Relato Pessoal: Filipe Russo

Encanto por Filipe Russo

Encanto

Há 8 anos atrás eu fundei este blog, logo após publicar de modo independente o meu primeiro livro, o romance autoficcional Caro Jovem Adulto (2012). Mas eu acredito que a minha história começou muito antes, na minha infância no Amazonas. Eu nasci em São Paulo e cresci em Manaus, costa a costa com o Parque do Mindu, comendo flores de jambeiro e jambo, banda de tambaqui e pirarucu; temendo o chupa-cabra e a velha de branco, o bandido da luz vermelha e o cadeirudo, assim como a cisticercose e o barbeiro e o candiru.

Sempre fui uma pessoa muito sensível, desde criança. Algumas crianças notavam isso também e parte delas partiam para me assediar, adoravam me provocar até que eu explodisse, inclusive e principalmente minha irmã e meu irmão, mais velhos. Aliás sou o caçula, nasci com uma bronquite asmática diagnosticada e uma rinite subnotificada, passei a infância frequentando hospitais para fazer inalações com oxigênio ou tomar injeções antialérgicas, no início minha frequência era semanal, depois mensal, somente na adolescência deixei os hospitais e de me medicar diariamente com xaropes e anti-alérgicos. Por conta das crises de asma e das crises de sobre-excitabilidade emocional aprendi desde cedo a controlar meus impulsos, domar meu corpo, a ser disciplinado, controlador e calculista. Logo apliquei isso a rotina escolar, nunca precisei que me pedissem para fazer a lição ou me ajudassem com ela, mas muitas vezes pedia ajuda nas revisões pré-provas apenas para ter a atenção e momentos com minha mãe.

Eu fui uma criança muito criativa e imaginativa, desde então gosto de andar em círculos e falar sozinho, os amigos da minha mãe tinham medo que eu fosse autista. Eu demorei a desenvolver um controle esfincteriano da minha imaginação, em um mesmo ano caí três vezes na piscina durante festas de aniversário à noite, absorto que eu estava em minhas andanças e falanças. Nunca fui de muitos amigos, preferi ter poucos melhores amigos, amizades mais profundas, de maior cumplicidade e estes eu escolhia a dedo como quem escolhe um brinquedo de presente no Natal. Sempre me soube diferente, certa vez aos 7 anos de idade eu disse para meu pai numa praça ao voltar do parquinho: pai, eu acho que eu sou deficiente mental. Ele me perguntou por quê? Eu respondi: porque eu não sou como as outras crianças.

Até a sétima série fui um aluno nota 10, o modelo de aluno exemplar que os professores exibiam e com o qual criticavam os alunos problema. Sempre fui discreto, sabia as respostas para todas as perguntas que os professores perguntavam em sala de aula, mas respondia apenas quando ninguém mais conseguia. Na quinta série o colégio no qual eu estudava participou de uma olimpíada de matemática, competiram alunos da quinta série do fundamental até o terceiro ano do ensino médio, eu tirei a maior nota da escola, fui para a segunda fase competindo pela região Norte do país e ganhei notoriedade por uns 3 meses, mas logo retornei ao anonimato anterior, meus pais estavam mais interessados nos meus irmãos tenistas e o meu colégio com aprovações no vestibular. Vale notar que eu organizei todo meu estudo de matemática sozinho: peguei os livros dos meus irmãos, até 5 séries mais avançadas que a minha, peguei todos os livros de matemática da pequena biblioteca escolar, isolei as questões desafio e passava meus sábados resolvendo-as com meu pai, engenheiro civil. Este evento caiu em esquecimento social, mas jamais na minha alma, onde um dia ainda viria a florir.

Meu pai também me ensinou a jogar damas, xadrez e frequentemente competíamos em natação. Aos 10 anos eu sempre perdia para ele no xadrez, aos 12 às vezes eu ganhava e aos 14 ele sempre perdia para mim tanto na natação quanto no tênis e no xadrez. Até os 12 eu já havia praticado natação, judô, tênis e capoeira, eu queria ser ginasta, mas minha mãe falou que não tinha filho viado em casa. Aos 14 empolgadíssimo com as primeiras aulas de química e física eu quis um kit de química infantil, mas ela também negou, era muito perigoso. Compensei as represálias maternas criando meu próprio site sobre poesia e imagens góticas ou de video game, programando meus próprios jogos, assistindo ao canal infinito e me ensinando a praticar tai chi chuan e yoga. Há 3 anos sofrendo bullying na escola sem nenhuma atitude institucional, seja familiar ou escolar eu decidi que não toleraria mais o autoritarismo da escola, muito menos a violência estudantil, se não me mudassem de escola eu não sairia mais de casa. Eu finalmente me tornara o aluno problema que eu sempre fora.

Nos próximos 3 anos eu passaria por 4 colégios, reprovaria de ano e faria 1 supletivo. Mas ainda houve uma constelação, um arquipélago de pousadas e encruzilhadas por esse caminho tortuoso e nada linear. Fui parar em São Paulo, morando com minha avó paterna que morria de uma síndrome de Alzheimer diagnosticada e um câncer subnotificado. Eu tinha 16 anos, não queria ir para escola, conviver com pessoas que nada tinham a ver comigo, eu podia aprender tudo lendo, à época e desde então sou apaixonado por Clarice Lispector, com essa idade lembrei que 1 ou 2 anos atrás meu irmão ficava fazendo testes online de QI e QE na expectativa lúdica de se descobrir genial, de repente uma forte intuição me invadiu, eu suspeitei pela primeira vez que talvez os outros não fosse burros como eu costumava dizer, mas sim que… eu era inteligente, eu sou inteligente, particular e excepcionalmente inteligente. Eu precisava saber se era superdotado, após faltar 70% das aulas eu gabaritei a prova de química e o professor zerou a minha prova me acusando de cola. Houve uma briga entre meu pai e a direção da escola, mas a diretora logo notou que o fenômeno que apresentei na matéria de química se repetia por todas as outras matérias, ela me olhou bem nos olhos e disse que eu era superdotado, que quando ela trabalhara numa escola de judeus ela chegara a ir para Israel e conhecido turmas especiais para superdotados. Poucos meses depois a APAHSD (Associação Paulista de Altas Habilidades e Superdotação) confirmaria que eu tenho superdotação acadêmica e intelectual, verbo-linguística, lógico-matemática. Feliz com tal encontro revelador eu me ensinei o sistema de numeração binário!

Nesta época eu canalizava minha criatividade torrencial em literatura, dramaturgia, escultura, fotografia e música, lia livros como quem respira e muitas vezes apresentava distúrbios do sono. Peguei o gosto por ler livros no original em inglês assim como obras completas, meu primeiro livro em inglês foi Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, minha primeira obra completa foi do Oscar Wilde. Protagonizei uma peça de teatro e abandonei a escola, fiz supletivo e antes de experimentar o curso de Design de Games na Anhembi Morumbi produzi o vídeo teatral Material de Salvação ou O HORROR. Abandonei a graduação no primeiro semestre, decidi fazer o que fazia mais sentido para mim: criar uma fonte tipográfica, fotografias e literatura experimental. Em 2012 aos 22 anos de idade eu publicaria de modo independente pelo Clube de Autores o romance autoficcional Caro Jovem Adulto, pro qual desenvolvi a fonte tipográfica Limite Circular e a capa Iluminado Expandido, assim como fiz todo trabalho de edição e diagramação.

Menção Honrosa no 25º Programa Nascente da USP em 2017

Menção Honrosa no 25º Programa Nascente da USP em 2017

Eu escrevi e publiquei o livro e nada mudou, o mundo continuou atarefado, indiferente e hostil. Daí eu decidi retomar a pauta superdotação e altas habilidades, projetei o que seria este blog, não para falar de mim, mas para dar abertura para outros superdotados ou alto habilidosos falarem de si, por meio de relatos pessoais e entrevistas, os ensaios serviriam apenas para chamar-lhes a atenção e o interesse. O portal de referência que eu procurara avidamente na internet em 2006 eu começara a construir em 2012.

Menção Honrosa no 24º Programa Nascente da USP em 2016

Menção Honrosa no 24º Programa Nascente da USP em 2016

A publicação de Caro Jovem Adulto seria o início do fim, a partir de 2013 eu comecei a afrontar a agorafobia e os distúrbios de ansiedade que desenvolvi por conta do estresse pós-traumático. Comecei a escrever o romance de terror Asfixia e o publiquei em 2014, utilizando para tanto a fonte tipográfica Cristoforo, uma remasterização da typeface Columbus (1892) de Hermann Ihlenburg por Thomas Phinney, por meio de um projeto de crowdfunding e a capa seria feita pelo artista Thiago Bentancour que conheci pelo facebook.

Na Feira Retina no Instituto Internacional Juarez Machado em Joinville (2019)

Na Feira Retina no Instituto Internacional Juarez Machado em Joinville (2019)

Em 2016 eu retornaria à educação formal iniciando o curso de licenciatura em matemática noturno do IME-USP, faria pesquisa nas áreas de análise real, bioinformática e ensino de matemática. Fui intercambista na Universidade Técnica de Munique, estudei latim, alemão e francês, assim como ciência de dados e compus os grupos estudantis DiversIME e a Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. Ao fim da graduação cofundei a startup SagaPro, a Edtech do Bem-estar Escolar e juntos alcançamos a incubação no Cietec, a maior incubadora da América Latina. Atualmente sou diretor executivo nesta empresa e pós-graduando em computação aplicada à educação no ICMC-USP, assim como pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, na Cátedra Oscar Sala, sob a orientação de Lucia Santaella. Concomitantemente nunca abandonei a arte, a literatura e toda a diversidade de atividades e projetos que me caracterizam enquanto o indivíduo que sou e que almejo ser, nunca pensei que chegaria até aqui, aos 30 anos, a quem ou ao que quer que eu seja.

Véu do Entardecer (2021) por Filipe Russo

Véu do Entardecer (2021)

Sobre Filipe Russo

CEO da SagaPro, A Edtech do Bem-Estar Escolar, startup incubada na incubadora Cietec IPEN-USP. Autor dos livros premiados Caro Jovem Adulto e Asfixia, assim como vencedor do concurso “O Olhar em Tempos de Quarentena” e dos prêmios de Excelência Acadêmica nas disciplinas Inteligência Artificial na Educação e Temas em Psicologia: Contribuições para Computação Aplicada à Educação. Licenciado em Matemática pelo IME-USP, pós-graduando em Computação Aplicada à Educação pelo ICMC-USP. Realizou pesquisas em Análise Real, Bioinformática e Ensino de Matemática. Tem passagem pelo Instituto Max Planck de Fisiologia Molecular Vegetal em Golm e pela Universidade Técnica de Munique, ambos na Alemanha. Indígena agênero da Associação Wyka Kwara. Fundador do blog Supereficiente Mental. Pesquisador convidado no Grupo de Estudos, coordenado pela Profa. Dra. Lucia Santaella na Cátedra Oscar Sala do IEA-USP.
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2 respostas para Relato Pessoal: Filipe Russo

  1. Parabéns pelo blog, nos talentos sendo dos bons não deixe de ser também no caráter e personalidade nesse mundo que discrimina o diferente. Por isso nunca deixe que te definam, sabendo quem és por frutos, obras e avaliações clínicas não te faz soberbo por saber quem é ao contrário da megalomania e a inveja. Nunca deixem que te roubem de você mesmo! Fora um prazer participar do blog, te sigo e caso queira siga meu blog tb: http://filoversismo.blogspot.com

    Abs!

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