Entrevista: Tatiane Oliveira

Tatiane Oliveira & Afrânio, seu marido

Tatiane Oliveira & Afrânio, seu marido

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Tatiane Oliveira: A descoberta com certeza se deu após o processo de Avaliação de Altas habilidades/superdotação feito pela Psicóloga Patrícia Neumann em setembro de 2020. A devolutiva me fez ficar pasma após saber que eu era uma superdotada nas 4 áreas, ou seja, multipotencial, foram vários meses para eu falar sobre, e absorver tanta coisa.

Mas eu já sabia da superdotação desde a infância. Era notável que eu era diferente dos demais. Extremamente intensa, com dificuldade de obedecer e seguir regras rígidas, revoltada, senso de justiça aguçado e grande facilidade de aprendizado.

SM: Quais são suas áreas de altas habilidades?

Tatiane: Acadêmico intelectual linguística e lógico matemática, liderança, esporte e artes.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Tatiane: Eu fiz avaliação neuropsicológica em 2018, mas não foi uma boa avaliação. Como ela focava em números não viu realmente meu potencial. Não me deu um norte e fiquei perdida. Sem contar que fui avaliada estando frágil emocionalmente e isso interferiu nos resultados deixando dúvidas. O resultado ficou inconclusivo, mas eu sabia que era diferente e que precisava de ajuda com urgência. Depois disso solicitei ajuda na Mensa, mas infelizmente fui excluída por conta dos meus escores não estarem nos níveis aceitos por eles.

Depois que fui avaliada da forma multidimensional pela psicóloga Patrícia Neumann percebi o quanto esse tipo de avaliação é importante para ver a essência da pessoa com altas habilidades/superdotação. E foi quando descobri quantas potencialidades eu tenho e como disse a Patrícia “Você pode ser o que você quiser”, palavras essas que foram uma mola propulsora na minha vida.

Sim, é um serviço que possui muita carência de bons profissionais. Como estou atuando no processo de avaliação para altas habilidades/superdotação pude perceber através dos relatórios que chegam até mim quanto desconhecimento há sobre a área e quantos superdotados passam despercebidos. E ainda há aqueles que aproveitam das famílias dizendo que sabem realizar avaliação e se aproveitam daqueles que estão fragilizados. Por isso é importante tomar cuidado e buscar referências de bons profissionais para que a avaliação seja um processo lindo e não um martírio.

SM: Qual área você gostaria de investigar e pesquisar no mestrado?

Tatiane: Desejo realizar um mestrado acadêmico na área da educação. E com temas voltados para neurodiversidade, educação especial focando nas altas habilidades/superdotação, neurociências, alfabetização, práticas transdisciplinares kkkkkk é difícil escolher.

SM: Quais seus pensamentos sobre educação à distância? Como você acredita que a população brasileira poderia se beneficiar de mestrados e doutorados à distância?

Tatiane: Eu não tenho nenhum preconceito sobre a Educação à distância. Fiz faculdade e pós EAD e fui tutora EAD. Acredito que tudo depende do aluno e a forma como ele leva os estudos a sério. Muitos podem burlar tanto no presencial como no EAD. Vai da escolha de cada um, mas eu acredito na lei do retorno, aqueles que se dedicam ao bem um dia ele volta e vice-versa. A pandemia me deu muitas oportunidades de cursar como aluna especial e ouvinte de programas de mestrado e isso foi algo maravilhoso para mim. Acredito que toda população brasileira iria se beneficiar com mestrado e doutorado à distância, pois existem várias pessoas que tem desejo, mas não tem condições de realizar.

SM: O que é uma professora alfabetizadora?

Tatiane: É uma professora que se dedica na inserção do processo de leitura e escrita, ou seja, aquela que ensina a ler e escrever com significado.

Multiteliê

Multiteliê

SM: Quais as importâncias da Arte para a Educação e da Educação para a Arte?

Tatiane: Pra mim a arte é tudo. A arte para a educação é de extrema importância para se formar seres críticos, reflexivos e modificadores da realidade que os cercam. Educar para arte é necessário para que os indivíduos se tornem mais sensíveis, mais humanos, mais empatas e para que desenvolvam saúde emocional tendo assim vazão para seus talentos e sentimentos.

SM: Quais os impactos da sobre-excitabilidade no cotidiano da pessoa superdotada?

Tatiane: Se a pessoa estiver com a sobre-excitabilidade desregulada, ou seja, tendo picos de 8 ou 80 pode acarretar algumas situações complicadas. Por exemplo se você estiver com a sobre-excitabilidade sensorial mais aguçada qualquer barulho pode te gerar uma crise. Se for a intelectual, você pode falar sobre determinado assunto frente a uma autoridade que sabe menos que você e essa pessoa se sentir ameaçada pelo seu conhecimento e gerar perseguições no futuro. Se for a emocional qualquer palavra dita sem nenhuma intenção de te magoar vai te ferir e você vai se sentir péssima ou péssimo. Se for a imaginativa você pode dar quantas ideias desejar para pessoas que nunca vão te ouvir, nunca vão te entender e nunca vão te dar vazão para criatividade podando assim seu talento que é algo necessário para se ter uma válvula de escape.

Mas algo posso afirmar: as sobre-excitabilidades nos superdotados são formas de crescimento e evolução. Elas te ajudam a se equilibrar e aprender a ter autorregulação. E por quê? Porque você vai se autoanalisar até descobrir porque elas oscilam tanto. Vai encontrar formas de controlá-las em busca do equilíbrio (e algo que busco há muitos anos e agora estou aprendendo a me autorregular). E isso faz parte da teoria da Desintegração Positiva de Kazimierz Dąbrowski.

Se for a psicomotora vão te chamar de “acelerado”, “hiperativo”, pois é difícil para você ficar parada (o). Quando você tem que participar de reuniões, aulas ou palestras expositivas que não te chamam atenção, suas pernas não param. Você se mexe a todo instante, chacoalha a caneta na mão e fica difícil se concentrar no que a pessoa está falando, pois aquilo não te interessa, não te prende no assunto. Às vezes a pessoa responsável não tem didática suficiente para fazer quem está ouvindo ficar atento e você dispersa.

SM: Nós vivemos numa cultura empresarial, acadêmica e institucional, onde o assédio moral é mais comum do que gostaríamos. Como podemos propor um apoio moral em contraposição ao assédio moral existente, conivente e estrutural?

Tatiane: Para prevenir qualquer tipo de assédio moral todos os funcionários de determinada instituição ou empresa devem buscar ajuda terapêutica. Por que? Porque pessoas com saúde emocional bem desenvolvida não atacam as outras, não prejudicam e não sentem inveja dos demais que se destacam.

SM: O que é ser uma esposa superdotada?

Tatiane: Ser uma esposa superdotada é ser aquela que a cada minuto quer mudar os móveis de lugar. Quer fazer faxina de domingo. É fazer almoço e tocar piano ao mesmo tempo. É fazer uma bagunça organizada para criar algo e deixar o marido super organizado de cabelo em pé. É aquela que consegue consertar as coisas que quebra e arruma soluções quando esquece de descongelar a carne para o almoço ou quando precisa fazer uma receita rápida.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Tatiane: Eu e meu esposo fazemos acompanhamento psicológico. Eu faço terapia há muitos anos, porque sempre soube que precisa de ajuda nessa parte. Agradeço a todas as terapeutas e profissionais que me atenderam, pois foram muito importantes no meu desenvolvimento emocional e autorregulação.

Meu marido começou realizar terapia há pouco tempo. Era bem resistente, mas agora já está sentindo melhoras em suas questões psicológicas.

SM: Algum lema motivacional?

Tatiane: Antigamente: Eu posso, eu faço, eu consigo!

Atualmente: Cuide da sua saúde emocional, pois assim você vai emanar boas energias onde quer que esteja e se blindará contra as energias negativas vindas de outras pessoas mal resolvidas.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Tatiane: Infelizmente não, mas eu seria bem diferente se eu ou alguém da minha família tivesse recebido acompanhamento psicopedagógico, pois o atendimento desse tipo de profissional faz uma grande diferença no desenvolvimento do ser humano.

Eu mesma auxiliei a minha sobrinha que estava com dificuldade na fala com aulas de musicalização e atendimento on-line. Isso a ajudou muito a melhorar nessa questão.

SM: Algum recado pra galera?

Tatiane: Não há nada melhor no mundo do que ser a gente mesmo, sem ser podado, sem ter que usar máscaras e fingir ser menos do que somos. Por isso brilhem, brilhem e façam a diferença onde quer que estejam!

Trabalho Acadêmico

A INVISIBILIDADE DAS ALTAS HABILIDADES SUPERDOTAÇÃO NA EDUCAÇÃO: A QUESTÃO DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Redes & Mídias Sociais

Linktree da Tatiane Oliveira

Sobre Filipe Russo

Autore dos livros premiados “Caro Jovem Adulto” e “Asfixia”, assim como vencedore do concurso “O Olhar em Tempos de Quarentena” e de prêmios de excelência acadêmica em Inteligência Artificial, Psicologia, Gamificação, Empatia e Computação Afetiva, nesta última disciplina também recebeu o reconhecimento de melhor projeto. Licenciade em Matemática pelo IME-USP, pós-graduande em Computação Aplicada à Educação pelo ICMC-USP. Indígena agênere da Associação Wyka Kwara. Fundadore do blog Supereficiente Mental. Pesquisadore nas cátedras Oscar Sala e Otavio Frias Filho do IEA-USP, sob a coordenação de Lucia Santaella e Muniz Sodré, respectivamente.
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