Entrevista: Áthyllas Lopes

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Áthyllas Lopes: Foi a partir da universidade, quando, inclusive faltando a aulas, ia para a biblioteca pesquisar temas estritos de meu curso (Letras – Língua Portuguesa) e da educação de uma forma geral. Procurando livros com temas que eu julgasse interessantes, novos, pertinentes, encontrei um material de formação do Ministério da Educação sobre Educação Inclusiva, Altas habilidades… Então, começou a haver um encontro…
Fui pesquisando a temática. O fato de eu não estar mais tão interessado em ir para aulas convencionais na universidade me deu um atraso extraordinário, tanto que saí da faculdade como abandono. Ganhei a imagem de um irresponsável, desleixado. Mas meu alto envolvimento, não com o curso em seu programa fixo, mas com seu conteúdo, funcionalidade almejada, me fazia ser um pesquisador, selecionador de bibliografia, produtor de conteúdos (02 livros meus, em particular, nasceram desse contexto de fuga na biblioteca universitária, e 01 minicurso que, anos depois, ministrei na mesma faculdade), então eu pensava: “Espera! Não sou esse irresponsável!”.
Conhecendo nomes na área de altas habilidades/superdotação (ahsd), e no auge do desespero de alguém em crise consigo, com a família e já virando motivo de zombaria por colegas por nunca concluir o curso, comecei a enviar e-mails a profissionais implorando ajuda, aí, sim, já cogitando as altas habilidades. Tempos de muita dor. E solidão. Sabendo que existiam os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades (NAAHS), procurei o de meu estado. Ainda bem na base de meu conhecimento acerca das altas habilidades, minha ideia era: “Vou no NAAHS, consigo um laudo, apresento na universidade, eles veem que não sou um irresponsável, há uma flexibilização curricular que compreenda meu processo de aprendizagem, e eu concluo a faculdade”. Viajei à capital (resido no interior do estado), e, chegando ao NAAHS, tive um encontro com uma psicóloga e uma pedagoga. Mas soube que o processo de identificação levaria um período. A logística, dado eu ser do interior, me desmotivou. Então não continuei.
O tempo passou e a (não) conclusão da faculdade estava como uma bola de neve, no sentido de se avolumar. Pessoal, social e profissionalmente eu estava sofrendo. A gota d´água foi uma noite em que lágrimas, literalmente, rolaram na família. Saí de casa destroçado, e fui chorar na casa de uma psicopedagoga que conhecia, para darmos início a um processo de identificação. Entretanto, comecei com uma psicóloga, não exatamente uma identificação, mas a exposição do que eu estava vivenciado, sentindo. À época, por custos, não continuei.
Desisti da faculdade. E sabia que tinha que ingressar em outra, começar do zero e ir até o fim, focando o aspecto tempo de curso. Graduei-me tecnólogo de marketing. Depois, fiz licenciatura em Letras, em outra instituição, e realizei o sonho antigo de ser psicopedagogo. O interesse pela temática das altas habilidades, a formação pedagógica pela licenciatura em Letras, a formação em Psicopedagogia consistiram em movimentos que culminaram minha descoberta. Quando de minha atuação mais ativa na temática das altas habilidades, como psicopedagogo entusiasta seu, conversando com profissionais, mães, pessoas ahsd, participando de encontros de formação e relatos, como voluntário junto a adolescentes ahsd, vi o reforço, a certeza dessa descoberta.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Áthyllas: Intelectual: interesse pelo conhecimento das coisas, sua natureza, funcionalidade, configuração e sua dimensão histórica. Sobretudo no campo das Humanidades. Duas áreas em que se vê isso de forma mais palpável em mim são a Linguagem verbal e a Aprendizagem.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Áthyllas: É uma triste mas evidente constatação o quanto é difícil o acesso a serviços de identificação de altas habilidades/superdotação e atendimento às suas necessidades!! A temática precisa ser mais conhecida, bem como haver mais oferta concreta de serviços sistematizados. Ressalto: Ao passo de um maior conhecimento sobre a temática, é preciso haver um suporte, profissionais, propostas de identificação, atendimento efetivos.

SM: Você atua enquanto psicopedagogo, correto? A psicopedagogia é comumente confundida com a pedagogia e a psicologia, com qual definição operacional de psicopedagogia você trabalha?

Áthyllas: A Psicopedagogia é uma área do conhecimento que tem como objeto de compreensão e ação o processo de aprendizagem humana, de forma contribuir, por ele, com o bem-estar e desenvolvimento dos indivíduos e dos espaços coletivos que se constituem por estes.
Como aprendemos, quais os elementos, dimensões, aspectos e processo que configuram o processo de aprendizagem, entraves, potencialidades e possibilidades aí são a razão de ser da Psicopedagogia. Portanto, duas atitudes são fundamentais: o olhar investigativo, de análise, reflexivo, e a propiciação de um ambiente e de instrumentais para a valorização e desenvolvimento da vivência, da construção do Saber em suas diferentes áreas e temas, de forma rica e dinâmica, isto considerado nos âmbitos individual e grupal.
Precisamos ir além da ideia de que a Psicopedagogia se ocupa somente dos problemas de aprendizagem. Não! Ela pode e tem muito a contribuir no conhecimento do Homem em sua relação com a aprendizagem, maximizando-a qualitativamente, melhorando pontos positivos já existentes, prevenindo dificuldades, minorando-as, superando-as; atuar pelo bem das pessoas, por um mundo melhor.

SM: Por que todas as escolas deveriam ter ao menos um profissional da psicopedagogia atuando na instituição em período integral?

Áthyllas: A Psicopedagogia tem por objeto de compreensão e ação a aprendizagem humana: como se configura, como acontece, quais fatores a inviabilizam, quais a favorecem, empecilhos e potencialidades.
No âmbito institucional (em escolas, por exemplo), não atua lidando com aprendentes individualmente, realizando processos de avaliação e/ou intervenção psicopedagógicas, mas sim em grupos, em espaços coletivos de vivência e (re)construção de aprendizagens e da própria aprendizagem em sentido geral.
Nesse sentido, considerando a sociedade ser hoje, mais do que nunca, inundada por informações, comércios, oferta e interação cultural, ao passo que temos o desenvolvimento de pautas como cidadania, inclusão, competências e habilidades, criticidade e sustentabilidade, o papel do psicopedagogo no universo escolar deve ser o de ter capacidade e atitude de análise crítica, pesquisa, coletando dados, analisando a identidade da escola, suas práticas pedagógicas, as relações sociais nela vivenciadas entre seus membros (não apenas alunos!); deve ser capaz de coletar, analisar e refletir não isolando a escola como um ser a parte da sociedade, mas contextualizando, refletindo sobre a natureza e funcionalidade da escola, seu modo de ser organizada, de acontecer na prática cotidiana.
Pela complexidade de tantas pautas, exige-se uma atuação junto ao gestor (diretor e coordenador), professores, alunos e a própria comunidade da qual a escola faz parte, a sociedade.
Evidencio ainda temáticas como Dislexia, Discalculia, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, Síndrome de Down, Autismo, Altas habilidades/superdotação, que precisam sem melhor conhecidas e atendidas pela escola, por educadores, pelas pessoas que os vivenciam, por seus familiares no que tange ao processo de aprendizagem. Quem pode ser um importante articulador na escola propiciando qualitativas formações nessas temáticas? O psicopedagogo. Quem pode propiciar o atendimento a alunos que vivenciam essas temáticas, com um Plano Educacional Individualizado (PEI)? O psicopedagogo.
Inclusão, evasão, interesse pela escola, aprendizagem real, relação família-escola, valorização, fortalecimento e desenvolvimento de competências e habilidades… Todas são pautas que lhes são fundamentais, para análise, reflexão e atuação por ações concretas. Gostaria de ressaltar a necessidade de que o psicopedagogo reconheça até que ponto pode ir em sua atuação. Quando precisar de um psicólogo, de um fonoaudiólogo, de um psiquiatra, de um neurologista, oftalmologista (…), não haja invasão de competência (!), mas sim um trabalho multiprofissional. Articulação responsável, qualitativa. Digo isso pelo fato de o mundo atual dispor muitas informações, e ser tentador em fazer com que a pessoa se considere ser 05 profissionais em 01. Quando tiver formação devida, sem problema.
Essa importância, e considerando a própria educação como algo cotidiano, contínuo, requer um psicopedagogo atuando junto à escola também de forma cotidiana, contínua.

SM: Durante as suas graduações você produziu o seu próprio enriquecimento curricular através de idas constantes às bibliotecas das instituições, conte para nós mais sobre o seu processo e o conteúdo desse enriquecimento curricular.

Áthyllas: Esse interesse veio de 03 pontos:

• Ter clareza e segurança no conteúdo e o que eu queria com ele. Por vezes, julgava disperso o conteúdo. Queria logo ter clara consciência, eu mesmo, do percurso, dos pontos fundamentais, norteadores e substanciadores da temática em estudo. Sua natureza, sua configuração, sua funcionalidade, sua vivência, sua constituição histórica.
• Por julgar que pontos que eu julgava fundamentais em minha formação naquela temática não estarem sendo contemplados.
• Por vezes, tinha em mente o que procurar na biblioteca; em outros momentos, lançava-me numa busca “descompromissada”. Muito amor por isso. Ora metódico, ora não. Mas sempre querendo aprender de forma significativa.

Eu me realizava!

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Áthyllas: Como disse, iniciei mas não concluí. No período em que vivenciei o acompanhamento, achei muito bom, num processo de descoberta, encontro. Isso, aliás, me faz lembrar algo: quando, em estudos de altas habilidades/superdotação, descobri o termo sobre-excitabilidade emocional como associado às ahsde me encontrei em meu perfil, foi mágico! Revelador e libertador dar um nome àquilo que eu sentia.

SM: Você também é escritor! Compartilhe conosco sua produção literária, quais títulos você publicou? Sobre quais temas versam cada um?

Áthyllas:
• Viagens pela linguagem verbal – Para estudantes da Educação Básica, fala sobre a natureza da linguagem verbal, sobre o latim e como o mesmo participa da configuração da língua portuguesa.
• Ensino: Algumas considerações – Tópicos sobre a educação, de uma forma geral.
• Conversando sobre Educação em perguntas e respostas – Tópicos sobre a educação, de uma forma geral.
• Ações extracurriculares sugeridas por Antonio Áthyllas Lopes de Oliveira para a promoção da educação – Propostas de ações, projetos para uma vivência qualitativa da educação.
• Ortografinho deseja ler e escrever – Para crianças, aborda a escrita em sua natureza, funcionalidade, configuração, trazendo pontos como surgimento de letras, por que existe ortografia (por que não podemos escrever como falamos?), por que não podemos escrever chuva com x? Por que escrevemos animal com l se tem som final de /u/?

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Áthyllas: Não.

SM: Algum lema motivacional?

Áthyllas: Educação para a vida.

SM: Qual seu gênero, escritora(o) e obra favoritos da literatura nacional?

Áthyllas: Prefiro livros técnicos, em educação, psicopedagogia, sobre a natureza, funcionalidade e vivência da linguagem verbal, sobre o latim, etimologia, ciências…

SM: Algum recado pra galera?

Áthyllas: “O essencial é invisível aos olhos” (Pequeno Príncipe).

Sobre Filipe Russo

Filipe Albuquerque Russo nasceu em 22 de Agosto de 1990 em São Paulo, capital e cresceu em Manaus, Amazonas. Aos 16 retornou a sua cidade natal onde reside atualmente. Caro Jovem Adulto, seu primeiro romance estabeleceu em 2012 a estréia tripla de Filipe Russo no cenário artístico brasileiro (tipográfica com Limite Circular, fonte original exclusivamente manufaturada para a obra; fotográfica com Iluminado Expandido, capa original do livro e enfim a obra literária propriamente dita).
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