Entrevista: Rejane Vieira

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Rejane Vieira: Desde os cinco anos comecei a perceber coisas nas pessoas, no contexto que me rodeava e nas situações do dia-a-dia em que parecia ninguém mais ver. Isso começou a me intrigar e então me tornei alguém extremamente introspectiva e observadora. As pessoas sempre me tratavam como se eu fosse muito responsável, sempre acabava sendo líder de turma e dando um jeito de organizar as coisas. Raramente tinha amigas na minha idade, não gostava da conversa delas e sempre fui muito impaciente com coisas mal feitas, isso não só me estressava como me fazia causar problemas com as pessoas.
Quando tive um filho aos 33 anos e com um ano ele começou a ser observado pelas outras mães por ter comportamentos que denominavam como de um homenzinho eu comecei a ficar atenta e procurar conhecimentos para os “assincronismo dele”, no começo suspeitei até de Autismo. Eu já tinha tomado a decisão de mudar da engenharia/ consultoria para área de formação humana e educação, então iniciei a pós em Neuropsicopedagogia. Durante o curso, na aula de AH/SD tomei um susto com um relato de um alto habilidoso projetado na lousa, parecia que ele tinha acessado minha cabeça. Fiquei tonta, desorientada e completamente assustada. Ao estudar melhor a matéria, percebi que finalmente eu parecia ter encontrado um nome para todos os meus sintomas e sentimentos, foi muito assustador no início. Então procurei minhas professoras, elas me ajudaram em meu processo, tive acesso a vários instrumentos e literaturas e durante o curso de AH/SD em 2020, após realizar várias atividades com estas professoras e uma psicóloga do antigo NAAS-CE, chegaram a definição de que de fato eu tenho AH/SD. Eu reiniciei uma nova ávida a partir dali.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Rejane: Produtivo-criativo, social, intelectual e psicomotor.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Rejane: Como já relatei em meu processo de descoberta acima, aqui me deterei em lhe dizer minha percepção sobre a qualificação dos profissionais que se intitulam aptos a identificar e, se me permite estenderei também minha percepção à população em geral.
Ao meu ver existe uma questão maior, diante de tantas áreas que compõem o universo inclusivo. Vejo que existe: ignorância, baixo investimento em pesquisas, ausência de ações de marketing e divulgação sobre o universo das AH/SD e isso poderá ter como bastidores o baixo nível de autoconhecimento em geral, não só dos profissionais que identificariam, pois estes precisam de outros protagonistas, como educadores e pais, nos quais muitas vezes lhes faltam autoconhecimento, como podem apresentar até a vaidade e o medo individual de tratar alguém e situações que vão além da “própria capacidade”, quando se imaginando em uma posição inferior. Ao que me parece é difícil que hajam frentes interessadas em descobrir potenciais talentosos em outros seres. O nível social em geral não tem interesse nisso e a ignorância diminui a visibilidade positiva e o tamanho do retorno social que proporcionariam tais indivíduos.

SM: O que você trouxe consigo do curso em engenharia de alimentos pela universidade federal do Ceará?

Rejane: Embora eu não tenha seguido na área, mas foi lá minha primeira experiência universitária, minhas maiores ações ativistas e de enfrentamento do sistema medíocre de condicionamento educacional. Sempre fui líder de turma, isso quase virou uma profissão (kkk). Mas na universidade foi a primeira vez que eu exercitei minha habilidade de liderança para transformar vidas e impactar o sistema. Eu descobri minha força de atuação, planejamento e mobilização. E meu segundo presente foram meus amigos, que estão comigo até hoje.

SM: Você é sócia diretora na empresa CelonCoach, conte para nós sobre o papel do empreendedorismo na sua vida.

Rejane: A CelonCoach é a última das minhas tentativas de aplicar meus conhecimentos, criatividade e capacidade construtiva para entregar resultados de excelência, uma necessidade que vai além da entrega em si e sustento, mas um alimento para manter o ânimo da minha alma, uma vez que sempre fui muito limitada em TODAS as empresas pelas quais passei. Não acho que podemos empreender apenas em negócios próprios, tentei fazer empreendedorismo dentro dos negócios que tive acesso, buscando novas linhas de atuação, formas diferentes de fazer as coisas… enfim, os empresários em geral são muito inseguros e esquecem-se de se profissionalizar e desenvolver novos líderes para poderem voar mais alto e mais longe. Isso limita o empreendedorismo dentro das empresas.

SM: Você tem pretensão de continuar contribuindo na área de pesquisa? Em qual segmento?

Rejane: Sim, pretendo inclusive fazer uma terceira faculdade, mas agora presencialmente e me envolver em atividades de laboratório e pesquisa, tudo relacionado à área de neurociência e desenvolvimento humano.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Rejane: Não, eu mesma já tentei por conta do meu histórico de vida, mas infelizmente foi um fracasso, Ela parecia perdida com as coisas que eu contava, não senti progresso, durante ou após. Desisti.

SM: Como a sua formação em neuropsicopedagogia influi na criação do seu filho?

Rejane: A Neuropsicopedagogia me serviu como mentora-teórica na condução das minhas abordagens deducionais: atividades cognitivas, modulações comportamentais e desenvolvimento de atividades lúdicas. Hoje com o avanço da neurociência eu tenho uma maior percepção e conhecimento sobre áreas “físicas do cérebro”. Eu trabalhei e continuo a trabalhar a medida que ele cresce e vai manifestando, em seus comportamentos, expressões literárias, vocabulários e rabiscos, tentando potencializar habilidades e ampliar suas percepção de si e do mundo.

SM: Nós vivemos numa cultura empresarial, acadêmica e institucional, onde o assédio moral é mais comum do que gostaríamos. Como diz o título do livro “Não Basta Não Ser Racista: SEJAMOS ANTIRRACISTAS”. Como podemos propor um apoio moral em contraposição ao assédio moral existente, conivente e estrutural?

Rejane: Imagino que a primeira defesa de qualquer indivíduo seja o conhecimento, então acredito na criação de espaços para falar sobre a temática como fazemos nos grupos, divulgação de informações sobre as temáticas, rodas de conversas e disseminação de conteúdos informativos, além de momentos para troca de práticas de autoproteção bem sucedidas. Tudo isto pode contribuir em grande medida para combater e diminuir a ignorância que leva alguns a cometer tal atitude e também nos protege de quem o faz por pura maldade.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Rejane: Não, ninguém recebe este tipo de atendimento formalmente, o que eu como profissional da área faço é inserir nas rotinas domésticas e na educação parental as práticas neuropsicopedagógicas principalmente relacionadas às funções executivas: memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e autorregulação, da mesma forma procuro trabalhar estas mesmas funções em minha mãe, ela é idosa.

SM: Algum lema motivacional?

Rejane: Simmmmmmmmmmm! “Mesmo com medo vá, coragem não é a ausência de medo e sim a superação dele para chegar a um pouco mais longe!”
Quando aprendemos algo do tipo, nos permitimos experimentar e experimentamos o resultado disso, então fica mais fácil da próxima vez optar por ir avante.

SM: Recentemente você tem flertado com a dramaturgia e as artes cênicas, você já teve experiências prévias nesse meio? O que atrai sua criatividade e interesse para essas performances?

Rejane: Na escola tínhamos as famosas gincanas e feiras de ciências, sempre ansiei por decorar textos, fazer apresentações, ser as personagens nas gincanas. Quando tentei fazer teatro minha mãe não deixou. Então fiquei com isto. Gosto de criar personagens para falar de coisas diferentes de uma forma mais humorística ou caricaturada, deixa a gente livre de padrões e para falar de assuntos polêmicos usando o storytelling.

SM: O que é ser uma mãe e esposa superdotada?

Rejane: Um arco-íris de emoções, possibilidades e dificuldades (kkkkkkk), porque em alguns momentos as potencialidades dinamizam, trazem criatividade, adaptabilidade e ânimo, ao mesmo tempo geram grandes expectativas, ansiedade e auto-cobranças da minha parte e do outro, requerendo de mim um trabalho constante no sentido do equilíbrio. Preciso domar um gigante interior constantemente, para me fazer metre e exemplo para meu filho, sem deixar de ser uma aprendente e parceira do marido. A sensação de “autopoder” me traz desafios diários que os encaro como meu oxigênio, preciso deles para me manter viva, mas o oxigênio que te permite a vida, também é o que te mata…, então tudo é muito dúbio e mutável, o que me dá esperança constante, pois quando está ruim, sei que vai ficar bom. Às vezes sinto que gostaria de sair correndo pelo mundo e logo depois enxergo que tenho um mundo gigante, mais seguro, cheio de amor e alegria para ser explorado exatamente onde estou.

SM: Algum recado pra galera?

Rejane: Hummmm, começarei respondendo da seguinte forma. Neste momento, diante das minhas experiências, limitações e nível evolutivo eu recomendo que as pessoas lutem para ter saúde, paz de espírito, autoconhecimento e excelentes relacionamentos. Hoje vejo que estas coisas são temperos do que alguns chamariam de felicidade. Chegamos a terra e recebemos nosso corpo, acumularemos coisas (materiais, títulos, experiências, networking e etc.) com as quais, se não criarmos uma relação de propósito, não levaremos nada, pois nem o corpo que recebemos ao chegar, levaremos conosco.

É isso!!!!!!!
Mais uma vez foi um prazer compartilhar um pouco da minha alma em forma de letras, palavras, frases e sentido.

Sobre Filipe Russo

CEO da SagaPro, A Edtech do Bem-Estar Escolar, startup incubada na incubadora Cietec IPEN-USP. Autor dos livros premiados Caro Jovem Adulto e Asfixia, assim como vencedor do concurso “O Olhar em Tempos de Quarentena” e dos prêmios de Excelência Acadêmica nas disciplinas Inteligência Artificial na Educação e Temas em Psicologia: Contribuições para Computação Aplicada à Educação. Licenciado em Matemática pelo IME-USP, pós-graduando em Computação Aplicada à Educação pelo ICMC-USP. Realizou pesquisas em Análise Real, Bioinformática e Ensino de Matemática. Tem passagem pelo Instituto Max Planck de Fisiologia Molecular Vegetal em Golm e pela Universidade Técnica de Munique, ambos na Alemanha. Indígena agênero da Associação Wyka Kwara. Fundador do blog Supereficiente Mental. Pesquisador convidado no Grupo de Estudos, coordenado pela Profa. Dra. Lucia Santaella na Cátedra Oscar Sala do IEA-USP.
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