Entrevista: Luiz Fernando Da Silva Borges




Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Luiz Fernando: Quando eu tinha cerca de 9 anos de idade não sabia o porquê das outras crianças da minha idade não “simpatizarem” com certos tipos de brincadeiras ou assuntos que eu tentava compartilhar com elas. Sempre tive uma imensa facilidade de aprender novos assuntos nos quais estava interessado, geralmente um tanto quanto em desconformidade com minha idade. Meu pais afirmam que comecei a formar frases completas muito antes de 1 ano de idade. Assim que comecei a ler meu passatempo favorito era, enquanto na 3ª série, deixar de fazer minhas obrigações (como alguma tarefa que me recusava a fazer pela ultra facilidade) para pegar livros de física e química na biblioteca da escola e tentar reproduzir seus experimentos em casa.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Luiz: Superdotação acadêmica, intelectual e produtivo criativa.

SM: Participaste de alguma iniciativa de apoio aos alto habilidosos? Em caso positivo fale um pouco mais sobre essa experiência, em caso negativo por que não?!

Luiz: Infelizmente não quando era mais necessário. Eu sempre estudei em escolas públicas, que até hoje não estão preparadas para identificar e encaminhar estudantes que tenham dificuldade com aprendizado, muito menos estudantes com altas habilidades.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Luiz: Quando eu entrei no IFMS em 2013, logo fui apontado pela psicóloga do meu campus (Aquidauana) para o Núcleo de Atividades em Altas Habilidades/Superdotação – NAAH/s de Campo Grande, por aconselhamento dos professores que logo notaram meu exímio desempenho em toda e qualquer disciplina ou desafio proposto em sala. Gostei muito do contato que tive com outros estudantes superdotados de todas as partes do estado de Mato Grosso do Sul e logo notei que tínhamos muito em comum. Minhas esporádicas participações no núcleo foram bem proveitosas, ainda mais por poder ter um aconselhamento acadêmico com profissionais preparados para atender às necessidades de um AH.

SM: Você já nos contou em seu relato pessoal como sua tia deu a seu primo um kit de química e como isso acabou mudando a sua vida, diga-nos o quanto e como a sua família contribuiu para o seu desenvolvimento escolar e acadêmico?

Luiz: Minha única apoiadora vitalícia nesse processo foi minha mãe, que nunca mediu esforços para, quando criança, adquirir os materiais para meus experimentos e até hoje, costumo brincar, é a principal stakeholder de todos os meus projetos, pois quando a verba ínfima que recebo do governo acaba é ela que custeia materiais suplementares, frete, etc para minhas pesquisas. Foi minha mãe e minha tia-madrinha que me adquiria todas as sortes de materiais educativo-científicos que uma criança superdotada sonharia e ter. Tínhamos também uma TV que ficava travada em canais educativos como Tous Sur Orbite, Evas Funkarprogram, Beakman’s World e Cosmos (versão do Carl Sagan), onde tive meu primeiro contato com o método científico. Tive a sorte tremenda de não ter uma família que me pressiona para seguir seus desejos e planos, com concursos públicos ou outras profissões que, virtualmente, oferecem “maior estabilidade”. Aprendi desde cedo que o negócio é encontrar algo pelo que você se encanta, se importa, e meter a cara o resto da vida: seja no palco fazendo as pessoas rirem com um show de humor ou apresentando uma nova terapia para uma doença.

SM: A educação e o ensino brasileiros estão longe de ideais, você conseguiria propor intervenções e medidas pragmáticas a serem tomadas em prol de uma cultura de desenvolvimento científico e cultural? Em caso positivo, quais?

Luiz: Sim, muito simples. Se nosso ensino médio só serve para produzir pessoas que “tecnicamente” estariam prontas para encarar um vestibular, seria economia em tempo de vida e dinheiro sair do ensino fundamental e encarar um cursinho intensivo de 1 ano ou 2 para preparar o indivíduo especificamente para um tipo de vestibular, seja ENEM, FUVEST, etc.
Agora, se quisermos formar pessoas que estejam preparadas para assumir o compromisso de tornar cada dia de suas vidas uma parte da jornada necessária para transformarmos nosso país, precisamos fazer com que nossa métrica de avaliação seja mais que simplesmente quantificar o quanto um jovem consegue regurgitar em um pedaço de papel daquilo que lhe foi posto goela a baixo durante as aulas. Enquanto nossos estudantes de ensino médio precisam decorar fórmulas matemáticas que não lhes serão úteis ou quais eram as “capitanias hereditárias”, há jovens no hemisfério norte deste planeta aprendendo a cozinhar, cuidar de bebês, aprimorar suas habilidades artísticas com teatro, música, dança, estão aprendendo finanças para gerenciar seus futuros pagamentos e até mesmo viajando o mundo para ganhar novas perspectivas de vida, ah, esqueci, AINDA NO ENSINO MÉDIO. Aqui gastamos 3 anos da nossa vida em um lugar onde não aprendemos absolutamente nada de útil para vida comum e ainda somos ineficientes na única tarefa que somos preparados para: decorar informações para rabiscá-las em provas estupidamente longas e cansativas ao final desse período.
Antes que pensem que tais soluções exigiriam voluptuosas quantias de investimento para se materializarem, é só imaginar o quanto os cofres públicos gastam com estudantes que demoram muito mais que 3 anos para ingressar na graduação (os que o fazem antes de desistirem) ou o que alguns pais gastam com “cursinhos”: mais dinheiro e mais tempo de vida de seus filhos.
Um sistema orientado aos interesses de grupos de alunos, onde estes pudessem desenvolver suas aptidões específicas e um sistema de ingresso na graduação que tivesse como um dos maiores pesos, as atividades extracurriculares desenvolvidas pelos estudantes no ensino médio, com certeza iniciaria algum tipo de mudança positiva no cenário atual.

SM: Você já desenvolveu amplificações de DNA para detectar doenças e paternidade, uma interface cérebro máquina que eventualmente desencadeia um rearranjo cortical e agora? Qual a sua nova linha de pesquisa?

Luiz: Vou construir um tipo de supercomputador que vai possibilitar o processamento de um programa que possibilitará que a mente de pessoas anteriormente classificadas em estado vegetativo, ou até mesmo coma, rompam a barreira de corpo inanimado e comuniquem seus desejos e anseios ao mundo exterior.

SM: Após todas as suas experiências academico-científicas no IFMS e na Febrace, qual a área de estudos a nível superior que você planeja seguir? Quais instituições de ensino estão na sua mira?

Luiz: Depois de perceber, com a pesquisa do novo método de controle para próteses, que o cérebro humano é o grande escultor da realidade, de todas as ações que a humanidade fez, faz ou fará, decidi que voltarei minha atenção a explorar os limites desse universo feito de sinapses que reside entre nossas orelhas. Eu pretendo estudar engenharia biomédica e neurociência em uma das universidades que formam pesquisadores que hoje estão liderando essas áreas como MIT, Johns Hopkins, Yale, Duke University, Harvard, entre outras.

P.S.: Foi assustador quando eu percebi que, devido a todas as pesquisas que realizei e todos reconhecimentos que recebi, estou muito mais preparado para competir com estudantes norte-americanos a fim de ingressar nas melhores universidades do mundo que ter que desperdiçar tempo estudando para algum vestibular de universidades brasileiras.

SM: Algum lema motivacional?

Luiz: Nada mais que quase uma oração matinal de um cineasta argentino: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, e ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Então para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar. ”


SM: Algum recado pra galera?

Luiz: Literalmente quando se sonha e se busca todos os dias um sonho impossível, até mesmo o fracasso vale a pena. Os resultados que serão produzidos na jornada da tentativa da realização de um sonho impossível são, com certeza, muito maiores que os resultados da realização de um sonho medíocre. O perigo não é sonhar grande demais e fracassar, é sonhar pequeno e conseguir. Ninguém além de você vai carregar para sempre o peso de suas escolhas. Temos hoje uma geração de adultos frustrados que são escravos do fim de semana para se divertirem pois não trabalham com o que gostam, seja porque foram pressionados pelos pais ou por suas próprias condições. A todos lendo isso, eu imploro: não importa o que disserem, descubram pelo que vocês se importam na vida e trabalhem em direção a isso, não importa se é ser atleta, um humanitário em missões para países em guerra, um comediante que diverte milhares ou um cientista, ninguém além de você vai carregar para sempre o peso das escolhas que te forçam a fazer.

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Sobre Filipe Russo

Filipe Albuquerque Russo nasceu em 22 de Agosto de 1990 em São Paulo, capital e foi criado em Manaus, Amazonas. Aos 16 retornou a sua cidade natal onde reside atualmente. Caro Jovem Adulto, seu primeiro romance estabeleceu em 2012 a estréia tripla de Filipe Russo no cenário artístico brasileiro (tipográfica com Limite Circular, fonte original exclusivamente manufaturada para a obra; fotográfica com Iluminado Expandido, capa original do livro e enfim a obra literária propriamente dita).
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