Entrevista: Adriana Mendonça

Fotografia digital de Adriana Vazzoler Mendonça

Adriana Vazzoler Mendonça

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Adriana Mendonça: Passei 48 anos de minha vida achando que havia algo de muito errado comigo, pois nenhum médico, psicólogo, benzedeira, mãe de santo encontrava nada que justificasse ou aliviasse meu mal estar existencial, sentimento de inadequação e de não-pertencimento. Depois de adulta, na ocasião de um divórcio traumático, procurei ajuda médica porque não estava conseguindo dormir, e a psiquiatra que me atendeu explicou que, além do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), eu tinha Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade e Impulsividade (TDAHI) e me medicou com Ritalina (metilfenidato). Anos depois, já cursando a faculdade de Psicologia, fui encaminhada a uma avaliação neuropsicológica abrangente, com o objetivo de detalhar esse suposto TDAHI, com vistas à desmedicalização. Eu tomava a menor dose possível, não me sentia nem melhor nem pior, e não queria mais ser dependente do psicofármaco. O resultado dessa avaliação foi Altas Habilidades ou Superdotação (AH/SD).

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Adriana: Acho que sou do tipo mais genérico de pessoa superdotada, porque eu aprendo rápido em muitas áreas e procuro fazer bem feito o que aprendo. Comecei a ler e escrever antes dos cinco anos de idade e até os 20 anos já falava mais quatro idiomas, o que seria uma evidência de que tenho altas habilidades na área linguística. Sou boa também em artes, música, exercícios físicos, tudo o que tem a ver com beleza, estética, informações sensoriais variadas. Mas, se eu pegar para estudar matemática, física, ou filosofia, direito, também vou bem, só que preciso de mais tempo e trabalho porque não são áreas nas quais fui estimulada. Super acredito e defendo a exposição ao pensamento matemático e às outras lógicas da filosofia desde cedo, porque esses saberes delineiam nosso pensar e este delineia nosso destino.

SM: Como foi a sua avaliação formal de altas habilidades ou superdotação (AH/SD)? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Adriana: Minha avaliação foi feita por um profissional psicólogo competente em avaliações neuropsicológicas, mas que não sabia quase nada sobre AH/SD. Percebi que ele tinha pouco conhecimento quando li o texto de seu laudo onde havia expressões patologizadoras referindo-se às minha queixas como se eu tivesse delírios e alucinações de ser diferente, como se me sentir não-pertencente e inadequada ou ter sobre-excitabilidades fosse parte de um transtorno de personalidade. E no final ele me encaminhou a um serviço de apoio a pessoas com AH/SD que só atendia crianças.
A avaliação das AH/SD é um serviço altamente especializado, custa caro e leva tempo. Temos que criar protocolos de avaliação compatíveis com o SUS, pois toda criança ou adulto deveria poder saber se tem AH/SD e outras condições, uma vez que a sensação de não saber o que temos pode nos levar a sofrimento psíquico, adoecimento e a tratamentos inadequados.

SM: Qual a importância de um diagnóstico ou identificação condizente com a condição e a natureza de uma pessoa, isto é, com o qual a pessoa consiga se identificar e se relacionar?

Adriana: Como psicóloga, eu realizo avaliação de AH/SD. Uso abordagem qualitativa, em busca dos comportamentos superdotados. Diante de minha vivência profissional nesse campo, digo que toda avaliação é um julgamento sobre o que a pessoa é. Ninguém sabe exatamente como outro ser humano é, e nem como descobrir isso, por mais sofisticados que sejam os instrumentos. Hoje em dia, a identificação tem mais a ver com um documento para que tenhamos acesso aos nossos direitos, porque para autoconhecimento, o processo é ao longo da vida, e ninguém melhor do que nós mesmos para dizermos quem somos e como somos, sob o nosso ponto de vista até o momento. Porque, quando ampliamos a consciência e mudamos o ponto de vista, nossa autoimagem muda.
Agora… se você tem algum diagnóstico de doença, transtorno, distúrbio, síndrome etc., você tem que se tratar para reduzir os sintomas ou se curar completamente. Não dá para viver de diagnóstico, siglas, sopa de letrinhas, número de CID, porque a vida de ninguém muda só com o diagnóstico, mas, sim, com o que a pessoa faz com essa informação. Por exemplo, se fez radiografia do braço e o osso está quebrado, tem que imobilizar, colocar no gesso, depois fisioterapia, tem que reabilitar. Se fez exame de urina e está com infecção, tem que tomar o antibiótico certinho, senão a bactéria volta. E de onde vem essa cultura de não se tratar quando é saúde mental? Se a vida nos parece complicada normalmente, imagine com um cérebro que não está funcionando bem? Temos que buscar nossa reabilitação mais avidamente do que buscamos diagnósticos.
Temos também que cuidar da palavra, pois ela modifica o pensamento e, este, o nosso destino. Quando temos alguma doença, transtorno, distúrbio, nós não somos aquilo, mas apenas estamos com aquilo. “Estar com” me permite “estar sem”. Mas se eu digo “eu sou tal coisa”, não haverá nada no universo que poderá mudar essa realidade, porque “ser” é parte de você, da sua essência. Quando eu atendo uma pessoa que diz que é isso, é aquilo, eu pergunto se ela está disposta a deixar de sê-lo. Porque se ela amar mais seu diagnóstico do que sua transformação pessoal, eu não conseguirei ajudá-la.

SM: Do que se trata a sua dissertação de mestrado?

Adriana: Meu programa de mestrado foi em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem e eu quis abordar os estudantes com AH/SD adultos na graduação. Nem todos são adultos, a gente poderia dizer que são adolescentes, mas foi meu recorte para falar sobre a população que não está mais na educação básica e que continua tendo necessidade de apoios para que seu melhor floresça.
A pergunta de pesquisa que disparou o projeto foi se os estudantes que ingressam na Unicamp pelo programa de acesso chamado Vagas Olímpicas – ação afirmativa iniciada em 2018 que considera somente a pontuação das medalhas conquistadas em olimpíadas científicas, sem fazer vestibular – seriam alunos esforçados ou superdotados.
Amei fazer esse trabalho! Minha motivação intrínseca me deu energia para superar todos os momentos não tão legais da jornada do mestrado. E foi devido a essa experiência que decidi atuar como mentora acadêmica, a fim de assessorar outros estudantes superdotados a ingressarem nos processos seletivos e a concluírem seus cursos, a escreverem seus pré-projetos e também seus trabalhos finais, e a transporem os portais de cada título, com a altivez dos relógios das torres que seguem funcionando sob tiros e tempestades.

SM: O que você pode dizer para a parcela populacional idosa que talvez considere que é tarde demais para se buscar e se beneficiar de uma identificação de altas habilidades ou superdotação?

Adriana: Para quem gosta de autodesenvolvimento, para quem é curioso e automotivado, não existe tarde demais. Existe “o que eu ainda não sei e que, ao conhecer isso e aquilo, passarei a saber?”. No limite, se a pessoa descobrir no último minuto de sua vida que aqueles comportamentos, pensamentos, sentimentos e sensações que teve ao longo da vida não eram nenhuma doença, ataques espirituais nem falha de caráter, mas apenas seu cérebro diferente, poderá morrer mais tranquila ou até mobilizar energias para viver mais, com outro sentido.

SM: Você ou algum membro de sua família recebe algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Adriana: Eu comecei a fazer psicoterapia aos 16 anos de idade, para escolher a carreira universitária, pois eu gostava de tudo e, ao mesmo tempo, não queria nenhuma das opções disponíveis. Foi tenso. Depois, ao longo da vida, sem saber que eu era superdotada, passei por muitos profissionais de técnicas e abordagens diferentes e, quando eu percebia que não estava rolando, eu buscava outro. Fazia também retiros, workshops, imersões, formações, tudo o que fosse para autodesenvolvimento, e que me apresentasse caminhos não-mentais e não-verbais. Para mim, a psicologia convencional, assim como a medicina convencional, pouco me atende. As terapias de análise e interpretação de fala não me fazem sentido, principalmente porque não acredito em determinismo e porque acredito que aquilo onde a gente coloca nosso foco e energia cresce. Se eu dedico um tempo, regularmente, a falar sobre dores, traumas e problemas, será mais dos mesmos que eu produzirei. Poucos profissionais vão além da dor, convidando-nos à geração de soluções, com os recursos que já temos, e incentivando-nos a adquirir novas competências para resolver o que a gente ainda não sabe. Minhas questões são existenciais e preciso que o profissional esteja um passo à minha frente para poder me conduzir até onde ele chegou.

SM: Algum lema motivacional?

Adriana: Tenho, sim, algumas crenças mobilizadoras. Por exemplo, eu acredito que meu potencial é infinito, então posso aprender de tudo, podendo variar a quantidade de tempo e trabalho necessários para cada aprendizado. Eu também acredito que eu nunca perco nada: sempre ganho ou aprendo algo. Se isso é verdade ou não, não saberia como testar ou provar, porque crenças são mesmo assim: aquilo em que você acredita, é verdade, você tem razão.
Digo para mim mesma que todo dia alguém tem que ser impactado positivamente por meu trabalho ou por minha amizade, alguém tem que ficar um pouco melhor do que antes de ter me encontrado. Porque eu tendo a ficar muito em-mim-mesmada e perco a perspectiva de que estamos todas, todos e todes na mesma nave chamada Terra e, enquanto houver um de nós infeliz, ninguém será feliz.
Acredito que motivação é o motivo para ação, e para mim só é motivação se for intrínseca. A motivação chamada extrínseca, quando alguma coisa de fora nos motiva, não existe porque, se nada fora de nós tem poder de nos fazer mal, nada fora de nós tem poder de nos motivar.
Mesmo assim, não é todo dia que eu estou “u-huuu”. Nesses dias, aproveito para fazer limpeza e arrumação, ficando mais introspectiva.

SM: Você ou algum membro da sua família recebe algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Adriana: Eu queria ter tido acompanhamento psicopedagógico ao longo de minha educação escolar, porque desde o primeiro ano do fundamental eu estou esperando que o ano seguinte seja mais interessante. Na faculdade de Psicologia eu mesma fiz minha inclusão, porque fiz estágio na implantação do núcleo de acessibilidade do câmpus. No mestrado busquei os recursos de que precisava fora da universidade, pois ainda não havia nenhum processo formal de apoio a estudantes com AH/SD na pós-graduação.

SM: Algum recado pra galera?

Adriana: Crianças crescem. A infância é uma fase curta em nossa vida e a jornada escolar também. Depois de crescidos e formados, vivemos mais algumas – ou muitas – décadas como adultos e idosos superdotados. A supervalorização das AH/SD na infância e na escola pode negligenciar ou invisibilizar as outras necessidades de apoio ao longo da vida, em outros ambientes e contextos, como no trabalho, na família e na própria educação de adultos. Nossa legislação sobre educação especial contempla da educação infantil até a pós-graduação, mas há um mito de que o estudante adulto se vira sozinho.
Nesse sentido, meu recado para a galera é que busquem uma vida com sentido e conectada com suas potencialidades, que é daí que vem o real apoio para superar as dificuldades. Nunca é fora de você. Nunca é a mãe nem o pai, nunca é a escola, nunca é a doença, nunca é o governo, nunca é a falta de dinheiro, nem seus filhos, nem seu cônjuge, nem seus traumas, não é sobre nada fora de nós. Porque só há um fator, realmente intrínseco, que faz nossa vida mudar: nossa vontade. O resto a gente aprende, vai lá e faz.

ANEXO

Acesse, no link a seguir, a dissertação de mestrado de Adriana Vazzoler-Mendonça intitulada “Superdotados ou esforçados? Caracterização de estudantes que ingressam na universidade por medalhas de olimpíadas científicas“, apresentada à Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus de Bauru, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, Área de Concentração Desenvolvimento e Aprendizagem, como requisito para a obtenção do título de Mestre.

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About Filipe Albuquerque Ito Russo

Filipe Russo é indígena agênere de Manaós, vivendo atualmente em Piratininga, autore dos romances premiados Caro Jovem Adulto (2022; 2012) e Asfixia (2014), assim como vencedore do concurso artístico O Olhar em Tempos de Quarentena (2020) e de prêmios de excelência acadêmica em Inteligência Artificial, Psicologia, Gamificação, Empatia e Computação Afetiva (2021). Revisore no periódico científico Revista Neurodiversidade. Especialista em computação aplicada à educação pelo ICMC-USP (2022), licenciade em matemática pelo IME-USP (2020). Fundadore e editore do website SupereficienteMental.com (2013-), blog com mais de 200 publicações, dentre relatos pessoais, ensaios e entrevistas, sobre neurodiversidade e superdotação ou altas habilidades. Pesquisadore em diversos grupos de pesquisa ao longo dos anos, atualmente atua no Círculo Vigotskiano, no Corpo de Ações Transformadoras: Abordando Realidades Sociais pela Educação (CATARSE) associado à UnDF e no TransObjeto à PUC-SP. Coautore nas antologias poéticas "43 Poetas Neurodivergentes", "ECO(AR): Poemas pela Sustentabilidade", "Instagramável: poesia visual, concreta e instapoema", "Poesia Política: vote", "Outros 500: Não queremos mais o quinhentismo", "poETes: Altas Habilidades com Poesia", "1001 Poetas", "Fotoescritos do Confinamento" e recebeu menção honrosa pelo ensaio Desígnio de um corpo, na 4ª edição do projeto Tem Livro Bolando na Mesa. Filipe possui aperfeiçoamento em Altas Habilidades ou Superdotação: Identificação e Atendimento Educacional Especializado pela UFPel e em Serviço de Atendimento Educacional Especializado pela UFSM (2022).
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1 Response to Entrevista: Adriana Mendonça

  1. Avatar de Fabrícia Fabrícia disse:

    Obrigada pelo seu texto. Acolhe as minhas dores e fortalece quem eu sou.

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