
Akin Sá
É um tanto quanto curioso pensar no efeito da nossa própria voz, quando reverberada num ambiente outrora vazio, ou pouco ocupado. O eco tem a função de preencher os espaços que não são cerceados por presenças físicas dentro de um determinado lugar. E ainda assim, se você prestar atenção o suficiente, conseguirá perceber que nem todo comprimento de onda é perdido num impacto com as paredes de um quarto quase vazio. Boa parte destas ondas voltam até você, usando da mesma voz, para indicar que ele não estava tão inocupado quanto parecia num primeiro instante. Quando eu me descobri autista, tive contato pela primeira vez com essa tão estranha sensação, que nunca havia sido assimilada, mesmo em anos estudando física no colégio.
Eu me sentia perdido, isolado e, nos piores dias, abandonado pelo mundo. No auge dos meus 13 anos, escutava Astronaut, do Simple Plan, e pensava comigo mesmo “será que alguém nesse mundo se sente do mesmo modo que eu?”. Crescer sem um diagnóstico ou pelo menos a suspeita de algo, sempre cria margens para que situações traumáticas aconteçam. Situações que envolvem incompreensão, micro violências, solidão, desenvolvimento de depressão e ansiedade. Um pedaço de papel escrito que eu era autista não me fez mais autista do que eu já havia sido durante toda minha vida, mas me deu as forças necessárias para que eu entendesse que não havia nada de errado comigo, que não havia motivo para eu me culpar. Era o que eu precisava para ter coragem de seguir sem sentir o fardo da culpa de ser alguém extremamente estranho.
Aos 16 anos, veio o diagnóstico. Aos 17, o laudo formal. Cerca de 3 meses antes do meu aniversário de 18 anos, eu entrei na universidade e pela primeira vez na minha vida fiz questão de dizer aos outros quem eu era, de não sentir vergonha ao pedir pela inclusão. Foi nessa época que comecei meu ativismo no movimento das pessoas com deficiência. Conversei com muitas pessoas de muitos lugares, aprendi muito e entrei na mais pura catarse.
Nos meus 19 anos, decidi que eu precisava falar sobre tudo o que eu estava aprendendo com mais gente. Juntei o gosto por ensinar, com a lacuna de informações sobre autistas negros, e decidi fazer vídeos educativos sobre autismo para internet. Escolhi o nome Hey Autista para o projeto que eu estava começando e pareceu funcionar perfeitamente. Desde então nunca mais parei.
As pautas que inicialmente envolviam somente o espectro autista, passaram a entrelaçar questões relativas à raça, gênero, sexualidade e todos esses assuntos que vez ou outra atravessam minhas vivências. A voz que eu não tive como forma de orientação na minha infância e adolescência, é a voz que eu busco construir no meu ativismo hoje em dia. Meu discurso é construído para dialogar com quem queira ouvir e, acima de tudo, construir pontes.
Dentro das minhas percepções, não me julgo como referência nenhuma para nada, mas gosto de pensar que para um garoto autista que aos 13 pensava que jamais seria compreendido, eu consegui chegar em lugares muito bonitos com as minhas palavras.
[INFORMAÇÕES ADICIONAIS]
Akin de Sá Silva (ou Akin Sá, como me conhecem por aí)
Sou um homem autista, transgênero e preto. Utilizo os pronomes ele/dele.