Relato Pessoal: Tassiana Livi

Tassiana Livi

Tassiana Livi

Sou Tassiana, tenho 42 anos mas somente há 3 anos descobri o que é ser ahsd pois meu filho foi identificado. No ensino fundamental sempre fui diferente. Eu era bem auto suficiente mas a autoestima era baixa. Era muito boa em algumas matérias e outras só estudava para passar. Aliás estudar no sentido de revisar e ler eu nunca fazia. Escutava e estava aprendido. Lembro na 7 série eu nem caderno de Português tinha e o de matemática eu escrevia de trás para frente, para que? Quebrar padrões. Em uma aula de redação fazia a minha e mais umas 3 e vendia para os meus colegas copiarem. Sempre tirei 10 em português, biologia, ciências, química, física e literatura. Educação artística era minha paixão. Matemática minha perdição, tive trauma da repetição e decoreba da tabuada não sei fazer até hoje. Pintar, desenhar, recortar, colar, usar minha imaginação não era difícil. Eu tive sempre muita imaginação. Amizades sempre restritas. Uma ou duas amigas por turma minhas “the best” e só. Eu tinha amizade com todos mas me restringia a sair e ir na casa apenas da minha melhor amiga. Não gostava daquelas meninas mais populares, que todos meninos queriam sair, ficavam de conversa em todo canto e tiravam notas ruins. Eu era mais do tipo “rebelde”. Filha do meio de pais separados não convivi com o meu pai. Minha figura masculina era meu avô, extremamente trabalhador e inteligentíssimo. É até hoje com 88 anos.
Depois fiz um vestibular no segundo ano do segundo grau em farmácia na UFRGS, faculdade pública concorridíssima. Passei. Mas ainda faltava mais um ano pra me formar no ensino médio. Quando terminei o segundo grau escolhi matemática!!! É que minha amiga fez e passou….tbem passei não tive dificuldades, fiz um semestre e pensei: ÉCA!!! Não é isso que eu quero não!! Fiz vestibular novamente e passei pra arquitetura. Obviamente a cadeira de matemática fui obrigada a fazer 2 vezes. Não entrava na minha cabeça aqueles cálculos de derivadas. Por fim passei e continuei. Vim morar sozinha na segunda maior cidade do RS, trouxe meu marido para cá, até nascer meu primeiro filho e tranquei a faculdade. Fiz dois concursos públicos. Um passei e fiquei em 2 lugar, por 7 anos na minha cidade, outro passei em 2 lugar novamente, em outra cidade e assim estou há 22 anos na área da saúde. Na faculdade a procrastinação me atrapalhava muito. Mas sempre decidida resolvi mudar.
Acho que o serviço público não serve para SDs. É castrante. Principalmente quem tem perfil de liderança. Abandonei a arquitetura no final da graduação e fiz Gestão da Qualidade. Me formei e já engatei uma especialização em gestão da Saúde Pública e Privada. Nesse meio tempo fiquei grávida do meu segundo filho e ainda juntei mais duas mamães de SDs para lutar pelas leis dos SDs junto ao setor público. Foram 1 ano e meio entre reuniões e lutas até que as leis foram sancionadas e entraram em vigor no município. Que alívio. Chegou um momento que eu estava fazendo a pós, um curso de extensão de ensino para pessoas AHSD, um curso de auditoria interna da ISO/IEC 17025 e uma especialização em Lean Six Sigma Healthcare. Ufa!
Comecei a graduação de Pedagogia e me apaixonei. Me graduei novamente e fiz especialização em Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional. Eu nunca parei de estudar. Meu filho sempre precisou de mim, não é fácil. Hoje sou eu que acompanho ele e tudo que diz respeito a AHSD. Estou fazendo a especialização em AHSD e TDAH.
Acho que a minha missão ficou muito clara desde então. Trabalhar efetivamente com REAB e identificação e acompanhamento de AHSD é a minha paixão. Prometi pro meu filho que nunca uma pessoa iria passar pelas minhas mãos sem ter um olhar diferenciado e ser acolhido. Ele chorou. Sofreu muito na escola. Mas hoje ele é muito mais feliz. Desistir nunca foi uma opção.

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Sobre Filipe Russo

Autore dos livros premiados “Caro Jovem Adulto” e “Asfixia”, assim como vencedore do concurso “O Olhar em Tempos de Quarentena” e de prêmios de excelência acadêmica em Inteligência Artificial, Psicologia, Gamificação, Empatia e Computação Afetiva, nesta última disciplina também recebeu o reconhecimento de melhor projeto. Licenciade em Matemática pelo IME-USP, pós-graduande em Computação Aplicada à Educação pelo ICMC-USP. Indígena agênere da Associação Wyka Kwara. Fundadore do blog Supereficiente Mental. Pesquisadore nas cátedras Oscar Sala e Otavio Frias Filho do IEA-USP, sob a coordenação de Lucia Santaella e Muniz Sodré, respectivamente.
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