
Melissa Mecenas Oshiro
1 A Descoberta
Comecei a perceber que minha filha Poliana era mais lenta em andar e falar, em se comunicar desde que ela fez um ano de idade, depois isso se tornou mais nítido quando ela estava diante de crianças de sua idade. Comecei a comentar no Projeto onde frequentamos que suspeitava que minha filha pudesse ter autismo. Um dia consegui uma consulta com uma psicopedagoga que me indicou outra profissional especialista em autismo.
Tive um primeiro contato por whatsapp com a psicóloga Cristiane de Araújo, depois preenchi vários questionários e fiquei aguardando uma consulta pessoalmente. Mas, eu estava buscando ajuda para minha filha, não para mim. A surpresa foi que essa busca me levou a um encontro inesperado: comigo mesma, a Melissa de verdade, alguém que poderia responder por que havia sido tão difícil viver dentro da família, dentro da escola e em todo lugar. Por que eu era tão diferente?
2 A Culpa
Inicialmente, me pareceu tão egoísta buscar algo para mim. Desde que me tornei mãe, ouvi muito: “Agora é só ela! Você deve esquecer de você por ela! A mãe não pode isso, a mãe não pode aquilo, a mãe não pode ficar doente, a mãe deve ser forte, a mãe e só a mãe, o pai ajuda se quiser e se puder”. Fiquei grávida num contexto muito ruim, e ainda assim a aceitei imediatamente. Amei-a tanto que isso me deu forças para acreditar que minha vida ainda tinha jeito. Enquanto ela crescia dentro de mim, eu sentia que finalmente algo bom e independente do mundo exterior era gerado, sem mácula, sem a tristeza que geralmente estragava tudo para mim. Naquele momento, eu tinha a oportunidade de conhecer o amor supremo: o da doação. Não importava como, isso foi uma chance que ganhei de Deus. Enfim, eu havia encontrado o amor incondicional.
3 O Começo de Tudo
Meu diagnóstico foi de autismo e altas habilidades. Olhando do futuro para o passado (vendo da perspectiva do início da minha vida), percebo uma criança pequena que demora a sair das fraldas, sempre apanha de outras crianças, até mesmo de suas próprias amigas, acredita em tudo que escuta, e facilmente é roubada sem contestar pois não sabe falar para se defender. Detesta comer. Chupa a comida e cospe. Seleciona alimentos, cheira-os. “É nojentinha”- dizem. E pelo fato de não gostar de comer, vive internada. Não fala quase nada. Mas, começa a inventar canções logo que a fala começa. Aos quatro anos, começa a divagar com mais intensidade, pensando sobre algumas teorias acerca da vida e do amor. Aos cinco anos ainda não sabe comer e ninguém sabe porquê. Um dia, uma prima senta com ela na mesa da cozinha da casa da avó materna e começa a lhe dizer:
“Olha, Melissa, é assim: põe na boca, mastiga e engole”. E naquele dia ela comeu pela primeira vez, sem cuspir a comida. E dali em diante parou de ficar doente. Aos seis anos, começa a estudar. Ela passa por algumas crianças chorando e não compreende pois ela estava encantada com tudo aquilo. Ela sabia de alguma forma que estava ali para algo bom: aprender. No primeiro dia de aula, choveu na hora do intervalo, um garotinho vendo que ela não conseguia abrir de maneira nenhuma sua garrafa térmica com suco, veio e abriu-a para ela. Ela acha tão lindo e fica com aquela sensação de gentileza no meio de um monte de gente ocupada e fria.
4 Bullying
Como uma criança autista e superdotada já foi difícil viver entre os normais. Mas pior era não saber da minha múltipla condição. Não se conhecer é uma arma afiada contra si mesmo. E quanto mais o tempo passava mais eu me sentia inadequada, fraca e impotente. Isso se intensificou através dos bullyings que nas décadas de oitenta e noventa não tinha nome e quem se ofendesse era visto como fraco e chato. Querer levantar uma causa na escola ou na família era sofrer novas perseguições. Meus pais me diziam: “finja que não é com você, logo passa. Se achar ruim será pior”. Fingir que estava tudo bem ou tentar manipular minha identidade era a resposta para a normalidade. Até hoje, muitas pessoas foram contra minha identificação e isso permanece um tabu.
5 Manipulação da Identidade
Há uma necessidade de que todos sejam iguais ou, pelo menos, finjam que são para atender às expectativas da família, dos amigos e da sociedade.
Ser diferente é um grande sofrimento para mim, não por ser diferente, mas pela manipulação exterior em querer me curar de quem eu sou. É uma grande expectativa de que, em algum momento, eu “amadureça”, e me transforme em uma pessoa mais igual às demais. Descobri minha dupla condição com 42 anos, e ainda assim me sinto esperando que isso mude e sinto que as pessoas esperam isso de mim. Essa manipulação constante me leva a um sofrimento insuportável.
6 Ingenuidade
Um dos problemas do autismo na minha vida foi a tendência a me machucar: a apanhar de crianças, a sofrer calada, a ser literal esperando do outro a mesma sinceridade com a qual falava e me frustrando (até adulta), a viver um relacionamento abusivo após o outro, a não saber lidar com conflitos, a buscar a solidão, ser uma criança triste, e uma adulta com depressão profunda. Muitas vezes meu idealismo foi identificado como infantilidade. Muitas vezes meu modo exigente em relação ao que me foi prometido também foi interpretado como infantilidade. E eu segui sempre sem entender as pessoas e as pessoas sem me entenderem. Porque meu raciocínio literal não entendia como aceitar a mentira para que eu me tornasse uma adulta normal e madura.
7 As Altas Habilidades
As altas habilidades começaram de forma suave através dos meus quatro anos, na sala de estar da minha avó materna. Lembro-me de ficar pensando em muitas teorias e a partir daí estava sempre me apartando das outras crianças para ficar parada num canto pensando e observando o céu. Às vezes, eu voltava e olhava para elas e me cobrava: “vai lá, brinca”. Em contrapartida, eu dizia numa conversa interna:
“Por que? Eu não entendo o que elas estão fazendo. Eu quero pensar. Eu amo pensar e olhar o céu. Amo isso”.
Logo comecei a criar músicas e quando comecei a escrever já inventava minhas próprias frases, sempre em cartinhas dedicadas a meu querido pai. Com onze anos escrevi minha primeira poesia. Passava tardes inteiras escrevendo poesias na sacada do prédio onde morávamos. E não conseguia parar de escrever e ter ideias. Mas quando estava com quatorze anos minha mãe me disse que se eu escrevesse um livro ela mandaria publicar e ela o distribuiria no aniversário para todos os convidados e ela teria muito orgulho de mim. O resultado foi que fracassei. Aquilo tudo me deprimiu demais: ela tinha muitas expectativas sobre mim e parece que isso me remetia a tudo que eu detestava: o amor condicional. Eu não sei se queria que alguém tivesse orgulho de mim, acho que eu só queria ter sido amada, amada de verdade, sem expectativas. Mas, naquele momento eu parei de escrever por onze anos. Até o momento em que a vida me cobrou que eu voltasse a exercer meu dom, no meio de uma síndrome do pânico. Eu voltei a escrever e foi o que me curou. Não usei remédios. O meu dom foi o meu remédio. Hoje, tenho cinco livros publicados e dezenas finalizados.
8 Expectativas
Comecei a sofrer com as expectativas das pessoas em relação à minha filha também, que vinham sempre com julgamentos muito cruéis: “O que foi com ela? Ela é preguiçosa!” e muitos outros. Mas, na verdade, essa expectativa surgiu desde a gestação, pois eu engravidei com 37 anos e o preconceito que sofri foi mais um fator que contribuiu para uma depressão no período gestacional e no pós-parto.
Eu como mãe aprendi a me amar de verdade. E essa jornada meio que sem querer na verdade foi a porta para achar meu diagnóstico e começar uma busca por uma vida de melhor qualidade. Se tenho expectativas é de ter qualidade de vida e nunca, nunca mais de me ferir ou deixar ninguém me ferir para parecer normal ou aceitável. Publiquei cinco livros, mas com eles vieram muitas cobranças tanto minhas quanto externas e, no final, a prosperidade não veio. E nesse momento eu me questionei: e aí, escritora mesmo? E continuei a escrever outras dezenas de livros, num fluxo incontrolável. Mas, agora com a divulgação do diagnóstico de altas habilidades ou “ah, superdotada?” sei que também virá a cobrança e a autocobrança de: cadê o sucesso? E mais uma vez eu caio no consenso de que todo superdotado é rico e famoso ou eu vivo minha história sem expectativas e encontro nisso a paz. Porque nem toda fama vem da superdotação e nem todo superdotado está preocupado com fama, mas com o desenvolvimento de suas altas habilidades.
9 Depressão
Uma das coisas que desenvolvi foi a depressão. Isso aconteceu por fatores externos e pela incompreensão da minha condição. Passei por muitos traumas: luto, bullyings, relacionamentos abusivos, preconceitos, calúnia e difamação, exposição pública na internet, abandono. Tudo isso nunca minou meu potencial como artista e escritora, mas acabou por potencializar minhas habilidades. Eu uso da dor para escrever, dos traumas para criar. Para alertar, para exortar e edificar pessoas, inventando personagens que sofrem por algo que eu já sofri ou muitas vezes escrevi sobre dores que eu apenas sofreria posteriormente: como uma premonição.
Sempre fui mais lenta para fazer tudo por conta do autismo, mas a depressão torna tudo mais lento ainda. Fico quase impossibilitada de decidir, de agir, isso dificulta a vida e me torna alvo de mais críticas negativas. No entanto, nesse momento de completo desespero, de um pânico de madrugada ou de uma vontade de desistir de tudo, o dom surge e me convida a me sentar e escrever sobre isso. Sobre a própria desesperança e não a desistir. E assim tenho feito. E são dezenas de histórias já.
10 O Futuro
Eu sempre penso e agora? E o futuro? Como posso devolver alegria quando estou tão triste? Como posso melhorar se já tentei de tudo? Hoje eu faço neurofeedback com a psicóloga Cristiane Araújo. E tenho esperanças de melhorar, digo a qualidade de vida. Muitas das nossas dores e ansiedades vem sobre lembranças de pessoas que não nos conhecem verdadeiramente, que talvez tenham crescido conosco, tenham vivido anos a nosso lado e de fato nunca nos enxergaram nem uma única vez. Quero terminar esse relato dizendo um ditado malaio:
O amor é aquele que conhece.
Obrigada, Deus, por ter me proporcionado lutar mais uma vez por meu caminho estreito, por meus dons, e por ter me encontrado e me resgatado novamente para me mostrar que nada foi à toa, que eu não sou um erro e que o erro é não saber olhar os lírios do campo. Hoje eu olho para mim e para minha filha não como máquinas de produzir sucesso, mas como portas abertas para o amor, a paz e, quiçá, o resgate da minha alegria.