Por muitos anos, vivi como se carregasse segredos dentro da minha cabeça — ideias que brotavam com fúria, curiosidades que consumiam meus pensamentos e uma sensação constante de estar “fora do compasso”. Eu sabia que pensava diferente. Mas entender o que isso significava só veio muito depois.
Quando me percebi com Altas Habilidades/Superdotação, já tinha atravessado muitos caminhos: engenharia, doutorado em química computacional, pós-doutorado, e estava fazendo pedagogia – curso que comecei com uma filha recém-nascida. E ainda assim, a ficha só caiu por volta dos 36 anos. Antes disso, eu me via como alguém multidisciplinar demais, que começava projetos demais, que mudava inexplicavelmente os interesses com frequência alta demais, e que às vezes era chamada de “sem foco”.
Uma reviravolta aconteceu durante uma palestra em que participei como aluna de pedagogia sobre os vários públicos da Educação Especial. Na parte sobre alunos Altas Habilidades/Superdotação, falaram de mitos e estereótipos sobre pessoas superdotadas — também das dificuldades, das facilidades, das dores ocultas. E aquilo me atingiu. Meu peito apertou. Eu me vi ali, slide a slide, frase por frase. E uma voz interna dizia: “Sou eu!!!!”
No meio da palestra, fui conversar com o responsável pela fala da superdotação: pedi emprestado o livro que ele mostrou e ele acabou me dando para ficar. Até hoje lembro da ansiedade ao folhear cada página, reconhecendo padrões, lembranças, características que cabiam perfeitamente em mim — mas que até então eu não tinha uma palavra para nomear. Saí dali sem conseguir prestar atenção no resto da palestra. Fui para casa, comovida, e disse ao meu marido: “Descobri. Descobri algo que estava escondido em mim.” Ele me observou e respondeu: “Ué, qual a surpresa, você sempre foi assim!”
Naquele instante derramei lágrimas de alívio por encontrar um reflexo, uma identidade. E a partir dali, comecei a revisitar minha vida com novos olhos. Aquela história de criança que decorava regras gramaticalmente estranhas, que se frustrou com professores que exigiam respostas exatas, que se perdia com decorebas em geografia e história… tudo começou a fazer sentido. Eu me lembrava das vezes que decifrava estruturas químicas como se fosse um jogo visual, ou dos momentos em que resolvia problemas de lógica quase sem esforço.
E também me recordava dos professores que me permitiram exceder: aquele de matemática que, ao me ver resolvendo antes, dizia “vá ajudar seus colegas”, e incentivava que eu explicasse; ou das turmas particulares que comecei a dar com 13 anos — aulas pagas, mesmo quase uma criança, ensinando com calma, explicando os caminhos. Eu era aquela criança que queria ensinar, compartilhar, iluminar o caminho para os outros como alguém havia tentado fazer por mim.
Mas reconhecer isso não foi simples. Havia culpa, insegurança, síndrome do impostor: “Será que foi sorte?”, “Será que passei no teste errado?”, “Será que não mereço?”. A mente racional questionava o valor desse diagnóstico, e a emocional abraçava o alívio de existir dentro de um nome que fazia sentido.
Hoje, me aproprio dessa identidade com carinho. Meus projetos — como criar espaços para incentivar trocas profundas e ofertar um ambiente acolhedor a pessoas neurodivergentes ou como as formações para professores que dou sobre inclusão — não são coincidência. Eles nascem de quem eu fui, de quem sou e de quem ainda quero me tornar.
Hoje, olho para trás e sinto gratidão pelos caminhos, pelas dores, pelas descobertas. Mas, acima de tudo, celebro a coragem de enfim me reconhecer — e de aceitar que, sim, sou intensa. E que isso é belo.
Segue o meu podcast.
