Relato Pessoal: Amanda de Oliveira

Amanda de Oliveira

Amanda de Oliveira

Sou Amanda, tenho 37 anos e recebi minha identificação de pessoa com AHSD recentemente. Desde criança não me identifico com meus pares, tenho diversas sensibilidades e frequentemente na vida fui rotulada como do contra, revoltada e mal educada. Lembro com clareza de me sentir deslocada no ambiente escolar por não compartilhar dos mesmos gostos, desejos e princípios dos colegas. Tinha um desempenho escolar acima da média, mas não fui uma criança prodígio nem nada. Fazia amizades facilmente, mas elas não duravam pois meu comportamento destoava dos demais, o que me gerava desconforto e a constante sensação de que eu não cumpria o papel que era esperado de mim. Na adolescência meu rendimento escolar caiu drasticamente conforme minhas habilidades sociais “aumentavam”. Coloco entre aspas pois parecia positivo o fato de naquele momento eu participava de atividades com pares por vontade própria, mas hoje percebo o quanto isso me custou e acho que o saldo no final foi negativo. Minhas sensibilidades eram levadas ao limite todos os dias e em pouco tempo comecei a abusar do uso de álcool e drogas. Ao final do ensino médio aprendi de fato a estudar e já tinha clareza que o sistema escolar não servia para mim, nem para a grande maioria dos colegas. Na faculdade fui uma aluna mediana pois nas matérias que não eram do meu interesse eu tinha que mover uma montanha para conseguir me engajar. Ao passo que nas que eram do meu interesse eu ia excepcionalmente bem. Como exemplo cito o fato do meu trabalho de conclusão de curso ter sido publicado na revista latino americana mais prestigiada da área. Saindo da faculdade segui para o mestrado, porém, não gostei do curso e nunca cheguei a concluí-lo. Nessa época consegui o trabalho dos meus sonhos e em pouquíssimo tempo percebi que não seria possível seguir no mesmo também. Tanto pela demanda física, bem como a social, mas principalmente por perceber a corrupção absurda envolvida. Sempre me compadeci com injustiças e se há algo a ser feito que esteja ao meu alcance, eu preciso fazer. Isso me levou a trabalhar com resgate de fauna silvestre e na vida pessoal me dedicar ao resgate de animais domésticos. Aos 28 tive meu filho e sinto que este foi o momento que pude de fato começar a viver a vida que eu queria. Até aquele momento a vida parecia uma sequência de passos pré estabelecidos e eu nunca tinha motivos fortes o suficiente para desviar de caminho. Tenho uma vida bastante privilegiada e sempre tive opções, mas ao mesmo tempo tinha grande pressão para seguir a linha da vida padrão. Gostaria de salientar que a maternidade foi escolha minha (na medida do possível visto que nossos desejos são influenciados pelo entorno), até o ano anterior eu abominava a possibilidade de ser mãe e no momento que quis ser, engravidei e pari. Ironicamente, ao finalmente ter cumprido o papel social que era esperado de mim, pude ter mais clareza da realidade que me cerca. A vida inteira nós mulheres somos oprimidas mas quando viramos mãe a opressão vem em dobro. A partir daí comecei a estudar sobre comportamento e desenvolvimento humano, o que foi crucial para meu autoconhecimento. A pressão social para andar em bando diminuiu e pude de fato socializar na medida que me era confortável. Conforme meu filho foi crescendo, também foi crescente a percepção do quão destoante é o meu comportamento, bem como do meu companheiro e do nosso filho. Quando surgiu a suspeita do pequeno ser TDAH, me debrucei sobre o estudo das neurodivergências e logo ficou claro que somos todos atípicos. Hoje percebo que o meu nível de comprometimento, bem como minha função executiva, são bastante acima da média. Não consigo ter conversas superficiais em nenhuma situação, minha necessidade de aprofundar sobre absolutamente tudo e minha rigidez de pensamento tornam a socialização bastante desafiadora. Tenho uma série de hipersensibilidades sensoriais e para não me sobrecarregar diariamente preciso de diversas ferramentas. Não entendo a maioria dos rituais da nossa sociedade e a maioria das tomadas de decisões das pessoas me parecem absurdas. No ano passado fui identificada com super dotação acadêmica, naturalista, linguística e intrapessoal. Estudar e entender como meu cérebro funciona fizeram eu mudar completamente minha percepção sobre quem sou no mundo. Hoje tenho clareza das minhas limitações, bem como das potencialidades, o que faz com que eu consiga organizar minha vida de maneira a minimizar sofrimentos e ter qualidade de vida.

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Sobre Filipe Russo

Filipe Russo é indígena agênere da Associação Multiétnica Wyka Kwara, autore dos romances premiados Caro Jovem Adulto (2012; 2022) e Asfixia (2014), assim como vencedore do concurso artístico O Olhar em Tempos de Quarentena (2020) e de prêmios de excelência acadêmica em Inteligência Artificial, Psicologia, Gamificação, Empatia e Computação Afetiva (2021). Especialista em computação aplicada à educação pelo ICMC-USP (2022), licenciade em matemática pelo IME-USP (2020). Fundadore e editore do website SupereficienteMental.com (2013-), blog com mais de 180 publicações, dentre relatos pessoais, ensaios e entrevistas, sobre neurodiversidade e superdotação ou altas habilidades. Pesquisadore no grupo de estudos TransObjeto associado à PUC-SP e no grupo de pesquisa MatematiQueer associada à UFRJ. Coautore nas antologias poéticas Poesia Política: vote, Outros 500: Não queremos mais o quinhentismo, poETes: altas habilidades com poesia, Fotoescritos do Confinamento e recebeu menção honrosa pelo ensaio Desígnio de um corpo, na 4º edição do projeto Tem Livro Bolando na Mesa. Filipe possui aperfeiçoamento em Altas Habilidades ou Superdotação: Identificação e Atendimento Educacional Especializado pela UFPel e em Serviço de Atendimento Educacional Especializado pela UFSM (2022).
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