Relato Pessoal: Angela Nardelli

Angela Nardelli

Angela Nardelli

Superdotação na maturidade!

 

Eu sempre me senti diferente das crianças da minha idade. Sentia, nos adultos, certa expectativa e admiração pela minha demonstração de agilidade mental.

Era comum ouvir “ela aprende as coisas rápido!”.

Internamente, os interesses e curiosidade sobre “como as coisas funcionavam” eram imensos. Realmente um comportamento que destoava do jeito da maioria de crianças com mesma idade, a minha volta…

O mais ruim de sentir-se “diferente” é quando a gente não tem claro “em que” somos diferentes.

Conversadeira, desde cedo falava de forma direta e sem freios, tudo o que enxergava, pensava e achava que era correto. Mesmo sem entender nada da vida, era capaz distinguir com clareza quando uma pessoa estava mentindo. Se estava bem intencionada ou não. Se estava triste ou alegre. Conseguia “ler” suas emoções e intenções.

Por volta dos 4 anos, sabia que não existiam Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa, mas fingia para não frustrar os esforços que os adultos da família faziam para nos presentear.

Era capaz de criar desfechos absolutamente inusitados para as histórias da vida real que ouvia os adultos contando.

Aos 5 anos, ficava por horas sentada numa varanda, olhando para a rua, criando mentalmente histórias de vida para as pessoas desconhecidas que passavam.

Muito sensível, chorava tanto e por qualquer coisa que minha mãe me chamava de manteiga derretida (rs).

Não seria problema ser uma criança esperta, agitada e com o vocabulário elaborado desde cedo, não isso não tivesse gerado nas pessoas a expectativa de que a mesma robustez intelectual se aplicasse também nas reações emocionais. Era comum as pessoas atribuírem mais idade e maturidade do que eu tinha de fato e estranharem quando eu demonstrava alta intensidade nas emoções.

O choro da infância foi substituído por rompantes de ataques de fúria (violentos) na adolescência. Num desses episódios um psiquiatra disse que era comportamento típico de doença mental e seria preciso uso de medicamento.

A juventude e fase adulta foram marcados por altos e baixos em diversas áreas da vida e aquela constante sensação de deslocamento.

Há pouco anos alguém perguntou se eu havia sido uma boa aluna e refleti:

Eu fui péssima aluna!

O ambiente escolar me parecia hostil. Lembro-me de sentir deslocada desde sempre, como se fosse um satélite que gravitava em torno de algo estranho a mim.

Os primeiros anos foram em colégio de freira, depois do 4º ano escolas públicas. Aprendi a ler sozinha em bulas de remédio e listas de ofertas em armazéns. Aos 12 anos minha leitura de cabeceira era o dicionário.

Gostava de estudar, mas não tinha orientação nem incentivo à minha volta. Sempre ouvi dizer que era “difícil de lidar comigo”. Perguntava demais e contestava mais ainda.

Para o pavor de minha mãe, fui suspensa inúmeras vezes, até que abandonei a escola aos 15 anos, no 1º final do ano do técnico em desenho arquitetônico (nível médio).

Aos 16 anos comecei dar aulas de pintura em tecido para umas senhoras na pequena cidade, na qual eu morava e continuei dando aulas de técnicas de pintura e artes manuais. Aprendia autodidaticamente para ensinar as alunas.

A partir daquele momento, mais de 20 anos se passaram sem que eu voltasse ao ensino formal com comprometimento. Estudei muito e de tudo, autodidaticamente. Filosofia, História da Arte e das Religiões e um sem-fim de outros estudos de âmbito corporativo.
Inquieta, não conseguia decidir o que fazer da vida, mas queria experimentar de tudo. Trabalhei numa multinacional, depois numa estatal, o mesmo tempo em que desenvolvia algum tipo de hobby lucrativo.

Passei em 8 concursos públicos, fui nomeada e pedi exoneração de 6 (em 2 nem compareci). Aos 30 anos montei minha primeira empresa de design de eventos. Simultaneamente, fui mãe, atriz, cenógrafa, cantei em banda, dei aulas, formei pessoas, dei palestras e empreendi muito.

Com quase 45 anos decidi voltar a estudar. Terminei o ensino médio ao mesmo tempo que fazia a faculdade e, sem para pra respirar, engatei em duas especializações.

Simultaneamente, fui convidada a integrar a um grupo de trabalho e pesquisas no meu campo de estudos e atuação, numa empresa pública e um ano depois e assumi como responsável técnica num edital federal para diagnóstico de potencialidade em comunidades tradicionais dentro de uma Universidade Federal.

Bom, já que estava na Universidade, porque não fazer um Mestrado para otimizar o tempo?

Hoje meu Currículo Lattes parece um livro de tanto certificado. Tenho artigos publicados em revistas A1. Sou mestre, com duas graduações em áreas distintas e duas especializações em Educação e Gestão de Pessoas.

Sou superdesenvolvida em visão sistêmica. Sei otimizar recursos e oportunidades de forma multidimensional.

Quando estava entrando no mestrado, conheci a superdotação, porque minha filha caçula foi identificada como tal, e na sequencia meu filho mais velho também foi identificado.

Utilizei intuição, amor de mãe e experiência profissional para fazer o enriquecimento curricular que minha filha precisava e não conseguia acessar. Claro que tive de estudar a superdotação e acabei migrando meu projeto no mestrado e pesquisando indicadores de AH/SD em alunos da Educação Superior.

Pode se dizer que ainda hoje não sou boa aluna. Sinto dificuldades para escrever e tenho aversão à sistemas engessados. Sou inquieta.

Demorei para aceitar que Eu Sou Superdotada, me escondi, neguei, me diminuí inúmeras vezes, tentei ficar quietinha para ver se sumia…rs….Mas agora sinto orgulho.

Aprendi a usar minhas altas habilidades em meu favor.

Angela Nardelli
Turimóloga e Historiadora
Especialista em Desenvolvimento Endógeno
Articuladora em Ecossistemas Colaborativos

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Sobre Filipe Russo

Filipe Albuquerque Russo nasceu em 22 de Agosto de 1990 em São Paulo, capital e cresceu em Manaus, Amazonas. Aos 16 retornou a sua cidade natal onde reside atualmente. Caro Jovem Adulto, seu primeiro romance estabeleceu em 2012 a estréia tripla de Filipe Russo no cenário artístico brasileiro (tipográfica com Limite Circular, fonte original exclusivamente manufaturada para a obra; fotográfica com Iluminado Expandido, capa original do livro e enfim a obra literária propriamente dita).
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