Entrevista: Eduardo Padilha Antonio

Eduardo Padilha Antonio

Eduardo Padilha Antonio

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Eduardo Padilha: Cresci acostumado a ouvir expressões de espanto e admiração sobre o meu comportamento: ainda muito jovem comecei a fazer estágio em laboratórios, tinha grande comprometimento com a tarefa e apresentava preferência por aprender o que fosse possível de forma autodidata. Talvez essas devessem ter sido as primeiras pistas para um diagnóstico, mas o próprio conceito de Altas Habilidades/Superdotação era desconhecido para meus familiares e professores. Foi somente há cerca de dois anos que tomei conhecimento do assunto e me pus a pesquisar a respeito. Foi assim que cheguei aos NAAHs e ao Núcleo Paulista de Atenção à Superdotação (NPAS). Fiz contato, mas só alguns meses depois tive recursos para passar pelo processo de avaliação.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Eduardo: Fui diagnosticado com Altas Habilidades acadêmicas e intelectuais

SM: Participaste de alguma iniciativa de apoio aos alto habilidosos? Em caso positivo fale um pouco mais sobre essa experiência, em caso negativo por que não?!

Eduardo: Minha experiência com AH é bem recente e, até o ano passado, não havia participado de nenhuma iniciativa do gênero mas, acabo de me juntar à Mensa, sociedade que cultiva a inteligência “para o benefício da humanidade”. Estou animado com as perspectivas, mas ainda não houve tempo de vivenciar a sociedade em si.

SM: Fazes uso de algum aconselhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para você.

Eduardo: Atualmente não, mas considero fazer acompanhamento com a psicóloga que me diagnosticou, por exemplo, ou com outros psicólogos do Núcleo Paulista de Atenção à Superdotação. Acredito que um acompanhamento do gênero teria sido particularmente benéfico durante minha vida escolar.

SM: Eduardo, você apresenta uma certa bagagem no que tange experimentos em laboratório, quais experimentos você aconselharia para o enriquecimento curricular e diversão estudantil que poderiam sem grandes esforços serem implementados nas escolas ainda no ensino fundamental 2? Elabore um pouco sobre os mesmos.

Eduardo: Um dos movimentos com os quais tenho me envolvido e que fornece ferramentas interessantes nesse sentido é o Biohacking, que se dedica a democratizar os conhecimentos científicos. É possível, por exemplo, fazer um microscópio com ótima capacidade de aumento usando apenas uma webcam e papel ou, caso disponível, uma cortadora a laser. Basta desmontar a webcam (até a mais barata serve bem ao propósito) e inverter a lente! Esse microscópio permite ver as células de uma película de cebola ou da mucosa da boca, por exemplo. Também é possível ver protozoários cultivados a partir de uma amostra de água de um rio ou lago mantida em frasco com folhas de alface por alguns dias.
Outra possibilidade é observar os bactérias fermentadoras do leite (lactobacillus), espalhando uma gota de iogurte natural sobre uma lâmina de vidro e pingando um pouco de corante Lugol, encontrado em farmácias. Esses mesmos microorganismos e vários outros (leveduras fermentadoras da cerveja, por exemplo), podem ser cultivados em gelatina sem sabor, simulando técnicas utilizadas em laboratórios de microbiologia.
Em Química, há vários kits vendidos em lojas de brinquedo cujos experimentos podem ser reproduzidos com reagentes obtidos da cozinha de casa ou em farmácias, como bicarbonato de sódio e vinagre para ver a liberação de gás carbônico, uso de corante de iodo para detectar a presença de amido nos alimentos

SM: Sua jornada educacional foi quando não mediada, no mínimo estimulada por uma série de tutores, na música sua mãe, sua professora de ciências no ensino fundamental e seus orientadores que eventualmente inscreveram sua pesquisa na Mostra Paulista de Ciências e Engenharia (MOP) e na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE). Qual importância você julga que essa tutoria tem no desenvolvimento escolar, acadêmico, profissional e pessoal de um cidadão? De que modo poderíamos implementar uma cultura de tutoria no Brasil?

Eduardo: Eu considero a tutoria/mentoria crucial para o desenvolvimento humano em qualquer âmbito de atuação.Trata-se de uma via de mão dupla em que mentor e mentorado são beneficiados e aprendem com o processo, e sinto que foi exatamente isso o que experimentei nos casos acima descritos, e em vários outros. Ter um mentor é ter alguém com quem compartilhar experiências, alguém cuja vivência pode ser útil ao direcionamento de sua própria trajetória. De fato, se não fosse por meus mentores, meu percurso teria sido muito dificultado ou, no mínimo, mais nebuloso.

SM: Você cansado das aulas expositivas prefere aprender de modo autodidata. Em parte devido a sua natureza, mas há um fator pedagógico e psicopedagógico, não? De que modo o sistema educacional vigente poderia melhorar de forma a acomodar as necessidades estudantis de neurodiversos e até mesmo da juventude do século XXI?

Eduardo: Acho difícil pontuar tudo o que é passível de mudança em termos de educação, já que acredito estarmos vivendo um momento de crise estrutural nesse setor. Pessoalmente falando, percebo um “gap” muito grande entre teoria e prática, um dos fatores que mais me desanimam quanto ao ensino formal. É absurdamente diferente aprender anatomia enquanto se disseca um cadáver (experiêcia que tive a honra de vivenciar) e passar quatro horas sentado assitindo um professor passar slides, por exemplo. Nesse sentido, a diversidade de métodos de avaliação e transmissão de conteúdo se coloca como aspecto fundamental. Na Europa muitas instituições não cobram presença dos alunos em aulas expositivas, dando liberdade para que persigam os métodos que geram mais resultados individualmente. Já aqui, o número de aulas assistidas tem um peso enorme na aprovação/reprovação de um aluno, independentemente de a aula ter sido útil a esse aluno ou não. O ambiente acadêmico é absolutamente engessado, ainda mais em instituições que fazem do ensino um comércio e validam seu ensino pelo número de alunos aprovados no vestibular, o que exclui automaticamente qualquer tentativa de atender os neurodiversos. Uma mudança de paradigma se faz cada vez mais urgente e necessária!

SM: Qual linha de pesquisa você está seguindo no momento ou pretende num futuro próximo? Compartilhe conosco um pouco sobre seu trabalho científico.

Eduardo: Durante meu ensino médio estudei a importância de mecanismos de reparo de DNA na manutenção da estabilidade genômica e sua possível aplicação para potencializar o tratamento do câncer de colo de útero. Já no ano passado participei de um projeto cujo objetivo era produzir teia de aranha em microalgas geneticamente modificadas visando a geração de um curativo biocompatível com propriedades antibióticas para auxiliar vítimas de queimaduras. Esse projeto foi apresentado na competição internacional iGEM (International Genetically Engineered Machine) e fomos premiados! Pretendo seguir pesquisando em Oncologia, área que me chama muito a atenção, talvez agora com uma abordagem mais translacional, unindo a ciência básica e a clínica médica.

SM: Qual sua ambição na música? Conte um pouco como a experiência artística influi na sua vida.

Eduardo: Houve uma época em que minhas ambições em relação à música eram maiores, confesso. Já participei de festivais internacionais, toquei em orquestra e concluí o curso Técnico em Instrumento Musical. Hoje, não considero fazer carreira como músico mas essa é definitivamente uma área que quero manter sempre em minha vida. Por mais que encontre prazer lidando com conceitos mais concretos e palpáveis no laboratório, por exemplo, acredito que a música em sua indescritibilidade e abstração toca pontos da mente (ou da alma, como se poderia dizer) que nenhuma outra atividade ou arte é capaz de alcançar.

SM: Algum lema motivacional?

Eduardo: Para citar a atriz e neurocientista Mayim Bialik: “Quando você se acostuma a estar preparado para rejeitar o senso comum, isso te deixa aberto para aprender mais”.

SM: Algum recado pra galera?

Eduardo: Sonhe alto e NUNCA desista dos seus sonhos! É preciso encontrar aquilo pelo que vale a pena levantar cada manhã e fazer desse seu objetivo. Cerque-se de pessoas que compartilhem interesses e que sonhem tão alto quanto você.

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Sobre Filipe Russo

Filipe Albuquerque Russo nasceu em 22 de Agosto de 1990 em São Paulo, capital e foi criado em Manaus, Amazonas. Aos 16 retornou a sua cidade natal onde reside atualmente. Caro Jovem Adulto, seu primeiro romance estabeleceu em 2012 a estréia tripla de Filipe Russo no cenário artístico brasileiro (tipográfica com Limite Circular, fonte original exclusivamente manufaturada para a obra; fotográfica com Iluminado Expandido, capa original do livro e enfim a obra literária propriamente dita).
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