Entrevista: Poliana Vogel

Poliana & Família

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Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Poliana Vogel: Desde criança eu sentia que meu modo de funcionar era diferente, notava a facilidade com o processo de aprendizagem e a facilidade para ocupar lugares de liderança; essas foram as primeiras características evidentes. O que eu não sabia é que isso tinha um nome e nem que haviam mais coisas no pacote, como o pensamento acelerado, a inquietação, a alta sensibilidade, a profundidade e a intensidade que me compõe. Já na fase adulta, procurei respostas para uma intensa sensação de não realização intelectual. Eu sentia desejo de estudar mais, pesquisar, criar, mas não conseguia realizar esse desejo. Encontrei um post sobre dificuldades comuns em pessoas superdotadas e me identifiquei imediatamente. Lembrei das percepções da infância sobre as facilidades e comecei a pesquisar mais sobre o tema, e quanto mais pesquisava mais me identificava. As peças foram se encaixando, e após essas percepções, decidi passar pelo processo de identificação profissional.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Poliana: Acadêmico-intelectual na área linguística e liderança.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Poliana: Minha avaliação foi, ao meu ver, bem detalhada. Respondi a diversos questionários investigando traços dos diferentes tipos de inteligência e sobre excitabilidades. Realizei um teste de QI também que era opcional.
É certamente um serviço acessível apenas a uma pequena parcela da população, o que é lamentável. Cada vez que percebo que a minha identificação proporcionou autoconhecimento, clareza, e contribui para o meu processo de desenvolvimento atual, penso sobre a quantidade de talentos escondidos existentes por aí.

SM: Como você expressa os seus talentos em liderança?

Poliana: Meu primeiro impulso é dizer que não expresso, porque atualmente não ocupo um lugar que costumeiramente imaginamos como o lugar de líder. Então eu lembro que liderar é conduzir um grupo, seja do tamanho que for, a alcançar êxito em um objetivo. Posso colocar então que me expresso como líder nas mais diversas situações familiares, entre amigos, estudos e trabalho. Quando me observo como a pessoa que está liderando uma situação, procuro fazer uma leitura do grupo, observando quais as características sobressalentes de cada pessoa, tanto habilidades quando dificuldades, então procuro comunicar-me da forma mais clara e gentil possível, pontuando qual nosso objetivo comum e traçando em conjunto estratégias para alcançar. Costumo perguntar como cada um gostaria de colaborar e vou entrelaçando suas falas com as minhas observações iniciais. Sempre que possível me mantenho motivada de modo a inspirar os outros para também manterem-se assim. Amo essa troca, amo ser testemunha da capacidade e do potencial humano ao observar meus amigos, familiares, pacientes e colegas trazerem as mais variadas ideias de soluções. Ao final, se o objetivo é alcançado, acho super importante o hábito de comemorar; cada pequena conquista é importante! E caso o resultado seja diferente do esperado, reavalio o que pode ser aproveitado da experiência.

SM: Qual o seu gênero literário favorito e por quê?

Poliana: Eu não sei dizer. Nunca pensei sobre isso. Quando li a pergunta, pensei: Será que eu tenho um? Devo ter, mas creio que a dificuldade em responder esteja ligada ao longo tempo em que estive afastada da leitura. Sendo que a retomada desse prazeroso hábito é muito recente, ficarei devendo essa resposta precisa. O que posso colocar, é que como você verá mais a baixo, há pouco tempo conheci as obras de Shakespeare e fiquei realmente apaixonada! Sua riqueza de detalhes e a profundidade dos personagens me emocionam! Aqui deve ter uma pista.

SM: Conte para nós como foi sua trajetória acadêmica no nível superior.

Poliana: Complicada! Uma montanha russa onde o encantamento com o conhecimento me colocava no ponto alto da montanha e as questões psicoemocionais nos pontos mais baixos. Em alguns momentos e em matérias especificas fluí com a rapidez, o foco e a produtividade com que estava habituada na infância. Em outros, tive crises de ansiedade ou encontrei-me altamente desmotivada. No primeiro ano fui aprovada com notas altas em neuroanatomia e reprovei em saúde pública, por deixar de fazer as provas e pelas faltas. Hoje observo que sentia muito medo de reviver os momentos de hostilidade e exclusão social ocorridos nos anos anteriores de estudos, e isso prejudicou todo o processo de desenvolvimento acadêmico.

SM: Você tem pretensão de seguir na área de pesquisa? Em qual segmento?

Poliana: Ainda não sei. Posso dizer que, a princípio, não será logo. Alguns ramos das neurociências me interessam, como as pesquisas com neurônios espelho e empatia, e neurociências e inteligência emocional. Também sinto interesse em pesquisar divulgação científica, pois já pensei em atuar futuramente nesta área. Ou quem sabe eu sinta atração por outra área daqui a algum tempo, enfim, isso está bem indefinido por enquanto.

SM: Como a sua pós-graduação em neurociências influi na criação do seu filho?

Poliana: Vou precisar escolher alguns pontos para comentar, porque a cada módulo eu trouxe alguns conhecimentos para a prática. Um dos pontos ajustados foi o sono. Definimos em conjunto, e com base nos novos conhecimentos adquiridos, a quantidade de horas, bem como o melhor horário para dormir. Tive insights importantes sobre como melhorar a qualidade do nosso vínculo afetivo nas aulas sobre ocitocina (hormônio produzido quando expressamos afeto). Também coletei ideias para a educação emocional dele nas aulas sobre modulação emocional; e como incentivar novos aprendizados, de forma geral, com base nos novos estudos sobre neuroplasticidade.
Tenho várias formações diferentes, e todas acabam influenciando no meu estilo parental. Espero que seja possível ter uma ideia acerca dos conhecimentos da pós graduação nesta breve pontuação.

SM: Você foi alvo de bullying na escola, como os pais podem contribuir com a comunidade escolar de modo a mitigar os estragos e promover uma cultura mais empática e menos agressiva?

Poliana: Creio que o caminho seja a educação emocional. Dr. Daniel Goleman em seu livro sobre inteligência emocional, aponta que a empatia surge a partir do autoconhecimento. Quanto mais sei sobre mim, mais consigo compreender o outro. Se as crianças aprendessem desde cedo a reconhecer seus sentimentos, e compreender que eles são sua responsabilidade, certamente direcionariam menor volume de agressividade para com o outro.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Poliana: Atualmente não.

SM: Algum lema motivacional?

Poliana: Certa vez aprendi em uma aula do Dr. Daniel Goleman, que por sua vez relata ter ouvido do Dalai Lama, a seguinte organização: “Ao decidir fazer algo, se pergunte se o que você irá fazer é bom pra você, é bom para o outro e é bom para o mundo. Se a resposta for sim para as três perguntas, faça!”

SM: Nos recomende 3 livros de cabeceira: 1 para a infância, 1 para a adolescência e 1 para a vida adulta.

Poliana: Para a infância, o primeiro e mais querido livro que me vem à mente é: Pollyanna (Eleanor H. Porter). Foi meu livro favorito quando criança; e sinto que o “jogo do contente” praticado pela Pollyanna do livro pode ser inspirador em muitos momentos de vida.

Para a adolescência, indicarei um livro que eu gostaria de ter lido nesta fase: A coragem de ser você mesmo (Brene Brown). Essa fase da vida pode ser bem desafiadora, principalmente em relação a nossa identidade e nossa relação com os outros. Neste livro, Brene esplana de forma simples e assertiva sobre essas questões. Não é voltado para adolescentes, mas sinto que cabe muito bem nessa fase.

Para a fase adulta, para quem ainda não sentiu a inspiração de ler Shakespeare, eu recomendo que experimente! Eu não cogitava essa leitura, mas assim que comecei a ler Hamlet, entendi imediatamente porque William Shakespeare faz sucesso há mais de 400 anos.

SM: O que é ser uma mãe e esposa superdotada?

Poliana: Que pergunta difícil! Consigo observar que a superdotação deve atravessar muitos pontos da minha relação com o meu marido e meu filho. Vou escolher alguns para comentar: Existe a relação bem fácil de imaginar, que é o auxílio aos estudos. Mesmo que eu não lembre do tema que o meu filho está estudando, tenho facilidade pra relembrar o conteúdo e assim oferecer apoio. Meu marido prestou concurso recentemente, e foi possível que eu estudasse com ele em alguns momentos. A curiosidade característica da superdotação também se mostra útil para pesquisar e buscar novas ideias, seja para a organização da casa, da rotina, ou uma viagem em família.
Creio que um desafio pra nós três seja o manejo das minhas sobre excitabilidades. Posso ficar bastante sensível em muitos momentos, seja a barulhos ou cheiros; ou fisicamente sensível, como com mudanças de temperaturas ou outras questões físicas. Até mesmo as reações de uma vacina podem ser bem desafiadoras, e isso demanda cuidado da família toda. A sobre excitabilidade emocional e intelectual pode ser cansativa para eles também, em momentos de pico, tenho preferido ficar mais sozinha para não gerar sobrecarga.

SM: Algum recado pra galera?

Poliana: Se expressem! Contem suas histórias, suas experiencias. Ouçam os outros, se relacionem! Relacionamentos nos curam, nos fazem crescer, nos inspiram, nos fazem sentir mais conectados e menos inadequados. E se vocês chegaram até aqui, ao final desta entrevista, eu agradeço pela troca! Um abraço. Poli.

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Sobre Filipe Russo

Autore dos livros premiados “Caro Jovem Adulto” e “Asfixia”, assim como vencedore do concurso “O Olhar em Tempos de Quarentena” e de prêmios de excelência acadêmica em Inteligência Artificial, Psicologia, Gamificação, Empatia e Computação Afetiva, nesta última disciplina também recebeu o reconhecimento de melhor projeto. Licenciade em Matemática pelo IME-USP, pós-graduande em Computação Aplicada à Educação pelo ICMC-USP. Indígena agênere da Associação Wyka Kwara. Fundadore do blog Supereficiente Mental. Pesquisadore nas cátedras Oscar Sala e Otavio Frias Filho do IEA-USP, sob a coordenação de Lucia Santaella e Muniz Sodré, respectivamente.
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