Entrevista: Gerson Machado de Avillez

Gerson Machado

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Gerson Machado de Avillez: Passei a vida toda sem saber, mesmo que desde criança fosse ‘diferente’, não apenas nos trejeitos mas gostos e preferências. Do desenho a leitura, logo obtive, sobretudo, uma curiosidade e senso de questionamento que me distinguia de muitos e penso que ainda que não me julgasse muito inteligente nessa época isso provavelmente fora a centelha que motivou desenvolver minha inteligência e habilidades.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Gerson: Por não ter feito testes vocacionais acredito que possa ter algumas habilidades que desconheça mesmo mediante os 7 tipos de inteligência de Gardner, mas pelo teste de QI feito creio ser possível traçar alguns indícios como ter tirado 100% em compreensão verbal e raciocínio lógico o que na prática pode ser traduzido no meu gosto por filosofia e literatura. Todavia tenho um pensamento muito visual que desde criança ficou tangível numa habilidade bem impressionante para desenho, mesmo que na juventude após cursar desenho artístico apresentei um bloqueio, mas que transferi a habilidade para fotografia e designer. Dentro do espectro autista sobretudo os chamados hiperfocos fornecem base para desenvolver habilidades e conhecimentos específicos.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação e altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Gerson: Muito pouco acessível e caro. Porém, julgo tão essencial quanto os testes vocacionais comuns nos Estados Unidos. No meu caso usei um dinheiro que recebi para fazer, pois antes tinha apenas indícios de minha superdotação em testes virtuais. Todavia o resultado me surpreendeu pois na internet antes meu escore atingido fora no máximo 134. Mesmo que testes virtuais não tenha validade clínica observo sobretudo como os próprios critérios da avaliação possam ser parciais e limitados, sem contar o aspecto do estado de humor. Particularmente eu quando sob estresse perco o foco e sem concentração sem dúvida o desempenho cai vertiginosamente. No final, penso que tais testes apenas formalizam algumas potencialidades mentais, pois a exemplo de savants eles podem apresentar memória fotográfica e altas habilidades geniais sem terem QI alto. Mas uma mensuração mínima associada ao tratamento e condições propícias é o que separa um país que produz cérebros a uma ineptocracia como vivemos e me julgo exemplo comprovado. O problema é que há muita vaidade de um lado e inveja de outro quando pra mim o que importa é mais os frutos de sua mente, suas obras. Mas nessa mamata que é nosso país mesmo plágio e fraudes para que uns se exaltem não é incomum, e novamente sou prova disso quando mesmo livros meus foram vendidos pirateados na internet.

SM: Conte um pouco para nós quais são as peculiaridades da sua dupla excepcionalidade (autismo leve mais superdotação).

Gerson: Penso que a grande vantagem em ter ambos seriam os hiperfocos que como obstinações em determinados temas acabam por ser um quase ‘turbo’ para a mente. Talvez permita que você perceba detalhes e padrões que poucos ou ninguém tenham visto. Mas em compensação tem sensibilidades tanto sensoriais quanto sociais que podem limitar um pouco sua interação com o mundo. Particularmente amo socializar e as duras penas consegui me desenvolver melhor socialmente, mas certas circunstâncias me sinto extremamente desconfortável com quem não confie ou sinto haver algo errado. Confesso que as vezes me passa pela cabeça a possibilidade de certos dotes extra-sensoriais por algumas coisas que percebi. Mas não tendo base científica fico em cima do muro. Outro ponto vantajoso da associação ao autismo é o fato da preferência essencial a objetividade dos fatos tanto como uma sinceridade que no meu caso pode ser um incômodo social. Mas estes dois elementos sem dúvidas colaboram com a formação de uma intelectualidade honesta de muita valia no meio acadêmico e científico.

SM: Como você entende hoje o bullying que você sofreu em fase escolar?

Gerson: Desde minha infância sofri mais por ter sido gordinho e um pouco ‘esquisito’. Sofria de bronquite e os medicamentos da época me fizeram engordar. Mas desde o ensino fundamental compensava isso com minha habilidade pra desenhar. Cheguei mesmo ter um desenho meu selecionado no meu colégio para a Rio-92 que fora o primeiro encontro internacional sobre ecologia e aquecimento global. Alguns ex-alunos que selecionaram chegaram até me procurar para me parabenizar. Porém, mesmo na faculdade sofri muito bullying meramente por causa das perguntas difíceis que fazia em aula que deixavam alguns alunos ou espantados ou com inveja e raiva. Cheguei mesmo a ser expulso de um grupo do Wahstapp da turma pois a conversa que tive com a professora que era mestre em história deixou os membros do grupo irritados, no final mesmo a professora se chateou e retirou-se do grupo. Acertei mais tarde com os alunos e não tenho mágoas, mas a impressão é que as vezes ser inteligente é um insulto para alguns por meramente esses alegarem que não entendia do que falávamos. Assim hoje procuro mais ressaltar meu QI apenas nas páginas profissionais como Linkedin ou associado aos meus trabalhos literários, pois não fico falando pra ninguém pela internet ou na rua sobre minha SD a menos quando alguém soberbo tenta se exaltar me humilhando.

SM: O que você entende por ineptocracia?

Gerson: Algo contraintuitivo não somente a sociedade mesmo por um ‘contrato social’ de relações simétricas, mas algo que é uma aberração mesmo a dinâmica da predominância do mais apto pela teoria da evolução. Na realidade parece mais um resquício pseudocientífico de predadores sociais que dominam em arbitrariedade contra vocações. Mas sobretudo numa cultura que prioriza o ganho financeiro do que a vocação. Meu pai era exemplo quando mesmo isso me ensinava e viveu, arrumou um emprego na então Embratel sem gostar, mas por necessidades financeiras mesmo que no fim ele mesmo como técnico superava engenheiros os quais chegava dar aula. Criou equipamentos e me afirmava desde criança que a ideia dos trens magnéticos ele havia tido antes de inventarem. Penso nele como mais uma vítima dessa ineptocracia, poderia ter se focado nos estudos acadêmicos e na leitura, mas antes se voltava exclusivamente ao trabalho mesmo que ainda lá tivesse alto desempenho. Minha mãe fora outro exemplo, largou os estudos sem completar o ensino médio quando era ótima aluna, tudo apenas para se casar e virar dona de casa.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Gerson: Fazia e julgo importante, pois parece fato que os que possuem SD tem maior tendência a depressão talvez por enxergar o mundo niilista como é. A verdadeira psicologia visa assim não somente encontrar a si mesmo, mas incentivar suas vocações como terapia e escape as problemas sociais e pessoais, de modo que sem a escrita hoje eu não sei se teria sobrevivido pois a ausência de longos anos de minha vida social me amarga problema psicológicos já presentes antes da solidão. Mas é fato que muitas conversas me incomodam, as poucas que tive que realmente me empolgaram fora com alguns professores da faculdade, pois sempre procuro algo e alguém que diga algo relevante que me faça refletir, que não saiba ou que eleve meu pensamento. Nesse sentido um mestre de história, Ralph, fora o que mais me inspirou ao lado do doutor Marco Antônio, mas essas pessoas são raras num mar de assuntos torpes, bisbilhotices sobre a vida alheia e trivialidades como futebol, sacanagem e afins. Conversas de conteúdo, de ideias, pra mim são a maior terapia e por isso sempre procuro o meio acadêmico o clássicos da literatura dos gêneros que amo.

SM: Conte um pouco para nós sobre sua jornada acadêmica. Em quais áreas foram sua graduação e pós-graduação? Em que área você pretende seguir no mestrado? Por quê?

Gerson: Confesso que até o ensino médio empurrava os estudos com a barriga, era rebelde e bagunceiro, sempre fui muito desajustado e temperamental. Perdi muito tempo atoa e perdido em problemas pessoais e familiares, apenas após dez anos parados do estudos resolvi fazer o Enem. Fiz sem estudar absolutamente nada, mas fora o suficiente para conseguir uma bolsa do ProUni. Antes queria cinema que é uma segunda paixão pra mim (cheguei ser fiscal de figuração em novelas da Globo e fiquei fascinado com esse meio), mas no fim peguei a vaga mais acessível na região que era Pedagogia. Confesso que as áreas dos estudos sobre educação infantil me provocavam um profundo tédio e mesmo para lecionar acho muito decepcionante e nada estimulante. Mas quando tocava nas partes de psicologia, história e filosofia haviam temas que fascinavam. Tive uma série de problemas no percurso, não apenas bullying, mas psicológicos a ponto de chegar a trancar a matrícula por causa da síndrome de pânico por não conseguir sair de casa. Mas mesmo com os enormes obstáculos terminei o curso com alto desempenho, acima da média. Nunca fiquei reprovado numa matéria e era um dos mais elogiados pelos professores. As poucas vezes que quase fiquei reprovado fora pelos problemas psicológicos que me fizeram faltar as provas me jogando direto pra AV3. Mas quando terminei fiquei com saudades por alguns contatos e conversas altamente estimulantes, pois apesar de tudo era bastante popular. Posteriormente fiz uma pós online (e vou começar outra agora) em metodologia do ensino de filosofia pois quero dar aula em faculdades por julgar o nível comportamental dos alunos um pouco melhor que do ensino fundamental e muito mais estimulante intelectualmente. Gosto de desafios as minhas aptidões e de me superar e por isso quero muito tentar um mestrado e doutorado em filosofia moral ou outras áreas da filosofia (assim como talvez uma graduação em história) mesmo que com a pandemia esteja muito mais difícil contatos pra isso.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Gerson: Nunca tive! Na vida toda! O que pra mim é mais um sério indicativo ineptocrata. O mais perto disto fora quando mostrei meu laudo de autismo na faculdade. Penso que caso eu tivesse acesso a tudo isso desde a infância provavelmente teria me desenvolvido muito melhor do que hoje, mas com esse depoimento e pessoas como vocês tenho esperanças para tantos mais. Penso quantos talentos perdidos há numa comunidade pobre, quantos não pegam nos fuzis ao invés das canetas? Cresci ao lado de favelas e vi e passei muitos crimes, vi assassinatos, tive que dar satisfação para traficantes, perdi amigos e vidas para esse meio tão deprimente. Penso que quem não valoriza a educação adequada como tal tanto como a vocação apenas favorece o oposto. Por sorte nesse sentido sempre tive a cabeça no lugar e meus pais me deram uma ótima educação. Preferia estar desenhando ou jogando videogames do que nas ruas com quem não prestava. Mesmo na adolescência tenha feito alguns atos de revolta não entrei nesse caminho. Trabalhei por mais de dois anos num evento cultural que me marcou e aprendi muito sobre a importância de valorizar a vocação, nesse evento das lonas culturais descobri vários talentos de artes, da música a poesia, percebi quanta gente talentosa era desperdiçada. O evento fora um sucesso quando o peguei no começo quando alguns diziam que o apresentador era apenas um “maluco”, mas logo ganhou espaço e fama, aparecemos nos jornais e tentaram até um piloto pra Tevê, no final, o criador fora pra Globo mas despejaram junto com toda uma leva de ótimos artistas o que é deprimente. O programa como era acabou, mas a lição ficou. Cada talento importa, e provavelmente você que lê isso as vezes tem uma habilidade que desconhece.

SM: Algum lema motivacional?

Gerson: Sou brasileiro, e desisto nunca! (risos) Minha vida é uma teimosia, mas no foco do direito a vocação, não do erro. Na realidade construí todo um pensamento filosófico em cima disto, chamo de significalismo contra um torpenismo de muito ruído dissocial e tóxico (torpenismo de torpe).

SM: Algum recado pra galera?

Gerson: Caso vocês tenham algum talento que colabore com a sociedade e dê significado a sua vida nunca desista, nunca! Nem Deus pode te proibir disto! Faça dele um sonho e trabalhe e pratique para desenvolvê-lo a todo custo. Isso será seu sentido da vida e o que lhe define ao contrário de forças exteriores na sociedade que trabalham para lhe definir de acordo com as circunstâncias. Seja mais apto que os problemas e mais forte que o ambiente e meio. Espero que mesmo eu nisso seja exemplo e assim inspire o melhor, pois a inteligência não são meros números, mas atitudes e feitos. Mesmo gênios cometem burradas, assim como a exemplo de personagens da ficção como Forest Gump que tinha embotamento fora capaz de atos geniais e memoráveis. Penso nesse filme de como na simplicidade dele pode inspirar tantos assim como os meus feitos e obras. Não busco autopromoção, mas ser um paradigma para os que tenham vocações, quero que vejam as adversidades que sobrevivi, mas ainda assim não desisti do certo e do direito a vocação. Ser inteligente é sobretudo fazer uso inteligente da inteligência, pois ela em si é apenas uma ferramenta assim como a inteligência é a habilidade de processar informações para formar e criar padrões como criações e soluções. A inteligência numa mente sem dados é tão possível como uma fogueira sem combustível, ou um desktop sem programação. Por isso estude sobre o que ama e pratique, diga não a quem diz não ao direito a vocação! Nunca usem alheios como comparação para si como a inveja, olhe para quem tenha aptidões como uma inspiração pois somente assim vocês irão crescer e se tornarem realmente melhores, melhores do que si mesmos, isto que pratico, cada biografia de gênios como Tesla, Einstein, Da Vinci e afins busco me inspirar, não invejar.

Sobre Filipe Russo

Filipe Albuquerque Russo nasceu em 22 de Agosto de 1990 em São Paulo, capital e cresceu em Manaus, Amazonas. Aos 16 retornou a sua cidade natal onde reside atualmente. Caro Jovem Adulto, seu primeiro romance estabeleceu em 2012 a estréia tripla de Filipe Russo no cenário artístico brasileiro (tipográfica com Limite Circular, fonte original exclusivamente manufaturada para a obra; fotográfica com Iluminado Expandido, capa original do livro e enfim a obra literária propriamente dita).
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2 respostas para Entrevista: Gerson Machado de Avillez

  1. Lidiane disse:

    Lidiane não consegue postar comentário

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