Entrevista: André Coneglian

André Coneglian

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

André Coneglian: Desde que tenho consciência me sentia um ser estranho ao meu ambiente familiar, escolar, social. Era um esforço tremendo tentar administrar esse sentimento, precisando sobreviver em ambientes em que não me encaixava. Meu refúgio, de modo geral, foi o “estudo”. A biblioteca da escola de ensino fundamental era meu oásis. Meu quarto foi meu quartel general, local onde eu lia, escrevia, desenhava, ouvia minhas músicas. “Descobrir” a minha superdotação, ou melhor, dar um nome ao meu modo diferente de perceber e viver o mundo foi somente aos 37 anos de idade (2018), pois desde 2015 minha esposa e eu estávamos no mundo da AH/SD por conta do nosso filho mais velho. O desenvolvimento de uma gastrite nervosa e princípio de depressão quando ele estava com 4 anos de idade. Medicada a gastrite e o início da psicoterapia, ele passou por processo de identificação aos 5 anos, refeito quando ele completou 6 anos. No início de 2020 publiquei o livro “Cartas do menino do quarto para o mundo” (Editora Apprenhendere), no qual eu relato com mais detalhes esse processo de “descoberta” e escrevo cartas para meus pais, professores, amigos, psicólogos, autoridades, família (esposa e filhos), para Deus, proseando acerca da Superdotação em minha vida e o que ela significa.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

André: O relatório da minha avaliação psicoeducacional apontou AH/SD perfil acadêmico-intelectual. Sou de Humanas, amo a nossa Língua Portuguesa, amo estudar e conhecer outras Línguas. Sou Professor de Língua Brasileira de Sinais – Libras. Estudei Espanhol, Inglês e Italiano. Não me considero fluente em Inglês e Italiano. Amo História, Geografia, Sociologia e Filosofia. Sou curioso de todos os assuntos, inclusive Química e Física, entretanto, na área de exatas eu sempre fui um aluno esforçado. Hoje, como professor, entendo que foi mais uma questão de didática (ou a falta dela) e de metodologias ativas que não fui conquistado por essas áreas mais “duras” do conhecimento, pelas escolas que passei.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação e altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

André: Num congresso sobre Altas Habilidades/Superdotação na cidade onde resido atualmente, em março de 2018, minha esposa assistiu a um minicurso ministrado por Patrícia Neumann, acerca da “Sobre-excitabilidade emocional”. Além de ser um tema diferente acerca da Superdotação, chamou a atenção da minha esposa o fato da ministrante se apresentar como uma adulta superdotada e, como psicóloga, trabalhar com o processo de identificação de adultos. Terminado o minicurso, minha esposa a apresentou. Conversamos. Peguei o cartão. Menos de um mês depois eu tinha passado pelo processo de avaliação – respondi a um questionário de indicadores de AH/SD, entrevista com a profissional e aplicação do WAIS. A avaliação formal infelizmente é restrita, tanto por falta de profissionais habilitados como por questões financeiras (não é acessível a boa parcela da população), tanto de adultos como de crianças. Porém, acredito ser importante desmistificar a ideia de que a identificação é feita somente por psicólogos, neuropsicólogos ou psicopedagogos. É preciso investir na formação inicial e na formação continuada dos professores, primeiro com conhecimento teórico e instrumentos para identificar e direcionar os alunos identificados para o atendimento educacional especializado. Para os adultos há alguns programas em universidades que fazem o processo de identificação. Porém, fica restrito à um público. É preciso que outras frentes sejam fortalecidas como Associações voltadas para a visibilidade da AH/SD, por exemplo, para contribuírem nesse processo de identificação em adultos.

SM: Você é professor de Libras e portanto, acredito ter algum contato com a comunidade de pessoas surdas. Você já conheceu alguma pessoa surda com superdotação ou altas habilidades? Como se dá o diálogo entre essas duas comunidades na sua ótica?

André: Comecei a aprender Língua de Sinais no dia 12 de agosto de 2000 e desde lá nunca parei, sempre em contato com a Comunidade Surda, da minha cidade natal (Marília-SP), de Londrina-PR, onde moro desde 2013 e Surdos e ouvintes de outras cidades/Estados e até de outros países, em congressos e eventos. Os primeiros Surdos que conheci com a identificação de superdotados foi aqui em Londrina-PR, alunos da rede estadual de educação que frequentavam a Sala de Recursos para AH/SD. Depois dessa experiência, lembrei de alguns outros Surdos da minha cidade que dentro da Comunidade Surda se destacavam por alguma habilidade ou talento que não era comum aos demais. Precisamos nos perguntar a todo momento: quem está medindo a diversidade, quem define os padrões do que é “típico” e o que é “atípico”? A concepção de deficiência, por exemplo, é dada em função da “falta”, imbricada no senso comum de que essa falta significa “incapacidade”, uma incapacidade que é generalizada, como se o sujeito cego ou surdo, além de não poder ver ou ouvir, também não são capazes de pensar, serem criativos, possuírem habilidades e talentos como qualquer outro ser humano e são, dupla ou exponencialmente mais excluídos. É preciso que nós profissionais da Educação, Psicologia, Sociologia e outras áreas possamos descontruir mitos que aprisionam a Surdez – e as outras deficiências, quanto da Superdotação, como se fossem caixinhas e áreas estanques.

SM: Ainda no que tange o ensino de Libras, você já chegou no ambiente universitário a trazer a pauta de altas habilidades para a sala de aula? Como foi?

André: A Superdotação familiar demanda muita energia. Como professor universitário responsável por uma disciplina específica, busco situa-la dentro da grande área a que pertence: a Educação Especial. Assim, desde que estou envolvido politicamente com a Superdotação, levanto as questões que envolvem a área. Deixo espaço para os alunos perguntarem e dou sugestões para os interessados se aprofundarem no tema. Um dos episódios mais marcantes desse tipo de abordagem nas aulas de Libras, foi uma aluna do curso de Pedagogia, mãe de um menino superdotado, porém, decidiu em conjunto com a psicóloga não contar ao filho que ele era superdotado. As justificativas dela estavam envoltas com alguns mitos como “a criança pode ficar soberba em relação aos demais”, “escola e familiares tratariam o filho de modo diferente dos demais” e eu argumentava dizendo que era direito do menino saber, pois de algum modo, o sujeito sempre sabe que é diferente.

SM: Você cursou licenciatura plena em pedagogia na UNESP durante a primeira metade dos anos 2000. Durante a graduação qual foi o seu contato com a pauta de altas habilidades ou superdotação? Ao que você relaciona essa abordagem?

André: Além de ser uma licenciatura plena, escolhi a formação na Educação Especial. O currículo à época tinha três semestres exclusivos para a área escolhida: Deficiência Auditiva, Física, Intelectual ou Visual, com disciplinas e estágios específicos. Porém, nenhuma disciplina versou sobre a educação de alunos com Altas Habilidades/Superdotação. Uma falha em praticamente 95% dos cursos de formação de professores. Os demais 5% atribuo que a disciplina ou tópicos sobre a educação dos superdotados exista em função dos pesquisadores que são docentes em cursos de graduação e pós-graduação. É preciso intervir urgentemente nos currículos das licenciaturas e psicologia.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

André: No momento não, mas já fizemos. Nosso filho mais velho foi o que mais fez psicoterapia, o que para nós nunca foi despesa e sim investimento. A psicóloga fez um excelente trabalho buscando ensinar como reconhecer sentimentos e emoções, nomeá-los, modos de expressá-los e administrá-los. No meu caso, foram quatro sessões (no início de 2019) para começar a aprender a lidar com a depressão… Eu gostaria de ter continuado, porém, por questões financeiras não pude. Todo mundo deveria fazer terapia na vida.

SM: Você é pesquisador e professor universitário, quais são os seus pensamentos sobre realizar uma pesquisa na área de altas habilidades ou superdotação?

André: A universidade foi um ambiente que almejei na minha formação. Quando descobri que meus professores recebiam salários para estudarem e desenvolverem pesquisas, decidi que era o que queria para minha vida. De certo modo, a universidade pública – é preciso reforçar, a universidade pública, é um campo fértil e oferece um certo grau de liberdade. Dentro da área escolhida, desenvolver o tripé Ensino-Pesquisa-Extensão, com possibilidades múltiplas de inter e transdisciplinaridade com outros cursos e áreas do conhecimento. Meus planos de curto e médio prazo envolvem um segundo doutorado, agora em Educação, para desenvolver pesquisa na área da Superdotação. Infelizmente, o “certo grau de liberdade” das universidades acaba criando guetos e muitos pesquisadores não estão dispostos a reverem suas “crenças acadêmicas”.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

André: Atualmente não. Nosso filho caçula fez acompanhamento psicopedagógico com propósito específico: testes para verificar se estava em condições de frequentar o primeiro ano do ensino fundamental. Em função da data de aniversário ser posterior à chamada “data corte” que na maioria dos Estados brasileiros é 31 de março, para a criança ser matriculada no ensino fundamental. A psicopedagoga disse que ele estava em plenas condições para ser matriculado e frequentar o primeiro ano do ensino fundamental com 5 anos e oito meses, porém, o Conselho Municipal de Educação negou nosso pedido e precisaríamos enfrentar um processo judicial para levar adiante nosso pedido. Preferimos não. Entretanto, ele fez o último ano da Educação Infantil lendo e escrevendo. Iniciou o ano letivo de 2021 no primeiro ano do ensino fundamental muito adiantado em relação à turma. Nos próximos anos teremos que pensar em um processo de aceleração como fez o filho mais velho, o qual está no sétimo ano do ensino fundamental com 10 anos de idade (dois anos a frente, pois não pegou a “data corte” na transição da educação infantil para o ensino fundamental e no ano de 2019, iniciou o quarto ano e em abril foi acelerado para o quinto ano).

SM: O que é ser um pai superdotado com filhos superdotados?

André: Não há paternidade/maternidade perfeitos. Conscientes de que não há perfeição, minha esposa e eu, buscamos educar os filhos primeiro, para serem seres humanos responsáveis individual e coletivamente. Questões próprias da Superdotação, como senso de justiça extremamente elevado acabam contribuindo para a discussão de muitas questões. Deixamos evidente para eles que nossa educação – minha e da minha esposa, quando fomos crianças/jovens em nossas famílias, nossos pais e irmãos não sabiam que tínhamos Superdotação e certas posturas e “correções” não foram adequadas causando uma série de dificuldades. É algo que buscamos evitar: “traumas desnecessários”, pois há traumas dos quais não se pode fugir, pela simples condição de sermos humanos: crescer e amadurecer dói. Crescer e amadurecer, sendo superdotado, com todas as sobre-excitabilidades, é exponencialmente mais doloroso! Porém, com o meio ambiente adequado e as ferramentas importantes é possível sobreviver a esse processo.

SM: Algum lema motivacional?

André: A literatura é uma das minhas paixões. Tenho um amor especial por Cecília Meireles. Tudo o que ela foi, tudo que ela realizou, tudo o que ela escreveu, de poemas, contos, crônicas (e muito mais), tudo dela me emociona, me eleva a alma. De tantas maravilhas que ela escreveu, sempre repito um verso: “A vida só é possível reinventada”. Nesse poema – “Reinvenção”, ela repete a palavra vida: “ Mas a vida, a vida, a vida/ a vida só é possível reinventada”. Entendo que a repetição é no sentido “a vida que vale a pena”, “aquela que posso chamar realmente de ‘vida’” e a reinvenção, para mim, necessariamente é feita pela Arte nas suas mais diversas possibilidades (artes plásticas, cênicas, literatura), também pela contemplação da Natureza (contemplação para aprendizagem). Também gosto de outro verso famoso de Cecília: “Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”. “Deixar-se cortar” tema ver com as agruras da vida, não podemos fugir delas, mas é preciso reflorescer, renascer. Apesar de que nos últimos anos para cá tenho andado muito mais pessimista, ou melhor, não acredito num mundo melhor, com pessoas melhores. A jornada para o crescimento (intelectual, cultural, espiritual…) é sempre individual, uma escolha pessoal e são poucas as pessoas dispostas a enfrentar essa jornada, muitas vezes solitária. Assim, não teremos mudanças significativas na humanidade, no mundo, pois a maioria prefere a superficialidade, o raso.

SM: Você foi presidente da Associação Londrinense de incentivo ao Talento e Altas Habilidades/Superdotação na gestão de 2017/2019. Conte como foi esse processo de aproximação e distanciamento da Associação. O que você conseguiu desenvolver durante a sua gestão?

André: Fui presidente na gestão 2017/2019, continuo sócio. A pandemia atrapalhou muitos planos. A experiência foi incrível, para o bem e para o mal. Tive contato com outras famílias e superdotados com histórias bem distintas e distantes da minha história, mas também com muitas histórias próximas. Foi a experiência na presidência da associação que me desestabilizou internamente, levando minha busca pelo processo de identificação. Associação é trabalhar pelo coletivo, e infelizmente nossa formação cultural no Brasil, de modo geral é pelo individualismo. “A lei de Gerson”, o que é melhor para mim, independente de quem esteja do meu lado ou que mal provoque aos outros o meu bem-estar. As pessoas estão ocupadas com suas rotinas de trabalho, estudos, vida social (clubes, igrejas). Fazer parte de uma associação de modo pró-ativo requer mais tempo e será um tempo “gasto” em prol de outros, cujos resultados podem não ser imediatos.

SM: Algum recado pra galera?

André: Provavelmente, a “galera” que acessou esse site e está lendo essa entrevista e conseguiu chegar até aqui, são pessoas que possuem algum interesse na área da Superdotação. Pais, mães, professores, psicólogos em busca de informações sobre o tema. O meu recado é: leia tudo o que puder, converse com pessoas envolvidas com a temática, ouçam todos os lados, sejam críticos. Se envolvam ativamente, independentemente se a Superdotação faz parte do seu dia a dia. Seja multiplicador do conhecimento. Superdotação não é glamour, o sujeito não quer aparecer. Ele só não pode ser medíocre, pois a mediocridade é contra a natureza dele. E quando ele se move para a natureza dele, ele está se realizando. Obriga-lo a mediocridade é gerar sofrimento emocional, psicológico e perdas de outras ordens. E é contra as causas desses sofrimentos que buscamos lutar!

Sobre Filipe Russo

CEO da SagaPro, A Edtech do Bem-Estar Escolar, startup incubada na incubadora Cietec IPEN-USP. Autor dos livros premiados Caro Jovem Adulto e Asfixia, assim como vencedor do concurso “O Olhar em Tempos de Quarentena” e dos prêmios de Excelência Acadêmica nas disciplinas Inteligência Artificial na Educação e Temas em Psicologia: Contribuições para Computação Aplicada à Educação. Licenciado em Matemática pelo IME-USP, pós-graduando em Computação Aplicada à Educação pelo ICMC-USP. Realizou pesquisas em Análise Real, Bioinformática e Ensino de Matemática. Tem passagem pelo Instituto Max Planck de Fisiologia Molecular Vegetal em Golm e pela Universidade Técnica de Munique, ambos na Alemanha. Indígena agênero da Associação Wyka Kwara. Fundador do blog Supereficiente Mental. Pesquisador convidado no Grupo de Estudos, coordenado pela Profa. Dra. Lucia Santaella na Cátedra Oscar Sala do IEA-USP.
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