Entrevista: Victor Evangelho

Victor Evangelho

Victor Evangelho

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Victor Evangelho: Eu nunca me achei inteligente, nunca fui o primeiro aluno da turma e sempre tive dificuldade em matemática. Ter altas habilidades/superdotação (AH/SD) nunca passou pela minha cabeça e na minha época esse tema não era abordado na mídia e nem nas redes sociais.

Socialmente, eu sempre fui visto como “estranho”; era essa a definição usada quando se referiam a mim. Então, eu apenas entendia que era diferente.

Somente na vida adulta, enquanto cursava Biologia e Biomedicina, comecei a perceber que eu tinha algum transtorno de ansiedade. Desde pequeno, sempre apresentei um comportamento ansioso, mas é difícil compreender o que sentimos quando não conseguimos nomear aquilo.

Quando eu tinha 25 ou 26 anos, minha mãe foi identificada com AH/SD durante um curso sobre avaliações psicopedagógicas. Ela chegou em casa me contando e dizendo que eu também deveria ser AH/SD. Na época, eu tinha em mente o senso comum de que pessoas com altas habilidades eram boas em tudo, e eu não me via dessa forma. Aos 28 anos, fui avaliado na Universidade Federal Fluminense e obtive o resultado indicando AH/SD e no mesmo ano um psiquiatra me diagnosticou com Transtorno de Ansiedade Generalizada, um combo, rs.

Em relação a identificação de AH/SD, entrei em uma certa negação, como se eu tivesse “dado sorte no teste”. A UFF me incluiu como estudante com AH/SD, e eu passei a assistir às aulas do mestrado mesmo estando na graduação. Depois, fui aprovado no processo seletivo do mestrado seis meses antes de me formar. Concluí o mestrado em apenas um ano e fui adiantado para o doutorado, com a anuência da CAPES. No último mês do doutorado, passei em Medicina na Universidade Federal Rural do Semi-Árido e, mesmo após tantos anos, ainda não me via como uma pessoa com AH/SD.

Aos 33 anos, fui novamente avaliado por outro neuropsicólogo e, após os testes, o resultado foi o mesmo. Somente depois dessa segunda identificação consegui fazer as “pazes” comigo mesmo.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Victor: Eu acredito que a minha principal capacidade está na resolução de problemas, especialmente dentro da área científica. Tenho facilidade em estabelecer conexões entre ideias e informações que, à primeira vista, podem parecer incompatíveis, mas que, quando integradas, revelam novos insights.

SM: Você poderia nos fornecer um panorama da sua trajetória profissional e acadêmica?

Victor: Eu tenho Doutorado e Mestrado em Ciências e Biotecnologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com experiência em genética molecular humana, bioinformática estrutural e desenvolvimento racional de fármacos, com ênfase no estudo das bases genéticas do Transtorno do Espectro Autista (TEA), área na qual atuo desde 2016.

Possuo graduação em Biomedicina (Bacharelado) e Biologia (Licenciatura), com habilitação em Genética e Psicobiologia pelo Conselho Regional de Biomedicina. Eu complementei a minha formação com algumas especializações, como: Neurobiologia e Psicofarmacologia dos Transtornos Mentais, Neuropsicopedagogia e Psiquiatria e Saúde Mental.

Atualmente, estou cursando a graduação em Medicina na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA).

Ao longo dessa caminhada eu recebi alguns reconhecimentos, como o Prêmio de Excelência da UFF (2018) e a bolsa de mérito acadêmico “Doutorado Nota 10” da FAPERJ (2023). Mais recentemente, fui incluído no ranking internacional AD Scientific Index (2025), que avalia o impacto científico e a produtividade de cientistas em âmbito global.

SM: Quais têm sido seus temas de pesquisa até então? Alguma linha futura que você ainda gostaria de desenvolver?

Victor: Durante o doutorado, desenvolvi 90 novas moléculas com potencial para se tornarem medicamentos voltados à amenização da sintomatologia do autismo. Contudo, o doutorado foi realizado com metodologia in sílico, ou seja, por simulações computacionais. Futuramente eu gostaria de sintetizar essas moléculas e verificar os resultados in vitro e in vivo e potencial terapêutico.

SM: Por que o rótulo da superdotação costuma desencadear insegurança nas pessoas superdotadas e desconfiança nas pessoas não superdotadas?

Victor: Nas pessoas com AH/SD, o “rótulo” muitas vezes carrega o peso de precisar saber tudo e ser excelente em todas as áreas, uma expectativa que não corresponde à realidade, mas que ainda é fortemente sustentada pelo senso comum sobre o que significa ser AH/SD. Quando não atendemos a essas expectativas, surgem sentimentos de insegurança e até dúvidas sobre se realmente possuímos altas habilidades.

Já a desconfiança de terceiros, muitas pessoas recebem negativamente o fato de alguém se identificar como AH/SD, ou de um pai ou mãe afirmar que o filho é superdotado. É entendido como uma tentativa de se vangloriar ou se colocar em posição de superioridade, o que contribui para o estigma e para o silêncio em torno do tema.

SM: Você acredita que as instituições de ensino deveriam realizar encaminhamentos assertivos para a avaliação de neurodivergências? Quais os possíveis benefícios de tais encaminhamentos, avaliações e eventuais diagnósticos?

Victor: Acredito que sim. Considerando que pessoas com altas habilidades/superdotação (AH/SD) são público-alvo da educação especial, é fundamental que as instituições realizem o rastreamento desses indivíduos, a fim de oferecer o suporte previsto em lei.

Os benefícios podem ser compreendidos em duas dimensões: individuais e coletivos. Os benefícios individuais envolvem o favorecimento ao autoconhecimento, a possibilidade de participação em programas específicos voltados a pessoas com AH/SD, além da oportunidade de aceleração escolar ou de períodos em cursos de ensino superior, entre outras formas de incentivo ao desenvolvimento pleno do potencial.

Já os benefícios coletivos, esses estão relacionados à expectativa de que o indivíduo, ao receber o apoio e os estímulos adequados, possam futuramente contribuir com a sociedade de maneira significativa, ainda que essa contribuição não seja uma obrigação de quem possui AH/SD.

SM: Você ou algum membro de sua família recebe algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Victor: Não possuo e não recebo.

SM: Algum lema motivacional?

Victor: Infelizmente não tenho, rsrs.

SM: Você ou algum membro da sua família recebe algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Victor: Não possuo e não recebo.

SM: Algum recado pra galera?

Victor: Existem as pessoas com AH/SD que vão saber muitas coisas na ponta da língua, como enciclopédias. Há também as pessoas com AH/SD que vão saber muito sobre as áreas que são dos seus interesses, seja um interesse acadêmico, esportivo ou artístico. Um “tipo de pessoa” com AH/SD não é mais ou menos superdotada que a outra, embora a sociedade valorize mais um tipo de conhecimento do que outro.

Existem critérios para se identificar alguém com AH/SD, mas é preciso deixar claro que existe singularidade na expressão desse potencial.

Publicado em Entrevista | Com a tag | Deixe um comentário

Publi: Grupo de Estudos sobre Inclusão Escolar

Pais, professores, estudantes e qualquer pessoa que queira aprender mais sobre a Inclusão escolar: estão abertas as inscrições para o nosso novo Grupo de Estudos. 📚

Iremos estudar sobre diferentes temas relacionados a Inclusão escolar, contemplando o histórico, desenvolvimento, direitos, neurodivergências e outros pontos de grande relevância.

Teremos a participação de diversos profissionais neurodivergentes e especialistas, que comporão 9 módulos + 3 aulas extra, de março a novembro de 2025. Organização por Daniele Pendeza e Lucas Pontes, com participação de Filipe Russo.

O grupo terá uma aula gravada liberada todo dia 1 de cada mês e um encontro ao vivo para discussão, conforme o cronograma.

Para fazer sua inscrição, acesse https://www.institutoneurodiversidade.com/gei

Esperamos você 🙂

Equipe & Grade Curricular

Funcionamento

  • Serão 9 aulas (março a novembro de 2025) temas relacionados com a Inclusão escolar, com especialistas na área. Será liberada a gravação da aula no início do mês, através da Hotmart, juntamente com materiais complementares para estudo. Ao final do mês será realizada uma aula ao vivo para tirar dúvidas com o (a) professor (a) (via zoom, na última terça-feira de cada mês, das 19h30 às 20h30).
  • Serão ofertados 3 módulos extra complementares ao longo do ano, envolvendo apenas aulas gravadas.
  • As aulas terão a opção para ativar legendas, melhorando assim a acessibilidade do nosso grupo de estudos.
  • Os encontros ao vivo serão gravados e ficarão disponíveis na Hotmart. Então, se você não puder estar presente no encontro (online e ao vivo), poderá acessar a gravação posteriormente.
  • Haverá um chat em cada um dos módulos, para troca entre os alunos e mediação da equipe da Revista Neurodiversidade.

Perfil Profissional da Equipe

09 - instituto neurodiversidade - grupo de estudos sobre inclusão escolar - equipe

Grupo de Estudos sobre Inclusão Escolar: Desenvolvimento humano ao longo do ciclo vital com Mirians Revers

A primeira aula do nosso grupo de estudos será com Mirian Revers, psiquiatra da infância e adolescência, mestra em psiquiatria pela USP-SP, mãe do Mateus e do Miguel. Voluntária do Protea-USP por 9 anos e research assistant no Kind Karolinska Institute por 1 ano.

10 - instituto neurodiversidade - grupo de estudos sobre inclusão escolar - equipe

Grupo de Estudos Sobre Inclusão Escolar: História da educação especial com Lucas Pontes

Lucas Pontes será o professor da aula sobre História da Educação Especial.

Ele é formado em Psicologia e é especialista em Análise do Comportamento voltada para o autismo e outras neurodivergências. Foi acompanhante terapêutico e atualmente atua como psicoterapeuta de jovens e adultos neurodivergentes ou em processo de diagnóstico. É editor da primeira revista brasileira sobre neurodiversidade, palestrante e ativista, tendo como maior foco o autismo. Produz conteúdo sobre neurodivergências e psicologia no perfil @lucas_atipico. Recebeu o diagnóstico de autismo aos 20 anos de idade e aos 24 foi identificado com altas habilidades e superdotação.

11 - instituto neurodiversidade - grupo de estudos sobre inclusão escolar - equipe

Grupo de Estudos sobre Inclusão Escolar: Inclusão escolar da educação infantil ao ensino superior com Daniele Pendeza

Daniele Pendeza será a professora do módulo Inclusão escolar da Educação Infantil ao Ensino Superior.

Ela é Bacharel em Canto e Licenciada em Música; especialista em Musicoterapia e em ABA. Mestre em Educação na linha de pesquisa de Educação Especial. Sua atuação profissional, através de atendimentos clínicos, pesquisas e consultorias, envolve transtornos da fala e do desenvolvimento, especialmente o autismo, intervenção precoce e na oncologia pediátrica. Também é professora convidada do curso de Pós-Graduação em Avaliação em Musicoterapia do Centro Biomédico de Música (Brasil) e do Mestrado em Diversidad Funcional Universidad Pablo de Olavide (Espanha).

12 - instituto neurodiversidade - grupo de estudos sobre inclusão escolar - equipe

Grupo de Estudos sobre Inclusão Escolar: Direitos das pessoas com deficiência na escola com Juliana Zatt

Juliana Zatt será a professora do módulo sobre Direitos das Pessoas com Deficiência na escola.

Ela é advogada, atuante na área de Direito dos Autistas desde 2016.
Palestrante e Professora em Cursos de Formação de profissionais da ABRAPRAXIA e de Grupos de Estudos do Instituto Neurodiversidade.
Membro da Comissão de Direitos da Pessoa com Deficiência do Conselho Federal da OAB, Membro da Comissão de Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/RS. Membro da Comissão Nacional de Direito dos Autistas. Membro do Jurídico da Umanas. Pós graduada em Direito do Consumidor e Pós Graduanda em Direito Médico e da Saúde. Criadora de conteúdo no perfil @julianazattt

Camila Veiga será a professora do módulo sobre Desenho Universal para a Aprendizagem e do módulo sobre Bilinguismo.

Ela é professora de Português e Inglês, mestranda em Linguística e pesquisadora do Desenho Universal para Aprendizagem (DUA). Investiga a aquisição espontânea de inglês por autistas no Brasil e dirige uma editora independente no Rio Grande do Sul, especializada em obras sobre neurodiversidade e escritas por autores neurodivergentes. Além disso, atua com serviços bilíngues, consultoria em acessibilidade e inclusão, e desenvolvimento de materiais didáticos inclusivos.

15 - instituto neurodiversidade - grupo de estudos sobre inclusão escolar - equipe

Grupo de Estudos sobre Inclusão Escolar: Autismo com Márcia Faria

Márcia Faria dará a aula sobre Autismo.

Ela é Neuropsicopedagoga, graduada em Educação Especial, com especialização em alfabetização.

16 - instituto neurodiversidade - grupo de estudos sobre inclusão escolar - equipe

Grupo de Estudos sobre Inclusão Escolar: Altas Habilidades / Superdotação com Filipe Russo

O professor Filipe Albuquerque Ito Russo será o responsável pela aula sobre Altas Habilidades ou Superdotação (AHSD).

Filipe Russo é indígena agênere de Manaós, vivendo atualmente em Padova, autore dos romances premiados Caro Jovem Adulto e Asfixia, assim como vencedore do concurso artístico O Olhar em Tempos de Quarentena e de prêmios de excelência acadêmica em Inteligência Artificial, Psicologia, Gamificação, Empatia e Computação Afetiva. Mestrande em Ciência de Dados com ênfase em Big Data pelo programa Erasmus Mundus da União Europeia nas instituições ULB, UPC e UniPd. Elu possui especialização em computação aplicada à educação e tecnologias educacionais pelo ICMC/USP, licenciatura em matemática pelo IME/USP e aperfeiçoamentos em Altas Habilidades ou Superdotação: Identificação e Atendimento Educacional Especializado pela UFPel e em Serviço de Atendimento Educacional Especializado pela UFSM. Revisore no periódico científico Revista Neurodiversidade e editore do blog SupereficienteMental.com.

17 - instituto neurodiversidade - grupo de estudos sobre inclusão escolar - equipe

Grupo de Estudos sobre Inclusão Escolar: Transtornos de aprendizagem com Renata Leitão

Renata Leitão será a professora do módulo sobre Transtornos de Aprendizagem.

Ela é formada em Letras pela FFLCH-USP, licenciada em Língua Portuguesa pela FE-USP, e mestre em Letras pela FFLCH-USP. Professora com mais de 10 anos de experiência em sala de aula. Psicopedagoga e especialista em Educação Inclusiva, AEE, Adaptação de Materiais e Currículos e Análise do Comportamento Aplicada. Com dois filhos autistas, continua se especializando, agora em Pedagogia e Terapia Ocupacional.

18 - instituto neurodiversidade - grupo de estudos sobre inclusão escolar - equipe

Grupo de Estudos sobre Inclusão Escolar: Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade com Janine Nogueira

A professora Janine Nogueira será a responsável pela aula sobre TDAH!

Ela é psicóloga (CRP 22883) neurodivergente (TDAH e AH/SD) pela Universidade de Fortaleza (Unifor) e especialista em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) pelo Centro Brasileiro de Ciência Comportamental (CECONTE). Atualmente é Mestranda em Psicobiologia no Departamento de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP) campus Ribeirão Preto. É pesquisadora no Laboratório em Estudos Básicos e Aplicados em Análise do Comportamento (LEBAC) da USP-RP.

19 - instituto neurodiversidade - grupo de estudos sobre inclusão escolar - equipe

Grupo de Estudos sobre Inclusão Escolar: Integração sensorial com Natália Ocácia

A aula extra, sobre Integração Sensorial, será ministrada pela Terapeuta Ocupacional Natália Ocácia!

Ela possui Certificação em Integração Sensorial de Ayres®, formações avançadas em integração sensorial, pós-graduação nas áreas de desenvolvimento infantil, autismo e integração sensorial, assim como experiência no atendimento de crianças, adolescentes e adultos com Disfunção de Integração Sensorial.

20 - instituto neurodiversidade - grupo de estudos sobre inclusão escolar - equipe

Grupo de Estudos sobre Inclusão Escolar: Alimentação saudável com Vanessa Vasconcellos

A aula extra sobre alimentação saudável considerará o seu impacto na escola e na aprendizagem, e será ministrada pela professora Vanessa Vasconcellos.

*Nutri. Vanessa Vasconcellos*
CRN: 15758/RS
Site: http://www.nutrivanessavasconcellos.com.br
Instagram: @nutri.vanessavasconcellos

Nutricionista Especialista nas áreas de Nutrição:

Pós Graduanda em Gastroenterologia e Hepatologia
Pós Graduanda em Transtorno do Espectro Autista (CBI Miami)
Especialista em Nutrição Materno Infantil (Hospital Moinhos de Vento
Especialista em Pediatria (Instituto de Pós Graduação em Saúde)
Graduada em Nutrição, sob registro CRN 15758 / RS
Formação Complementar em Psicopatologias na Infância e Adolescências – Principais Transtornos Clínicos (Instituto VilaElo)
Formação Complementar em TEA: Abordagens Terapêuticas (Hospital Albert Einstein)
Formação Complementar em Modulação Intestinal (MP)
Formação Complementar em Suporte Nutricional Enteral e Parenteral (IPGS)
Formação Complementar em Saúde da Mulher e Fertilidade
Formação Complementar em Nutrição no Autismo (IPGS)
Formação Complementar em Nutrição Escolar (Estácio)
Antropometrista ISAK nível 1 (Isak International Society Advanc. Kinanthropometry).

21 - instituto neurodiversidade - grupo de estudos sobre inclusão escolar - equipe - organização

Grupo de Estudos sobre Inclusão Escolar: Organização

Ingresso

Para fazer sua inscrição, acesse https://www.institutoneurodiversidade.com/gei

Esperamos você 🙂

Publicado em Publi | Com a tag , , , , | Deixe um comentário

Relato Pessoal: Lea Veras

Lea Veras

Lea Veras

Por muitos anos, vivi como se carregasse segredos dentro da minha cabeça — ideias que brotavam com fúria, curiosidades que consumiam meus pensamentos e uma sensação constante de estar “fora do compasso”. Eu sabia que pensava diferente. Mas entender o que isso significava só veio muito depois.

Quando me percebi com Altas Habilidades/Superdotação, já tinha atravessado muitos caminhos: engenharia, doutorado em química computacional, pós-doutorado, e estava fazendo pedagogia – curso que comecei com uma filha recém-nascida. E ainda assim, a ficha só caiu por volta dos 36 anos. Antes disso, eu me via como alguém multidisciplinar demais, que começava projetos demais, que mudava inexplicavelmente os interesses com frequência alta demais, e que às vezes era chamada de “sem foco”.

Uma reviravolta aconteceu durante uma palestra em que participei como aluna de pedagogia sobre os vários públicos da Educação Especial. Na parte sobre alunos Altas Habilidades/Superdotação, falaram de mitos e estereótipos sobre pessoas superdotadas — também das dificuldades, das facilidades, das dores ocultas. E aquilo me atingiu. Meu peito apertou. Eu me vi ali, slide a slide, frase por frase. E uma voz interna dizia: “Sou eu!!!!”

No meio da palestra, fui conversar com o responsável pela fala da superdotação: pedi emprestado o livro que ele mostrou e ele acabou me dando para ficar. Até hoje lembro da ansiedade ao folhear cada página, reconhecendo padrões, lembranças, características que cabiam perfeitamente em mim — mas que até então eu não tinha uma palavra para nomear. Saí dali sem conseguir prestar atenção no resto da palestra. Fui para casa, comovida, e disse ao meu marido: “Descobri. Descobri algo que estava escondido em mim.” Ele me observou e respondeu: “Ué, qual a surpresa, você sempre foi assim!”

Naquele instante derramei lágrimas de alívio por encontrar um reflexo, uma identidade. E a partir dali, comecei a revisitar minha vida com novos olhos. Aquela história de criança que decorava regras gramaticalmente estranhas, que se frustrou com professores que exigiam respostas exatas, que se perdia com decorebas em geografia e história… tudo começou a fazer sentido. Eu me lembrava das vezes que decifrava estruturas químicas como se fosse um jogo visual, ou dos momentos em que resolvia problemas de lógica quase sem esforço.

E também me recordava dos professores que me permitiram exceder: aquele de matemática que, ao me ver resolvendo antes, dizia “vá ajudar seus colegas”, e incentivava que eu explicasse; ou das turmas particulares que comecei a dar com 13 anos — aulas pagas, mesmo quase uma criança, ensinando com calma, explicando os caminhos. Eu era aquela criança que queria ensinar, compartilhar, iluminar o caminho para os outros como alguém havia tentado fazer por mim.

Mas reconhecer isso não foi simples. Havia culpa, insegurança, síndrome do impostor: “Será que foi sorte?”, “Será que passei no teste errado?”, “Será que não mereço?”. A mente racional questionava o valor desse diagnóstico, e a emocional abraçava o alívio de existir dentro de um nome que fazia sentido.

Hoje, me aproprio dessa identidade com carinho. Meus projetos — como criar espaços para incentivar trocas profundas e ofertar um ambiente acolhedor a pessoas neurodivergentes ou como as formações para professores que dou sobre inclusão — não são coincidência. Eles nascem de quem eu fui, de quem sou e de quem ainda quero me tornar.

Hoje, olho para trás e sinto gratidão pelos caminhos, pelas dores, pelas descobertas. Mas, acima de tudo, celebro a coragem de enfim me reconhecer — e de aceitar que, sim, sou intensa. E que isso é belo.

Segue o meu podcast.

https://open.spotify.com/show/5o5IM4Vvjfl5Z1OfSWgjHo

Publicado em Relato Pessoal | Com a tag | Deixe um comentário

Publi: Quarentena do autocuidado para pessoas adultas superdotadas

Quarentena do autocuidado para pessoas adultas superdotadas

Quarentena do autocuidado para pessoas adultas superdotadas

Mentoria on-line em grupo sobre os 6 pilares da Medicina do Estilo de Vida (MEV)

🚨 Convido vocês, adultos superdotados e adultas superdotadas, a cuidarem de si por pelo menos 42 dias em um programa de mentoria on-line em grupo.
Minha proposta é lhe ajudar a empregar seus dons e talentos para resolver seus problemas e desenrolar sua vida. Para isso, vamos partir do básico, dos recursos que estão ao nosso alcance.

📌 Serão 7 encontros por Meet, às 6as feiras, das 17h às 18h (hora de Brasília), início em 10/10.
Investimento: R$ 347,00
Inscrições: 19 99175-9893 Adriana Mendonça

Publicado em Publi | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Relato Pessoal: Victor Evangelho

Victor Evangelho

Victor Evangelho

Relato após duas identificações neuropsicológicas:
Às vezes, passamos a vida inteira sendo rotulados como “estranhos”, nos sentindo fora do compasso da sociedade, o que gera uma desconexão profunda.
Aos 28 anos, durante a minha 1ª avaliação neuropsicológica, foram apontados indicadores de Altas Habilidades/Superdotação. No entanto, permaneci em negação por muitos anos após essa descoberta. Sentimento de insegurança e pensamentos como “provavelmente dei sorte no teste” ou “sou um impostor” frequentemente ruminavam em minha mente.
Ainda assim, fui aceito na Universidade Federal Fluminense, mesmo sem ser aluno da instituição e pude ingressar no mestrado seis meses antes de concluir a graduação, como ouvinte. Dessa forma, concluí o mestrado em apenas um ano e, posteriormente, fui acelerado para o doutorado, mediante aprovação no processo seletivo e aprovação em segundo lugar.
Aos 33 anos, já com o doutorado concluído, fui aprovado no curso de Medicina da Universidade Federal Rural do Semiárido. Foi nesse contexto que realizei uma segunda avaliação neuropsicológica. Os testes, conduzidos por um neuropsicólogo da instituição, confirmaram novamente as Altas Habilidades/Superdotação. Dessa vez, eu estava mais preparado para acolher o resultado, recebendo com alívio e uma nova perspectiva sobre mim mesmo.
Receber o laudo de AH/SD na fase adulta é uma jornada complexa de autoconhecimento. Primeiro por precisar desconstruir todo o autoconceito de si mesmo e se compreender de uma nova forma, revelando camadas profundas da própria identidade.
É como redescobrir-se através de um novo prisma, onde habilidades outrora ignoradas ou subestimadas ganham nova luz. Esse processo não se trata de reconhecimento externo, mas, sobretudo, de aceitação interna das próprias diferenças, capacidades e limitações.
Reconhecer as próprias diferenças nos permite entender melhor os processos de pensamento, emoções e maneiras de perceber o mundo. É permitir-se ser, sem reservas, acolhendo cada característica como parte essencial do todo que se é.

Publicado em Relato Pessoal | Com a tag | Deixe um comentário

Publi: Nada sobre IA sem nós: usando a IA em prol da acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência

Convite do evento 'NADA SOBRE IA SEM NÓS', que aborda o uso da inteligência artificial para promover acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência. O evento ocorrerá em 29/05, às 9h, no Fiesta Bahia Hotel, em Salvador - BA (Sala 3, 1º andar). Participantes: Filipe Russo (UPC), Juliana Gonçalves (Grupo Boticário), Maria Villela (TRT 1ª Região), Priscila Siqueira (Vale PCD), Reinaldo Ferraz (NIC.br), com moderação de Paula Guedes e relatoria de Isabela Inês. Haverá transmissão online no YouTube do @NICVIDEOS.

Nada Sobre IA Sem Nós

Proponente: Juliana de Freitas Gonçalves

Região: Sul

Setor: Empresarial

Co-Proponente: Paula Guedes

Região: Sudeste

Setor: Comunidade Científica e Tecnológica

Temas: Universalidade

Muito se fala dos riscos do uso da IA não regulada, especialmente na exclusão de grupos vulneráveis. Porém, a tecnologia tem elevado potencial de atuação em prol da acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência, seja ela visual, auditiva, física ou intelectual. Logo, o objetivo central do painel é discutir a IA a partir do princípio da beneficência ao pensar a tecnologia como ferramenta estratégia para a inclusão de pessoas com deficiência em uma sociedade que tende a excluí-las.

Transmissão Online

Palestrantes

Filipe Russo

Filipe Russo (UPC)

Filipe Albuquerque Ito Russo é uma pessoa com deficiência física oculta, indígena e agênere de Manaós, vivendo atualmente em Barcelona, autore dos romances premiados Caro Jovem Adulto e Asfixia. Mestrande em Ciência de Dados com ênfase em Big Data pelo programa Erasmus Mundus da União Europeia nas instituições ULB, UPC e UniPd. Revisore no periódico científico Revista Neurodiversidade e editore do blog SupereficienteMental.com.

Juliana Gonçalves

Juliana Gonçalves (Grupo Boticário)

Formada em Comunicação Digital pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e pós-graduada em Design de Interfaces Acessíveis (UX e Acessibilidade Digital) pela PUC-SP. Atua como UX e Product Designer há mais de 10 anos, mas atualmente trabalha focada como Especialista em Design Inclusivo no Grupo Boticário. Já foi bolsista do Programa Youth do CGI.br por 3 anos – 2016, 2018 e 2019 –, participando de fóruns nacionais (FIB) e Internacionais (IGF). Foi no FIB de 2018, onde assistiu duas palestras com o tema de acessibilidade, que se apaixonou pelo assunto e transformou a acessibilidade em objetivo de vida profissional.

Maria Villela de Souza Ferreira

Maria Villela de Souza Ferreira (Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região)

Maria Villela é bacharel em Direito, graduada pelo Instituto Brasileiro de Mercados e Capitais – IBMEC. Publicou premiado artigo na obra Estudos contemporâneos das ciências criminais na defesa do ser humano: homenagem a Evandro Lins e Silva, e atualmente é servidora do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região.

Priscila Siqueira

Priscila Siqueira (Vale PCD)

Mulher apaixonada por promover mudanças significativas. Pessoa com deficiência, bissexual e formada em Psicologia. Fundadora e CEO do Vale PCD, uma ONG voltada para a inclusão de pessoas com deficiência que são LGBTQIA+, onde o compromisso com a diversidade e inclusão levou a ser reconhecida como LinkedIn Top Voice.

Reinaldo Ferraz

Reinaldo Ferraz (NIC.br)

Formado em desenho e computação gráfica e pós graduado em design de hipermídia pela Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo. Trabalha com desenvolvimento web desde 1998. Coordena as iniciativas de acessibilidade na Web do NIC.br e projetos relacionados a Open Web Platform, Digital Publishing e Web das Coisas. Representante do NIC.br em grupos de trabalho do W3C internacional em Acessibilidade na Web, Digital Publishing e Web das Coisas. Também coordena o grupo de trabalho da ABNT responsável pela norma técnica para acessibilidade em aplicativos de dispositivos móveis, ministra curso de extensão na PUC-SP sobre Design de Interfaces Acessíveis e é autor de quatro livros, sendo dois deles sobre Acessibilidade na Web.

Moderação

Paula Guedes

Paula Guedes (Artigo 19 Brasil / Núcleo Legalite da PUC-RJ)

Advogada de direito digital. Doutoranda em Direito e Inteligência Artificial pela Universidade Católica Portuguesa – Centro Regional do Porto. Pesquisadora do Legalite PUC-Rio. Certificada em AI Policy (Advanced) pela Center for AI and Digital Policy. Assessora plena do Programa de Ecossistemas de Tecnologias da Informação e Comunicação da Artigo 19 Brasil e America do Sul.

Relatoria

Isabela Inês Bernardino

Isabela Inês Bernardino (Advogada Autônoma)

É advogada e mediadora humanista. Pós-graduada em Governança e Regulação da Internet pela Universidade de Mendonza e bacharel em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Foi pesquisadora no Instituto Vero e no Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), com foco nos estudos sobre infância e juventude nas redes sociais, bem como na produção de mídias. Foi bolsista do Programa Youth do CGI.br em 2019. Foi fellow no Summer Institute da BKC na Universidade de Harvard. Participante do Youth Observatory, Internet Society.

Fonte

Comitê Gestor da Internet no Brasil. (2024, 23 de maio). Nada sobre IA sem nós: usando a IA em prol da acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência. Fórum da Internet no Brasil. https://fib.cgi.br/agenda/3594

Publicado em Publi | Com a tag , | Deixe um comentário

Relato Pessoal: Flávia Gemaque

Flávia Gemaque

Flávia Gemaque

Eu era a criança vista como excêntrica, com gostos e aspirações altamente atípicas. Aquela que decifrava todos os gestos e olhares, a que aprendeu a ler sozinha aos 4 anos.
Minha impaciência e inconformismo eram extremos, eu não conseguia aceitar o fato de ninguém mais enxergar o mundo como eu enxergava, de ninguém ver as cores das letras, números, dias da semana, nomes próprios e sons.
Aos 8 anos de idade, minha professora me identificou como superdotada: Reuniu a equipe escolar, depois foi à minha casa, sempre muito curiosa, ouvi toda a conversa atrás da porta. Ela disse que eu poderia ter uma vida de dor, por nunca me encaixar, por nunca deixar de buscar respostas, por não me aquietar… Eu argumentava tudo e convencia quase todos, era vista como tímida, calada, no entanto rebelde e explosiva e geniosa.
Adulta e com um filho autista de nível 2, tornei-me paciente da neurologista do meu filho, a qual um dia me disse: “Apesar de muito hiperativo, o mapeamento cerebral dele não apresenta nenhuma alteração, já o seu apresenta muitos padrões tensionais… tentando ser o mais didática possível, não há nada patológico, eu posso interpretar que sua mente não pára e, depois de meses te acompanhando, eu gostaria muito que você entrasse em um programa de pesquisas em comportamento humano, para contribuir com gerações futuras”. Depois dessas palavras, eu procurei a professora que me identificou aos 8 anos e ela disse: “Você marcou minha vida, você me deu muito trabalho. Eu havia acabado de iniciar no magistério e não sabia muito o que fazer… eu levava uma atividade pra turma, pra você eu precisava levar umas cinco, você tinha respostas e argumentos pra tudo”.
Há os que romantizam muito a superdotação. Posso afirmar que sofri por ser diferente, sofri por enxergar além, por minha enorme e desmedida intensidade emocional, por ter plena consciência de que a condição não se resume em inteligência acima da média, mas engloba uma série de fatores tão enormemente significativos que podem levar ao prestígio, mas também a uma dor intrínseca e anônima, que pode nos afastar de ideais, objetivos, nos fazer trilhar um caminho solitário e nos apresentar um cotidiano desorganizado e até mesmo, caótico.
Durante toda a minha vida escolar aprendi sem fazer esforços, observava a explicação dos professores e aquilo já era suficiente. Na graduação, o nível e a exigência aumentaram muito, então eu percebi que durante a vida toda fiz tudo errado, eu nunca havia aprendido a me esforçar. Paradoxalmente a isso, eu não gostava das novas aulas mais “difíceis”, ainda assim, eu esperava muito mais delas e acabava abandonando algumas disciplinas pela metade. Essa realidade chocante me gerou angústia, ansiedade e frustração, mas o quadro permanecia o mesmo, só mais tarde, já no Mestrado, aprendi a organizar os estudos, na verdade, aprendi de fato a estudar.
Relutei muito em escrever aqui, por medo de parecer esnobe, pois sempre fui precoce e acima da média, mas autoconfiança nunca foi algo que eu dominasse, segurança só conheci quando me tornei mãe, pois com ele eu não me permitia errar, ele não podia me ver tão falha e inconstante.

Flávia Gemaque
Amapaense.
Professora de Biologia, ex-professora de Francês, Mestre em saúde, dançarina e escritora.

Publicado em Relato Pessoal | Com a tag | 1 Comentário

Entrevista: Alvaro Henrique

Alvaro Henrique

Alvaro Henrique

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Alvaro Henrique: Embora sempre cresci sabendo que era diferente, e sabendo que os outros sabiam que era diferente, o diagnóstico só veio depois dos 40 anos, enquanto estava tratando uma depressão após um divórcio durante a pandemia. Naturalmente, procurei ajuda psicológica pra esta questão, e ao longo do tratamento a profissional desconfiou que havia algo mais ali que fazia o tratamento não ter o mesmo resultado. Ela solicitou uma bateria extensa de exames, cobrindo questões além da neurodivergência, e foi uma surpresa ter esse resultado. Depois, fez todo o sentido, mas o estereotipo do gênio cria muitos mal-entendidos.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Alvaro: Idiomas, música e ciências.

SM: Quais idiomas você fala e por quais você demonstra interesse?

Alvaro: Com fluência, espanhol e inglês. Morei na Alemanha, perdi bastante do alemão, e estou querendo melhora-lo. Estou começando no latim e no chinês. Qualquer idioma cujo uso me parece pratico me interessa. Tem um filme com o Antonio Bandeiras, o 13o Guerreiro, no qual ele interpreta um árabe que viaja com vikings. No filme, ele aprende o idioma só de ouvir as pessoas. Já me aconteceu algo parecido em viagens pela Finlândia e Grécia.

SM: Qual o tema da sua pesquisa doutoral? O que lhe atraiu para ele?

Alvaro: Ainda é possível ter alguma alteração, mas tudo já aponta para ser sobre obras que constituem parte das primeiras obras para violão solo de compositores nascidos em Brasília. O fato de eu ser de Brasília é um fator muito forte para determinar esse assunto, mas desde o diagnóstico uma coisa que me questiono muito e o quanto certas escolhas são genuinamente minhas ou são o que me foi permitido escolher.

SM: Quais instrumentos musicais você toca e por quais você demonstra interesse?

Alvaro: Vou ser polêmico com a comunidade. Há provas claras (Karl Anders Ericsson é só um dos exemplos) que excelência demanda especialização. Quando falo excelência, não estou falando do seu amigo ou parente achar bonito, estou falando em ser premiado em concursos internacionais de interpretação musical. Como ter esse nível de excelência é algo importante pra mim, me dedico exclusivamente ao violão erudito – que é o mesmo violão de nylon que voce tem em casa, mas com uma técnica e um repertório mais próximos do piano que do universo do acompanhamento de canções – que, na minha visão, nem é tocar violão, assim como ninguém diz que toca piano, violino, flauta, só batendo acorde.
Já estudei oboé, regência coral, canto lírico, guitarra elétrica, piano, mas os caminhos foram se desenhando no mundo do violão clássico de um jeito mais simples e mais fácil que nos demais instrumentos. Quando chegou o momento de buscar um curso superior em musica, foi a hora de definir uma especialização, e tenho me dedicado ao violão erudito desde então.

SM: O que lhe atraiu, de todos os lugares, a estudar em Georgia nos Estados Unidos?

Alvaro: Responder essa pergunta foi o que mais me atrasou a responder essa entrevista.
Quando ela chegou, estava vivendo uma situação que ainda era uma ferida aberta. Mas vamos do começo.
O estudo de musica no nível de graduação e pós é uma área bastante delicada.
Raramente os cursos têm estrutura e pessoal suficientes para ofertar varias opções de professores, orientadores, de acordo com a area ou o instrumento. Isso faz com que aquela universidade toda, com milhares de professores, na verdade significa, para os alunos de música, apenas um único professor que leciona seu instrumento ou pesquisa na sua área. Então a escolha de local para estudo não é uma escolha de qual instituição, mas é uma escolha de qual pessoa.
Naturalmente, o local tem algum peso. Em função de ser servidor publico estável (sou professor na Escola de Música de Brasília), e já ter ingressado no serviço publico com mestrado, o doutorado seria a minha última oportunidade de estudar no exterior. Como o sistema educacional na Europa é diferente do brasileiro, validar diplomas europeus, na minha área, envolve um risco. Já os diplomas estadunidenses, por serem o mesmo sistema educacional, são mais fáceis de serem validados.
Uma vez limitado geograficamente, a questão nunca foi qual estado ou qual universidade nos EUA, mas qual pessoa. Infelizmente fiz uma escolha errada, fui enganado, e vivi situações extremamente desagradáveis com meu orientador. Estou me transferindo para a University of Minnesota, esperançoso de ser um recomeço melhor. Vamos aguardar. Infelizmente o momento nos EUA também é bastante ruim. É um momento em que o mundo mudou mas gerações inteiras estão se recusando a mudarem junto, e nos EUA há muita permissividade para perseguições e assédio moral por parte dos professores. É uma legislação totalmente diferente, e há formas de discriminação que são permitidas na lei. Pior: professores que foram punidos por descumprirem a lei estão conseguindo reverter na justiça suas punições. É um ambiente em que um professor universitário pode ser extremamente bem sucedido em ser um destruidor de vidas por toda sua carreira acadêmica.

SM: Quais metas ou projetos você ambiciona realizar nos próximos anos?

Alvaro: Muitos. Resumindo, quero realizar todos os sonhos que me foram roubados. Quero chegar na final do maior concurso de violão do mundo. Quero receber um Grammy. Quero ter o reconhecimento justo de acordo com o trabalho que tenho realizado. Quero poder levar ao público a gravação que fiz de todas as musicas com violão de Heitor Villa-Lobos – faltam etapas após a gravação. Quero formar uma família. Quero lecionar no nível superior. Quero todas as coisas que me disseram, direta ou indiretamente, que era um desperdício querê-las.

SM: Você ou algum membro de sua família recebe algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Alvaro: Atualmente, com a transferência das universidades, estou num limbo no seguro de saúde dos EUA, e não estou recebendo acompanhamento no momento. Já fiz sessões recentemente, e foi um pouco estranho fazer terapia nos EUA. Quero retomar, mas imagino que não vai ser simples encontrar um profissional que funcione adequadamente. Há um excesso de pragmatismo, como se uma sessão fosse uma “novalgina mental” – e não é assim que funciona.

SM: Algum lema motivacional?

Alvaro: Faça todo dia algo que vai te deixar mais perto dos seus sonhos. Nem que seja só um passo, uma etapa, dentro de milhares que precisam ser feitas.

SM: Você ou algum membro da sua família recebe algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Alvaro: Não.

SM: Algum recado pra galera?

Alvaro: Precisamos estar juntos. Nos PAHSD precisamos de um esforço para estarmos em comunidade. O isolamento dos nossos hiperfocos, o conforto dos vieses de confirmação, a seguranças de nossas bolhas são lugares muito confortáveis para nós. Mas precisamos ser uma comunidade e precisamos ser agentes políticos no sentido grego da palavra, político de “da pólis”, “da cidade”. Enquanto a gente for visto como seres que só existem nas escolas de ensino fundamental, seguiremos sofrendo nos consultórios. Terapia ajuda para amenizar dores que não ocorreriam caso PAHSD fossem considerados existentes na sociedade. Enquanto a sociedade não entender que a gente existe, seremos só os bichos estranhos. Na melhor das hipóteses, gente excêntrica que é engraçada de ver numa série de TV. E isso não basta.

Publicado em Entrevista | Com a tag | Deixe um comentário

Publi: Campanha para a Edição Comemorativa de 10 Anos do Romance Asfixia

Asfixia por Filipe Russo

Asfixia por Filipe Russo

ASFIXIA
EDIÇÃO COMEMORATIVA DE 10 ANOS

O romance de terror Asfixia publicado independentemente em 2014 e premiado pela USP em 2016 comemora 10 anos!

A nova edição da obra traz ilustrações originais de Kaori Nagata, quem assina capa, contracapa e orelhas do livro, o romance conta ainda com prefácio inédito por Mabelly Venson, editora na Toma Aí Um Poema.

Apoie a literatura neurodivergente e independente no link abaixo:

https://benfeitoria.com/projeto/asfixia

SINOPSE

Em Asfixia, Filipe Russo tece uma trama complexa e visceral, onde o horror se manifesta tanto no físico quanto no psicológico. O romance se dilata com a protagonista acordando em um lugar desconhecido e ameaçador, suas primeiras sensações são de um pavor vazio, acompanhadas de visões de uma criatura deformada que a confronta com uma realidade que desafia a sanidade. Russo habilmente transita entre o grotesco e o belo, construindo uma narrativa onde o medo é palpável e a tensão, constante.

Enquanto a protagonista luta para compreender sua identidade e a natureza de seu cativeiro, ela é assolada por memórias fragmentadas e revelações perturbadoras sobre sua vida. Cada capítulo do livro desdobra mais camadas de uma realidade decadente, onde espaços físicos como banheiros, quartos e corredores se transformam em labirintos de terror psicológico. A narrativa é intensificada por descrições texturais que mesclam o horror de ambientes carcomidos e atos de violência com momentos de introspecção dolorosa e descoberta de si.

Asfixia apresenta a ansiedade frente ao desconhecido e ao familiar que logo se torna estranho ou amedrontador. Russo desafia o público a questionar o que é real e o que é produto da mente perturbada da protagonista, enquanto ela navega por uma série de eventos que testam sua força e sua vontade de sobreviver. Cada nova cena se desfia meticulosamente sob o olhar ávido da leitura, em meio ao sangue que mancha azulejos até as expressões de terror que distorcem rostos, todos envoltos em uma atmosfera densa e sufocante que justifica o título do livro.

Com uma escrita visceral que flui entre o poético e o perturbador, Russo constrói uma narrativa que é ao mesmo tempo um estudo de personagem e um romance de terror introspectivo. A jornada da protagonista se concentra na busca pela verdade e pela saída em um mundo que parece empenhado em expor suas faces mais sombrias uma sobre a outra, uma contra a outra, sem revelar nenhum sentido ou significado existencial. Asfixia não é somente uma história sobre monstruosidades e medos encarnados, mas também sobre os horrores que residem dentro de nós, esperando apenas pelo momento de verterem sangue ou pele afora.

Em última instância, Asfixia de Filipe Russo cativa e aterroriza a um só tempo, ao nos convidar a olhar fixamente a face do que nos assusta e a questionar a natureza da própria realidade. É uma queda irremediável pelos corredores obscuros da existência humana, onde cada página virada nos funda ainda mais no lodo da humanidade.

Marcador de página

Marcador de página

AUTORIA

Filipe Albuquerque Ito Russo é uma pessoa com deficiência física oculta, agênere, autista e superdotade, natural do território ancestral de Manaós, vivendo atualmente no de Piratininga. Sua ancestralidade contempla ascendências indígena, italiana, espanhola e portuguesa. Autore dos romances premiados Caro Jovem Adulto (2012) e Asfixia (2014), assim como vencedore do concurso artístico O Olhar em Tempos de Quarentena (2020) e de prêmios de excelência acadêmica em Inteligência Artificial, Psicologia, Gamificação, Empatia e Computação Afetiva (2021). Revisore no periódico científico Revista Neurodiversidade. Especialista em computação aplicada à educação e licenciade em matemática pela USP. Co-organizadorie das coletâneas de poesia neurodivergente “poETes: altas habilidades com prosa e poesia” (2024) e “poETes: altas habilidades com poesia” (2023), além de participante em diversas antologias poéticas.

Filipe Russo

Filipe Russo

O Toma Aí Um Poema

Toma Aí Um Poema

O Toma Aí Um Poema é um projeto potente de leitura e divulgação de poesia lusófona. Começou em 2020 como podcast, depois virou revista literária interativa e hoje é uma editora preocupada com a emancipação dos autores. É considerado um dos projetos literários mais inovadores da atualidade e soma resultados incríveis:

1k+ autores lidos | 1k+ poetas publicados | 1 milhão de players

Não deixe de contribuir e apoiar social e financeiramente a campanha de Asfixia:

https://benfeitoria.com/projeto/asfixia

Publicado em Publi | Com a tag , , , , , , , | Deixe um comentário

Prejuízo Funcional: Um relato pessoal sobre prejuízo clinicamente significativo

Publicado em prejuízo funcional | Com a tag | Deixe um comentário