Relato Pessoal: Oriana Comesanha

Oriana Comesanha

Oriana Comesanha

Eu sou autista e tenho altas habilidades ou superdotação (AH/SD). É como se duas pessoas vivessem em mim … A superdotada, enxerga-se de longe. Ela se apresenta orgulhosa a qualquer sinal de oportunidade. A autista… Bem… Essa fica escondida atrás da primeira. Se ela aparece, todo mundo estranha, diz que não está certo, que é “frescura”, que não pode uma pessoa inteligente ser autista. “Capacitismo!” Acusam as duas mentalmente. Mas nenhuma fala isso… Uma porque acha que as pessoas não vão compreender mesmo e a outra não está nem um pouco a fim de explicar.

Quando eu converso, uma presta atenção na conversa, a outra fica pulando de estímulo em estímulos no ambiente procurando padrões entre as formas.

A AH/SD fica fazendo comentários e lendo as expressões das pessoas nas conversas, enquanto a autista fica puxando a primeira para olhar as figuras que estão se formando no teto. Legal mesmo é quando as duas concordam que o papo é chato e as duas se põem e encontrar padrões na fala, nos gestos e entender o motivo que aquela pessoa tem para falar com elas e… Opa. Eu não sei mais sobre o que estávamos conversando. Kkkk

Eu assisti a um vídeo sobre criatividade e Naruto (no canal meteoro). Lá vi que existe o “jeito padrão” (que chamam de jeito certo, mas eu discordo) e o “jeito Naruto” (chamam de “seu jeito”, mas “jeito Naruto” eu acho mais legal).

Bem, eu sempre tive dificuldade em interagir… até que casei com uma pessoa que (a meu ver) é a mestre das interações sociais. Sério! Se ela não interage informalmente por muito tempo, ela fica mal! Como será isso? Enfim… Eu me casei com ela. Na hora de interagir, eu observei como ela fazia. Outro bom modelo foi meu irmão, principalmente nas interações rápidas como as realizadas com caixas de supermercado ou vendedores.

Um dia a AH/SD e a TEA (transtorno do espectro autista) sentaram-se para uma reunião séria onde conseguiram copiar, ajustar e adaptar tudo que viam. Hoje tenho minha gama de frases, interações e jeitos de interagir com colegas (antes interagia como se todo mundo fosse colega de trabalho). Ainda me incomodo com certas intimidades, ainda faço muita coisa errada, principalmente quando envolve maleabilidade e versatilidade nas habilidades sociais. Mas eu consigo enfrentar a maioria das situações com muita naturalidade… tranquilidade eu não diria. Ainda fico nervosa, com receios, principalmente em relação a pessoas e ambientes novos, onde eu não consigo prever que papo vai sair dali. Enfim, daí bate a ansiedade – ah, sim: meu terceiro diagnóstico, Transtorno de Ansiedade, mas acho que é mais um sintoma de tudo isso…)

A ansiedade apareceu no início da vida adulta, quando ainda na universidade, passei num concurso que fiz para testar meus conhecimentos e tive que adiantar minha formatura… Fui morar sozinha, em outro estado, sem habilidades sociais para quase nada, sem experiência de vida e laboral… Insegura, passei a me isolar, beber fumar, ficar triste… Eu não conhecia ninguém, era meu primeiro emprego e tudo isso estava fora do meu planejamento de vida (passei num concurso “meio sem querer” e tive que abandonar o plano de seguir carreira acadêmica).

Após um tempo e a peso de muita camuflagem fui conseguindo me ajustar, mas a carga emocional era pesada…

A ansiedade se tornou mais forte quando iniciei o mestrado e tive um problema no meu relacionamento que não sabia como resolver…

Hoje consigo perceber que foi muita demanda social, demanda de flexibilidade, demanda de repertórios que eu não tinha.

Nesse ponto, a AH/SE e a TEA nem se encontravam, nem se falavam, estavam as duas descompensadas emocionalmente dilaceradas e perdidas.
Daí veio psiquiatra, remédio, terapia, yoga, Pilates, mudanças e ajustes mais saudáveis.

Hoje a AH/SD e a TEA estão novamente em harmonia. Conversam e se ajudam, cada uma com suas potencialidades e dificuldades, cada uma com suas batalhas e as duas com suas conquistas!

Resumindo, este é meu jeito… Um jeito Naruto, que pega as limitações e habilidades e cria um jeito de fazer a mesma coisa que os outros, só que diferente.

É mais cansativo para o Naruto fazer um monte de cópias dele mesmo para dar um golpe que os outros conseguem com uma mão só, mas o resultado é incrível e eficaz.

Cada um tem seu jeito Naruto de fazer algo. Neurotípico ou não, estamos sempre nos adaptando e é isso que nos torna únicos!

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Sobre Filipe Russo

Filipe Russo é indígena agênere da Associação Multiétnica Wyka Kwara, autore dos romances premiados Caro Jovem Adulto (2012; 2022) e Asfixia (2014), assim como vencedore do concurso artístico O Olhar em Tempos de Quarentena (2020) e de prêmios de excelência acadêmica em Inteligência Artificial, Psicologia, Gamificação, Empatia e Computação Afetiva (2021). Especialista em computação aplicada à educação pelo ICMC-USP (2022), licenciade em matemática pelo IME-USP (2020). Fundadore e editore do website SupereficienteMental.com (2013-), blog com mais de 180 publicações, dentre relatos pessoais, ensaios e entrevistas, sobre neurodiversidade e superdotação ou altas habilidades. Pesquisadore no grupo de estudos TransObjeto associado à PUC-SP e no grupo de pesquisa MatematiQueer associada à UFRJ. Coautore nas antologias poéticas Poesia Política: vote, Outros 500: Não queremos mais o quinhentismo, poETes: altas habilidades com poesia, Fotoescritos do Confinamento e recebeu menção honrosa pelo ensaio Desígnio de um corpo, na 4º edição do projeto Tem Livro Bolando na Mesa. Filipe possui aperfeiçoamento em Altas Habilidades ou Superdotação: Identificação e Atendimento Educacional Especializado pela UFPel e em Serviço de Atendimento Educacional Especializado pela UFSM (2022).
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Uma resposta para Relato Pessoal: Oriana Comesanha

  1. Samir Ferraz disse:

    Muito obrigado por compartilhar esse relato. Informações ricas! Fica bem!

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