Entrevista: Marina Carvalho

Marina Carvalho

Marina Carvalho

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Marina Carvalho: Não foi um processo fácil. Ele começou com reflexões a respeito de meu desenvolvimento escolar, que era, a um só tempo, academicamente louvável e, pelas sensações que me gerava, um catalisador de sofrimento e inadequação. A busca por respostas me levou primeiro a uma profissional especializada em aprendizagem e depois a uma psicóloga especializada em AH/SD (Altas Habilidades e Superdotação).

No geral, posso dizer que estou aprendendo a lidar com meu próprio cérebro.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Marina: Acadêmico Geral/Intelectual, Artes e Criatividade – o que foi levantado até o momento. Há suspeitas que podem estender um pouco essa lista, e eu ainda devo participar de um mapeamento de Altas Habilidades que considera as Inteligências Múltiplas propostas e estudadas por Howard Gardner.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Marina: Meu processo de identificação foi conduzido por uma psicóloga especializada em Altas Habilidades, mas, para além disso, existem testes específicos (as chamadas avaliações neuropsicológicas) que, sim, eu considero ainda pouco acessíveis à maior parte da população brasileira devido aos seus custos. Uma pessoa precisa desembolsar valores consideráveis para passar por essas avaliações, e eu mesma, nesse cenário, não pude estabelecê-las como uma prioridade, e devo fazê-las somente quando estiver confortável em muitas outras áreas da minha vida.

SM: Nos conte mais sobre a sensibilidade que atravessa a lógica.

Marina: Em nosso tempo atual, vigora, creio eu, uma tendência à separação entre faculdades lógicas e mensuráveis e faculdades abstratas e subjetivas (como a sensibilidade). Eu não costumo funcionar exatamente assim, e percebo que deixar que a sensibilidade convirja e atravesse a lógica pode trazer inúmeros benefícios sociais e humanísticos, além de nos permitir descobrir novas lógicas escondidas ao que nos era previamente conhecido.

SM: Você é autora do livro de poesias “Rasgados: do Acaso, da Angústia e do Caminho”, como se deu o seu processo criativo para a obra e sobre quais temas versam suas poesias?

Marina: Meu processo criativo está muito conectado ao ritmo e à melodia das palavras. Eu procuro encontrar essa pulsação dentro de mim e depois a transponho para o papel.

Gosto de escrever em estado de imersão, diminuindo o volume do mundo ao redor. Quando escrevo sobre personagens fictícias, é importante que haja verdade, veracidade em suas histórias; então, naquele preciso momento no qual estou digitando, a vida das personagens toma o palco, e, de certa forma, eu sinto o que elas sentem. É uma espécie de empatia.
“Rasgados” foi, para mim, uma ponte de diálogo com o mundo. Eu me interesso muito pelas relações humanas, e todos os poemas da coletânea, embora possam ser lidos separadamente, também foram ordenados de modo a desenhar a linha do tempo do relacionamento de um casal. O pano de fundo de “Rasgados” é o choque resultante do contato com o amor versus o papel esperado das mulheres em conjunturas românticas.

SM: Qual a sua forma de arte favorita e como você se relaciona com ela?

Marina: Eu não tenho preferência por um ou outro tipo de arte muito por conta de como as diferentes manifestações artísticas reverberam em mim… eu as sinto profundamente conectadas entre si. Poeticamente falando, é quase uma sinestesia.

SM: Nos conte mais sobre as metodologias de ensino próprias que você desenvolve(u) para aprender as mais diversas disciplinas e habilidades.

Marina: Bom, eu acabei reparando que, na maior parte das vezes, eu não aprendia literalmente quando o professor ensinava, mas sozinha mesmo e através de algo que era como um mergulho científico, uma pesquisa sobre determinado assunto atrelada a uma construção de contexto entre ele e sua área geral do conhecimento. Eu me valho muito de contextualizações e da coerência interna de informações inseridas juntas em um panorama. Sentido e significado também importam bastante.

SM: Qual a sua forma de ciência favorita e como você se relaciona com ela?

Marina: Talvez seja um hobby do momento, mas tenho me interessado por tudo que diz respeito à Nutrição, o que me aproxima um tanto mais de áreas como a Química e a Biologia. Isso é diferente para mim – costumava gostar mais da Física e da Matemática. Acho que, no fim das contas, o que predomina aqui é a aplicabilidade: o que posso, hoje, adotar em meu cotidiano que gere uma transformação real?

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Marina: Sim. Minhas irmãs fazem terapia atualmente e eu já fiz análise junguiana por alguns anos. Acho que a terapia foi muito benéfica a todas nós como uma provocadora de jornadas de autorreflexão. Quando fiz análise, eu me interessei pelo trabalho de Jung, por sua abordagem do Inconsciente, dos sonhos… tive o imenso benefício de poder me ver através de outras lentes.

SM: Algum lema motivacional?

Marina: “Enquanto há vida, há esperança”. Por mais que eu tenha lido a respeito de um artigo científico que, em tese, contradiz essa sentença, acho que podemos, dia a dia, trabalhar por algo melhor que também nos permita o vislumbre de novas e empolgantes esperanças.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Marina: Não, mas, falando por mim, gostaria bastante de ter essa experiência de apoio continuado.

SM: Algum recado pra galera?

Marina: Comunidade AH/SD do Brasil, agradeço pelo espaço de expressão.

Filipe, agradeço pelas perguntas atenciosas e interessadas.

Até breve, pessoal!

Sobre Filipe Russo

Autore dos livros premiados “Caro Jovem Adulto” e “Asfixia”, assim como vencedore do concurso “O Olhar em Tempos de Quarentena” e de prêmios de excelência acadêmica em Inteligência Artificial, Psicologia, Gamificação, Empatia e Computação Afetiva, nesta última disciplina também recebeu o reconhecimento de melhor projeto. Licenciade em Matemática pelo IME-USP, pós-graduande em Computação Aplicada à Educação pelo ICMC-USP. Indígena agênere da Associação Wyka Kwara. Fundadore do blog Supereficiente Mental. Pesquisadore nas cátedras Oscar Sala e Otavio Frias Filho do IEA-USP, sob a coordenação de Lucia Santaella e Muniz Sodré, respectivamente.
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