Relato Pessoal: Luiz Fernando Da Silva Borges

Luiz Fernando Da Silva Borges

Luiz Fernando Da Silva Borges


Por volta dos sete anos de idade, quando fui passar o final de semana na casa de meu primo, a mãe dele havia lhe dado o antigo kit de química: “Meu primeiro laboratório”. Este kit consistia em um conjunto de bisnagas com reagentes químicos, tubos de ensaio em uma estante de EVA, um conta-gotas e um manual que continha o “roteiro” de cada experimento. Quando ele abriu a caixa do kit e eu me deparei com todos aqueles materiais, foi incrível: Era a materialização dos instrumentos que os cientistas malucos, dos desenhos que eu assistia, usavam. Ele fez vários experimentos que faziam os líquidos borbulharem (desprendimento de CO2), mudarem de cor (indicador ácido-base), soltarem fumaça (reação exotérmica) e simplesmente desaparecer uma enorme mancha vermelha que tínhamos feito no sofá branco da mãe dele (“sangue do diabo”).

Quando os reagentes já haviam acabado, ele me deixou ficar com o manual, que continha alguns experimentos que podiam ser feitos com materiais domésticos. Depois descobri vários programas na TV Cultura, como: “O Mundo de Beakman” e “X-Tudo Experiências”, que mostravam os mesmos experimentos que podiam ser feitos em casa. O que mais me fascinava era o propósito das demonstrações, os experimentos explicavam fenômenos da natureza que, na maioria das vezes, poderiam ser erroneamente respondidos com sonoros: “Porque sim” ou “Porque Deus quis”. Depois de aprender vários experimentos, gostava muito de demonstrá-los em qualquer ocasião, como se fossem truques de mágica. Minha jornada sempre foi guiada pela curiosidade e pelo espírito: hands on.

Depois de me apaixonar cada vez mais por ciências, por meio dos experimentos demonstrativos, minha descoberta da pesquisa científica está relacionada com a divulgação da FEBRACE (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), que era feita em pleno horário nobre na Rede Globo de Televisão! A chamada, narrada por Marcelo Tas (sim, um dos apresentadores do programa CQC), dizia: “Alô, alô meninas e meninos criativos de todo o Brasil, já estão abertas as inscrições para a FEBRACE (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia) na USP. Para participar, basta criar um projeto do balacobaco com fundamento científico. Milhares de estudantes já mostraram: ‘a criatividade, traz a inovação’ Eureka! E você ainda tem chance de participar da feira internacional de ciências, nos estados unidos. Acesse: http://www.lsi.usp.br/febrace, não perca tempo! ”.

Obedecendo o aviso da chamada que passava, em média, duas vezes a cada intervalo de novela e jornal, acessei o site e assisti todos os vídeos de edições passadas da feira. Infelizmente, devido à pouca idade que tinha (nove ou dez anos…), eu imaginei que a Febrace era uma feira de ciências como as que presenciava nas escolas de minha cidade, onde você pesquisa um experimento na internet e apresenta. Ao conversar com meus professores do ensino fundamental, nenhum sabia do que a feira nacional se tratava, ou mesmo conheciam os caminhos para a “pesquisa científica”, foi quando meu sonho de participar daquele evento adormeceu durante o ensino fundamental inteiro. Neste período então, me transformei em um ávido espectador das edições da Febrace desde 2008. Ficava cada vez mais impressionado com a possibilidade de participar da tal: “feira internacional” e, aos poucos, criei uma imagem do que era a pesquisa científica.

Percebi que não bastava apresentar experimentos, mas que você tinha que ser o protagonista de um! Foi quando meu amor platônico por ciências saiu do mundo das ideias e se tornou concreto. Realizei que seguindo um “método” especial, eu poderia controlar alguns fenômenos da natureza e até mesmo manipulá-los! Sem me dar conta, incorporei a visão do mito do titã Prometeu ao fato de ter poder sobre a natureza. Para quem não conhece este mito, Prometeu era um titã que adorava enganar os deuses do Olimpo. Um dia, ele roubou o fogo sagrado do Olimpo e o entregou aos mortais. Ele nos entregou um poder que antes só era conferido aos deuses! Por causa disso, Zeus o acorrentou no alto do monte Cáucaso e por trinta mil anos, ele teria seu fígado devorado por uma águia. Como Prometeu era imortal, seu fígado se regenerava durante a noite e no dia seguinte, a águia o devoraria novamente, dia após dia, ad infinitum! Acredito que quando fazemos pesquisa, estamos honrando o sacrifício de Prometeu, exercendo um papel sobre o mundo antes apenas conferido a entidades espirituais fantasiadas.

Quando eu estava terminando o ensino fundamental, soube da instalação de um Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia em minha cidade. Institutos Federais oferecem a grade curricular comum do ensino médio e o ensino técnico profissionalizante integrado. Foi uma das melhores notícias que já recebi, pois já havia notado que boa parcela dos participantes da Febrace eram de Institutos Federais de Educação. No início houve uma resistência muito grande, pois se tratava de algo muito novo, e não haviam estudantes egressos para relatar o que se fazia lá. Um outro fator que quase impediu minha entrada foi o início do ano letivo naquele ano, seria quase no início do segundo semestre de 2013. Ou seja, se eu optasse por fazer o exame de seleção e não fosse aceito, iria perder um ano.

Se eu quisesse mesmo entrar naquela instituição de ensino e realizar meu sonho de infância, eu teria que estudar como nunca na vida. Foi então o que eu fiz. Sacrifiquei as férias que teria ao término do ensino fundamental para reforçar meus conhecimentos de matemática, português e conhecimentos gerais, adquiridos durante o mesmo. A insegurança de não ser aceito no exame de seleção daquele ano fez com que eu estudasse como nunca na vida. Organizei minha rotina e recorri à quase todas as técnicas malucas de gerenciamento de tempo disponíveis na internet. Quanto mais a data do exame se aproximava, mais a parede do meu quarto era coberta por fórmulas matemáticas e regras de português.

Quando o grande dia chegou, fui um dos primeiros a chegar no local da prova e um dos últimos a sair. Quando o gabarito saiu, logo o imprimi e, com o auxílio de minha tia, conferi questão por questão do caderno de perguntas que tinha levado para casa. Confesso que eu não fiquei muito satisfeito com a pontuação na época e quase me arrependi de ter feito aquela escolha. Será que eu perderia um ano que eu poderia já estar cursando o ensino médio em uma “escola comum”? Será que havia sido inescrupuloso optar por não me matricular em nenhuma instituição enquanto estava no processo seletivo para o IFMS?

Enquanto muitas dúvidas se passavam por minha mente, eu tentava me desvencilhar delas tentando me lembrar que o resultado final ainda não havia sido divulgado. No dia programado para a divulgação do resultado do exame de seleção daquele ano passei o dia todo torturando a tecla F5 de meu notebook, enquanto buscava algum sinal na página do “Exame de Seleção”. Perto do fim da tarde o resultado finalmente foi revelado: Eu havia sido selecionado para o curso no qual eu me inscrevera e, de quebra, ocupei a primeira colocação.

Um dos motivos por eu ter escolhido o curso Técnico Integrado em Informática, no ato de inscrição para o exame de seleção, foi ter achado que o curso era ofertado no período matutino, uma vez que cursei todo ensino fundamental no período matutino. Depois da matrícula feita, fui logo cedo para o campus provisório do IFMS, localizado logo ao lado da escola na qual cursei meu ensino fundamental inteiro, a Escola Municipal Erso Gomes. Chegando lá, pude observar uma grande aglomeração de estudantes em frente ao prédio cedido pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul para o funcionamento da instituição.

Tentando procurar meu nome nas listas que estavam fixadas na porta de algumas salas de aula, fiquei muito confuso ao descobrir que, na verdade, o curso no qual eu havia me matriculado era ofertado apenas no período vespertino. Fui me afastando vagarosamente do grupo que estava esperando para entrar naquela sala de aula e voltei para casa pensando em como eu faria para me acostumar a voltar para casa todos os dias e encontrar apenas uma parte da noite para realizar todas as atividades propostas em aula. Confesso que ainda sinto esta dificuldade até hoje.

Chegando novamente ao prédio da instituição, desta vez já com meu nome em uma das listas coladas nas portas das salas, sentei em um dos lugares enquanto observava meus colegas chegando, um a um, enquanto o clima de “primeiro dia de aula” tomava conta cada vez mais do ambiente, isto é: grupinhos que vieram para a instituição de suas respectivas escolas já formados e alguns tentando se enturmar a qualquer custo. Perto do início do período comum das aulas, fomos orientados a mudar de sala, onde encontraríamos a equipe pedagógica que iria nos apresentar a estrutura do IFMS, tanto física, como administrativa e acadêmica.

A cada momento da apresentação de como as avaliações eram feitas eu ficava mais surpreso ao notar que tudo era totalmente diferente do que eu já estava acostumado com. Primeiramente, a ano letivo era dividido em semestres, não em bimestres. Depois, haviam várias provas de recuperação no final de cada semestre que nos oferecia uma segunda chance para alcançar a média (7,0), ou até mesmo aumentá-la. Posteriormente, descobri que esta estrutura, ou algo extremamente semelhante, é adotado nas Universidades Federais. Todos estes fatos imediatamente me levaram a pensar que minha dúvida inicial sobre ingressar na instituição ou não poderia ser facilmente eliminada se eu soubesse de todo este sistema antes. E é obvio, como um presente do destino, uma das pedagogas disse que nossa professora de artes não estava presente pois havia acabado de retornar da “Febrace”, uma “feira de ciências em São Paulo”, como ela brevemente a descrevera.

Aquela menção passou despercebida por muitos, mas com certeza, foi o momento da fixação da âncora de minha determinação de permanecer naquela instituição. Outra grande diferença pode também ser percebida no estilo das aulas da maioria dos professores. A grande parte deles já detinha título de mestre e até mesmo doutor, todos eles devotados a ensinar estudantes de ensino médio. Quando tive contato com as chamadas: “disciplinas específicas do curso” percebi que informática ia muito além de “mexer no computador”. Poderíamos, com uma linguagem específica, dar comandos para que fizesse operações matemáticas, transferência de dados, previsão do tempo, modelos de fenômenos da natureza, além de ter deixado vários personagens históricos imortalizados e bilionários.

Na segunda semana de aulas recebemos a visita de um grupo de estudantes de semestres superiores ao nosso que iam apresentar alguns trabalhos que desenvolveram desde seu ingresso na instituição. Tratava-se de um grupo de meninos que construíam desde pequenos modelos de automação de semáforos, carrinhos que seguiam linhas no chão e desviavam de obstáculos, até um lançador automático de bolinhas de tênis de mesa. Eles faziam a apresentação do desenvolvimento dos protótipos com uma série de eslaides e do funcionamento com o acionamento dos dispositivos no meio da turma, que observava maravilhada o resultado da materialização de alguns dos conhecimentos que nosso curso proporciona. Uma das tecnologias que estava sendo utilizada pelo grupo era a plataforma de prototipagem eletrônica Arduino®. Esta placa de circuito azul era conectada ao computador, por meio de uma série de instruções ela era programada para responder a uma série de informações que eram enviadas por demais equipamentos conectados a ela. Um sensor de proximidade a um determinado objeto fazia, por exemplo, a direção da rotação dos motores, que eram conectados a pequenas rodas, mudar.

Como amante da cultura “faça você mesmo”, eu já conhecia essa “plaquinha” e suas várias aplicações. Fiquei impressionado por ela estar ali, “a uma participação em um grupo de distância”. Logo depois de tomar mais familiaridade com os professores, fui consultar o professor Leandro de Jesus, responsável pelo grupo que desenvolvia tais projetos e perguntei se era possível para mim, aprender o que era necessário para desenvolver habilidades que me permitissem desenvolver tais projetos. Ele logo me disse que tal tarefa seria árdua pois iria exigir conhecimentos que eu só iria adquirir com os próximos quatro semestres do curso. Eu topei o desafio e comecei a frequentar aos sábados as reuniões do clube onde os projetos eram desenvolvidos e aprimorados.

Como um expectador muito atento, observa e, com um sem-número de perguntas, inquiria cada integrante sobre a tarefa que estava sendo feita e os princípios de funcionamento por trás dela. Paralelamente, em casa, eu fazia vários cursos online que ensinavam programação, matemática e eletrônica.

Durante uma aula de biologia, meu professor estava expondo um conteúdo sobre como eram feitos os testes de paternidade e que existia uma “máquina de xérox de DNA” capaz de copiar várias vezes um único pedacinho de DNA. Fiquei muito curioso com a descrição do equipamento e mais ainda quando pesquisei sobre seu funcionamento e descobri que ele funcionava somente aquecendo e resfriando de maneira controlada, as amostras de DNA. Mais surpreso ainda fiquei quando descobri a faixa média de custo de tal equipamento: cerca de 50 mil reais. Percebi então que esta seria uma ótima empreitada para aplicar meus conhecimentos recém adquiridos no campo da automação.

O professor Leandro de Jesus foi o primeiro a me ensinar o método científico, a elaborar experimentos, coletar, analisar dados, etc. Desde então desenvolvemos um equipamento, 18 vezes mais barato e – por um aspecto mais confiável – que os comerciais, que torna possível a amplificação de DNA. Com essa amplificação você pode detectar doenças causadas por vírus como a dengue, HIV, malária, fazer testes de paternidade e até mesmo melhoramentos genéticos de plantas e animais. Com este projeto fui classificado em 2015 para representar o Brasil, pela primeira vez, na maior feira de ciências e engenharia do mundo, a Intel ISEF. Lá apresentei esta pesquisa para o laureado com Nobel de química de 1996, Sir. Harold Kroto e ser reconhecido pela OEA (Associação dos Estados Americanos) como um dos seis melhores projetos das Américas.

Depois que retornei dos Estados Unidos, em maio de 2015, desta feira, já acompanhava desde o fim de 2013 as pesquisas do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis que se trata sobre a criação de um método para, literalmente, controlar artefatos robóticos ou virtuais com a mente. Li o livro dele e quis aplicar os conceitos de Interface Cérebro Máquina para próteses de braço, tanto para melhorar o controle, tanto para restaurar a sensibilidade de um membro perdido. Me aproveitei destes conceitos e da chamada Síndrome do Membro Fantasma para criar um programa de computador que lê os sinais musculares vindo dos músculos remanescentes no coto do voluntário e os transforma de forma contínua nos ângulos das juntas da mão. Depois este programa é utilizado com um ambiente de realidade virtual, configurado por um colega meu que é game designer, Éber Peretto, que projeta um antebraço virtual que o voluntário pode controlar as juntas dos dedos, e pulso, independentemente e de forma contínua.

O voluntário que participou da pesquisa também vestia uma manga com motores vibratórios de celular, na região de seu bíceps, que vibravam conforme objetos tocavam a mão virtual. Isto causa, com um certo período de treinamento, o chamado rearranjo cortical, que faz com que ele receba o estímulo na região do bíceps, mas o sinta em seu membro fantasma, materializado pelo antebraço virtual. A pesquisa teve resultados fantásticos, que devem começar a ser publicados no final de 2016 e fui selecionado pela segunda vez para representar o Brasil na Intel ISEF do mesmo ano.
Lá fiquei muito surpreso com os resultados nas premiações, inéditas na história de participação do Brasil nesta feira. O departamento de desenvolvimento tecnológico da OEA me concedeu o prêmio de destaque em inovação tecnológica, fui considerado um dos primeiros colocados na categoria de engenharia biomédica, depois o melhor projeto da categoria, o prêmio do Memorial de Philip V. Streich (uma viagem a Londres de duas semanas para participar de um fórum científico para jovens promovido pelo Colégio Imperial de Londres) e tive um asteroide batizado com meu nome.
Depois de tudo isto e lembrando dos sonhos do menino de sete anos de idade maravilhado com o mundo científico e sonhando em um dia participar de eventos nos quais podia compartilhar o que tinha feito com outros, só posso concluir uma lição: Nunca deixe de acreditar no impossível, pois o resultado de um sonho impossível, nem se você não alcançar, suas conquistas na jornada serão muito maiores que a realização de um sonho medíocre. O perigo não é ter um sonho grande e falhar, é sonhar pequeno e conseguir!

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Sobre Filipe Russo

Filipe Albuquerque Russo nasceu em 22 de Agosto de 1990 em São Paulo, capital e foi criado em Manaus, Amazonas. Aos 16 retornou a sua cidade natal onde reside atualmente. Caro Jovem Adulto, seu primeiro romance estabeleceu em 2012 a estréia tripla de Filipe Russo no cenário artístico brasileiro (tipográfica com Limite Circular, fonte original exclusivamente manufaturada para a obra; fotográfica com Iluminado Expandido, capa original do livro e enfim a obra literária propriamente dita).
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