Perfis Cognitivos: Tipos de Estilo Intelectual

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Relato Pessoal: André Coneglian

André Coneglian

O autoconhecimento é uma jornada fascinante para quem a iniciou, pois conseguiu desbravar os primeiros trechos dessa caminhada, dos quais muitos trechos são assustadores e paralisantes.

É muito cômodo e confortável permanecer onde se está, ainda que este lugar seja de angústia e sofrimento, porém, para a pessoa o pensamento é: são angústias e sofrimentos conhecidos, por isso são passíveis de serem suportados.

Todavia, quando o lugar de angústia e sofrimento não é mais suportável, é preciso dar um passo adiante. Um passo de coragem para o autoconhecimento. Caso contrário, a pessoa pode acabar com o sofrimento tirando a própria vida.

A superdotação é uma diferença marcante no ser humano, faz parte do leque da diversidade do ser humano e pode se manifestar nas mais variadas configurações, considerando a idiossincrasia de cada pessoa: personalidade, família, educação, cultura e outras influências.

Nesse sentido, a superdotação sabida e conhecida de uma pessoa, seja ela criança, jovem, adulto ou idoso é diferente da superdotação nas pessoas que não são conscientes que a sua diferença – pois se sentem estranhos – tem um nome!

Proponho-me, novamente e quantas vezes forem necessárias – para mim mesmo, como catarse, também para favorecer a reflexão em outras pessoas e famílias, relatar o meu processo de autoconhecimento e como nos tornamos, Paula, Lorenzo, Benjamin e eu, sabedores da nossa superdotação.

Primeiro: superdotação não é glamour!

Segundo: superdotação não é glamour!

Terceiro: superdotação não é glamour!

Talvez, no imaginário das pessoas ser superdotado deve ser “um sonho de consumo”, uma benção, uma dádiva, um privilégio, uma vantagem. Assim como em outras diferenças no ser humano, há sim vantagens e desvantagens, prós e contras.

Permanecendo no advérbio de dúvida, talvez, num mundo idealizado por pessoas superdotadas, seja maravilhoso todos os dias ser uma pessoa superdotada, a ponto de não precisar lembrar a esta sociedade perfeita que somos superdotados.

O mundo tal como ele é não é favorável às diferenças. Constantemente, a dinâmica da vida real, dos sistemas que regem a vida cotidiana, perseguem uma padronização, uma massificação, tentam grudar nas pessoas rótulos que sejam “aceitáveis”.

A superdotação na nossa vida familiar chegou no ano de 2015, quando Lorenzo tinha quatro anos de idade. Chegou de um modo assustador: uma gastrite nervosa e princípio de depressão na criança de quatro anos. Investigadas, medicadas e tratadas as questões de saúde física e psicológica, iniciamos o processo de investigação: porque uma criança tão pequena sofre com questões que não são para sua idade?

Depois de oito sessões com uma psicóloga e uma psicopedagoga, o relatório que nos foi entregue apontava indicadores de altas habilidades/superdotação, porém, pela idade do Lorenzo estava aberta a questão. Era preciso esperar a idade de seis anos, repetir alguns testes e fazer outros novos, por exemplo, o WISC-IV.

Quando os testes foram finalizados, aos seis anos de idade, a diferença do Lorenzo recebeu um nome: altas habilidades/superdotação, perfil acadêmico-intelectual. Desde então, a nossa busca como pais foi para que a vida escolar, principalmente, não fosse feita somente de frustrações: já sei ler e escrever, já sei os números e as principais operações aritméticas, gosto de palavras cruzadas, já leio livros mais complexos, interesso-me por planetas e elementos químicos.

Lembram-se dos rótulos e padrões que a vida e seus sistemas tentam nos grudar o tempo todo? Na biblioteca da escola, por exemplo, eram disponibilizados para o 1º Ano do Ensino Fundamental, livros “apropriados” para crianças em fase inicial de alfabetização. Os alunos não tinham o direito de emprestar outros livros, que não aqueles separados para esse fim. E estou citando somente uma “simples” questão de outras mil que tivemos que enfrentar.

Deixarei de escrever sobre a superdotação do Lorenzo a partir daqui, porém, por conta dele, que fomos conduzidos por caminhos que nos levaram ao Ensino Público da Rede Municipal da Educação de Londrina, ao Atendimento Educacional Especializado, específico para alunos com Altas Habilidades/Superdotação, à Associação Londrinense de incentivo ao Talento e Altas Habilidades/Superdotação, a qual tive o privilégio de ser presidente na gestão de 2017/2019 e acesso a tantas famílias e histórias relacionadas à AHSD bem diferentes da nossa história – pois cada família é ímpar, cada sujeito é único.

No ano de 2018, minha esposa conheceu Patrícia Neumann, a palestrante se apresentou como superdotada, condição descoberta na vida adulta e ministrou um minicurso acerca da “sobre-excitabilidade emocional”. Foi o suficiente para Paula me apresentar à Patrícia e menos de um mês depois, estava eu iniciando e finalizando o processo de avaliação psicoeducacional sobre minha superdotação.

Na época eu estava com 37 anos de idade. Sim, foi uma mudança enorme na percepção de vida, minha relação com o mundo, o conhecimento. Eu sabia porque tinha sido um peixe fora d’água de praticamente todos os ambientes que frequentara. Altas Habilidades/Superdotação, perfil acadêmico-intelectual.

Paula seguiu um percurso diferente. Sabia da sua condição diferenciada a vida inteira, porém, precisou fazer terapia para compreender sua desestabilidade psicológica e criar coragem para o processo de avaliação da sua superdotação. Ao final do processo, apontava um perfil totalmente diferente da superdotação do Lorenzo e minha. Paula é superdotada de perfil criativo-produtiva e nos Esportes, finalizou a avaliação em dezembro de 2019, quase às vésperas de Natal.

Por fim e não é aqui que eu termino esse relato, a superdotação do nosso caçula, o Benjamin. Cada história é muito singular. Benjamin, segundo filho, igualmente desejado e planejado, na gestação do sexto para o sétimo mês, Paula teve toxoplasmose. A finalização da gravidez, o parto e as primeiras semanas foram sofridas para todos nós, especialmente para o bebê. Muitos exames, internações, “n” protocolos para descartar as sequelas da toxoplasmose gestacional.

Ainda que todos os exames fossem favoráveis à condição de saúde, Benjamin foi considerado bebê com toxoplasmose congênita até os dois anos de idade, quando recebeu alta do acompanhamento clínico-médico. Nosso olhar para ele era outro, um olhar diferente quase oposto ao que direcionávamos para Lorenzo, de super-proteção.

Benjamin cresceu com um irmão 3 anos e meio mais velho, irmão cheio de atividades intensas, muitos compromissos escolares e extraescolares, enquanto que os compromissos do Benjamin era com exames e hospitais. Entretanto, quando nos voltamos para aqueles dias, é possível dizer que Benjamin enfrentava sua questão “particular” de saúde com uma maturidade fantástica para uma criança da sua idade. Ele não fugia dos “jalecos brancos”, não gritava com as agulhas e injeções.

A Educação Infantil do Benjamin foi pautada pela dinâmica escolar do Lorenzo. O primeiro ano de berçário foi na mesma escola que Lorenzo estudava há quatro anos. Quando mudamos de bairro e, portanto, de escola, escolhemos uma escola para o perfil do Lorenzo e que, obviamente, também atendia o perfil do Benjamin.

Ficaram nessa escola somente um semestre. Precisamos tirar Lorenzo de forma abrupta – pois havia quebrado a perna, estava cadeirante, a escola não tinha acessibilidade arquitetônica, muito menos boa vontade de promover nenhuma mudança atitudinal para acolher a condição temporária dele. Assim, tiramos ambos dessa escola – que foi processada e obrigada pelo Ministério Público para se adequar às normas mínimas de acessibilidade.

No dia seguinte, Lorenzo estava matriculado no 2º Ano do Ensino Fundamental na escola pública. Benjamin ficou sem escola, sem professora, sem amigos até o início do próximo ano letivo. E foi nessa escola de educação infantil, no ano de 2018, com uma excelente professora, que Benjamin passou a demonstrar seu potencial. Na escola, ele era a referência dos demais colegas: “O Benjamin sabe!” e esperavam suas manifestações. Em casa, ele disfarçava, não respondia nossos questionamentos. Na escola contava até sessenta, em casa até vinte. Era como se não pudesse saber muito, pois alguém já tinha esse lugar!

Benjamin estudou 2019 numa escola e neste ano está em outra escola. Matriculamos Lorenzo em outra escola no final de 2018 e ficou nessa escola o ano letivo de 2019 inteiro, onde passou pelo processo de aceleração no mês de abril, do 4o. para o 5o. Ano do Ensino Fundamental, pois estava frustrado novamente com a escola. No final de 2019 prestou o processo seletivo para o II Colégio da Polícia Militar de Londrina, com mais de 1000 candidatos para 90 vagas e conquistou a primeira vaga, das 45 direcionadas à população em geral (as outras 45 são destinadas para filhos de militares), assim, com nove anos de idade, iniciou o 6o. Ano do Ensino Fundamental.

Neste ano (2020), quando Benjamin completou seis anos de idade (14/06/2020), iniciamos o processo de avaliação sobre AHSD. Resultado: Benjamin é superdotado, perfil misto, produtivo-criativo e acadêmico-intelectual. Um perfil mais “livre”, de necessidade criativa, latente e permanente. No caso específico dele, mistura de tintas, substâncias, elementos, cortar, colar, juntar.

Aqui, é importante parar numa reflexão extremamente salutar. No que diz respeito exclusivamente a crianças com AHSD, há pesquisas e artigos que relatam “a síndrome do segundo filho”, em que pese a AHSD do primogênito na dinâmica familiar e os pais não estão atentos aos indicadores da AHSD do segundo, terceiro filhos. Pois podem ser AHSD com outro perfil.

Quero expandir a reflexão para as famílias que possuem qualquer diferença, especialmente, crianças e jovens com necessidades especiais, sejam elas quais forem. É possível que os adultos, preocupados com essa criança e o ritmo diferenciado que as necessidades dela podem demandar, se esqueçam de dedicar tempo de qualidade com os demais filhos ou outros membros da família. E não o fazem conscientemente!

Haja vista nossa dinâmica com foco nas atividades do Lorenzo e, também, nosso foco com as questões da toxoplasmose congênita do Benjamin. Há pesquisas e artigos sobre a dinâmica de famílias com crianças com deficiências ou outras necessidades com foco nos irmãos que não possuem deficiência. Uma busca rápida no Google ou outros buscadores listará alguns artigos.

Dentre tantas referências, gosto de citar um filme, em que a irmã mais nova se manifesta em diálogos com a mãe e com a própria irmã surdacega. O filme é “Black” (2005), de Bollywood, produção indiana. O filme é baseado na história da Helen Keller, surdacega norte-americana e sua tutora Anne Sullivan (O Milagre de Anne Sullivan, filme de 1962).

Para concluir esse texto, respondo um questionamento feito num grupo de whatsapp de adultos superdotados. A pergunta foi se nós adultos superdotados com filhos contamos ou não sobre a nossa condição de superdotação. No nosso caso particular, foi a superdotação do nosso filho mais velho que nos conduziu todos a nossa própria superdotação e sempre fomos totalmente transparentes.

Os filhos têm direito de saber que seus pais não são “normais” (típicos). Os pais tem o dever de promover o caminho do autoconhecimento aos filhos. Conheci uma mãe, cujo filho tem AHSD e decidiu, juntamente com a psicóloga do filho, não contar a ele sobre sua condição. Na época ele devia ter nove ou dez anos de idade. Eu rebati: você não tem o direito de negar essa informação dele. A mãe: tenho sim, sou a mãe dele! Não quero que ele seja estigmatizado na escola e na família. Eu ainda tentei: ele já sabe que é diferente, precisa saber o nome da diferença dele. Acredito que até hoje, esse garoto não saiba da sua condição de superdotado.

É preciso tratar com naturalidade aquilo que é natural nas pessoas. Ser superdotado é natural para quem é superdotado. Não é normal ou natural para a sociedade, que insiste em padronizar, massificar, rotular. Para desconstruirmos essa insistente tentativa, precisamos tratar com naturalidade em nosso ambiente familiar, em nossos meios sociais para que as pessoas, no mínimo, respeitem nosso modo de ser e viver no mundo!

E você, que me conta sobre tudo isso? Sua experiência?

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Perfis Cognitivos: Formas de Autogoverno Mental

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Entrevista: Gerson Machado de Avillez

Gerson Machado

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Gerson Machado de Avillez: Passei a vida toda sem saber, mesmo que desde criança fosse ‘diferente’, não apenas nos trejeitos mas gostos e preferências. Do desenho a leitura, logo obtive, sobretudo, uma curiosidade e senso de questionamento que me distinguia de muitos e penso que ainda que não me julgasse muito inteligente nessa época isso provavelmente fora a centelha que motivou desenvolver minha inteligência e habilidades.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Gerson: Por não ter feito testes vocacionais acredito que possa ter algumas habilidades que desconheça mesmo mediante os 7 tipos de inteligência de Gardner, mas pelo teste de QI feito creio ser possível traçar alguns indícios como ter tirado 100% em compreensão verbal e raciocínio lógico o que na prática pode ser traduzido no meu gosto por filosofia e literatura. Todavia tenho um pensamento muito visual que desde criança ficou tangível numa habilidade bem impressionante para desenho, mesmo que na juventude após cursar desenho artístico apresentei um bloqueio, mas que transferi a habilidade para fotografia e designer. Dentro do espectro autista sobretudo os chamados hiperfocos fornecem base para desenvolver habilidades e conhecimentos específicos.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação e altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Gerson: Muito pouco acessível e caro. Porém, julgo tão essencial quanto os testes vocacionais comuns nos Estados Unidos. No meu caso usei um dinheiro que recebi para fazer, pois antes tinha apenas indícios de minha superdotação em testes virtuais. Todavia o resultado me surpreendeu pois na internet antes meu escore atingido fora no máximo 134. Mesmo que testes virtuais não tenha validade clínica observo sobretudo como os próprios critérios da avaliação possam ser parciais e limitados, sem contar o aspecto do estado de humor. Particularmente eu quando sob estresse perco o foco e sem concentração sem dúvida o desempenho cai vertiginosamente. No final, penso que tais testes apenas formalizam algumas potencialidades mentais, pois a exemplo de savants eles podem apresentar memória fotográfica e altas habilidades geniais sem terem QI alto. Mas uma mensuração mínima associada ao tratamento e condições propícias é o que separa um país que produz cérebros a uma ineptocracia como vivemos e me julgo exemplo comprovado. O problema é que há muita vaidade de um lado e inveja de outro quando pra mim o que importa é mais os frutos de sua mente, suas obras. Mas nessa mamata que é nosso país mesmo plágio e fraudes para que uns se exaltem não é incomum, e novamente sou prova disso quando mesmo livros meus foram vendidos pirateados na internet.

SM: Conte um pouco para nós quais são as peculiaridades da sua dupla excepcionalidade (autismo leve mais superdotação).

Gerson: Penso que a grande vantagem em ter ambos seriam os hiperfocos que como obstinações em determinados temas acabam por ser um quase ‘turbo’ para a mente. Talvez permita que você perceba detalhes e padrões que poucos ou ninguém tenham visto. Mas em compensação tem sensibilidades tanto sensoriais quanto sociais que podem limitar um pouco sua interação com o mundo. Particularmente amo socializar e as duras penas consegui me desenvolver melhor socialmente, mas certas circunstâncias me sinto extremamente desconfortável com quem não confie ou sinto haver algo errado. Confesso que as vezes me passa pela cabeça a possibilidade de certos dotes extra-sensoriais por algumas coisas que percebi. Mas não tendo base científica fico em cima do muro. Outro ponto vantajoso da associação ao autismo é o fato da preferência essencial a objetividade dos fatos tanto como uma sinceridade que no meu caso pode ser um incômodo social. Mas estes dois elementos sem dúvidas colaboram com a formação de uma intelectualidade honesta de muita valia no meio acadêmico e científico.

SM: Como você entende hoje o bullying que você sofreu em fase escolar?

Gerson: Desde minha infância sofri mais por ter sido gordinho e um pouco ‘esquisito’. Sofria de bronquite e os medicamentos da época me fizeram engordar. Mas desde o ensino fundamental compensava isso com minha habilidade pra desenhar. Cheguei mesmo ter um desenho meu selecionado no meu colégio para a Rio-92 que fora o primeiro encontro internacional sobre ecologia e aquecimento global. Alguns ex-alunos que selecionaram chegaram até me procurar para me parabenizar. Porém, mesmo na faculdade sofri muito bullying meramente por causa das perguntas difíceis que fazia em aula que deixavam alguns alunos ou espantados ou com inveja e raiva. Cheguei mesmo a ser expulso de um grupo do Wahstapp da turma pois a conversa que tive com a professora que era mestre em história deixou os membros do grupo irritados, no final mesmo a professora se chateou e retirou-se do grupo. Acertei mais tarde com os alunos e não tenho mágoas, mas a impressão é que as vezes ser inteligente é um insulto para alguns por meramente esses alegarem que não entendia do que falávamos. Assim hoje procuro mais ressaltar meu QI apenas nas páginas profissionais como Linkedin ou associado aos meus trabalhos literários, pois não fico falando pra ninguém pela internet ou na rua sobre minha SD a menos quando alguém soberbo tenta se exaltar me humilhando.

SM: O que você entende por ineptocracia?

Gerson: Algo contraintuitivo não somente a sociedade mesmo por um ‘contrato social’ de relações simétricas, mas algo que é uma aberração mesmo a dinâmica da predominância do mais apto pela teoria da evolução. Na realidade parece mais um resquício pseudocientífico de predadores sociais que dominam em arbitrariedade contra vocações. Mas sobretudo numa cultura que prioriza o ganho financeiro do que a vocação. Meu pai era exemplo quando mesmo isso me ensinava e viveu, arrumou um emprego na então Embratel sem gostar, mas por necessidades financeiras mesmo que no fim ele mesmo como técnico superava engenheiros os quais chegava dar aula. Criou equipamentos e me afirmava desde criança que a ideia dos trens magnéticos ele havia tido antes de inventarem. Penso nele como mais uma vítima dessa ineptocracia, poderia ter se focado nos estudos acadêmicos e na leitura, mas antes se voltava exclusivamente ao trabalho mesmo que ainda lá tivesse alto desempenho. Minha mãe fora outro exemplo, largou os estudos sem completar o ensino médio quando era ótima aluna, tudo apenas para se casar e virar dona de casa.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Gerson: Fazia e julgo importante, pois parece fato que os que possuem SD tem maior tendência a depressão talvez por enxergar o mundo niilista como é. A verdadeira psicologia visa assim não somente encontrar a si mesmo, mas incentivar suas vocações como terapia e escape as problemas sociais e pessoais, de modo que sem a escrita hoje eu não sei se teria sobrevivido pois a ausência de longos anos de minha vida social me amarga problema psicológicos já presentes antes da solidão. Mas é fato que muitas conversas me incomodam, as poucas que tive que realmente me empolgaram fora com alguns professores da faculdade, pois sempre procuro algo e alguém que diga algo relevante que me faça refletir, que não saiba ou que eleve meu pensamento. Nesse sentido um mestre de história, Ralph, fora o que mais me inspirou ao lado do doutor Marco Antônio, mas essas pessoas são raras num mar de assuntos torpes, bisbilhotices sobre a vida alheia e trivialidades como futebol, sacanagem e afins. Conversas de conteúdo, de ideias, pra mim são a maior terapia e por isso sempre procuro o meio acadêmico o clássicos da literatura dos gêneros que amo.

SM: Conte um pouco para nós sobre sua jornada acadêmica. Em quais áreas foram sua graduação e pós-graduação? Em que área você pretende seguir no mestrado? Por quê?

Gerson: Confesso que até o ensino médio empurrava os estudos com a barriga, era rebelde e bagunceiro, sempre fui muito desajustado e temperamental. Perdi muito tempo atoa e perdido em problemas pessoais e familiares, apenas após dez anos parados do estudos resolvi fazer o Enem. Fiz sem estudar absolutamente nada, mas fora o suficiente para conseguir uma bolsa do ProUni. Antes queria cinema que é uma segunda paixão pra mim (cheguei ser fiscal de figuração em novelas da Globo e fiquei fascinado com esse meio), mas no fim peguei a vaga mais acessível na região que era Pedagogia. Confesso que as áreas dos estudos sobre educação infantil me provocavam um profundo tédio e mesmo para lecionar acho muito decepcionante e nada estimulante. Mas quando tocava nas partes de psicologia, história e filosofia haviam temas que fascinavam. Tive uma série de problemas no percurso, não apenas bullying, mas psicológicos a ponto de chegar a trancar a matrícula por causa da síndrome de pânico por não conseguir sair de casa. Mas mesmo com os enormes obstáculos terminei o curso com alto desempenho, acima da média. Nunca fiquei reprovado numa matéria e era um dos mais elogiados pelos professores. As poucas vezes que quase fiquei reprovado fora pelos problemas psicológicos que me fizeram faltar as provas me jogando direto pra AV3. Mas quando terminei fiquei com saudades por alguns contatos e conversas altamente estimulantes, pois apesar de tudo era bastante popular. Posteriormente fiz uma pós online (e vou começar outra agora) em metodologia do ensino de filosofia pois quero dar aula em faculdades por julgar o nível comportamental dos alunos um pouco melhor que do ensino fundamental e muito mais estimulante intelectualmente. Gosto de desafios as minhas aptidões e de me superar e por isso quero muito tentar um mestrado e doutorado em filosofia moral ou outras áreas da filosofia (assim como talvez uma graduação em história) mesmo que com a pandemia esteja muito mais difícil contatos pra isso.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Gerson: Nunca tive! Na vida toda! O que pra mim é mais um sério indicativo ineptocrata. O mais perto disto fora quando mostrei meu laudo de autismo na faculdade. Penso que caso eu tivesse acesso a tudo isso desde a infância provavelmente teria me desenvolvido muito melhor do que hoje, mas com esse depoimento e pessoas como vocês tenho esperanças para tantos mais. Penso quantos talentos perdidos há numa comunidade pobre, quantos não pegam nos fuzis ao invés das canetas? Cresci ao lado de favelas e vi e passei muitos crimes, vi assassinatos, tive que dar satisfação para traficantes, perdi amigos e vidas para esse meio tão deprimente. Penso que quem não valoriza a educação adequada como tal tanto como a vocação apenas favorece o oposto. Por sorte nesse sentido sempre tive a cabeça no lugar e meus pais me deram uma ótima educação. Preferia estar desenhando ou jogando videogames do que nas ruas com quem não prestava. Mesmo na adolescência tenha feito alguns atos de revolta não entrei nesse caminho. Trabalhei por mais de dois anos num evento cultural que me marcou e aprendi muito sobre a importância de valorizar a vocação, nesse evento das lonas culturais descobri vários talentos de artes, da música a poesia, percebi quanta gente talentosa era desperdiçada. O evento fora um sucesso quando o peguei no começo quando alguns diziam que o apresentador era apenas um “maluco”, mas logo ganhou espaço e fama, aparecemos nos jornais e tentaram até um piloto pra Tevê, no final, o criador fora pra Globo mas despejaram junto com toda uma leva de ótimos artistas o que é deprimente. O programa como era acabou, mas a lição ficou. Cada talento importa, e provavelmente você que lê isso as vezes tem uma habilidade que desconhece.

SM: Algum lema motivacional?

Gerson: Sou brasileiro, e desisto nunca! (risos) Minha vida é uma teimosia, mas no foco do direito a vocação, não do erro. Na realidade construí todo um pensamento filosófico em cima disto, chamo de significalismo contra um torpenismo de muito ruído dissocial e tóxico (torpenismo de torpe).

SM: Algum recado pra galera?

Gerson: Caso vocês tenham algum talento que colabore com a sociedade e dê significado a sua vida nunca desista, nunca! Nem Deus pode te proibir disto! Faça dele um sonho e trabalhe e pratique para desenvolvê-lo a todo custo. Isso será seu sentido da vida e o que lhe define ao contrário de forças exteriores na sociedade que trabalham para lhe definir de acordo com as circunstâncias. Seja mais apto que os problemas e mais forte que o ambiente e meio. Espero que mesmo eu nisso seja exemplo e assim inspire o melhor, pois a inteligência não são meros números, mas atitudes e feitos. Mesmo gênios cometem burradas, assim como a exemplo de personagens da ficção como Forest Gump que tinha embotamento fora capaz de atos geniais e memoráveis. Penso nesse filme de como na simplicidade dele pode inspirar tantos assim como os meus feitos e obras. Não busco autopromoção, mas ser um paradigma para os que tenham vocações, quero que vejam as adversidades que sobrevivi, mas ainda assim não desisti do certo e do direito a vocação. Ser inteligente é sobretudo fazer uso inteligente da inteligência, pois ela em si é apenas uma ferramenta assim como a inteligência é a habilidade de processar informações para formar e criar padrões como criações e soluções. A inteligência numa mente sem dados é tão possível como uma fogueira sem combustível, ou um desktop sem programação. Por isso estude sobre o que ama e pratique, diga não a quem diz não ao direito a vocação! Nunca usem alheios como comparação para si como a inveja, olhe para quem tenha aptidões como uma inspiração pois somente assim vocês irão crescer e se tornarem realmente melhores, melhores do que si mesmos, isto que pratico, cada biografia de gênios como Tesla, Einstein, Da Vinci e afins busco me inspirar, não invejar.

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Modelo de Identificação: XIP

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Relato Pessoal: Gerson Machado de Avillez

Gerson Machado

Olá, meu nome é Gerson, tenho 41 anos e tive diagnosticada minha dupla excepcionalidade (autismo leve mais superdotação) bem tardio, o laudo de autismo após ostensivo acompanhamento obtive de uma neurologista em 2018., o teste de Q.I. realizado em 2019 com uma neuropsicóloga confirmou o que testes virtuais sem valia clínica indicavam, o escore de 163.

Há algum tempo desconfiava de minha superdotação por uma série de habilidades, especialmente após começar a escrever ainda como autodidata aos 28 anos. A diversidade de ideias que posteriormente foram dilapidadas pelo meio acadêmico em 2014 fomentaram um crescimento de minha produção intelectual ainda que mediante inúmeras dificuldades e obstáculos.

Ainda que dotado de dupla excepcionalidade confirmadas clinicamente e por exames e testes nunca tive suporte ou acesso a educação especializada, ainda que estudando na minha adolescência em bons colégios do subúrbio do Rio sofri severo bullying por toda minha vida. Porém, desde minha infância vocações e dotes eram bastante claros. Tive até a juventude muito talento para desenho o que fez de mim bastante popular no colegial. Posteriormente tive um bloqueio e não mais consegui desenhar me levando a canalizar minha vocação visual a fotografia e design chegando a ter algumas fotos publicadas em jornais e revistas.

Sempre tive uma predileção a leitura desde a infância onde buscava sempre comprar os jornais do dia para ler minhas áreas prediletas (ciências, entretenimento e literatura). Ainda na infância buscava compilar notícias de interesses, de recortes de jornais que tenho até hoje a mesmo transcrevê-las numa máquina de escrever elétrica e posteriormente no desktop que rendeu meus primeiros livros, mas que se limitavam apenas a selecionar os assuntos de meu interesse como temas de casos misteriosos e sem resolução. Colecionava também em vídeo todas reportagens da televisão que me interessavam sobre o tema, tanto como de cinema e games os quais como um hiperfoco no autismo detenho ainda hoje grande conhecimento.

Ainda que sem educação adequada e identificação na maturidade de minha condição uma série de problemas pessoais sempre me dificultaram o desenvolvimento livre e oportunidades adequadas as minhas vocações. No Brasil ainda impera uma forte ineptocracia o que não me impediu, no entanto, de tentar exercer minha inteligência e criatividade escrevendo mais de 40 livros em dez anos, ainda que eu mesmo tenha descartado cerca de 10 livros ou mais por julgá-los inferior na qualidade. Espaços como esses sendo inclusivos parecem ser exceção a justificar o renome da USP e espero colaborar em enriquecer colegas com iguais vocações, pois temos muito a oferecer ao mundo, mesmo que seja frequentemente ofendido de “maluco” e “vagabundo” por minhas ideias e aspirações, entre outras coisas nocivas e tóxicas e chegando a sofrer mesmo pirataria de livros meus.

Tive muitos contos publicados, em sites, revistas e antologias como histórias que exprimem meu descontento ante os problemas sociais que enfrentamos tanto como sonhos utópicos de sua possibilidade de escape. São contos de ficção científica, fantástica e horror que hoje em dia são uma das poucas coisas que tem significado na minha vida atribulada entre problemas mil e o isolamento que vivo há anos, problemas estes que em sua adversidade me renderam síndrome do pânico e depressão ainda que tenha como a literatura um escape terapêutico, tanto como os games e filmes dos quais sou ávido consumidor (em menos de dois anos detonei cerca de 60 jogos no PlayStation 4).

Na literatura possuo inspirações diretas de autores que amo como Philip Dick, Lovecraft, Orwell e Tolkien, tanto como filmes de ficção científica das décadas de 1990.

Fui finalista de diversos concursos literários, e na faculdade era um mais destacados como ‘inteligente’ não somente por minhas notas, mas pelas perguntas “cabulosas” que fazia em sala de aula. Coisas que assim como os problemas que passo são fundo de inspiração para muitas histórias sendo hoje predominantemente contos, mesmo que antes apenas novelas e ensaios. Os últimos foram fortemente inspirados no meio acadêmico que dissertam sobre como a especulação e informação afetam a realidade, tanto como aspectos de filosofia de um tema que tenho fascínio, o tempo, ao render o atual livro ‘Cronogenises’. Dentre outros mesmo que desde o ano passado sem meu notebook tenho escrito livros no próprio telefone, de contos a um ensaio que debulha questões que julgo de importância vital a sociedade. Uma leitura volitiva do marxismo sobre a dicotomia do ‘Vício & Trauma’ escorando em outro ensaio meu que me é um dos favoritos e creio poder trazer questionamentos e propostas intrigantes a sociedade, ‘Signos Universais do Ethos’. Este último teorizo as origens míticas de arquétipos instintivos à padrões cíclicos de adversidades sociais somente possíveis de serem descritas por termologia propriamente desenvolvida por mim com esse fim. Noutros, contos além de criar termos próprios cheguei a escrever uma língua própria forjada em fonemas.

Ainda que tenha enorme dificuldades com recursos espero esse ano manter a média de produção de 4 livros por ano (dentre antologias e ensaios) sabendo ter ainda uns dez projetos literários parados por causa disso. Costumo ler relativamente poucos livros, cerca de 25 à 20 por ano, e ainda que tais projetos literários sejam majoritariamente elogiados por profissionais e acadêmicos da área espero que sejam de relevância ante uma época tão turbulenta e que consiga atingir meu objetivo acadêmico de fazer um mestrado ou doutorado. Minha pós online finalizei com um artigo que em parte utilizava livros meus também como parte das fontes obtendo dez e conceito final ‘A’.

O academicismo que na área que amo (filosofia e história) sempre me sinto a vontade e confortável ante a severidade tóxica e negativa que vivo. Desejo que esse texto estimule toda vocação e criatividade além inteligência por padrões delimitadores e a seguir seus sonhos não somente como interesse pessoais, mas de valia a um mundo problemático que precisa de pessoas aptas a buscar respostas e resoluções aos males que nos assolam e que degeneram relações sociais favorecendo toda sorte de injustiças e desigualdades.

Deixo aqui meu site para interessados em melhor conhecer sobre mim e minhas obras: www.gersonavillez.jimdo.com

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Entrevista: Patrícia Neumann

Patrícia Neumann

Patrícia Neumann

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Patrícia Neumann: Eu soube quando tinha 28 anos. Estava na faculdade de psicologia no quarto ano. Fiz minha formação toda voltada a processos educativos e, por isso, estagiei sempre em escolas na área da psicologia escolar. Eu não tive formação em AH/SD na faculdade, só na área de deficiências e dificuldades de aprendizagem. Mas no meu estágio a pedagoga suspeitava de um menino na sala que eu estagiava. Ela pediu se eu podia fazer uma avaliação com ele. Então fui estudar por conta própria para fazer a avaliação. Foi meu primeiro contato com a área de onde ficou claro para mim porque eu era como era. Não tive dúvidas que eu era superdotada.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Patrícia: Eu sou superdotada na área acadêmico-intelectual e tenho talentos em liderança e artes.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação e altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Patrícia: Minha avaliação foi em partes. O primeiro contato com a área foi no estágio da faculdade por autoidentificação. No ano seguinte ao término da faculdade, eu estava no mestrado em educação. Na minha turma tinha uma pedagoga que pesquisava AH/SD. Um dia ela me perguntou se eu queria responder um instrumento de indicadores. Ela teve um olhar sensível pra mim. Pontuei quase 100% no instrumento. Mas eu queria saber meu QI também e no ano seguinte pedi a uma amiga com experiência em testagem que fizesse a aplicação do teste comigo. A minha pontuação deu 130 e, digamos, foi mais uma confirmação, além das que eu já tinha.
E sim, a avaliação de AH/SD ainda é inacessível a grande parte da população, isto em todas as idades.

SM: Qual foi a sua maior dificuldade na sua primeira graduação em psicologia? E como você superou este e outros obstáculos universitários?

Patrícia: Minha maior dificuldade foi de relacionamento interpessoal. Digamos que eu não tinha “tato” social, não captava muito bem as mensagens verbais e não verbais que as pessoas me enviavam. Por diversas situações difíceis que eu vivi na juventude, eu cheguei na vida adulta com dificuldades em lidar com as pessoas. Por eu ter sofrido muita violência psicológica vinda da família do meu pai e de outras pessoas, eu criei mecanismos de defesa contra os outros. Por exemplo, eu era arrogante e em certa medida, manipuladora. Mas isso era pra afastar as pessoas. Eu também acabava sendo agressiva sem perceber e isso fazia com que os outros não me vissem com bons olhos. Eu era uma acadêmica brilhante e isso também gerou algumas situações desconfortáveis com alguns professores. Por exemplo, houve alguns trabalhos que eu tinha tudo para tirar 100, não faltava nada do que tinha sido pedido…mas eu não tirava nota máxima. No meu tcc, a banca quis me dar 100 (os dois professores da banca disseram isso), mas meu orientador fez questão de não me dar 100 e que era pra eu encarar aquilo como incentivo. Realmente, diminuir a nota de alguém é muito motivador! Rs Eu superei minhas dificuldades de interação social fazendo psicanálise. Foi a melhor decisão que tomei na vida. Com terapia, tudo mudou gradualmente para melhor. Comecei no quarto ano de psicologia a me tratar e despendi oito anos de tratamento. Valeu muito a pena.

SM: Sabe-se que o filosofar pouco a nada serve ao mercado, ao capitalismo, quando feito eticamente, vide a desvalorização e sucateamento deste ofício milenar enquanto profissão na vida contemporânea. Durante a ditadura militar brasileira a filosofia foi cancelada dos currículos escolares e fortemente atacada nas universidades. Conte para nós o que uma filósofa faz e como a filosofia pode contribuir para o desenvolvimento pessoal e social.

Patrícia: O que faz uma filósofa? Esta é uma pergunta instigante (rs). A filosofia é a ação do pensar, mas de um pensar muito específico que é o pensar filosófico. Então, o que uma filósofa faz é pensar filosoficamente. Isto não responde muita coisa ainda, mas é um preâmbulo necessário. Em filosofia pegamos problemas da vida quotidiana e buscamos resolvê-los ou, pelo menos, trazer novas perspectivas. Buscamos resolver problemas apresentando argumentos. Os problemas que tentamos resolver vem de todos os lugares, do senso comum, das ciências, das artes, da política, das tecnologias… Mas o que diferencia nosso trabalho de pensar de outras áreas é justamente que o pensar filosófico não é uma ação empírica tal como uma ciência natural, por exemplo. É uma atividade puramente teórica. E a questão é que, devido à construção do nosso país em suas raízes, o pensar teórico é visto como algo inútil. Não somos incentivadas(os) a exercitar o pensar abstrato. Somos um país com mentalidade escravocrata ainda. Somos muito presas(os) ao concreto. Há uma questão política envolvida, pois não é vantagem a grupos dominantes em poder que as pessoas aprendam a pensar sobre os problemas da vida. Porque é isso que eu faço e meus colegas da filosofia fazem: pensamos sobre problemas da vida. Os resultados desse pensar possibilitam que tomemos decisões diferentes, que possamos escolher dentre mais opções, que possamos inclusive nos conhecer melhor, compreender quem somos e quem desejamos ser, projetar um futuro diferente. E com isso, construir uma sociedade diferente. Mas isso não interessa a muitos por diversos motivos. Nós, filósofas e filósofos, pensamos filosoficamente, produzimos conhecimento, escrevemos e pesquisamos. Não só em filosofia estritamente, mas também em conjunto com as ciências, por exemplo, que é o meu caso. Como filósofa, tenho uma visão muito mais ampla do meu trabalho como cientista e levo isso para tudo que eu faço. A filosofia não é separada da vida, ela é a vida.

SM: Você é uma cientista, quais são seus campos de exploração científica? Onde podemos acessar a sua produção?

Patrícia: Eu trabalho dentro das ciências humanas. Isto não quer dizer que eu não goste das demais ciências. Pelo contrário, adoro todas! Mas não se tem tempo para fazer tudo, então escolhi as humanas. Minhas pesquisas são principalmente na área de Educação. Tudo que eu pesquiso dialoga, em alguma medida, com a educação. Mas ainda assim, educação é algo muito amplo e é preciso fazer recortes. Então, eu pesquiso, na Educação Especial, as altas habilidades/superdotação, especialmente a área socioemocional, inteligência emocional, vida adulta, gênero e a Teoria da Desintegração Positiva de Kazimierz Dabrowski. Outra área que pesquiso é a Educação Ambiental, onde tenho trabalhado, junto com meu grupo de pesquisa, na fundação de uma nova abordagem teórico-metodológica, a Educação Ambiental Complexa (no Brasil, temos três abordagens já instituídas e a Educação Ambiental Complexa é uma quarta vertente). Afora isso, também tenho meus estudos em psicologia, filosofia e psicanálise. Mas tudo que eu pesquiso nestas áreas tem alguma relação com processos educativos, sejam formais, sejam informais. Eu tenho minhas publicações reunidas no meu website: https://ahsdtdp.wixsite.com/meusite

SM: A carreira diplomática é atraente a teus olhos, agora o que te atrai neste campo internacional e hipercomplexo?

Patrícia: Ainda estou amadurecendo esta ideia, mas o que mais me atrai na diplomacia é a possibilidade de trabalhar com problemas de ordem humanitária e de lidar com diferentes culturas.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Patrícia: Eu nunca precisei de aconselhamento psicopedagógico, mas tenho buscado acompanhamento clínico para cuidar da minha saúde mental. Para mim, a psicanálise tem sido muito proveitosa. Felizmente encontrei bons psicanalistas que já me atenderam e me ajudaram a mergulhar mais profundamente em mim mesma. São muitas as questões emocionais que fazem parte da minha vida e a psicanálise tem sido um caminho pra me ajudar a chegar em algumas respostas e também à cura de mim mesma.

SM: Algum lema motivacional?

Patrícia: Acho que nunca tive um lema definido, mas se fosse escolher algum, acho que aquela fala da Dori (a peixe do filme Procurando Nemo) cai muito bem: “continue a nadar”. Tive muitos momentos na vida que me vi sem saída, com problemas maiores que eu e que eu não tinha como resolver de imediato. Então, a única coisa que eu podia fazer era continuar um dia de cada vez até que as coisas mudassem e eu pudesse fazer alguma coisa. Felizmente as situações sempre mudam, mesmo que aos poucos.

SM: Algum recado pra galera?

Patrícia: Vou parafrasear uma mensagem com a qual me identifico: “Não se preocupe, o mundo eventualmente alcançará você. Seus aspectos incompreendidos são sua maior riqueza. Mas isto não quer dizer que será fácil. Na verdade, poderá ser desafiador, difícil e doloroso e a vida vai exigir que você use a imaginação [acrescento: e tenha coragem]. Mas você aprenderá o valor e a beleza de ser fora dos padrões” (Nicole Tetreault). Eu tenho aprendido o quão valoroso é ser “fora dos padrões”. Eu tenho orgulho do caminho que tenho construído, um caminho muito longe do normal. Um caminho difícil, mas de realização.

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Relato Pessoal: Patrícia Neumann

Patrícia Neumann

O meu nome é Patrícia e eu tenho 36 anos na data deste relato que é o ano de 2020. Eu soube das minhas altas habilidades/superdotação aos 28 anos e a primeira sensação que tive foi de alívio. Isto porque eu sempre soube que eu era diferente, mas eu não sabia o porquê. Essa ausência de resposta sobre minha singularidade me incomodou por muitos anos. Eu vejo a minha história como pessoa superdotada composta por coisas boas e também coisas que foram difíceis de lidar. E essas coisas que foram difíceis, hoje eu lido muito melhor.

Eu sou superdotada predominantemente na área acadêmica/intelectual, mas tenho boas habilidades em liderança e artes. Eu sou filha única de pais que também têm muitos indicadores de altas habilidades/superdotação, embora eles não tenham passado por uma avaliação formal. Digo isso porque influenciou totalmente na minha educação e na minha relação com eles. Meus pais nunca tiveram nenhum problema comigo, pois o meu jeito diferente de ser das outras crianças combinava com o jeito diferente de eles serem. Várias características que eu tinha como criança, eles também tinham. Por exemplo, a necessidade constante de sempre saber das coisas, como elas são e como funcionam. Meus pais nunca se cansavam com minhas perguntas nem tinham dificuldade em acompanhar meu raciocínio. O fato dos meus pais ser cada um o diferente em suas respectivas famílias fez com que eu me sentisse à vontade para também ser diferente em nossa casa. Eles sempre disseram por muitas maneiras que eu era capaz de conseguir qualquer coisa que eu quisesse devido às minhas capacidades. Outra coisa que julgo muito importante foi que eu nunca ouvi de meus pais que eu não podia fazer algo porque eu era menina. A questão de gênero nunca afetou minha autoestima graças a meu pai e minha mãe não terem uma visão retrógrada e limitadora sobre o papel das mulheres na sociedade.

Eu sempre fui extremamente inteligente desde bebê e isso sempre chamou a atenção das pessoas. Felizmente, nunca sofri bullying por causa disso na escola. Eu sempre amei a escola, embora eu não aprendesse muita coisa lá, uma vez que já sabia o que era ensinado ou aprendia tão rápido que precisava esperar os demais. Eu fui aquele tipo de estudante que tirava 10 em todas as matérias e em todas as provas e, além disso, eu me dava bem com todos os colegas, tinha amizade com todo mundo. Hoje, uma coisa importante que as pessoas precisam saber a nosso respeito é que o perfil de estudante que eu fui é uma exceção, não é a regra. Jamais se pode esperar que toda pessoa com AH/SD seja nota 10 em tudo.

Eu aprendi a ler e escrever com 2 anos e aos 5 anos já fazia operações matemáticas complexas como multiplicação e divisão por 5 ou 6 números. Nunca era preciso que alguém me dissesse duas vezes a mesma coisa porque eu sempre aprendia na primeira vez ou aprendia sozinha apenas observando. Sou autodidata por natureza. Aprendo qualquer coisa que eu queira. Não há limites para mim. O meu desempenho intelectual sempre foi muito avançado graças a minha singularidade e ao incentivo dos meus pais. A escola não me ajudou a desenvolver meus talentos intelectuais nem de liderança e menos ainda os artísticos porque, naquela época, ninguém sabia o que eram altas habilidades e superdotação. Mas a escola foi importante para minha socialização. Eu amava ir à escola para brincar e passar algum tempo com outras crianças. Eu sempre fui muito sozinha em casa. Não tinha outras crianças para brincar e eu imaginava muito por conta disso.

Problemas eu comecei a ter no ensino médio e na faculdade. Diferente da escola, desta vez houve pessoas que não gostavam de mim porque eu era a melhor estudante da sala. Eu já não tinha mais quase nenhum amigo e principalmente na primeira graduação, que foi de psicologia, tive muitas dificuldades nos primeiros anos até começar a fazer terapia. Felizmente, durante o mestrado e a minha segunda graduação, que foi de filosofia, a situação foi bastante diferente e melhor, pois eu já tinha mais maturidade e mais condições de lidar com pessoas. Eu precisei aprender a me relacionar com a diversidade de pessoas que estavam ao meu redor e principalmente com aquelas que não compreendiam o meu modo de ser. O que me ajudou muito a desenvolver minha inteligência emocional foram os anos que passei com bons terapeutas (foram 8 anos de psicanálise).

Com o tempo e muito esforço da minha parte em aprender a amadurecer, conquistei muitas coisas como novas habilidades e o desenvolvimento de novos talentos. Por exemplo, passei de uma pessoa fechada e arrogante (isto porquê eu era arrogante quando mais jovem para me proteger das ofensas das outras pessoas) para uma pessoa profundamente diplomática. Desenvolvi outras inteligências que estavam “guardadas” como as inteligências intrapessoal e interpessoal. Essas inteligências associadas com minha inteligência intelectual fazem da minha vida um mar de possibilidades em aberto que eu posso escolher. Uma coisa que aprendi é que quanto mais a gente se desenvolve, mais liberdade temos de escolha. Podemos ir muito além daquilo que dizem que devemos.

Algo muito marcante que aprendi pela experiência é que ser uma pessoa altamente inteligente na área intelectual pouco adianta se não houver o desenvolvimento de outras áreas da vida. Eu tenho QI 130 (desde a última vez que foi medido), mas eu não sabia como lidar com pessoas e isso me prejudicava. A minha vida melhorou muito quando eu decidi investir no desenvolvimento de outras inteligências e, consequentemente, nos meus muitos outros talentos, alguns dos quais estavam ocultos para mim mesma.

Eu gosto muito de ser uma pessoa superdotada, apesar das dificuldades porque nem tudo são flores. Aprendi também que todas as pessoas têm dificuldades a superar e que não sou diferente nisso. Pode ser que as minhas dificuldades sejam diferentes das de outras pessoas, mas no final estamos todas e todos no mesmo barco. É difícil quando estou em um ambiente no qual não tenho liberdade para criar ou para expressar minhas ideias, isso é torturante. Mas tenho buscado estar com pessoas que estão abertas para aquilo que é novo e tenho tido a felicidade de encontrar muitas delas dispostas a mudar alguma coisa no mundo.

Eu tenho uma constante necessidade de fazer com que minha existência não seja em vão, que ela tenha um sentido não só para mim mas para a humanidade. Eu sinto, desde criança, que tenho uma missão e só recentemente eu consegui compreender qual é. A minha missão é trabalhar em prol do conhecimento e para que ele chegue a todas as pessoas e, com isso, elas tenham a oportunidade de mudar alguma coisa em sua vida. Minha missão é construir oportunidades para que as pessoas tenham uma vida melhor. E quando falo de conhecimento, eu me refiro tanto ao conhecimento científico quanto ao conhecimento de si mesmo. Eu percebi que sou muito boa em fazer com que as pessoas se encontrem e que se conheçam, ou seja, que elas possam ter a experiência de, através do encontro com o outro, transformar a si mesmas e o mundo.

Para mim, a superdotação é algo que não serve apenas para o meu bem-estar, mas está a serviço do bem-estar da humanidade e de todas as formas de vida do planeta. Sou uma pessoa profundamente preocupada com a natureza, com os animais e as plantas e não me canso de me maravilhar quando olho para o planeta ou para o universo. Eu aprendi que nenhuma vida existe em vão, mas que fazer com que cada vida tenha um propósito maior é de responsabilidade de cada um. Cada atitude que temos todos os dias faz toda a diferença para as outras formas de vida.

Tudo o que faço está vinculado a minha missão como ouvir pessoas, fazer minhas pesquisas, ser vegetariana, fazer caminhadas, ler livros, escrever, cozinhar para mim e para quem vem me visitar, cuidar das plantas que moram comigo, enfim… estar em constante transformação rumo a níveis cada vez mais altos de desenvolvimento. E é isto, desenvolver-me! Por isso me tornei cientista e filósofa… e ainda me tornarei muitas outras coisas!

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Relato Pessoal: Angela Nardelli

Angela Nardelli

Angela Nardelli

Superdotação na maturidade!

 

Eu sempre me senti diferente das crianças da minha idade. Sentia, nos adultos, certa expectativa e admiração pela minha demonstração de agilidade mental.

Era comum ouvir “ela aprende as coisas rápido!”.

Internamente, os interesses e curiosidade sobre “como as coisas funcionavam” eram imensos. Realmente um comportamento que destoava do jeito da maioria de crianças com mesma idade, a minha volta…

O mais ruim de sentir-se “diferente” é quando a gente não tem claro “em que” somos diferentes.

Conversadeira, desde cedo falava de forma direta e sem freios, tudo o que enxergava, pensava e achava que era correto. Mesmo sem entender nada da vida, era capaz distinguir com clareza quando uma pessoa estava mentindo. Se estava bem intencionada ou não. Se estava triste ou alegre. Conseguia “ler” suas emoções e intenções.

Por volta dos 4 anos, sabia que não existiam Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa, mas fingia para não frustrar os esforços que os adultos da família faziam para nos presentear.

Era capaz de criar desfechos absolutamente inusitados para as histórias da vida real que ouvia os adultos contando.

Aos 5 anos, ficava por horas sentada numa varanda, olhando para a rua, criando mentalmente histórias de vida para as pessoas desconhecidas que passavam.

Muito sensível, chorava tanto e por qualquer coisa que minha mãe me chamava de manteiga derretida (rs).

Não seria problema ser uma criança esperta, agitada e com o vocabulário elaborado desde cedo, não isso não tivesse gerado nas pessoas a expectativa de que a mesma robustez intelectual se aplicasse também nas reações emocionais. Era comum as pessoas atribuírem mais idade e maturidade do que eu tinha de fato e estranharem quando eu demonstrava alta intensidade nas emoções.

O choro da infância foi substituído por rompantes de ataques de fúria (violentos) na adolescência. Num desses episódios um psiquiatra disse que era comportamento típico de doença mental e seria preciso uso de medicamento.

A juventude e fase adulta foram marcados por altos e baixos em diversas áreas da vida e aquela constante sensação de deslocamento.

Há pouco anos alguém perguntou se eu havia sido uma boa aluna e refleti:

Eu fui péssima aluna!

O ambiente escolar me parecia hostil. Lembro-me de sentir deslocada desde sempre, como se fosse um satélite que gravitava em torno de algo estranho a mim.

Os primeiros anos foram em colégio de freira, depois do 4º ano escolas públicas. Aprendi a ler sozinha em bulas de remédio e listas de ofertas em armazéns. Aos 12 anos minha leitura de cabeceira era o dicionário.

Gostava de estudar, mas não tinha orientação nem incentivo à minha volta. Sempre ouvi dizer que era “difícil de lidar comigo”. Perguntava demais e contestava mais ainda.

Para o pavor de minha mãe, fui suspensa inúmeras vezes, até que abandonei a escola aos 15 anos, no 1º final do ano do técnico em desenho arquitetônico (nível médio).

Aos 16 anos comecei dar aulas de pintura em tecido para umas senhoras na pequena cidade, na qual eu morava e continuei dando aulas de técnicas de pintura e artes manuais. Aprendia autodidaticamente para ensinar as alunas.

A partir daquele momento, mais de 20 anos se passaram sem que eu voltasse ao ensino formal com comprometimento. Estudei muito e de tudo, autodidaticamente. Filosofia, História da Arte e das Religiões e um sem-fim de outros estudos de âmbito corporativo.
Inquieta, não conseguia decidir o que fazer da vida, mas queria experimentar de tudo. Trabalhei numa multinacional, depois numa estatal, o mesmo tempo em que desenvolvia algum tipo de hobby lucrativo.

Passei em 8 concursos públicos, fui nomeada e pedi exoneração de 6 (em 2 nem compareci). Aos 30 anos montei minha primeira empresa de design de eventos. Simultaneamente, fui mãe, atriz, cenógrafa, cantei em banda, dei aulas, formei pessoas, dei palestras e empreendi muito.

Com quase 45 anos decidi voltar a estudar. Terminei o ensino médio ao mesmo tempo que fazia a faculdade e, sem para pra respirar, engatei em duas especializações.

Simultaneamente, fui convidada a integrar a um grupo de trabalho e pesquisas no meu campo de estudos e atuação, numa empresa pública e um ano depois e assumi como responsável técnica num edital federal para diagnóstico de potencialidade em comunidades tradicionais dentro de uma Universidade Federal.

Bom, já que estava na Universidade, porque não fazer um Mestrado para otimizar o tempo?

Hoje meu Currículo Lattes parece um livro de tanto certificado. Tenho artigos publicados em revistas A1. Sou mestre, com duas graduações em áreas distintas e duas especializações em Educação e Gestão de Pessoas.

Sou superdesenvolvida em visão sistêmica. Sei otimizar recursos e oportunidades de forma multidimensional.

Quando estava entrando no mestrado, conheci a superdotação, porque minha filha caçula foi identificada como tal, e na sequencia meu filho mais velho também foi identificado.

Utilizei intuição, amor de mãe e experiência profissional para fazer o enriquecimento curricular que minha filha precisava e não conseguia acessar. Claro que tive de estudar a superdotação e acabei migrando meu projeto no mestrado e pesquisando indicadores de AH/SD em alunos da Educação Superior.

Pode se dizer que ainda hoje não sou boa aluna. Sinto dificuldades para escrever e tenho aversão à sistemas engessados. Sou inquieta.

Demorei para aceitar que Eu Sou Superdotada, me escondi, neguei, me diminuí inúmeras vezes, tentei ficar quietinha para ver se sumia…rs….Mas agora sinto orgulho.

Aprendi a usar minhas altas habilidades em meu favor.

Angela Nardelli
Turimóloga e Historiadora
Especialista em Desenvolvimento Endógeno
Articuladora em Ecossistemas Colaborativos

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Entrevista: Katia Pessanha

Katia Pessanha

Katia Pessanha

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Katia Pessanha: Não foi de repente, foi progressivo. Sou neta mais velha na família de minha mãe e me senti sempre muito incentivada e apoiada, mas não atribuía isso a qualquer característica excepcional.
O fato de ter sido sempre a melhor aluna e líder das classes durante o ensino fundamental e segundo grau e de obter as melhores colocações nos exames de admissão me levou a concluir que eu era muito inteligente, enfim foi algo pelo qual eu sempre fui reconhecida.
Ao participar de um processo seletivo na General Motors no final da década de 70 tive o feedback de que minha inteligência era 80% acima da média e novo teste no Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA) e o entusiasmo do avaliador reforçaram isso.
Um fato curioso foi que nessa época, um jovem engenheiro que trabalharia no mesmo projeto se aproximou de mim para comentar que havia visto os resultados do meu teste de QI e que havíamos tido o mesmo resultado.
O projeto acabou não acontecendo, mas esse engenheiro, recém-formado como primeiro de sua turma no ITA, se tornou meu marido e o pai da minha filha.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Katia: Expressão artística, lógica, criatividade, liderança, relacionamento interpessoal, sensibilidade, automotivação.

SM: A sua filha Érika também é superdotada? Em caso positivo compartilhe conosco como foi a experiência de criar uma filha superdotada.

Katia: Ela é doutoranda em Educação, apontada como muito inteligente por seus professores, mas não identificada como superdotada. Seu pai (meu ex-marido) e eu queríamos criar uma pessoa feliz, não necessariamente superdotada. Tentamos educá-la com muito estímulo, mas sem demasiada pressão e sem expectativas advindas da condição de ambos.

SM: De quais modos você considera que as instituições sociais poderiam colaborar com e acomodar as necessidades e interesses neurodiversos pertinentes aos adultos e também aos superdotados na terceira idade?

Katia: Estímulos, estímulos, estímulos! Somos, ao menos eu sou, famintos de estímulos.
Ambientes que proporcionem estímulos a seus colaboradores, cidadãos, alunos com práticas de aprendizado, de troca de conhecimento, de oportunidades de expressão artística são o melhor que as instituições poderiam fazer para saciar essa fome além de propiciar encontros e interações profícuas entre pessoas com interesses semelhantes.
Ao mesmo tempo, apoio psicopedagógico de qualidade seria muito bem-vindo porque o real anseio humano é pela felicidade e não por resultados excepcionais.
A sensação de solidão, de ser diferente, de não pertencer é algo que eu vejo ser comum entre superdotados.
Espaços públicos e políticas públicas que privilegiem esse desenvolvimento e essa interação serão benéficos não apenas para as pessoas mas para o país.

SM: Do que se trata seu livro Marrana?

Katia: “Marrana! Amor e intolerância em tempos de Inquisição” é um romance, um livro de suspense embalado em ação e mistério ao falar de uma mãe judia que na Amsterdã de 1633 se depara com o desaparecimento de seu filho e que resolve buscá-lo em terras onde a Inquisição perseguia como hereges cristãos-novos que persistissem em suas práticas judaicas .
Como estima-se que de cada três portugueses vindos para o Brasil Colônia um fosse judeu convertido, Marrana trata de um importante componente da identidade nacional perdido pela força da coerção.

SM: Como a escrita de Marrana influenciou a sua própria identidade enquanto pessoa?

Katia: Eu sempre quis me realizar como escritora e escrevi poemas e crônicas ao longo da vida, mas escrever Marrana, ser capaz de pesquisar e escrever um romance me definiu como escritora e me deu um senso de realização profundo e longamente desejado.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Katia: Fiz décadas de terapia com diferentes profissionais e devo a eles e à poesia minha saúde mental. Ser ouvida, ter um espaço seguro para me expor e a orientação de um profissional qualificado deveria fazer parte dos cuidados básicos de qualquer pessoa, superdotada ou não.

SM: Algum lema motivacional?

Katia: Não brigue com a vida porque ela pode ir embora.
Cunhei essa frase ao me recuperar da retirada de um carcinoma in situ no seio. Vinha de uma fase muito difícil e o tumor serviu para que eu acordasse e saísse do estado de depressão que me levava a enxergar todos os problemas como difíceis e quase insolúveis.

SM: Algum recado pra galera?

Katia: O equilíbrio entre ser alguém consciente de sua superdotação e ser uma pessoa arrogante é muito tênue.
Eu sempre me senti muito à vontade em ambientes estimulantes ou em culturas como a norte-americana ou judaica em que uma pessoa que se orgulhe de seus resultados não é vista com maus olhos como no Brasil.
Como não cair na arrogância?
Lembro-me de chegar entusiasmada em casa logo nos primeiros anos de vida escolar, anunciando um bom resultado aos quatro ventos. Meu pai, embora estimulasse o desenvolvimento pleno do meu potencial, me lembrou que eu deveria buscar exercer a modéstia, que cada pessoa tem um talento diferente e que eu jamais deveria humilhar as pessoas.
Desenvolver plenamente meu potencial sem me deixar dominar pelo orgulho, a competição e os impulsos egocêntricos tem sido o desafio de uma vida.
Ao longo de minha vida tive outros mestres, convivi com muitos superdotados e aqueles que eu mais admiro e que observo serem mais felizes são aqueles que exercitam essa superdotação como um serviço, sabendo como disse Saramago que “em terra de cegos só aumenta a responsabilidade dos que tem olhos”.

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