem” com certos tipos de brincadeiras ou assuntos que eu tentava compartilhar com elas. Sempre tive uma imensa facilidade de aprender novos assuntos nos quais estava interessado, geralmente um tanto quanto em desconformidade com minha idade. Meu pais afirmam que comecei a formar frases completas muito antes de 1 ano de idade. Assim que comecei a ler meu passatempo favorito era, enquanto na 3ª série, deixar de fazer minhas obrigações (como alguma tarefa que me recusava a fazer pela ultra facilidade) para pegar livros de física e química na biblioteca da escola e tentar reproduzir seus experimentos em casa.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Luiz: Superdotação acadêmica, intelectual e produtivo criativa.

SM: Participaste de alguma iniciativa de apoio aos alto habilidosos? Em caso positivo fale um pouco mais sobre essa experiência, em caso negativo por que não?!

Luiz: Infelizmente não quando era mais necessário. Eu sempre estudei em escolas públicas, que até hoje não estão preparadas para identificar e encaminhar estudantes que tenham dificuldade com aprendizado, muito menos estudantes com altas habilidades.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Luiz: Quando eu entrei no IFMS em 2013, logo fui apontado pela psicóloga do meu campus (Aquidauana) para o Núcleo de Atividades em Altas Habilidades/Superdotação – NAAH/s de Campo Grande, por aconselhamento dos professores que logo notaram meu exímio desempenho em toda e qualquer disciplina ou desafio proposto em sala. Gostei muito do contato que tive com outros estudantes superdotados de todas as partes do estado de Mato Grosso do Sul e logo notei que tínhamos muito em comum. Minhas esporádicas participações no núcleo foram bem proveitosas, ainda mais por poder ter um aconselhamento acadêmico com profissionais preparados para atender às necessidades de um AH.

SM: Você já nos contou em seu relato pessoal como sua tia deu a seu primo um kit de química e como isso acabou mudando a sua vida, diga-nos o quanto e como a sua família contribuiu para o seu desenvolvimento escolar e acadêmico?

Luiz: Minha única apoiadora vitalícia nesse processo foi minha mãe, que nunca mediu esforços para, quando criança, adquirir os materiais para meus experimentos e até hoje, costumo brincar, é a principal stakeholder de todos os meus projetos, pois quando a verba ínfima que recebo do governo acaba é ela que custeia materiais suplementares, frete, etc para minhas pesquisas. Foi minha mãe e minha tia-madrinha que me adquiria todas as sortes de materiais educativo-científicos que uma criança superdotada sonharia e ter. Tínhamos também uma TV que ficava travada em canais educativos como Tous Sur Orbite, Evas Funkarprogram, Beakman’s World e Cosmos (versão do Carl Sagan), onde tive meu primeiro contato com o método científico. Tive a sorte tremenda de não ter uma família que me pressiona para seguir seus desejos e planos, com concursos públicos ou outras profissões que, virtualmente, oferecem “maior estabilidade”. Aprendi desde cedo que o negócio é encontrar algo pelo que você se encanta, se importa, e meter a cara o resto da vida: seja no palco fazendo as pessoas rirem com um show de humor ou apresentando uma nova terapia para uma doença.

SM: A educação e o ensino brasileiros estão longe de ideais, você conseguiria propor intervenções e medidas pragmáticas a serem tomadas em prol de uma cultura de desenvolvimento científico e cultural? Em caso positivo, quais?

Luiz: Sim, muito simples. Se nosso ensino médio só serve para produzir pessoas que “tecnicamente” estariam prontas para encarar um vestibular, seria economia em tempo de vida e dinheiro sair do ensino fundamental e encarar um cursinho intensivo de 1 ano ou 2 para preparar o indivíduo especificamente para um tipo de vestibular, seja ENEM, FUVEST, etc.
Agora, se quisermos formar pessoas que estejam preparadas para assumir o compromisso de tornar cada dia de suas vidas uma parte da jornada necessária para transformarmos nosso país, precisamos fazer com que nossa métrica de avaliação seja mais que simplesmente quantificar o quanto um jovem consegue regurgitar em um pedaço de papel daquilo que lhe foi posto goela a baixo durante as aulas. Enquanto nossos estudantes de ensino médio precisam decorar fórmulas matemáticas que não lhes serão úteis ou quais eram as “capitanias hereditárias”, há jovens no hemisfério norte deste planeta aprendendo a cozinhar, cuidar de bebês, aprimorar suas habilidades artísticas com teatro, música, dança, estão aprendendo finanças para gerenciar seus futuros pagamentos e até mesmo viajando o mundo para ganhar novas perspectivas de vida, ah, esqueci, AINDA NO ENSINO MÉDIO. Aqui gastamos 3 anos da nossa vida em um lugar onde não aprendemos absolutamente nada de útil para vida comum e ainda somos ineficientes na única tarefa que somos preparados para: decorar informações para rabiscá-las em provas estupidamente longas e cansativas ao final desse período.
Antes que pensem que tais soluções exigiriam voluptuosas quantias de investimento para se materializarem, é só imaginar o quanto os cofres públicos gastam com estudantes que demoram muito mais que 3 anos para ingressar na graduação (os que o fazem antes de desistirem) ou o que alguns pais gastam com “cursinhos”: mais dinheiro e mais tempo de vida de seus filhos.
Um sistema orientado aos interesses de grupos de alunos, onde estes pudessem desenvolver suas aptidões específicas e um sistema de ingresso na graduação que tivesse como um dos maiores pesos, as atividades extracurriculares desenvolvidas pelos estudantes no ensino médio, com certeza iniciaria algum tipo de mudança positiva no cenário atual.

SM: Você já desenvolveu amplificações de DNA para detectar doenças e paternidade, uma interface cérebro máquina que eventualmente desencadeia um rearranjo cortical e agora? Qual a sua nova linha de pesquisa?

Luiz: Vou construir um tipo de supercomputador que vai possibilitar o processamento de um programa que possibilitará que a mente de pessoas anteriormente classificadas em estado vegetativo, ou até mesmo coma, rompam a barreira de corpo inanimado e comuniquem seus desejos e anseios ao mundo exterior.

SM: Após todas as suas experiências academico-científicas no IFMS e na Febrace, qual a área de estudos a nível superior que você planeja seguir? Quais instituições de ensino estão na sua mira?

Luiz: Depois de perceber, com a pesquisa do novo método de controle para próteses, que o cérebro humano é o grande escultor da realidade, de todas as ações que a humanidade fez, faz ou fará, decidi que voltarei minha atenção a explorar os limites desse universo feito de sinapses que reside entre nossas orelhas. Eu pretendo estudar engenharia biomédica e neurociência em uma das universidades que formam pesquisadores que hoje estão liderando essas áreas como MIT, Johns Hopkins, Yale, Duke University, Harvard, entre outras.

P.S.: Foi assustador quando eu percebi que, devido a todas as pesquisas que realizei e todos reconhecimentos que recebi, estou muito mais preparado para competir com estudantes norte-americanos a fim de ingressar nas melhores universidades do mundo que ter que desperdiçar tempo estudando para algum vestibular de universidades brasileiras.

SM: Algum lema motivacional?

Luiz: Nada mais que quase uma oração matinal de um cineasta argentino: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, e ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Então para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar. ”


SM: Algum recado pra galera?

Luiz: Literalmente quando se sonha e se busca todos os dias um sonho impossível, até mesmo o fracasso vale a pena. Os resultados que serão produzidos na jornada da tentativa da realização de um sonho impossível são, com certeza, muito maiores que os resultados da realização de um sonho medíocre. O perigo não é sonhar grande demais e fracassar, é sonhar pequeno e conseguir. Ninguém além de você vai carregar para sempre o peso de suas escolhas. Temos hoje uma geração de adultos frustrados que são escravos do fim de semana para se divertirem pois não trabalham com o que gostam, seja porque foram pressionados pelos pais ou por suas próprias condições. A todos lendo isso, eu imploro: não importa o que disserem, descubram pelo que vocês se importam na vida e trabalhem em direção a isso, não importa se é ser atleta, um humanitário em missões para países em guerra, um comediante que diverte milhares ou um cientista, ninguém além de você vai carregar para sempre o peso das escolhas que te forçam a fazer.

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Relato Pessoal: Eduardo Padilha Antonio

Eduardo Padilha Antonio

Eduardo Padilha Antonio, 19 anos


“Enquanto todos têm heróis e carros na capa do caderno, Eduardo tem uma célula”. Foi o que eu ouvi de alguns colegas por um bom tempo do meu Ensino Fundamental. Não me lembro de ter ficado particularmente chateado ou de o tom adotado para os comentários ter sido propositalmente ácido, mas essa situação é representativa de muitas outras que se repetiram durante toda a minha vida.
Aprendi a tocar piano sozinho por volta dos 6 anos de idade. Encontrei alguns métodos de iniciação musical que minha mãe tinha guardados e comecei a estudá-los, eventualmente tirando dúvidas com ela. Desde então mantive relação próxima com a Música e com outra grande paixão: a Ciência. Tão próxima era essa relação que antes de ingressar no Ensino Médio já estava acostumado a ouvir a pergunta “de onde veio seu interesse por ciência?” à qual respondia: “não sei, sempre gostei”.
Durante o ensino fundamental eu praticamente perseguia minha professora de Ciências até que consegui acesso ao pequeno laboratório do colégio em períodos extra-classe para organizá-lo e preparar os experimentos a serem realizados posteriormente com a turma. Posso dizer que foi uma ‘experiência cristalizadora’ no que diz respeito ao meu interesse pelas ciências e que o estímulo que recebi de minha professora foi decisivo para o meu sonho de me tornar pesquisador. Já no 7º ano, comecei a frequentar os laboratórios do Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP) perto do meu colégio, nos intervalos de minhas aulas de violino e teoria musical na Academia Adventista de Arte, dentro do campus. Até o momento, me sentia muito sozinho pois, apesar de manter boas relações com os colegas em geral, não tinha ninguém com quem conversar sobre a descoberta do DNA ou propriedades antibióticas de plantas medicinais, por exemplo. Mas agora eu podia acompanhar aulas de Anatomia, Zoologia e Microbiologia, e participava ativamente em monitorias de laboratório auxiliando alunos de graduação a estudar para as provas práticas.

Eduardo Padilha Antonio

No laboratório de Anatomia, por volta dos 11 anos.


No 9º ano alimentava o sonho de conhecer um laboratório de pesquisa (até o momento só tinha vivido em laboratórios didáticos) e resolvi escrever uma carta para alguns pesquisadores e professores da Universidade de São Paulo (USP). Para minha surpresa, uma das respostas que recebi veio da geneticista Mayana Zatz, uma das pesquisadoras mais influentes do Brasil, que me colocou em contato com um colega seu do Instituto de Ciências Biomédicas também da USP, o Prof. Dr. Carlos Menck. Foi assim que, aos 13 anos, num feriado de Tiradentes, entrei pela primeira vez no Laboratório de Reparo de DNA, ao qual iria ainda muitas e muitas vezes. Lá tive a oportunidade de trabalhar com uma doença rara chamada Xeroderma pigmentosum (XP) e com câncer de colo de útero. Convenci meus orientadores a submeter o projeto que ali desenvolvi para a Mostra Paulista de Ciências e Engenharia (MOP) e a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE). Em meio a várias inseguranças, correria com deadlines e posters caros para imprimir, uma sequência de inesperados aconteceu: fui contemplado com o 1º Lugar em Ciências Biológicas na MOP, selecionado para ir automaticamente para a FEBRACE (a lista de finalistas ainda não havia sido divulgada) e ganhei uma bolsa de Iniciação Científica Júnior do CNPq para continuar desenvolvendo meu projeto na USP enquanto aluno de Ensino Médio (sim, isso existe!). O mais inusitado é que não parou por aí: também fui agraciado com o 1º Lugar na FEBRACE e escolhido para compor a delegação que iria representar o Brasil na Intel International Science and Engineering Fair (Intel ISEF), a maior feira de ciências do mundo!
Todas as experiências que descrevi até aqui se deram em meio a uma série de características pessoais que identifiquei ao longo do tempo e considero difíceis de explicar. Por exemplo, sinto uma paixão quase compulsiva pelas áreas de meu interesse (Genética Molecular, Oncologia e Ciências Forenses, entre outras), tenho dificuldade em me adequar ao modelo de ensino vigente – em especial no que tange às aulas expositivas, que considero extremamente maçantes – e tenho preferência por aprender tudo o que puder de forma autodidata. Outra característica é a constante necessidade que sempre senti de estar, por assim dizer, em ‘movimento’. A sensação de que se não estiver envolvido com uma variedade de projetos e atividades intelectualmente estimulantes estarei…morto.
Muitos desses projetos são, por assim dizer, incomuns e me renderam um sem-número de experiências que me ensinaram, entre outras coisas, que: um microscópio não é o presente de aniversário mais desejado por crianças ‘normais’; que colecionar espécimes conservados em vidros com formol pode causar repulsa em seus colegas; que tentar reviver os primórdios da genética cultivando drosophilas (mosca-da-fruta) na cozinha de casa pode deixar sua mãe no mínimo incomodada; que desenterrar sua coelha de estimação morta para recuperar seus ossos e articular o esqueleto pode te render o apelido de ‘coveiro’ na faculdade e que ver o sangue circulando pelas veias da cauda de um girino foi provavelmente a experiência mais linda da minha infância.

Fotos tiradas com meu primeiro microscópio de brinquedo evidenciando estágios de desenvolvimento dos ovinhos dos meus peixes Betta de estimação :)

Fotos tiradas com meu primeiro microscópio de brinquedo evidenciando estágios de desenvolvimento dos ovinhos dos meus peixes Betta de estimação 🙂


Talvez por isso tenha me identificado tanto com a antropóloga Dana Kollmann, autora de ‘Nunca Coloque a Mão de um Cadáver na Boca’, que parava na beira da estrada para recolher animais mortos e depois enterrá-los no quintal e que dormiu por quase um ano com ossos debaixo do colchão até que seu pai fosse investigar de onde vinha aquele cheiro estranho. Nem preciso dizer que se trata de um dos meus livros preferidos e que me fez sentir que eu não era a única pessoa estranha o suficiente para colecionar esqueletos ou ir à aula no ensino fundamental com um livro de Anatomia debaixo do braço.
Foi só aos 18 anos que descobri o termo Altas Habilidades e passei a ler sobre o assunto. Senti uma grande identificação com as características elencadas nas fontes que consultei e aos 19 anos busquei uma avaliação. Não nego que enfrentei um dilema ao tentar entender o que de fato implicaria ser portador de AH pois, assim como o filósofo Michel Foucault, acredito que ‘definir é limitar’. Mas como me disse a psicóloga Christina Cupertino: “É importante dar nome aos bois”.
É evidente que o “avaliar” e “classificar” é repleto de vieses e contradições, que a experiência humana é muito mais do que qualquer rótulo ou teste jamais será capaz de apontar mas, ainda assim, saber que existe um nome para tudo o que sempre senti e que não estou sozinho nessa condição representa o fim da tentativa exaustiva de modular meu comportamento e modo de agir em termos de “certo e errado”. É aceitar que o diferente não é melhor nem pior, mas simplesmente diferente. É não mais me sentir desconfortável por ter uma célula na capa do caderno. No fim das contas, tudo se resume a uma busca por respostas e uma tentativa de entender a si mesmo enquanto sujeito individual e social, dotado de peculiaridades e necessidades particulares mas ao mesmo tempo inserido num contexto repleto de exigências externas.

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Direito: A Cultura & Educação Empáticas

weirdmaste

a estranheza em mim honra a estranheza em você

Por Empatia entenderemos o exercício afetivo e cognitivo de interagir com os demais tendo em vista na interação tanto a perspectiva de si quanto a do outro, ou seja, o ponderar de ações e palavras não apenas na posição de emissor das mesmas mas também como receptor hipotético delas. Assim ao interagir com alguém simula-se o outro não somente para antecipar ações e reações, mas principalmente para reduzir qualquer possível atrito a um mínimo durante a operação do mecanismo dialógico. A civilização ou o processo civilizatório emerge dessa dança, desse diálogo com o outro, quando se estabelece mútuos acordos burocráticos para a manutenção de uma paz, de um escambo justo e assim troca-se a pedra e o galho pela palavra, pelo documento verbal, oral e escrito; um ato de boa fé.

alienação dissociativa

alienação dissociativa

Vivemos entretanto em tempos onde muitas vezes troca-se a aproximação com outrem por frases feitas, por monólogos ensaiados em comerciais de detergente e essas mecânicas de superfície carregam consigo um custo operacional que afasta a realidade distinta da nossa, que escamoteia nossos verdadeiros anseios e pesares, ou seja, aliena. Para ver alguém como um sujeito tão real, importante e singular quanto eu mesmo vagando por aí sem prestar cortesias a minha existência requer reposicionar o universo para fora de mim e aí sim pela primeira vez ver a realidade não mais como uma extensão do meu ser, mas como ela mesma é: uma vastidão indiferente e incomensurável. Mas apenas na medida em que não estabeleço contato, pois uma vez que dialogo derrubo uma parede, construo uma ponte e talvez essas passarelas que construímos para nos conectar uns aos outros não se encaixem tão bem num primeiro momento, quem sabe nem num segundo, porém de nada me serve viver só e ilhado por meus reflexos de mim em mim.

diversidade

diversidade

Estendo portanto à mão para a (neuro)diversidade e entendo empatia como elemento necessário à cultura e à educação. Uma cultura que não opera mediante uma bússola empática eventualmente nos leva a alguma xenofobia, a algum discurso de ódio, pois em sua fome por existir e se alastrar as culturas possuem um instinto de sobrevivência homicida, de dominação vegetativo que não contempla os anseios da contemporaneidade. Precisamos portanto reformar a cultura na qual fomos cultivados e remodelá-la segundo novas propostas, novos objetivos e assim minimizar o sofrimento humano. Agora quanto à educação creio ser necessário o fim da linha de montagem, precisamos parar de esquartejar a juventude a fim de encaixá-la em uma embalagem de detergente, corta-se as asas dos alunos e depois se reclama que os mesmos não formam vínculos construtivos com a comunidade da qual participam cada vez menos proativamente. Uma educação empática valoriza o interesse, a curiosidade e o prazer do aluno não só ao aprender e estudar mas também ao construir e criar conteúdo intelectual relevante para si e para os demais.

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Relato Pessoal: Luiz Fernando Da Silva Borges

Luiz Fernando Da Silva Borges

Luiz Fernando Da Silva Borges


Por volta dos sete anos de idade, quando fui passar o final de semana na casa de meu primo, a mãe dele havia lhe dado o antigo kit de química: “Meu primeiro laboratório”. Este kit consistia em um conjunto de bisnagas com reagentes químicos, tubos de ensaio em uma estante de EVA, um conta-gotas e um manual que continha o “roteiro” de cada experimento. Quando ele abriu a caixa do kit e eu me deparei com todos aqueles materiais, foi incrível: Era a materialização dos instrumentos que os cientistas malucos, dos desenhos que eu assistia, usavam. Ele fez vários experimentos que faziam os líquidos borbulharem (desprendimento de CO2), mudarem de cor (indicador ácido-base), soltarem fumaça (reação exotérmica) e simplesmente desaparecer uma enorme mancha vermelha que tínhamos feito no sofá branco da mãe dele (“sangue do diabo”).

Quando os reagentes já haviam acabado, ele me deixou ficar com o manual, que continha alguns experimentos que podiam ser feitos com materiais domésticos. Depois descobri vários programas na TV Cultura, como: “O Mundo de Beakman” e “X-Tudo Experiências”, que mostravam os mesmos experimentos que podiam ser feitos em casa. O que mais me fascinava era o propósito das demonstrações, os experimentos explicavam fenômenos da natureza que, na maioria das vezes, poderiam ser erroneamente respondidos com sonoros: “Porque sim” ou “Porque Deus quis”. Depois de aprender vários experimentos, gostava muito de demonstrá-los em qualquer ocasião, como se fossem truques de mágica. Minha jornada sempre foi guiada pela curiosidade e pelo espírito: hands on.

Depois de me apaixonar cada vez mais por ciências, por meio dos experimentos demonstrativos, minha descoberta da pesquisa científica está relacionada com a divulgação da FEBRACE (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), que era feita em pleno horário nobre na Rede Globo de Televisão! A chamada, narrada por Marcelo Tas (sim, um dos apresentadores do programa CQC), dizia: “Alô, alô meninas e meninos criativos de todo o Brasil, já estão abertas as inscrições para a FEBRACE (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia) na USP. Para participar, basta criar um projeto do balacobaco com fundamento científico. Milhares de estudantes já mostraram: ‘a criatividade, traz a inovação’ Eureka! E você ainda tem chance de participar da feira internacional de ciências, nos estados unidos. Acesse: http://www.lsi.usp.br/febrace, não perca tempo! ”.

Obedecendo o aviso da chamada que passava, em média, duas vezes a cada intervalo de novela e jornal, acessei o site e assisti todos os vídeos de edições passadas da feira. Infelizmente, devido à pouca idade que tinha (nove ou dez anos…), eu imaginei que a Febrace era uma feira de ciências como as que presenciava nas escolas de minha cidade, onde você pesquisa um experimento na internet e apresenta. Ao conversar com meus professores do ensino fundamental, nenhum sabia do que a feira nacional se tratava, ou mesmo conheciam os caminhos para a “pesquisa científica”, foi quando meu sonho de participar daquele evento adormeceu durante o ensino fundamental inteiro. Neste período então, me transformei em um ávido espectador das edições da Febrace desde 2008. Ficava cada vez mais impressionado com a possibilidade de participar da tal: “feira internacional” e, aos poucos, criei uma imagem do que era a pesquisa científica.

Percebi que não bastava apresentar experimentos, mas que você tinha que ser o protagonista de um! Foi quando meu amor platônico por ciências saiu do mundo das ideias e se tornou concreto. Realizei que seguindo um “método” especial, eu poderia controlar alguns fenômenos da natureza e até mesmo manipulá-los! Sem me dar conta, incorporei a visão do mito do titã Prometeu ao fato de ter poder sobre a natureza. Para quem não conhece este mito, Prometeu era um titã que adorava enganar os deuses do Olimpo. Um dia, ele roubou o fogo sagrado do Olimpo e o entregou aos mortais. Ele nos entregou um poder que antes só era conferido aos deuses! Por causa disso, Zeus o acorrentou no alto do monte Cáucaso e por trinta mil anos, ele teria seu fígado devorado por uma águia. Como Prometeu era imortal, seu fígado se regenerava durante a noite e no dia seguinte, a águia o devoraria novamente, dia após dia, ad infinitum! Acredito que quando fazemos pesquisa, estamos honrando o sacrifício de Prometeu, exercendo um papel sobre o mundo antes apenas conferido a entidades espirituais fantasiadas.

Quando eu estava terminando o ensino fundamental, soube da instalação de um Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia em minha cidade. Institutos Federais oferecem a grade curricular comum do ensino médio e o ensino técnico profissionalizante integrado. Foi uma das melhores notícias que já recebi, pois já havia notado que boa parcela dos participantes da Febrace eram de Institutos Federais de Educação. No início houve uma resistência muito grande, pois se tratava de algo muito novo, e não haviam estudantes egressos para relatar o que se fazia lá. Um outro fator que quase impediu minha entrada foi o início do ano letivo naquele ano, seria quase no início do segundo semestre de 2013. Ou seja, se eu optasse por fazer o exame de seleção e não fosse aceito, iria perder um ano.

Se eu quisesse mesmo entrar naquela instituição de ensino e realizar meu sonho de infância, eu teria que estudar como nunca na vida. Foi então o que eu fiz. Sacrifiquei as férias que teria ao término do ensino fundamental para reforçar meus conhecimentos de matemática, português e conhecimentos gerais, adquiridos durante o mesmo. A insegurança de não ser aceito no exame de seleção daquele ano fez com que eu estudasse como nunca na vida. Organizei minha rotina e recorri à quase todas as técnicas malucas de gerenciamento de tempo disponíveis na internet. Quanto mais a data do exame se aproximava, mais a parede do meu quarto era coberta por fórmulas matemáticas e regras de português.

Quando o grande dia chegou, fui um dos primeiros a chegar no local da prova e um dos últimos a sair. Quando o gabarito saiu, logo o imprimi e, com o auxílio de minha tia, conferi questão por questão do caderno de perguntas que tinha levado para casa. Confesso que eu não fiquei muito satisfeito com a pontuação na época e quase me arrependi de ter feito aquela escolha. Será que eu perderia um ano que eu poderia já estar cursando o ensino médio em uma “escola comum”? Será que havia sido inescrupuloso optar por não me matricular em nenhuma instituição enquanto estava no processo seletivo para o IFMS?

Enquanto muitas dúvidas se passavam por minha mente, eu tentava me desvencilhar delas tentando me lembrar que o resultado final ainda não havia sido divulgado. No dia programado para a divulgação do resultado do exame de seleção daquele ano passei o dia todo torturando a tecla F5 de meu notebook, enquanto buscava algum sinal na página do “Exame de Seleção”. Perto do fim da tarde o resultado finalmente foi revelado: Eu havia sido selecionado para o curso no qual eu me inscrevera e, de quebra, ocupei a primeira colocação.

Um dos motivos por eu ter escolhido o curso Técnico Integrado em Informática, no ato de inscrição para o exame de seleção, foi ter achado que o curso era ofertado no período matutino, uma vez que cursei todo ensino fundamental no período matutino. Depois da matrícula feita, fui logo cedo para o campus provisório do IFMS, localizado logo ao lado da escola na qual cursei meu ensino fundamental inteiro, a Escola Municipal Erso Gomes. Chegando lá, pude observar uma grande aglomeração de estudantes em frente ao prédio cedido pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul para o funcionamento da instituição.

Tentando procurar meu nome nas listas que estavam fixadas na porta de algumas salas de aula, fiquei muito confuso ao descobrir que, na verdade, o curso no qual eu havia me matriculado era ofertado apenas no período vespertino. Fui me afastando vagarosamente do grupo que estava esperando para entrar naquela sala de aula e voltei para casa pensando em como eu faria para me acostumar a voltar para casa todos os dias e encontrar apenas uma parte da noite para realizar todas as atividades propostas em aula. Confesso que ainda sinto esta dificuldade até hoje.

Chegando novamente ao prédio da instituição, desta vez já com meu nome em uma das listas coladas nas portas das salas, sentei em um dos lugares enquanto observava meus colegas chegando, um a um, enquanto o clima de “primeiro dia de aula” tomava conta cada vez mais do ambiente, isto é: grupinhos que vieram para a instituição de suas respectivas escolas já formados e alguns tentando se enturmar a qualquer custo. Perto do início do período comum das aulas, fomos orientados a mudar de sala, onde encontraríamos a equipe pedagógica que iria nos apresentar a estrutura do IFMS, tanto física, como administrativa e acadêmica.

A cada momento da apresentação de como as avaliações eram feitas eu ficava mais surpreso ao notar que tudo era totalmente diferente do que eu já estava acostumado com. Primeiramente, a ano letivo era dividido em semestres, não em bimestres. Depois, haviam várias provas de recuperação no final de cada semestre que nos oferecia uma segunda chance para alcançar a média (7,0), ou até mesmo aumentá-la. Posteriormente, descobri que esta estrutura, ou algo extremamente semelhante, é adotado nas Universidades Federais. Todos estes fatos imediatamente me levaram a pensar que minha dúvida inicial sobre ingressar na instituição ou não poderia ser facilmente eliminada se eu soubesse de todo este sistema antes. E é obvio, como um presente do destino, uma das pedagogas disse que nossa professora de artes não estava presente pois havia acabado de retornar da “Febrace”, uma “feira de ciências em São Paulo”, como ela brevemente a descrevera.

Aquela menção passou despercebida por muitos, mas com certeza, foi o momento da fixação da âncora de minha determinação de permanecer naquela instituição. Outra grande diferença pode também ser percebida no estilo das aulas da maioria dos professores. A grande parte deles já detinha título de mestre e até mesmo doutor, todos eles devotados a ensinar estudantes de ensino médio. Quando tive contato com as chamadas: “disciplinas específicas do curso” percebi que informática ia muito além de “mexer no computador”. Poderíamos, com uma linguagem específica, dar comandos para que fizesse operações matemáticas, transferência de dados, previsão do tempo, modelos de fenômenos da natureza, além de ter deixado vários personagens históricos imortalizados e bilionários.

Na segunda semana de aulas recebemos a visita de um grupo de estudantes de semestres superiores ao nosso que iam apresentar alguns trabalhos que desenvolveram desde seu ingresso na instituição. Tratava-se de um grupo de meninos que construíam desde pequenos modelos de automação de semáforos, carrinhos que seguiam linhas no chão e desviavam de obstáculos, até um lançador automático de bolinhas de tênis de mesa. Eles faziam a apresentação do desenvolvimento dos protótipos com uma série de eslaides e do funcionamento com o acionamento dos dispositivos no meio da turma, que observava maravilhada o resultado da materialização de alguns dos conhecimentos que nosso curso proporciona. Uma das tecnologias que estava sendo utilizada pelo grupo era a plataforma de prototipagem eletrônica Arduino®. Esta placa de circuito azul era conectada ao computador, por meio de uma série de instruções ela era programada para responder a uma série de informações que eram enviadas por demais equipamentos conectados a ela. Um sensor de proximidade a um determinado objeto fazia, por exemplo, a direção da rotação dos motores, que eram conectados a pequenas rodas, mudar.

Como amante da cultura “faça você mesmo”, eu já conhecia essa “plaquinha” e suas várias aplicações. Fiquei impressionado por ela estar ali, “a uma participação em um grupo de distância”. Logo depois de tomar mais familiaridade com os professores, fui consultar o professor Leandro de Jesus, responsável pelo grupo que desenvolvia tais projetos e perguntei se era possível para mim, aprender o que era necessário para desenvolver habilidades que me permitissem desenvolver tais projetos. Ele logo me disse que tal tarefa seria árdua pois iria exigir conhecimentos que eu só iria adquirir com os próximos quatro semestres do curso. Eu topei o desafio e comecei a frequentar aos sábados as reuniões do clube onde os projetos eram desenvolvidos e aprimorados.

Como um expectador muito atento, observa e, com um sem-número de perguntas, inquiria cada integrante sobre a tarefa que estava sendo feita e os princípios de funcionamento por trás dela. Paralelamente, em casa, eu fazia vários cursos online que ensinavam programação, matemática e eletrônica.

Durante uma aula de biologia, meu professor estava expondo um conteúdo sobre como eram feitos os testes de paternidade e que existia uma “máquina de xérox de DNA” capaz de copiar várias vezes um único pedacinho de DNA. Fiquei muito curioso com a descrição do equipamento e mais ainda quando pesquisei sobre seu funcionamento e descobri que ele funcionava somente aquecendo e resfriando de maneira controlada, as amostras de DNA. Mais surpreso ainda fiquei quando descobri a faixa média de custo de tal equipamento: cerca de 50 mil reais. Percebi então que esta seria uma ótima empreitada para aplicar meus conhecimentos recém adquiridos no campo da automação.

O professor Leandro de Jesus foi o primeiro a me ensinar o método científico, a elaborar experimentos, coletar, analisar dados, etc. Desde então desenvolvemos um equipamento, 18 vezes mais barato e – por um aspecto mais confiável – que os comerciais, que torna possível a amplificação de DNA. Com essa amplificação você pode detectar doenças causadas por vírus como a dengue, HIV, malária, fazer testes de paternidade e até mesmo melhoramentos genéticos de plantas e animais. Com este projeto fui classificado em 2015 para representar o Brasil, pela primeira vez, na maior feira de ciências e engenharia do mundo, a Intel ISEF. Lá apresentei esta pesquisa para o laureado com Nobel de química de 1996, Sir. Harold Kroto e ser reconhecido pela OEA (Associação dos Estados Americanos) como um dos seis melhores projetos das Américas.

Depois que retornei dos Estados Unidos, em maio de 2015, desta feira, já acompanhava desde o fim de 2013 as pesquisas do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis que se trata sobre a criação de um método para, literalmente, controlar artefatos robóticos ou virtuais com a mente. Li o livro dele e quis aplicar os conceitos de Interface Cérebro Máquina para próteses de braço, tanto para melhorar o controle, tanto para restaurar a sensibilidade de um membro perdido. Me aproveitei destes conceitos e da chamada Síndrome do Membro Fantasma para criar um programa de computador que lê os sinais musculares vindo dos músculos remanescentes no coto do voluntário e os transforma de forma contínua nos ângulos das juntas da mão. Depois este programa é utilizado com um ambiente de realidade virtual, configurado por um colega meu que é game designer, Éber Peretto, que projeta um antebraço virtual que o voluntário pode controlar as juntas dos dedos, e pulso, independentemente e de forma contínua.

O voluntário que participou da pesquisa também vestia uma manga com motores vibratórios de celular, na região de seu bíceps, que vibravam conforme objetos tocavam a mão virtual. Isto causa, com um certo período de treinamento, o chamado rearranjo cortical, que faz com que ele receba o estímulo na região do bíceps, mas o sinta em seu membro fantasma, materializado pelo antebraço virtual. A pesquisa teve resultados fantásticos, que devem começar a ser publicados no final de 2016 e fui selecionado pela segunda vez para representar o Brasil na Intel ISEF do mesmo ano.
Lá fiquei muito surpreso com os resultados nas premiações, inéditas na história de participação do Brasil nesta feira. O departamento de desenvolvimento tecnológico da OEA me concedeu o prêmio de destaque em inovação tecnológica, fui considerado um dos primeiros colocados na categoria de engenharia biomédica, depois o melhor projeto da categoria, o prêmio do Memorial de Philip V. Streich (uma viagem a Londres de duas semanas para participar de um fórum científico para jovens promovido pelo Colégio Imperial de Londres) e tive um asteroide batizado com meu nome.
Depois de tudo isto e lembrando dos sonhos do menino de sete anos de idade maravilhado com o mundo científico e sonhando em um dia participar de eventos nos quais podia compartilhar o que tinha feito com outros, só posso concluir uma lição: Nunca deixe de acreditar no impossível, pois o resultado de um sonho impossível, nem se você não alcançar, suas conquistas na jornada serão muito maiores que a realização de um sonho medíocre. O perigo não é ter um sonho grande e falhar, é sonhar pequeno e conseguir!

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Controvérsias: Alienação Discente, Docente & Empresarial

frustrações escolares e universitárias

frustrações escolares e universitárias


A classe docente ao lecionar para a classe discente participa de modo essencial na formação e produção de todas as demais classes trabalhistas que requerem um mínimo de conhecimento. Mas… o estudante se reconhece naquilo que estuda? Quantos já não se perguntaram quando na vida vão usar dado conhecimento necessário apenas a se passar no vestibular? Por que os alunos assimilam informação regurgitada e jamais participam efetivamente no processo de construção intelectual? Ao subestimar o alunado os professores incutem nos mesmos uma cultura de incapacidade aprendida. Eis a alienação discente, um amalgamado perverso de descaso e má fé, subprodutos do autoritarismo, da burrocracia e da academídia que invisibiliza o talento individual e inviabiliza oportunidades para a plena expressão do mesmo.

a recursividade dos ciclos viciosos

a recursividade dos ciclos viciosos


Até onde tais escolhas e atitudes debilitantes partiram de uma fonte genuína e bem informada? Não seriam os professores também vítimas de uma estrutura opressora que os infectou quando ainda jovens? Hoje engessados em formatações que por capilaridade se transmitem de geração a geração num comportamento hereditário de subrendimento, de castração, de negação compulsória da singularidade própria e alheia. Eis a alienação docente, onde o professor não se reconhece naquilo que leciona, não se realiza no desenvolvimento da turma e não se engaja em cultivar o talento ali latente.

perfil profissional

perfil profissional


Quem trabalha, trabalha para uma empresa. Quais funcionários se sentem orgulhosos e realizados por produzirem um produto valioso à sociedade a qual pertencem? Quais genuinamente respeitam e admiram seus patrões? Quais empresas contribuíram para a realização pessoal de seus trabalhadores? Quais fomentam uma cultura de acolhimento, diversidade e superação? Quem é você aos 20, 30, 40, 50 e 60? Um retângulo na planilha de excel? Um número atropelado pela margem de erro na estatística? Uma peça de reposição diária? Eis a alienação empresarial, os detentores dos meios de produção produzem funcionários cada vez mais, quando não desumanizados, no mínimo inumanizados, cada dia mais apáticos em suas solidões subestimadas, em amplos latifúndios emocionais.

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