Entrevista: Alberto José

Fotografia digital de Alberto José

Alberto José

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Alberto José: Havia uma desconfiança devido ao meu histórico em idade escolar e, devido a certa rigidez, eu estava entrando em uma tônica de sobrecarga e autonegligência, o que me levava a comportamentos de risco potencialmente suicidas. Apesar de eu identificar os comportamentos, não conseguia flexibilizar e mudar minha conduta, daí me foi aconselhado por minha esposa, que é neuropsicóloga, a fazer uma avaliação para ter um entendimento mais profundo do que me acontecia.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Alberto: Linguística e lógico-matemática.

SM: Quais os títulos do seu álbum de blues e dos seus livros de poemas? O que inspirou essas publicações?

Alberto: Meu álbum de blues se chama “Expresso pra lugar nenhum” e reflete muito sobre a minha maneira de funcionar, ágil e determinado como uma locomotiva, mas sem ter, necessariamente, um objetivo, me colocando sempre em movimento desenfreado. Meu primeiro livro, “Ensaios incandescentes” alude ao meu hábito juvenil de fazer uma fogueira e queimar os cadernos onde escrevia meus poemas (escrevo espontaneamente desde 15 anos), hábito incendiário do qual, felizmente já me desvencilhei. O segundo, “Ode à carne”, trata de questões existenciais da vida material onde tudo é efêmero e contemplamos como certeza únuca o sofrimento, nas formas da doença, da velhice e da morte. “A noite mais escura de minh’alma” alude ao período pós-pandêmico, que me obrigou a lidar com diversos lutos e, durante à escrita do qual, obtive a identificação de minha condição neurodivergente.

SM: Por que você não gostava de ir à escola?

Alberto: O sentimento de tédio era corriqueiro, nem sempre os assuntos abordados eram do meu interesse , tampouco seguiam meu ritmo. A convivência com os colegas nem sempre era harmoniosa, mas isso foi melhorando ao longo do tempo, até a faculdade. No fim do ensino médio houve a pior crise, pois eu estava em um instituição que tinha interesse em explorar meu potencial como forma de propaganda de aprovação em concursos, o que me levou a uma saudável rebelião. Doía-ma a sensação de ser usado, sobretudo por quem não se importava se eu estava bem ou não. Foi o momento em que iniciei um quadro de depressão.

SM: Durante o seu relato pessoal, você é bastante explícito sobre algumas das suas pontuações de QI, seja no total, seja nos subcomponentes, ainda relacionando-os com as suas vivências e percepções. Você poderia contar para nós qual a importância de tratar os testes de QI, suas pontuações, instrumentos psicométricos, avaliações neuropsicológicas, outros testes e documentos da psicologia com maior naturalidade e menos tabu?

Alberto: Certamente! Não é novidade que várias ideias errôneas alimentam preconceitos do senso comum a respeito dos testes mencionados, muitas dessas ideias, inclusive, são veiculadas pela imprensa. Ao me deparar com esta ferramenta sendo usada comigo com uma finalidade clínica, procurei me inteirar do que realmente são os testes de QI para desconstruir preconceitos – sobretudo os meus próprios – que são alimentados pela desinformação e difusão de dados questionáveis. O potencial de um ser humano nunca poderá ser reduzido a um número. O objetivo do teste não é outro se não servir-se do mesmo como uma ferramenta para melhor entendimento do todo. No meu caso, o resultado foi revelador em relação às minhas assincronias, meu perfeccionismo e minha lentificação executiva, bem como explicam a facilidade incomum que apresento para alguns aprendizados e algumas tarefas específicas.

SM: A genialidade não é o destino compulsório das pessoas com AH/SD, por mais que a grande mídia romantize a condição e misture indevidamente estes dois conceitos. Qual a sua ideia de realização pessoal?

Alberto: Paz no coração e comida na mesa! O que realmente precisamos é simples, na verdade, só que criamos muitas complicações desnecessárias. Fazemos um conceito de sucesso muito distorcido e estereotipado, enveredando-nos por concepções vaidosas que envolvem méritos e privilégios, fascinando-nos, por vezes, com uma lida abusiva conosco e com os outros e que só leva a aprofundar as feridas que achamos estar buscando tratar. Aceitar-se como se é e aproveitar as coisas simples da vida é menos trabalhoso e mais gratificante!

SM: Você ou algum membro de sua família recebe algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Alberto: Sim. Eu e minha esposa somos terapeutas e temos consciência da necessidade de nos cuidar. Hoje tenho consciência que algumas questões que me levaram a buscar terapia anteriormente derivam do meu modo de funcionar. Não chegaria ao ponto de buscar a avaliação se não estivesse fazendo análise por 5 anos e entendo a identificação AH/SD como uma peça chave em meu processo de autoconhecimento, a partir do qual posso buscar medidas salutares.

SM: Algum lema motivacional?

Alberto: Não existe aventura maior e mais emocionante que a jornada do conhecimento de si mesmo.

SM: Você ou algum membro da sua família recebe algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Alberto: Não. Infelizmente não tive acesso a nenhuma intervenção diferenciada de educação especializada durante toda a fase escolar e, por enquanto, sou o único que foi laudado, em minha família.

SM: Algum recado pra galera?

Alberto: Alguns. Estou tomando consciência de como é difícil ter uma adaptação a um mundo que não é feito pra mim e como demanda esforço salvar as pernas de serem cortadas no leito de Procusto. Continuo olhando tudo oque faço com severa desaprovação, mas ter consciência de minha autocrítica agravada pela alta intensidade emocional me leva a flexibilizar. Afinal, não ser perfeito e cometer alguns erros não acarretará que os deuses me fulminem! Posso, também, tentar ser mais tolerante com os outros, pois, talvez, não tenham a mesma dedicação que eu a suas tarefas simplesmente porque não conseguem. Sei que minha tolerância emocional à frustração e à rotina, em contrapartida, é bem mais baixa. E a parte mais difícil é entender que eu também tenho direito ao descanso e ao lazer, não só direito, como também a necessidade. Utilizar a inteligência para criar estratégias e compensar as dificuldades adaptativas é algo que tenho percebido que faço o tempo todo. Porém, não dou conta de tudo e uma ajuda pode ser bem-vinda em um momento como esse e não deixo de buscar. Acredito que possa vir a ter uma vida mais funcional e saudável, mas tal não vai se dar sem quebrar preconceitos e regras rígidas e sem entender que nem tudo o que funciona para os outros precisa funcionar para mim. É um aprendizado difícil e árduo, mas estou tentando!

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Relato Pessoal: Alvaro Henrique

Fotografia de Alvaro Henrique por Pedro Franca

Alvaro Henrique por Pedro Franca

Sou Alvaro Henrique, e essa é a primeira vez que me apresento em público como uma pessoa com Altas Habilidades / Superdotação. Sou músico, e me dedico ao violão erudito. Trabalho como professor na Escola de Música de Brasília, atualmente em afastamento para estudos, cursando um doutorado em performance na University of Georgia (EUA). Durante a pandemia procurei tratamento psicológico. A profissional que me atendeu suspeitou que poderia ser neurodivergente e me solicitou fazer vários exames. Fui diagnosticado após os 40 anos.

Após o diagnóstico, minha mãe me falou que já com 9 anos um professor havia suspeitado que teria AHSD. Honestamente, não teria feito diferença para mim ter o diagnóstico na infância. Minha família já havia me matriculado numa escola que seguia o “ensino natural” – grosso modo, uma versão brasileira do construtivismo -, que já estimula a criança a aprender com autonomia e no seu próprio ritmo. Um dia normal de aula para mim consistia na professora explicar um conteúdo, em seguida comentar como realizar tarefas dispostas em quatro a seis mesas em que poderíamos circular livremente, na ordem desejada, com a única condição de ter de passar por todas ao longo do dia letivo. Já era, portanto, um ambiente de ensino acolhedor para PAHSD. O professor que desconfiou de AHSD trabalhava em outra escola, que minha família achou ser uma opção melhor, mas na semana seguinte voltei para esta primeira escola porque minha família preferiu acreditar que a escola nova era muito fraca, ao invés de considerar correta a suspeita do professor. De qualquer modo, minha vida escolar não teria sido diferente. Na adolescência, quando só sobram as escolas tradicionais, já estava estudando idiomas e música fora da escola, e essas são justamente duas áreas em que manifesto altas habilidades.

Curiosamente, foi justamente quando ingressei no ensino superior que os conflitos sociais e educacionais começaram. O que infelizmente não é uma surpresa, já que PAHSD só existem dentro do contexto escolar. Fora do ensino fundamental, não existimos – inclusive no ensino superior, um ambiente em que a presença de PAHSD é maior percentualmente que no ambiente que reconhece a existência de PAHSD. Os conflitos foram originados pela ausência de qualquer tipo de adequação, mas também pelo fato de, sem o diagnóstico, eu não tinha nem a mais básica informação para lidar com as situações à medida que elas se apresentavam. Numa realidade em que a música clássica e os cursos superiores de música são tão interconectados, esses conflitos deixaram marcas na minha vida profissional que persistem até hoje. Certamente algumas portas continuarão fechadas enquanto os atuais gatekeepers continuarem na ativa. É extremamente provável que, se tivesse o diagnóstico antes de entrar na universidade, desviaria de muitos conflitos desnecessários.

Portanto, buscar um diagnóstico faz diferença em qualquer estágio da vida. Hoje minha vida ainda não está perfeita – até porque não foi a condição neurodivergente que me levou a procurar um psicólogo -, mas entender que meu processo é diferente tem sido fundamental para seguir caminhando progressivamente rumo a soluções. Foi surpreendente como esta informação fez tudo fazer sentido. É como um parafuso na base de um móvel: é algo simples, pequeno, banal, mas sem aquele parafuso, o móvel se desmonta só com a ação da gravidade. Além disso, o autoconhecimento adquirido também no processo de entender como é ser no mundo uma PAHSD é extremamente revelador.

No entanto, não faz diferença buscar o diagnóstico em busca de algum reconhecimento. Fora do ambiente educacional ou do da saúde mental, não se (re)conhece sequer a existência da PAHSD. É como se com a formatura no ensino médio passássemos todos milagrosamente a nos tornar pessoas neurotípicas. E sabemos que isso não acontece. São blogs como este e iniciativas similares que permitem começar a reivindicar nossa existência enquanto seres políticos. Não no sentido de política institucional, cargos, mas no sentido Aristotélico de animal da polis: existimos em e na sociedade, não apenas nas escolas e consultórios.

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Relato Pessoal: Akin Sá

Akin Sá em fotografia digital

Akin Sá

É um tanto quanto curioso pensar no efeito da nossa própria voz, quando reverberada num ambiente outrora vazio, ou pouco ocupado. O eco tem a função de preencher os espaços que não são cerceados por presenças físicas dentro de um determinado lugar. E ainda assim, se você prestar atenção o suficiente, conseguirá perceber que nem todo comprimento de onda é perdido num impacto com as paredes de um quarto quase vazio. Boa parte destas ondas voltam até você, usando da mesma voz, para indicar que ele não estava tão inocupado quanto parecia num primeiro instante. Quando eu me descobri autista, tive contato pela primeira vez com essa tão estranha sensação, que nunca havia sido assimilada, mesmo em anos estudando física no colégio.

Eu me sentia perdido, isolado e, nos piores dias, abandonado pelo mundo. No auge dos meus 13 anos, escutava Astronaut, do Simple Plan, e pensava comigo mesmo “será que alguém nesse mundo se sente do mesmo modo que eu?”. Crescer sem um diagnóstico ou pelo menos a suspeita de algo, sempre cria margens para que situações traumáticas aconteçam. Situações que envolvem incompreensão, micro violências, solidão, desenvolvimento de depressão e ansiedade. Um pedaço de papel escrito que eu era autista não me fez mais autista do que eu já havia sido durante toda minha vida, mas me deu as forças necessárias para que eu entendesse que não havia nada de errado comigo, que não havia motivo para eu me culpar. Era o que eu precisava para ter coragem de seguir sem sentir o fardo da culpa de ser alguém extremamente estranho.

Aos 16 anos, veio o diagnóstico. Aos 17, o laudo formal. Cerca de 3 meses antes do meu aniversário de 18 anos, eu entrei na universidade e pela primeira vez na minha vida fiz questão de dizer aos outros quem eu era, de não sentir vergonha ao pedir pela inclusão. Foi nessa época que comecei meu ativismo no movimento das pessoas com deficiência. Conversei com muitas pessoas de muitos lugares, aprendi muito e entrei na mais pura catarse.

Nos meus 19 anos, decidi que eu precisava falar sobre tudo o que eu estava aprendendo com mais gente. Juntei o gosto por ensinar, com a lacuna de informações sobre autistas negros, e decidi fazer vídeos educativos sobre autismo para internet. Escolhi o nome Hey Autista para o projeto que eu estava começando e pareceu funcionar perfeitamente. Desde então nunca mais parei.

As pautas que inicialmente envolviam somente o espectro autista, passaram a entrelaçar questões relativas à raça, gênero, sexualidade e todos esses assuntos que vez ou outra atravessam minhas vivências. A voz que eu não tive como forma de orientação na minha infância e adolescência, é a voz que eu busco construir no meu ativismo hoje em dia. Meu discurso é construído para dialogar com quem queira ouvir e, acima de tudo, construir pontes.

Dentro das minhas percepções, não me julgo como referência nenhuma para nada, mas gosto de pensar que para um garoto autista que aos 13 pensava que jamais seria compreendido, eu consegui chegar em lugares muito bonitos com as minhas palavras.

[INFORMAÇÕES ADICIONAIS]
Akin de Sá Silva (ou Akin Sá, como me conhecem por aí)
Sou um homem autista, transgênero e preto. Utilizo os pronomes ele/dele.

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Pesquisas em Andamento: A acessibilidade de espaços para pessoas com TEA

Pesquisa sobre a acessibilidade de espaços para pessoas com TEA

Pesquisa sobre a acessibilidade de espaços para pessoas com TEA

Você está convidado(a) a contribuir com suas experiências pessoais na pesquisa de Isabela Akemi, a qual tem como objetivo avaliar a acessibilidade de espaços para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Suas contribuições ajudarão a entender melhor como os espaços podem ser projetados para atender às necessidades da população com TEA.

Nós estamos realizando uma pesquisa importante sobre a acessibilidade dos espaços para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Esta área ainda é pouco explorada e sua participação pode fazer a diferença. Compartilhe suas ideias e experiências para ajudar a criar ambientes mais acolhedores e inclusivos. Para tanto, acesse o link https://forms.gle/L6QVcsDua85imJDf7 e participe.

O questionário é composto por duas partes distintas, nas quais serão avaliados espaços edificados e espaços urbanos, separadamente. Uma terceira parte será dedicada a quaisquer comentários adicionais. Além disso, uma parte preliminar coletará informações demográficas.

O questionário faz parte de um levantamento de dados inicial para a pesquisa de Trabalho de Conclusão de Curso de Pós Graduação em Sustentabilidade de Cidades, Edifícios e Produtos da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFMG, criado pela arquiteta Isabela Akemi, sob orientação do professor Victor Mourthé. As respostas são 100% anônimas e o questionário está alinhado com a LGPD, não tendo passado por comitê de ética devido à natureza de levantamento bibliográfico e anedótico.

Para quaisquer dúvidas, você pode entrar em contato com a autora Isabela Akemi por meio deste e-mail: bela.akemi@gmail.com.

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Avaliação: 5 Equívocos na Avaliação de AHSD

1

5 Equívocos na Avaliação de AHSD

2

1 – Utilizar testes desfavoráveis

3

2 – Utilizar testes fora da faixa etária

4

3 – Aplicar testes online que não foram validados para esse formato

5

4 – Designar um CID para Altas Habilidades

6

5 – Não colocar orientações e encaminhamentos

7

Conte nos comentários quais erros você já viu por aí!

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Relato Pessoal: Alberto José

Fotografia que retrata Alberto José

Alberto José

1 A suspeita

Estava eu seguindo minha vida normalmente, aos 35 anos. Trabalhando como musicoterapeuta, atendendo, principalmente, crianças com autismo, além de alguns casos de reabilitação neurológica. Tocava em uma banda que tinha uma agenda frequente e pagava bem, fazendo viagens esporádicas para shows. Satisfeito com minhas produções artísticas, havia lançado um álbum de blues e dois livros de poemas.

Apesar de estar tudo aparentemente bem, eu vinha apresentando um crescente desinteresse em relação ao trabalho da banda, escalonando para uma indiferença com relação ao público. Tocava para 300, 400, mil pessoas e não me importava com nenhuma delas. Estava desanimando!

Estava frequentemente exausto devido a sequelas de pós-covid, que apresentavam sintomas difíceis de ser ignorados. Fazia crises constantes de bronquite e minha tosse preocupava a todas as pessoas ao meu redor, menos a mim. Tentava, nem sempre da forma mais eficiente, me cuidar.

Era acometido por sono e queda de pressão frequentemente ao dirigir em vias expressas, a 90, 100 quilômetros por hora. Sabia que podia sofrer um acidente, mas não me envolvia emocionalmente com isso. Estava um pouco negligente com exames e tratamentos em geral e refletia se não estava assumindo compromissos demais para meu estado de saúde. Além disso, os temas “morte” e “suicídio” apareciam frequentemente em meus poemas e composições, apesar de eu não apresentar tal ideação.

Uma noite, saí com minha esposa para tomarmos um vinho em um restaurante que apelidamos de “Barata’s” – Não preciso explicar o motivo do apelido, basta mencionar que o estabelecimento, por algum motivo, costumava oferecer um ambiente muito reservado! – e comentei sobre alguns amigos serem diagnosticados com autismo na fase adulta e o quanto isso me intrigava.

Eu, que vinha lidando diariamente com autismo, percebia que algumas pessoas, apesar de não terem diagnóstico, com certeza estavam no espectro devido a aspectos sutis no olhar, em trejeitos de fala e alguns comportamentos e outras pessoas, porém, que não apresentavam sinais que eu pudesse perceber além da própria história de vida, foram avaliados e diagnosticados.

Perguntei se eu também não poderia ser autista, afinal, sempre me senti diferente, tinha minhas excentricidades e me identificava com algumas características dos pacientes atípicos que eu atendia. Ela, neuropsicóloga especializada em testes e professora da UFRJ, respondeu que meu histórico apontava mais para o quadro de Altas Habilidades.

Não era a primeira vez que alguém me dizia tal coisa. Nas vezes anteriores, eu havia refutado a suspeita assertivamente. Como eu poderia ser superdotado se só apresentava facilidade para algumas disciplinas específicas? Como, se eu apresentava, em contrapartida, grandes dificuldades em outras? Como, se nem minha caligrafia apresentava bom desenvolvimento, dando um destaque negativo frequente à minha empobrecida coordenação motora? Pensava que já havia sido inteligente em algum momento da vida escolar, mas deixara de ser.

Lembro que havia me identificado quando estudei o quadro, durante a faculdade. Mas não dei importância, afinal, eu me identificava com tantas patologias, já pensei que pudesse ter TEA, TDAH, comportamentos compulsivos e jurava que eu era bipolar. Pensei fazer parte da hipocondria que acomete todos os estudantes da matéria psicopatologia.

Minha vida escolar realmente dava umas “bandeiras”. Durante o primário, não era considerado mais do que um aluno “relaxado, desorganizado e que vivia no mundo da lua”. Minha mãe, que era professora de matemática, dava aulas de reforço enquanto eu brincava pela casa e eu acabava ouvindo os conteúdos de séries posteriores com especial curiosidade. Sei que havia sido adiantado de série na pré-escola por desenvolver, espontaneamente, leitura precoce.

Ao começar o ginásio, estudei em um curso preparatório para o Colégio Militar do Rio de Janeiro durante poucos meses. Não tive uma colocação suficiente para ingressar na instituição, mas tive um desempenho melhor que os colegas que fizeram o curso durante todo o ano. Pela primeira vez, obtive algum destaque intelectual.

Durante o restante do ginásio, me destaquei muito em notas, gabaritei todas as provas de algumas matérias por anos e costumava estar aprovado já no terceiro bimestre. Apesar disso, eu não era estudioso e sequer gostava de ir à escola. O destaque chegou ao ápice no último ano do ginásio.

Fiz outro curso preparatório, desta vez, para o Colégio Naval. Os colegas e professores se impressionavam com meu desempenho nos simulados e tive aprovação com boa colocação, ingressando como o aluno mais jovem de minha turma.

Porém, não me adequei tão bem à rotina e às regras da instituição, não me envolvi em atividades desportivas, não tirava notas tão boas e fui, progressivamente, desanimando com relação às matérias. No meio do segundo ano, desisti da carreira militar e terminei (Deus sabe como…) o ensino médio em uma escola onde devo ser, até hoje, o pior aluno que já passou por lá. E nunca mais prestei um concurso público!

Tendo escolhido a música como trabalho, assunto no qual nunca fui, exatamente um prodígio, aprendi o que significava precisar de esforço e disciplina para aprender algo e, ao contrário de parecer um martírio, aprendi a gostar disso e foi algo que me deu motivação e um novo significado para minha vida.

Nunca gostei da ideia de “nascer com um dom” e simplesmente “brilhar”. O esforço para desenvolver habilidades, a insistência e o prazer de, após muita dedicação, obter resultados, soam para mim como o verdadeiro superpoder. E considero que, quando se dá a desistência de um aprendizado pela crença de falta de aptidões inatas, trata-se de uma desculpa muito preguiçosa. Confesso que tal filosofia foi posta em xeque, para mim, ao longo do processo de identificação AH/SD.

Na faculdade de musicoterapia, tive destaque mais por questões de liderança estudantil do que por notas, mas não deixei de ser visto como um potencial pesquisador da área caso seguisse carreira acadêmica, expectativa que frustrei ao recusar a ideia. A essa altura, já não me incomodava em decepcionar as pessoas que acreditavam em mim.

Bom, ainda durante a taça de vinho no “Barata’s”, perguntei à minha esposa se não poderia me avaliar, pois já avaliara muitos pacientes. Ela disse que não poderia fazê-lo, devido a eu ser seu marido, mas que seria importante eu passar por uma avaliação, pois estava entrando em uma rigidez comportamental que, a seu ver, estava me colocando em risco.

2 A identificação

Apesar de meu histórico do período escolar, eu tinha minhas desconfianças em relação a ser mesmo superdotado. Afinal, apresentei bom desempenho em poucas disciplinas específicas e em um período específico. Não tenho uma carreira profissional exatamente brilhante, apenas tenho uma carreira e, se tenho algum sucesso profissional, tal se dá mais pela crescente demanda pelo trabalho que faço do que por minhas qualidades profissionais.

Lembro de ter conhecido um adolescente superdotado quando era criança. Ele tinha o inglês fluente, era reservado e não brincava na rua e gostava de vídeo games. Eu fui uma criança de subúrbio que passava o dia todo na rua, jogava bola, brigava, me sujava de lama… enfim, uma infância normal!

Minha esposa é professora universitária com doutorado e meu irmão um engenheiro com três faculdades e um mestrado. Como o superdotado poderia ser eu, que muito mal, havia parado na graduação e feito uma formação quase dez anos depois?

Fui para o youtube pesquisar sobre o assunto e ouvi vários psicólogos falando sobre aspectos relacionados ao superdotado adulto, que não tinham a ver com desempenho acadêmico ou inteligência. Para o meu espanto, comecei a me identificar muito. Excessivamente autocrítico, irônico, com muita intensidade emocional, criativo, com muito engajamento em tarefas, envolvimento aprofundado em meus assuntos de interesse, histórico de depressão e ansiedade, senso de justiça, até alergias e intolerâncias alimentares! Tudo batia com o check list! A cada 10 características do perfil, eu tinha 11.

Em contrapartida, eu pensava se não estava me identificando por querer me sentir inteligente e especial, como compensação às minhas inseguranças e frustrações. Bom, apenas uma avaliação poderia me trazer respostas e decidi parar de pesquisar o assunto enquanto estivesse no processo.

Procurei uma neuropsicóloga que me foi indicada por minha esposa. Descobri que, por coincidência, ela tinha um paciente em comum comigo. Ela havia visto vídeos do meu trabalho atendendo o mesmo e elogiou muito a minha atuação no caso específico. Tive que lembrá-la que perdia tempo fazendo-me elogios, pois eu não dava ouvidos aos mesmos, apenas me sentia cumprindo minha obrigação e via defeitos em tudo o que fazia.

A avaliação foi feita em tempo recorde. Fiz recesso na última semana do mês de julho e pedi que me encaixasse em qualquer horário em que houvesse cancelamento de outros pacientes, algo muito comum em um mês de férias escolares. Além disso, fui muito envolvido nos testes e fazia muitos em cada sessão. Fizemos 5 ou 6 sessões em uma semana e respondi em casa aos questionários. Minhas poesias e letras de música também foram usadas na avaliação.

Apesar de acontecer mais rápido que o normal, o período pareceu-me uma eternidade, pois envolveu grande ansiedade de minha parte. Além dos testes tradicionais de QI, havia questionários sobre TEA, TDAH, ansiedade, depressão… entendi como é complexa uma avaliação deste tipo.

Durante o processo, não sabia se estava “indo bem” e, contraditoriamente, “ir bem” é o que me classificaria em uma condição neurodivergente. Não nego que me senti surpreso quando, na devolutiva, descobri que obtive pontuações altas em alguns dos testes.

Minhas assincronias apareceram na avaliação, havendo diferenças significativas, principalmente entre o QI verbal e o QI de execução, o que vi, por minhas pesquisas, que era um perfil comum em superdotados, devido a perfeccionismo e, também a lentificação executiva. Tal discrepância explica, em si muitas das minhas dificuldades no dia a dia.

A obtenção de pontuação acima de 130, quase 140 em alguns índices que envolviam respostas verbais e inferiores a 120, próximas a 110 em outros, que envolviam execução; é um bom retrato de como minha mente funciona: uma torrente de ideias e uma morosa implementação, vivenciando entre a frustração e a sobrecarga.

O índice total, 128, apesar de inferior a 130, analisado com toda a conjuntura e em conjunto com o histórico e outros aspectos clínicos, não menos importante que os testes, apontava para a identificação de Altas habilidades / Superdotação. Restava a mim entender o que esta condição significa e o que eu precisava mudar para ter uma vida mais saudável e funcional e, é claro, evitar a manutenção de comportamentos que me colocassem em risco.

3 Assimilação

Resta-me agora, desconstruir os mitos e preconceitos que eu mesmo trago e ter um entendimento real do que esta identificação significa e como seus aspectos se manifestam em mim agora já que, apesar de me ajudar a entender melhor o meu passado, não há nada que eu possa mudar com relação ao que já aconteceu. Mudanças devem ocorrer daqui pra frente!

Um diagnóstico na fase adulta é como um plot twist em um filme, aquele momento em que fica claro que nada é como se pensava que era. Entrar em negação é um caminho muito fácil e sedutor. Muitos autores e teóricos citam as fases do luto como sendo vivenciadas após uma identificação diagnóstica, mas, em meu caso, trata-se mais de um processo de renascimento do que de lida com a morte.

Posso pensar que poderia ser diferente se tal identificação tivesse acontecido em minha adolescência, quando fui medicado com antidepressivos e ansiolíticos. Mas, de alguma forma, tive meios para, aos trancos e barrancos, chegar aonde estou e posso dizer que, na prática, não existe “identificação tardia”, pois nunca é tarde para o autoconhecimento.

Não estou interessado em ser “genial”, não pretendo fazer descobertas inovadoras ou ajudar no avanço da ciência ou da humanidade. Sinceramente, não me importo com nada disso, estou preocupado em pagar minhas contas, fazer coisas que gosto e ajudar, em meu trabalho, as crianças que, assim como eu, se desenvolvem por um caminho diferente do esperado.

Assisti muitas horas de conteúdo sobre o tema, li artigos e, apesar de conseguir compreender alguns mecanismos de meu funcionamento, tal não é suficiente para mudá-los. Tenho buscado ajuda profissional e, agora, profissionais especializados em minha condição.

Ressignificar o passado é uma tarefa mais fácil do que “reprogramar” hábitos do presente. Muitas vezes adotei estratégias que me ajudaram a lidar com algumas dificuldades, porém, há condicionamentos que não me ajudam muito.

Fazendo carga horária mais reduzida no trabalho, tendo um período sabático em relação a tocar em grupos musicais, para aquietar minha mente caótica e volúvel e não envolver outras pessoas em minha confusão, encontrando minhas próprias formas de me expressar musicalmente e poeticamente, sem tantas regras rígidas e sem me fazer refém do julgamento de outrem – eis algumas estratégias salutares que tenho adotado.

Sinceramente, sinto medo e uma certa apreensão, algumas vezes parece que nada do que eu faço faz sentido, outras vezes parece que só tomo decisões erradas e que não me ajudam, mas, de alguma forma, tenho esperança de que possa aparecer um dia de sol após esta noite escura.

A identificação de superdotado não é um troféu, não é “maravilhoso”, não me faz sentir melhor que outras pessoas e sequer eleva minha autoestima. Não pretendo colocar meu número de QI da avaliação no meu Curriculum Vitae nem pretendo me candidatar a filiação a sociedades de alto QI.

A verdadeira utilidade de toda esta história é a compreensão de algo indispensável para meu autoconhecimento para que eu possa buscar, a partir daí, uma vida mais realizada e mais funcional.

Fiz uma tatuagem na testa para ancorar, no meu próprio rosto, este momento de mudança. Estou lançando meu terceiro livro de poemas cujos versos trazem, também, a vivência deste processo. E encerro meu relato com este trecho:

“Eu pude interpretar a profecia
E decifrar o enigma da esfinge
A bruma dos mistérios se restringe
À densa tempestade que ora estia”

(Do poema “A deusa”, livro “A noite mais escura de minh’alma”, Alberto José)

Conheça este e outros dos meus trabalhos nas redes sociais abaixo.

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Divulgação Científica: Uma Revisão Sistemática dos Neuromitos na Educação

Neuromitos

Neuromitos

“[A palavra neuromito] foi primeiro cunhada durante a década de 80 quando o neurocirurgião Alan Crockard a utilizou para descrever um conceito errôneo sobre o funcionamento cerebral na disciplina de medicina (Howard-Jones, 2014; Fuentes & Risso, 2015). Numa abordagem educacional, um neuromito foi descrito enquanto “um equívoco gerado pelo mal entendimento, má leitura, ou citação errônea de fatos cientificamente estabelecidos (pela pesquisa sobre cérebros) para justificar o uso da pesquisa sobre cérebros na educação e em outros contextos” (OECD, 2002).” (Torrijos-Muelas, González-Víllora & Bodoque-Osma, 2021, p. 2, tradução por Filipe Russo).

Lista com 39 Neuromitos Investigados na Pesquisa Científica

  1. A aprendizagem individual funciona melhor quando se recebe informação no seu estilo de aprendizagem preferido (i.e., auditivo, visual, cinestésico)
  2. Diferenças na dominância hemisférica (cérebro esquerdo, cérebro direito) podem ajudar a explicar diferenças individuais entre aprendentes
  3. Lutas curtas de exercícios de coordenação podem melhorar a integração entre as funções cerebrais dos hemisférios direito e esquerdo
  4. Exercícios que treinam a coordenação de habilidades de percepção motora podem melhorar habilidades de literacia
  5. Ambientes ricos em estímulos melhoram os cérebros de crianças pré-escolares
  6. Crianças têm sua atenção diminuída após consumir bebidas açucaradas e/ou lanches
  7. Foi provado cientificamente que suplementos de ácidos graxos (omega-3 e omega-6) têm um efeito positivo em conquistas acadêmicas
  8. Há períodos críticos na infância, após os quais certas coisas não podem mais ser aprendidas
  9. Nós utilizamos apenas 10% do nosso cérebro
  10. Crianças precisam adquirir sua língua nativa antes de aprenderem uma segunda língua. Caso contrário, nenhuma língua será completamente adquirida
  11. Problemas de aprendizagem associados com diferenças de desenvolvimento em funções cerebrais não podem ser remediados pela educação
  12. Se estudantes não beberem uma quantidade de água o suficiente (entre 6 a 9 copos por dia), seus cérebros diminuem
  13. Beber regularmente bebidas cafeinadas reduz o estado de alerta
  14. O treino prolongado de processos mentais pode mudar a estrutura ou função de algumas partes do cérebro
  15. Aprendentes individuais demonstram preferências pelo modo como recebem informação (i.e., visual, auditiva, cinestésica)
  16. Os lados esquerdo e direito do cérebro trabalham de modo independente
  17. Há tipos separados de inteligência (i.e., interpessoal, lógica; com diferentes QIs)
  18. Beber água adicional (inclusive quando não se está mais com sede) é vital para o funcionamento cerebral
  19. Estilos de aprendizagem deveriam ser baseados em pedagogias multissensoriais (modelo VAK)
  20. Estudantes deveriam receber suplementos vitamínicos ou outras medicações para aprender melhor
  21. Ensino de acordo com estilos de aprendizagem é mais importante na aprendizagem linguística do que em outros tipos de aprendizagem
  22. Crianças têm estilos de aprendizagem que são dominados por sentidos particulares
  23. Um sinal comum de dislexia é ver as letras de trás para frente
  24. Ouvir música clássica aumenta a habilidade de raciocínio das crianças
  25. Crianças devem ser expostas a um ambiente de aprendizagem enriquecido até os 3 anos, caso contrário capacidades de aprendizagem serão perdidas
  26. O cérebro das crianças com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é superexcitado
  27. Não há relação entre desempenho em testes de QI e desempenho escolar
  28. Criar crianças de modo similar conduz a similaridades em suas personalidades adultas
  29. Percepções visuais são acompanhas de pequeninas emissões dos olhos
  30. A memória humana funciona como um gravador de fita ou uma câmera de vídeo e acuradamente grava os eventos que nós experienciamos
  31. Indivíduos podem aprender novas informações, como novos idiomas, enquanto dormem
  32. Nossa caligrafia revela nossa personalidade
  33. Desempenhos em testes de QI quase nunca mudam ao longo do tempo
  34. Tudo que é importante para o desenvolvimento cerebral ocorre no intervalo dos 3 primeiros anos
  35. Seguir uma dieta específica pode ajudar a superar certas deficiências neurológicas, tais como TDAH, dislexia, e desordens do espectro autista
  36. Praticar exercícios básicos de Ginástica Cerebral auxilia estudantes a aprender a ler e a utilizar melhor a linguagem
  37. Estudantes possuem um perfil de inteligência predominante, por exemplo, lógico-matemático, musical, ou interpessoal, o qual deve ser considerado no ensino
  38. A produção de novas conexões no cérebro pode continuar na velhice
  39. A capacidade mental é hereditária e não pode ser mudada pelo ambiente ou pela experiência (Torrijos-Muelas, González-Víllora & Bodoque-Osma, 2021, p. 12, tradução por Filipe Russo).

REFERÊNCIA
Torrijos-Muelas, Marta; González-Víllora, Sixto; Bodoque-Osma, Ana Rosa. (2021). The Persistence of Neuromyths in the Educational Settings: A Systematic Review [A Persistência de Neuromitos nos Contextos Educacionais: Uma Revisão Sistemática]. Frontiers in Psychology, Section Educational Psychology, vol. 11, art. 591923. Disponível em https://doi.org/10.3389/fpsyg.2020.591923.

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Comunidades Neurodivergentes: AHSD, TEA & TDAH

Logo da Comunidade AHSD (2023) na fonte tipográfica Limite Circular (2012) por Filipe Russo

Comunidade AHSD

Nós estamos nos encaminhando para o fim de 2023 e antes do ano acabar eu gostaria de divulgar e celebrar três comunidades que eu cocrio, coproponho e coadministro diariamente na plataforma digital whatsapp.

As Comunidades AHSD, TEA e TDAH surgiram das e orbitam as demandas da comunidade neurodivergente lusófona. É importante entendermos nosso ativismo como uma pauta tanto única quanto múltipla, única porque ninguém mais está lutando por direitos de inclusão social para a parcela populacional com funcionamento neuropsicológico divergente, múltipla porque estamos falando de uma população composta por subpopulações extremamente heterogêneas em termos internos e externos, graças a nossa natureza espectral, cada uma trabalhando conforme suas condições em frentes de enfrentamento, resistência e inclusão próprias. Nós apoiamos e celebramos suas lutas e conquistas, a neurodiversidade lusófona e a biopsicossociodiversidade humana!

A primeira dessas comunidades foi a Comunidade AHSD que hoje, dia 22 de dezembro de 2023, conta com 1.178 participantes ao longo de 29 grupos. Venha você também nos conhecer e fortalecer o movimento superdotado ao participar de uma Comunidade para pessoas com AHSD, outras neurodivergências e seus familiares e profissionais. Para acessá-la utilize o link abaixo 👇🏽

https://chat.whatsapp.com/JHI8DGOQdU70Xqscl88TrV

Logo da Comunidade TEA (2023) na fonte tipográfica Limite Circular (2012) por Filipe Russo

Comunidade TEA

A segunda delas foi a Comunidade TEA que hoje, dia 22 de dezembro de 2023, conta com 534 participantes ao longo de 14 grupos. Venha você também nos conhecer e fortalecer o movimento autista ao participar de uma Comunidade para pessoas com TEA, outras neurodivergências e seus familiares e profissionais. Para acessá-la utilize o link abaixo 👇🏽

https://chat.whatsapp.com/HykrfwBbXTq8PjxQhw7uzX

Logo da Comunidade TDAH (2023) na fonte tipográfica Limite Circular (2012) por Filipe Russo

Comunidade TDAH

Por fim, a terceira e última delas foi a Comunidade TDAH que hoje, dia 22 de dezembro de 2023, conta com 11 participantes ao longo de 3 grupos. Venha você também nos conhecer e fortalecer o movimento TDAH ao participar de uma Comunidade para pessoas com TDAH, outras neurodivergências e seus familiares e profissionais. Para acessá-la utilize o link abaixo 👇🏽

https://chat.whatsapp.com/HGWBCmcWIlY22PqU25JLLi

REGRAS, PROTOCOLOS E ADMINISTRAÇÃO DISTRIBUÍDA

Salvo exceções das respectivas gestões dos grupos das Comunidades AHSD, TEA e TDAH, se informar melhor com as pessoas em cargo de admin, a propaganda é proibida nos grupos da comunidade. Com exceção dos grupos Divulgações AHSD, Divulgações TEA e Divulgações TDAH que visam concentrar este tipo de conteúdo num espaço dedicado.

Para nossos fins relativos à neurodiversidade, estamos caracterizando propaganda como:

  • Anúncio de Profissionais, Empresas, Produtos e Serviços com Fins de Venda ou Autopromoção, mesmo que num primeiro momento se apresentem de forma gratuita ou na modalidade freemium.
  • Anúncio de Lives Individuais, Empresariais e Outras, as quais não se caracterizem enquanto eventos oficiais do governo ou do terceiro setor, quando pertinente fornecer comprovantes online.

Em casos omissos, por favor entrar em contato comigo no privado via whatsapp.

Cada grupo de cada comunidade possui autonomia administrativa, o que implica em regras e protocolos próprios. As respectivas gestões lideradas pelas pessoas em cargo de admin decidem os processos de inclusão, exclusão e boa convivência.

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Entrevista: Adriana Mendonça

Fotografia digital de Adriana Vazzoler Mendonça

Adriana Vazzoler Mendonça

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Adriana Mendonça: Passei 48 anos de minha vida achando que havia algo de muito errado comigo, pois nenhum médico, psicólogo, benzedeira, mãe de santo encontrava nada que justificasse ou aliviasse meu mal estar existencial, sentimento de inadequação e de não-pertencimento. Depois de adulta, na ocasião de um divórcio traumático, procurei ajuda médica porque não estava conseguindo dormir, e a psiquiatra que me atendeu explicou que, além do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), eu tinha Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade e Impulsividade (TDAHI) e me medicou com Ritalina (metilfenidato). Anos depois, já cursando a faculdade de Psicologia, fui encaminhada a uma avaliação neuropsicológica abrangente, com o objetivo de detalhar esse suposto TDAHI, com vistas à desmedicalização. Eu tomava a menor dose possível, não me sentia nem melhor nem pior, e não queria mais ser dependente do psicofármaco. O resultado dessa avaliação foi Altas Habilidades ou Superdotação (AH/SD).

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Adriana: Acho que sou do tipo mais genérico de pessoa superdotada, porque eu aprendo rápido em muitas áreas e procuro fazer bem feito o que aprendo. Comecei a ler e escrever antes dos cinco anos de idade e até os 20 anos já falava mais quatro idiomas, o que seria uma evidência de que tenho altas habilidades na área linguística. Sou boa também em artes, música, exercícios físicos, tudo o que tem a ver com beleza, estética, informações sensoriais variadas. Mas, se eu pegar para estudar matemática, física, ou filosofia, direito, também vou bem, só que preciso de mais tempo e trabalho porque não são áreas nas quais fui estimulada. Super acredito e defendo a exposição ao pensamento matemático e às outras lógicas da filosofia desde cedo, porque esses saberes delineiam nosso pensar e este delineia nosso destino.

SM: Como foi a sua avaliação formal de altas habilidades ou superdotação (AH/SD)? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Adriana: Minha avaliação foi feita por um profissional psicólogo competente em avaliações neuropsicológicas, mas que não sabia quase nada sobre AH/SD. Percebi que ele tinha pouco conhecimento quando li o texto de seu laudo onde havia expressões patologizadoras referindo-se às minha queixas como se eu tivesse delírios e alucinações de ser diferente, como se me sentir não-pertencente e inadequada ou ter sobre-excitabilidades fosse parte de um transtorno de personalidade. E no final ele me encaminhou a um serviço de apoio a pessoas com AH/SD que só atendia crianças.
A avaliação das AH/SD é um serviço altamente especializado, custa caro e leva tempo. Temos que criar protocolos de avaliação compatíveis com o SUS, pois toda criança ou adulto deveria poder saber se tem AH/SD e outras condições, uma vez que a sensação de não saber o que temos pode nos levar a sofrimento psíquico, adoecimento e a tratamentos inadequados.

SM: Qual a importância de um diagnóstico ou identificação condizente com a condição e a natureza de uma pessoa, isto é, com o qual a pessoa consiga se identificar e se relacionar?

Adriana: Como psicóloga, eu realizo avaliação de AH/SD. Uso abordagem qualitativa, em busca dos comportamentos superdotados. Diante de minha vivência profissional nesse campo, digo que toda avaliação é um julgamento sobre o que a pessoa é. Ninguém sabe exatamente como outro ser humano é, e nem como descobrir isso, por mais sofisticados que sejam os instrumentos. Hoje em dia, a identificação tem mais a ver com um documento para que tenhamos acesso aos nossos direitos, porque para autoconhecimento, o processo é ao longo da vida, e ninguém melhor do que nós mesmos para dizermos quem somos e como somos, sob o nosso ponto de vista até o momento. Porque, quando ampliamos a consciência e mudamos o ponto de vista, nossa autoimagem muda.
Agora… se você tem algum diagnóstico de doença, transtorno, distúrbio, síndrome etc., você tem que se tratar para reduzir os sintomas ou se curar completamente. Não dá para viver de diagnóstico, siglas, sopa de letrinhas, número de CID, porque a vida de ninguém muda só com o diagnóstico, mas, sim, com o que a pessoa faz com essa informação. Por exemplo, se fez radiografia do braço e o osso está quebrado, tem que imobilizar, colocar no gesso, depois fisioterapia, tem que reabilitar. Se fez exame de urina e está com infecção, tem que tomar o antibiótico certinho, senão a bactéria volta. E de onde vem essa cultura de não se tratar quando é saúde mental? Se a vida nos parece complicada normalmente, imagine com um cérebro que não está funcionando bem? Temos que buscar nossa reabilitação mais avidamente do que buscamos diagnósticos.
Temos também que cuidar da palavra, pois ela modifica o pensamento e, este, o nosso destino. Quando temos alguma doença, transtorno, distúrbio, nós não somos aquilo, mas apenas estamos com aquilo. “Estar com” me permite “estar sem”. Mas se eu digo “eu sou tal coisa”, não haverá nada no universo que poderá mudar essa realidade, porque “ser” é parte de você, da sua essência. Quando eu atendo uma pessoa que diz que é isso, é aquilo, eu pergunto se ela está disposta a deixar de sê-lo. Porque se ela amar mais seu diagnóstico do que sua transformação pessoal, eu não conseguirei ajudá-la.

SM: Do que se trata a sua dissertação de mestrado?

Adriana: Meu programa de mestrado foi em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem e eu quis abordar os estudantes com AH/SD adultos na graduação. Nem todos são adultos, a gente poderia dizer que são adolescentes, mas foi meu recorte para falar sobre a população que não está mais na educação básica e que continua tendo necessidade de apoios para que seu melhor floresça.
A pergunta de pesquisa que disparou o projeto foi se os estudantes que ingressam na Unicamp pelo programa de acesso chamado Vagas Olímpicas – ação afirmativa iniciada em 2018 que considera somente a pontuação das medalhas conquistadas em olimpíadas científicas, sem fazer vestibular – seriam alunos esforçados ou superdotados.
Amei fazer esse trabalho! Minha motivação intrínseca me deu energia para superar todos os momentos não tão legais da jornada do mestrado. E foi devido a essa experiência que decidi atuar como mentora acadêmica, a fim de assessorar outros estudantes superdotados a ingressarem nos processos seletivos e a concluírem seus cursos, a escreverem seus pré-projetos e também seus trabalhos finais, e a transporem os portais de cada título, com a altivez dos relógios das torres que seguem funcionando sob tiros e tempestades.

SM: O que você pode dizer para a parcela populacional idosa que talvez considere que é tarde demais para se buscar e se beneficiar de uma identificação de altas habilidades ou superdotação?

Adriana: Para quem gosta de autodesenvolvimento, para quem é curioso e automotivado, não existe tarde demais. Existe “o que eu ainda não sei e que, ao conhecer isso e aquilo, passarei a saber?”. No limite, se a pessoa descobrir no último minuto de sua vida que aqueles comportamentos, pensamentos, sentimentos e sensações que teve ao longo da vida não eram nenhuma doença, ataques espirituais nem falha de caráter, mas apenas seu cérebro diferente, poderá morrer mais tranquila ou até mobilizar energias para viver mais, com outro sentido.

SM: Você ou algum membro de sua família recebe algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Adriana: Eu comecei a fazer psicoterapia aos 16 anos de idade, para escolher a carreira universitária, pois eu gostava de tudo e, ao mesmo tempo, não queria nenhuma das opções disponíveis. Foi tenso. Depois, ao longo da vida, sem saber que eu era superdotada, passei por muitos profissionais de técnicas e abordagens diferentes e, quando eu percebia que não estava rolando, eu buscava outro. Fazia também retiros, workshops, imersões, formações, tudo o que fosse para autodesenvolvimento, e que me apresentasse caminhos não-mentais e não-verbais. Para mim, a psicologia convencional, assim como a medicina convencional, pouco me atende. As terapias de análise e interpretação de fala não me fazem sentido, principalmente porque não acredito em determinismo e porque acredito que aquilo onde a gente coloca nosso foco e energia cresce. Se eu dedico um tempo, regularmente, a falar sobre dores, traumas e problemas, será mais dos mesmos que eu produzirei. Poucos profissionais vão além da dor, convidando-nos à geração de soluções, com os recursos que já temos, e incentivando-nos a adquirir novas competências para resolver o que a gente ainda não sabe. Minhas questões são existenciais e preciso que o profissional esteja um passo à minha frente para poder me conduzir até onde ele chegou.

SM: Algum lema motivacional?

Adriana: Tenho, sim, algumas crenças mobilizadoras. Por exemplo, eu acredito que meu potencial é infinito, então posso aprender de tudo, podendo variar a quantidade de tempo e trabalho necessários para cada aprendizado. Eu também acredito que eu nunca perco nada: sempre ganho ou aprendo algo. Se isso é verdade ou não, não saberia como testar ou provar, porque crenças são mesmo assim: aquilo em que você acredita, é verdade, você tem razão.
Digo para mim mesma que todo dia alguém tem que ser impactado positivamente por meu trabalho ou por minha amizade, alguém tem que ficar um pouco melhor do que antes de ter me encontrado. Porque eu tendo a ficar muito em-mim-mesmada e perco a perspectiva de que estamos todas, todos e todes na mesma nave chamada Terra e, enquanto houver um de nós infeliz, ninguém será feliz.
Acredito que motivação é o motivo para ação, e para mim só é motivação se for intrínseca. A motivação chamada extrínseca, quando alguma coisa de fora nos motiva, não existe porque, se nada fora de nós tem poder de nos fazer mal, nada fora de nós tem poder de nos motivar.
Mesmo assim, não é todo dia que eu estou “u-huuu”. Nesses dias, aproveito para fazer limpeza e arrumação, ficando mais introspectiva.

SM: Você ou algum membro da sua família recebe algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Adriana: Eu queria ter tido acompanhamento psicopedagógico ao longo de minha educação escolar, porque desde o primeiro ano do fundamental eu estou esperando que o ano seguinte seja mais interessante. Na faculdade de Psicologia eu mesma fiz minha inclusão, porque fiz estágio na implantação do núcleo de acessibilidade do câmpus. No mestrado busquei os recursos de que precisava fora da universidade, pois ainda não havia nenhum processo formal de apoio a estudantes com AH/SD na pós-graduação.

SM: Algum recado pra galera?

Adriana: Crianças crescem. A infância é uma fase curta em nossa vida e a jornada escolar também. Depois de crescidos e formados, vivemos mais algumas – ou muitas – décadas como adultos e idosos superdotados. A supervalorização das AH/SD na infância e na escola pode negligenciar ou invisibilizar as outras necessidades de apoio ao longo da vida, em outros ambientes e contextos, como no trabalho, na família e na própria educação de adultos. Nossa legislação sobre educação especial contempla da educação infantil até a pós-graduação, mas há um mito de que o estudante adulto se vira sozinho.
Nesse sentido, meu recado para a galera é que busquem uma vida com sentido e conectada com suas potencialidades, que é daí que vem o real apoio para superar as dificuldades. Nunca é fora de você. Nunca é a mãe nem o pai, nunca é a escola, nunca é a doença, nunca é o governo, nunca é a falta de dinheiro, nem seus filhos, nem seu cônjuge, nem seus traumas, não é sobre nada fora de nós. Porque só há um fator, realmente intrínseco, que faz nossa vida mudar: nossa vontade. O resto a gente aprende, vai lá e faz.

ANEXO

Acesse, no link a seguir, a dissertação de mestrado de Adriana Vazzoler-Mendonça intitulada “Superdotados ou esforçados? Caracterização de estudantes que ingressam na universidade por medalhas de olimpíadas científicas“, apresentada à Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus de Bauru, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, Área de Concentração Desenvolvimento e Aprendizagem, como requisito para a obtenção do título de Mestre.

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Publi: Curso de Capacitação para Mediador (a) Escolar

Curso de Capacitação para Mediador (a) Escolar

Curso de Capacitação para Mediador (a) Escolar

Uma das maiores dificuldades que as pessoas autistas estão tendo em sua escolarização é a presença de mediadores escolares capacitados, que realmente compreendam o seu papel e as necessidades individualizadas da pessoa autista. Por isso o Instituto Neurodiversidade criou este curso para capacitar profissionais a iniciarem esse processo tão importante e necessário à inclusão escolar.

Conteúdo Programático

  • quem é o mediador escolar e qual o seu papel e a legislação sobre o profissional que atua na mediação escolar (em alguns contextos, esse mesmo profissional é chamado de acompanhante escolar ou de monitor)
  • o que é inclusão escolar
  • o que é autismo
  • comunicação e linguagem
  • comunicação aumentativa e alternativa
  • atuação no contexto escolar
  • manejo e conduta
  • ética profissional
  • material de apoio para download

Estrutura do Curso

  • Aulas 100% online
  • 11 módulos + material de apoio
  • Acesso ao conteúdo por 1 ano
  • Certificado de 60h disponível imediatamente após a conclusão do curso

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