Relato Pessoal: Daniel Cruz

Daniel Cruz

Daniel Cruz

Como seria a vida de um adulto que tenha passado pela juventude sem pleno desenvolvimento de seu potencial?

Me chamo Daniel e durante a minha juventude, fui um garoto quieto, sempre em meu mundo, meus pensamentos e meus projetos, fiz pouquíssimas amizades, percebi que alguns se aproveitavam de mim por fazer todos os trabalhos em grupo de forma individual (confesso que o único beneficiado fui eu). Os professores gostavam de mim, sempre me elogiaram, mas eu tinha dificuldade em sustentar a atenção, acredito que de certa forma as altas habilidades compensaram de alguma forma meu TDAH.

Aos 17 anos devido a algumas comorbidades como ansiedade, problemas com habilidades sociais e frustrações, decidi buscar ajuda profissional onde fui diagnosticado com TDAH e superdotação (hoje tenho 20), mais um caso de dupla excepcionalidade, após isso, passei por uma busca incessante em descobrir o funcionamento de minha mente e da mente humana em geral, confesso que sou fascinado pelo assunto.

Sempre tive bastante facilidade em algumas áreas de meu interesse por isso ouvi e ouço por diversas vezes coisas como “não consigo acompanhar seu raciocínio”, “você é superdotado”, “você é acelerado”, mas o grande ponto que quero chegar é que geralmente por conta de interesses profundos peculiares não pude construir base sólida em habilidades sociais, também por não ter empatia com assuntos fúteis e conversas sem sentido (pra mim).

Algumas destrezas e particularidades:

– Aprendi tocar 4 instrumentos musicais aos 10 anos de forma autoditada, mesmo achando que essa não é uma de minhas habilidades;
– Aos 12 empezei a aprender idiomas, inicialmente estudei japonês também de forma autoditada, o qual consegui maior “sucesso”, visto que geralmente não levo meus “milhões” de projetos a frente;
– Com 14 criei e configurei 3 jogos online, coisas que achei simples; no período escolar, tive algumas façanhas, fui adiantado por saber ler e escrever, mas confesso que nunca fui o melhor da turma, apenas tinha fluência em aprender, mas por não ter interesse nas atividades acadêmicas e não concordar com o sistema de educação, meus pais tiveram problemas em perceber o que acontecia comigo, levando em consideração que a sincronia entre o TDAH e AH/SD dificulta ainda mais o prévio conhecimento na fase infantil;
– Gosto de resolver todo tipo de problema e de todas as formas buscar suas resoluções;
– Sou criativo, busco coisas novas a todo momento, também bastante pensante, buscando compreender tudo que rodeia a humanidade e o universo;
– Sou hipersensível às emoções podendo ir até os extremos da tristeza ou o extremo da euforia, felicidade, sentidos como tato, audição, dentre outros;

Concluí o ensino médio com 16 anos, durante esse período fui um aluno mediano, não estudava os assuntos que me eram passados, apenas aprendia e estudava aquilo que gostava, e que não tinham relação com meus estudos relacionados a escola, confesso que fui um pouco prejudicado por isso. Somente com 20 anos decidi cursar faculdade. Na faculdade participo de um grupo de amigos, mas sou muito introspectivo, não participando de conversas corriqueiras. Tenho boas notas mas não presto atenção nas aulas, algumas coisas por já saber, outras por não ter interesse, mas ainda assim consigo me sair bem (risos). Durante o ensino médio trabalhei na área comercial no turno vespertino, pois trabalhava pela manhã, assim que conclui passei a trabalhar em período integral até hoje, restando tempo para estudar o que gosto apenas de madrugada após chegar em casa.

Por conta disso, busco de todas as formas a compreensão e conhecimento para divulgar informações sobre superdotação na fase adulta, existe uma inviabilização e negligência acerca desse período, como se as altas habilidades fossem restritas e exclusivas apenas aos menores de idade. Acredito que o autoconhecimento é o ponto chave para um pleno desenvolvimento em aspectos cognitivos, habilidades sociais e inteligência emocional.

Provavelmente não falei muita coisa nesse relato e futuramente terei desejo em alterar, mas por enquanto, esta é uma parte de minha vida e como eu enxergo as coisas.

“Uma forma de utilizar inteligência é passar informações complexas de forma acessível.”

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Sobre Filipe Russo

Filipe Russo é indígena agênere da Associação Multiétnica Wyka Kwara, autore dos romances premiados Caro Jovem Adulto (2012; 2022) e Asfixia (2014), assim como vencedore do concurso artístico O Olhar em Tempos de Quarentena (2020) e de prêmios de excelência acadêmica em Inteligência Artificial, Psicologia, Gamificação, Empatia e Computação Afetiva (2021). Especialista em computação aplicada à educação pelo ICMC-USP (2022), licenciade em matemática pelo IME-USP (2020). Fundadore e editore do website SupereficienteMental.com (2013-), blog com mais de 180 publicações, dentre relatos pessoais, ensaios e entrevistas, sobre neurodiversidade e superdotação ou altas habilidades. Pesquisadore no grupo de estudos TransObjeto associado à PUC-SP e no grupo de pesquisa MatematiQueer associada à UFRJ. Coautore nas antologias poéticas Poesia Política: vote, Outros 500: Não queremos mais o quinhentismo, poETes: altas habilidades com poesia, Fotoescritos do Confinamento e recebeu menção honrosa pelo ensaio Desígnio de um corpo, na 4º edição do projeto Tem Livro Bolando na Mesa. Filipe possui aperfeiçoamento em Altas Habilidades ou Superdotação: Identificação e Atendimento Educacional Especializado pela UFPel e em Serviço de Atendimento Educacional Especializado pela UFSM (2022).
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