Entrevista: Melissa Mecenas Oshiro

Melissa Mecenas Oshiro e filha

Melissa Mecenas Oshiro e filha

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Melissa Mecenas Oshiro: Eu jamais me vi como alguém especial. Mas, alguém cheia de limitações e problemas. Muito tímida, introspectiva, com extrema dificuldade de interação social. Mas, nasci nos anos 80, cresci e me tornei adolescente nos anos 90, e pouco se sabia sobre superdotação, nesses períodos, o que dificultou a descoberta no momento ideal, ou seja, logo no início da vida. O que eu conhecia disso eram apenas os mitos de gênios, famosos, ricos, etc. Eu esperava me curar da timidez, e da sensação de ser inadequada e até desse extremo idealismo e hipersensibilidade. Mas, conforme a vida foi transcorrendo, e eu fui adquirindo algumas frustrações, traumas, lutos e etc, isso se intensificou. Na verdade, eu estava à procura de ajuda para minha filha, nos meus 41 anos, quando a psicóloga Cristiane Araújo disse que identificou em mim os traços das Altas habilidades e do Autismo. Eu já tinha um prejulgamento interno e externo de que o meu problema era advindo de um temperamento ruim, de uma antipatia, e até de um ser humano esnobe e enjoado que eu era. Era assim que eu me via, era assim que eu sofria, mas já estava conformada de que a culpa era minha, mas não sabia como parar de me sentir tão mal a meu respeito.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Melissa: Minhas áreas de altas habilidades são a literatura e a religião.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Melissa: Eu fui avaliada como autista superdotada. Considero que esse serviço profissional é desconhecido da maioria. As altas habilidades são mal compreendidas e ainda há muito preconceito e ilusões a respeito. O que resulta é que demoramos a descobrir nossa divergência e quando descobrimos ainda temos que lutar contra nossa própria autossabotagem porque não somos o gênio idealizado, não ficamos famosos nem ricos e precisamos lutar dia após dia contra o preconceito e a cobrança e autocobrança excessiva.

SM: Por que não se conhecer é uma arma afiada contra si mesmo?

Melissa: Porque quando você não sabe quem é não entende suas necessidades, tenta se identificar com a maioria, começa a autossabotagem, a se culpar excessivamente, fica triste, pode entrar em depressão. E tudo isso poderia ter sido evitado se eu soubesse desde cedo que as minhas necessidades sempre serão diferentes das outras pessoas e está tudo bem.

SM: Explique o seu entendimento sobre o tabu em relação às pessoas com neurodivergências, tais como autismo, altas habilidades ou superdotação e múltiplas condições.

Melissa: Depois que eu tive o diagnóstico de autismo e altas habilidades ficou mais fácil de entender porque eu era tão diferente das outras pessoas, e entendi que eu sempre vou precisar viver de um modo diferente para ser feliz. Que me fingir de outra pessoa não vai funcionar, pois é autodestrutivo. Não posso escolher quem eu sou. Algumas coisas nunca serão para mim, como me sentir idêntico, ou confortável no público. Mas, saber quem eu sou, ressignificar o passado não foi suficiente. O diagnóstico me trouxe cobrança, e aflição. Principalmente quanto às altas habilidades. Porque não me identifico em nada com o mito do gênio. Tenho muitas dificuldades financeiras, emocionais e tenho feito treinamento cerebral para melhorar uma lentidão do meu cérebro por excesso de traumas. Nos últimos anos, tenho sentido sensação excessiva de cansaço e desânimo que não apenas estavam vindo da depressão, mas também dos traumas que lentificaram meu cérebro. Hoje, eu tento não me cobrar tanto. Apenas desenvolver minhas altas habilidades com paz, para ser feliz e me sentir satisfeita em poder contribuir na sociedade com meus livros e outros trabalhos artísticos, cristãos e de videoartes.

SM: Como é ser uma mãe neurodivergente com uma filha neurodivergente?

Melissa: Não é difícil para mim, é apenas difícil quando a gente entra em contato com as pessoas que não são neurodivergentes ou que não entendem sobre o assunto ou não tem nenhuma empatia. Mas, depois do diagnóstico, passamos a ter mais contato com outras mães e crianças neurodivergentes e isso é muito bom; com profissionais que sabem nos ajudar também. De repente o mundo não é mais nosso inimigo, e nós não somos culpados de nada, somos apenas diferentes.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Melissa: Sim, minha filha e eu fazemos acompanhamento psicológico. É extremamente importante porque eu pouco sei sobre o assunto. A maior parte que sei é sobre minha própria vivência como uma criança, adolescente e adulta diferente que sofria pela inadequação e a também na experiência de ser mãe de uma neurodivergente. Mas, no restante, a orientação, e as questões emocionais são importantíssimas no tratamento para nós duas. E também faço treinamento do meu cérebro por causa da lentidão formada pelos traumas.

SM: Algum lema motivacional?

Melissa: A minha inspiração sempre foi Yeshua (Jesus de Nazaré). Descobri recentemente que ele era analfabeto (segundo muitos historiadores). O alto entendimento dele sobre as escrituras e sobre o que poderia melhorar a vida das pessoas na época, identificando hipocrisias no sistema político e religioso, sua coragem de enfrentar as autoridades defendendo os mais fracos, faz-me crer que ele era um superdotado. Alguém que passou pela incompreensão, pelo preconceito e julgamento, por não apresentar características ideais, ou seja, de um rei ou uma autoridade empossada, tanto como somos cobrados perante o mito do gênio, ele foi cobrado a ser um rei cruel e poderoso, mas se negou a ser. Por isso eu entendo que devemos fazer o nosso melhor, e buscar paz. Nossas necessidades são mais importantes do que os modelos oferecidos a nós.

SM: Quais os títulos dos seus livros publicados? Quais assuntos você desenvolve em cada um deles? Onde podemos adquirí-los?

Melissa: “A lenda das Mulheres Proibidas” (é uma ficção, abordo temas como poder, amor, abuso, estupro, conquistas territoriais. Nessa história inclusive há uma breve passagem de um neurodivergente, cujo professor e pai não o aceitam), “Mônica” (romance; os assuntos são abuso, machismo, abandono, e pessoas em tratamento contra o câncer), “O limite do amor” (romance ficção, abordo temas como luto e autossabotagem, depressão e violência psicológica), “A volta do filho e outros contos” (são vários contos, sendo o principal uma história póstuma contando da chegada do meu pai no céu, seus dramas para entender sua passagem na terra) e “As cinco estrelas” (romance, abordo temas de altas habilidades sem saber que estava falando disso, porque escrevi antes de saber do tema – eu os chamo de estrelas no livro; falo sobre os dekasseguis – trabalhadores brasileiros no Japão, autossabotagem, doenças psicossomáticas, luto e a decepção da personagem principal com a fama). Os livros estão à venda na Amazon e no site da Editora Life.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Melissa: A minha filha é acompanhada num instituto para autistas, onde faz motricidade e natação, tem acompanhamento de outros profissionais como dentistas, assistente social. Lá ela espera vaga para outras especialidades como fonoaudiologia e terapia ocupacional. Esse espaço é muito importante para o desenvolvimento dela e também para que possamos ter um apoio de pessoas que sabem como nos orientar para o desenvolvimento dela, sem preconceito, sem sofrimento, como geralmente é no contato com o mundo.

SM: Algum recado pra galera?

Melissa: Bom, eu gostaria de agradecer você por estar aqui como neurodivergente em busca de entender melhor a sua história através da minha. Eu espero poder ajudar você a não se cobrar tanto, a ter mais paciência consigo mesmo, porque tudo vai passar, tudo há de melhorar, na compreensão de que não existe erro, fomos feitos assim porque temos algo único a dar ao mundo: nossa alta habilidade; de maneira a trazer alguma doçura ao mundo, alguma luz sobre as escuridões. Posicionando-se como alguém que exige respeito, mas também esclarece com gentileza, a quem não faz a menor ideia do que é ser diferente e sofrer com isso, nós podemos ajudar os futuros filhos divergentes desses não neurodivergentes.
Se você não é um neurodivergente, eu te agradeço mais ainda por ter lido a minha história, porque isso te capacita a tornar o mundo menos hostil a muitos de nós que estão sofrendo muito agora ou sofrerão futuramente.
Desconfio que meu pai era um neurodivergente, com muitos sofrimentos e diferenças durante a vida, mas não teve diagnóstico. Muitos de vocês que vieram aqui sem saber nada sobre altas habilidades, e autismo, podem ter conhecido muitas pessoas e não reconheceram e não souberam ajudar. O conhecimento e o amor são a chave não para tornar todos iguais, mas para suprir as diversas necessidades nossas. Conforme vamos aprendendo sobre quem somos, aprendemos o que precisamos, e isso trará uma vida de qualidade. Isso é o mais importante, isso é insubstituível, a dignidade, a paz e a aceitação de quem somos. Não esqueça, Deus te ama!

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Entrevista: Sobre Neurodiversidade de Filipe Russo por Fábio Mori para o MatrizCast

Filipe Russo no MatrizCast

Filipe Russo no MatrizCast

O MatrizCast é o podcast oficial da Escola Matriz. Todo Domingo oferece um episódio novo falando sobre Educação com convidades especiais que dão insights muito importantes para você estudante que está prestes a escolher a sua profissão. Já pensou que legal poder escutar de alguém que já passou por tudo isso e hoje pode te contar quais foram as decisões corretas, os erros, os arrependimentos, aprendizados e o que faria diferente? Afinal a principal pergunta que fazemos para les convidades é: o que você diria, quais conselhos daria para o sua versão de estudante do passado? Clique aqui e ouça a entrevista sobre neurodiversidade com Filipe Russo por Fábio Mori na íntegra. Segue abaixo dois trechos audiovisuais da entrevista sobre diferença e normalidade.

Diferença na minha Normalidade

Trecho sobre a “Diferença na minha Normalidade” da entrevista de Filipe Russo por Fábio Mori para o episódio #111 do MatrizCast, o qual versa sobre o que é neurodiversidade.

A sua Normalidade na Diferença

Trecho sobre a “A sua Normalidade na Diferença” da entrevista de Filipe Russo por Fábio Mori para o episódio #111 do MatrizCast, o qual versa sobre o que é neurodiversidade.

O QUE É NEURODIVERSIDADE. (FILIPE RUSSO – MATRIZCAST #111 )

🎙️ Neste episódio especial do MatrizCast, temos a honra de receber Filipe Russo para uma conversa reveladora sobre Neurodiversidade e a riqueza das mentes únicas! 🧠💡

Junte-se a nós enquanto exploramos o incrível mundo da Neurodiversidade e mergulhamos em sua importância para compreendermos nossas próprias diferenças. Descubra como abraçar essas singularidades pode enriquecer nossas vidas e relacionamentos, moldando um futuro mais inclusivo.

Além disso, saiba porque pessoas Neurodivergentes são peças fundamentais no quebra-cabeça do mercado de trabalho. Descubra como suas perspectivas únicas, habilidades excepcionais e pensamento inovador são cruciais para impulsionar times e grupos a atingirem níveis de excelência ainda maiores.

Prepare-se para uma jornada inspiradora, onde celebramos a diversidade de mentes e destacamos como cada indivíduo, independentemente de sua neurodivergência, contribui para um mundo mais vibrante e acolhedor. 💬🌟

Vamos conectar a educação. ♾️🤓📚

Host: Fábio Mori (@fabinhomori)
Convidade: Filipe Russo (@ofiliperusso)

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poETes: o Relançamento 🚀

poetes.com.br/livro

poetes.com.br/livro

Conheça e apoie a poesia escrita por pessoas com superdotação ou altas habilidades! Somente até o dia 24 de setembro de 2023, obtenha o seu exemplar autografado em:

poetes.com.br/livro

Em breve, o livro “poETes: Altas Habilidades com Poesia” será publicado pela primeira vez em formato impresso, em nova edição pela editora Toma Aí Um Poema (TAUP). A obra conta com 52 poemas de 10 autorias neurodivergentes! Dentre as quais pode-se destacar figuras conhecidas da nossa comunidade, tais como André Coneglian, Filipe Russo, Luciano Santa Brígida, Nina Carvalho, Rejane Vieira, entre outras.

Uma IA pode fazer poesia?

Uma IA pode fazer poesia?

Será que uma Inteligência Artificial (IA) pode escrever boa poesia?

O poeta e programador Luciano Santa Brígida, membro proativo do nosso coletivo, programou o poETeBot, um “Bot Poeta”, especialmente para a nossa campanha. Participe da experiência interativa de literatura expandida por IA (👽 + 🤖 = 👾) em:

poetes.com.br/bot

Durante a nossa campanha de financiamento colaborativo na plataforma Benfeitoria, você poderá interagir com o nosso “Bot Poeta” para produzir poemas nos temas da coletânea poETes e assim expandir a sua experiência estética de leitura, segue abaixo os capítulos do livro que podem ser expandidos por tempo limitado em nosso website.

  1. Espaço e Tempo;
  2. Ciências e Tecnologias;
  3. Natureza e Paisagens;
  4. Jogos e Poderes;
  5. Linguagens;
  6. Entre a Razão e a Emoção;
  7. Poedemia ou Pandemia (pandemia);
  8. Nosso Olhar (AH/SD).

Live "poETes, o Relançamento — POESIA AO INFINITO E ALÉM"

Live “poETes, o Relançamento — POESIA AO INFINITO E ALÉM”

🚀 No sábado do dia 12 de agosto de 2023, às 15:00, foi realizada a live interativa “poETes, o Relançamento: Poesia ao Infinito e Além”.

tinyurl.com/poetes-live-2023

🚀 O evento objetivou divulgar o projeto poETes e explicar melhor sobre a campanha de financiamento colaborativo para a republicação do livro “poETes: altas habilidades com poesia” pela editora TAUP – Toma Aí um Poema.

🚀 poETes é uma coletânea de poesias escritas por pessoas jovens com altas habilidades ou superdotação (AH/SD) que se conheceram online a partir dessa condição neurodivergente.

🚀 Após uma parceria bem-sucedida com a Atípica Editorial, nossa obra será relançada em uma nova edição atualizada, revista, expandida e impressa.

🚀 Durante o evento, autorias da coletânea recitaram seus poemas. Imperdível!

Seleção do Coletivo poETes pela Editora Toma Aí Um Poema em sua Segunda Chamada de Originais de 2023

Seleção do Coletivo poETes pela Editora Toma Aí Um Poema em sua Segunda Chamada de Originais de 2023

A publicação de uma edição atualizada, revista, expandida e agora impressa do livro poETes pela editora Toma Aí um Poema (TAUP) nos garante um retorno ao circuito editorial e agracia com uma segunda vida um projeto coletivo, coautoral e agora financiado colaborativamente. Mediante sinergia com a TAUP e sua missão de visibilizar talentos emergentes de natureza literária a partir dos valores de que publicar é um direito e de que o acesso à poesia deve ser universal, nós, juntes e misturades, realizamos o sonho coletivo das pessoas autoras, efetivando a fantástica oportunidade de imprimi-lo no mundo e participar de um espaço em que poetas e amantes da poesia acessam, compartilham e celebram talentos literários diversos – um ecossistema fértil que nos remete aos saraus nos quais primeiro brotou a ideia desta coletânea!

Ainda, um subgrupo de poetas da nossa Comunidade AH/SD, se sensibilizaram e se mobilizaram pelo nosso projeto de poesia neurodivergente. Algumas dessas novas autorias chegaram até mim e propuseram participar da divulgação do livro ao publicizar sua própria poesia! Segue abaixo esses movimentos poéticos coadjuvantes ao livro “poETes: Altas Habilidades com Poesia”. Participe você também em prol do movimento pela neurodiversidade poética brasileira! (:

O erro de saber demais

Fernanda Bronzeado

Como saber pode ser errado?
Saber e errar? Saber errar..
Errado não tá
Mas certo também não

Não encaixa
Não relaxa
Tenta e não consegue
Consegue sem tentar

Suas palavras são atentado ao pudor
Pudor é opinião média
Medida nunca foi seu forte

Sempre fora da escala,
Do esquadro
Da expectativa

Sacro Escaravelho

Rafael Maia

Imagem do sol levante em cume
Que reflete a incerteza do eterno.
Em tempos de beleza e arte esteve
Com o ciclo do ocaso em teu domínio.

É pendular e eterno o movimento:
Kefri deita o astro em noite escura
Mas despontará Rá em brilho azul.
Sereno e permanente ensinamento!

Renasce a esperança em tua presença
De um novo tempo fértil e iluminado
De sábia luz que emana do teu culto,
Translúcido pedido de um morto.

Se a força do desejo alcançasse
A tua piedade e renascesse
A chance de tesouro que espera
O rei tão suplicante no sepulcro.

Verdade então seria revelada
Em carapaça negra de besouro
– Levanta-te e segue teu caminho!
Aprende com os passos da aurora,

Que ganha e perde tudo em agonia
E morre e surge forte a cada dia.
A vida é água limpa pelo Nilo,
Silenciosa e firme em correnteza,
Profunda e carecida de certeza.

05/04/2023

Marcela Carreiro

Cada encontro cobra um ritual

Na porta de entrada, descarto sorumbático manto

Pago os cumprimentos, solicito o atual

E diante de um possível espanto

Equipo-me com capa costurada de lúmens e sonhos

Apressada para nossa reunião

Lampeja amor em nosso bifurcado coração

Entre uma miríade de lágrimas e momentos saturninos

Mesmo em estridente quietude

Escuta-se temíveis e eletrônicos sinos

Meu toque apesar de afetuoso, acidentalmente rude

Nele, reverencio meu até breve

Sou compreendida, em maneirismo frágil e leve

Após despedida, esquivo do terror noturno

Porque à noite o prazer transforma-se em apático

Quando lembro de seu semblante soturno

Ainda devaneio com seu toque catártico

Anseio o alvorecer, prendo-me ao factual:

Cada encontro cobra um ritual

Sobre Ser Superdotada

Tatiane Oliveira

Queria tanto poder ser eu mesma,
Tirar a dor que tanto me assombra,
Não ter que usar máscaras em cada lugar que estou,
Para agradar o padrão da sociedade.

Luto diariamente para ser feliz,
Para estar alegre e viver,
Mas com o tempo percebo que minha distância entre o padrão fica maior.

Desejo ser acolhida, compreendida, aceita
Mas não sou.
Por onde passo sou um incômodo
Será que sou um problema?

Será que mereço levar essa culpa?
Por buscar ser melhor a cada dia
A competir comigo mesma
Por não aceitar os absurdos impostos e questionar condutas inaceitáveis

Em realizar um bom trabalho e utilizar minhas habilidades
Quanto mais me dedico mais me diferencio dos demais
Dói ser, pensar e agir diferente.

Meus maiores prazeres estão sendo dissipados
Estudar, desenhar, pintar, tocar, dentre outros
Qual será o meu fim?
Cair num looping infinito onde tudo se repete? E sofrimento começa de novo.

Você busca a cura e as pessoas ao seu redor não.
Projetam suas frustrações em você.
Você as entende, mas elas não lhe entendem.
Que mundo é esse com essa falta empatia?

Queria me apagar desse mundo injusto.
Que faz crianças, adolescentes e adultos como eu sofrerem
Mas não vou dar esse prazer

Vou me levantar,
ter resiliência como sempre
E continuar lutando em busca da visibilidade dos superdotados.

30/04/22

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Relato Pessoal: Melissa Mecenas Oshiro

Melissa Mecenas Oshiro

Melissa Mecenas Oshiro

1 A Descoberta

Comecei a perceber que minha filha Poliana era mais lenta em andar e falar, em se comunicar desde que ela fez um ano de idade, depois isso se tornou mais nítido quando ela estava diante de crianças de sua idade. Comecei a comentar no Projeto onde frequentamos que suspeitava que minha filha pudesse ter autismo. Um dia consegui uma consulta com uma psicopedagoga que me indicou outra profissional especialista em autismo.

Tive um primeiro contato por whatsapp com a psicóloga Cristiane de Araújo, depois preenchi vários questionários e fiquei aguardando uma consulta pessoalmente. Mas, eu estava buscando ajuda para minha filha, não para mim. A surpresa foi que essa busca me levou a um encontro inesperado: comigo mesma, a Melissa de verdade, alguém que poderia responder por que havia sido tão difícil viver dentro da família, dentro da escola e em todo lugar. Por que eu era tão diferente?

2 A Culpa

Inicialmente, me pareceu tão egoísta buscar algo para mim. Desde que me tornei mãe, ouvi muito: “Agora é só ela! Você deve esquecer de você por ela! A mãe não pode isso, a mãe não pode aquilo, a mãe não pode ficar doente, a mãe deve ser forte, a mãe e só a mãe, o pai ajuda se quiser e se puder”. Fiquei grávida num contexto muito ruim, e ainda assim a aceitei imediatamente. Amei-a tanto que isso me deu forças para acreditar que minha vida ainda tinha jeito. Enquanto ela crescia dentro de mim, eu sentia que finalmente algo bom e independente do mundo exterior era gerado, sem mácula, sem a tristeza que geralmente estragava tudo para mim. Naquele momento, eu tinha a oportunidade de conhecer o amor supremo: o da doação. Não importava como, isso foi uma chance que ganhei de Deus. Enfim, eu havia encontrado o amor incondicional.

3 O Começo de Tudo

Meu diagnóstico foi de autismo e altas habilidades. Olhando do futuro para o passado (vendo da perspectiva do início da minha vida), percebo uma criança pequena que demora a sair das fraldas, sempre apanha de outras crianças, até mesmo de suas próprias amigas, acredita em tudo que escuta, e facilmente é roubada sem contestar pois não sabe falar para se defender. Detesta comer. Chupa a comida e cospe. Seleciona alimentos, cheira-os. “É nojentinha”- dizem. E pelo fato de não gostar de comer, vive internada. Não fala quase nada. Mas, começa a inventar canções logo que a fala começa. Aos quatro anos, começa a divagar com mais intensidade, pensando sobre algumas teorias acerca da vida e do amor. Aos cinco anos ainda não sabe comer e ninguém sabe porquê. Um dia, uma prima senta com ela na mesa da cozinha da casa da avó materna e começa a lhe dizer:
Olha, Melissa, é assim: põe na boca, mastiga e engole”. E naquele dia ela comeu pela primeira vez, sem cuspir a comida. E dali em diante parou de ficar doente. Aos seis anos, começa a estudar. Ela passa por algumas crianças chorando e não compreende pois ela estava encantada com tudo aquilo. Ela sabia de alguma forma que estava ali para algo bom: aprender. No primeiro dia de aula, choveu na hora do intervalo, um garotinho vendo que ela não conseguia abrir de maneira nenhuma sua garrafa térmica com suco, veio e abriu-a para ela. Ela acha tão lindo e fica com aquela sensação de gentileza no meio de um monte de gente ocupada e fria.

4 Bullying

Como uma criança autista e superdotada já foi difícil viver entre os normais. Mas pior era não saber da minha múltipla condição. Não se conhecer é uma arma afiada contra si mesmo. E quanto mais o tempo passava mais eu me sentia inadequada, fraca e impotente. Isso se intensificou através dos bullyings que nas décadas de oitenta e noventa não tinha nome e quem se ofendesse era visto como fraco e chato. Querer levantar uma causa na escola ou na família era sofrer novas perseguições. Meus pais me diziam: “finja que não é com você, logo passa. Se achar ruim será pior”. Fingir que estava tudo bem ou tentar manipular minha identidade era a resposta para a normalidade. Até hoje, muitas pessoas foram contra minha identificação e isso permanece um tabu.

5 Manipulação da Identidade

Há uma necessidade de que todos sejam iguais ou, pelo menos, finjam que são para atender às expectativas da família, dos amigos e da sociedade.

Ser diferente é um grande sofrimento para mim, não por ser diferente, mas pela manipulação exterior em querer me curar de quem eu sou. É uma grande expectativa de que, em algum momento, eu “amadureça”, e me transforme em uma pessoa mais igual às demais. Descobri minha dupla condição com 42 anos, e ainda assim me sinto esperando que isso mude e sinto que as pessoas esperam isso de mim. Essa manipulação constante me leva a um sofrimento insuportável.

6 Ingenuidade

Um dos problemas do autismo na minha vida foi a tendência a me machucar: a apanhar de crianças, a sofrer calada, a ser literal esperando do outro a mesma sinceridade com a qual falava e me frustrando (até adulta), a viver um relacionamento abusivo após o outro, a não saber lidar com conflitos, a buscar a solidão, ser uma criança triste, e uma adulta com depressão profunda. Muitas vezes meu idealismo foi identificado como infantilidade. Muitas vezes meu modo exigente em relação ao que me foi prometido também foi interpretado como infantilidade. E eu segui sempre sem entender as pessoas e as pessoas sem me entenderem. Porque meu raciocínio literal não entendia como aceitar a mentira para que eu me tornasse uma adulta normal e madura.

7 As Altas Habilidades

As altas habilidades começaram de forma suave através dos meus quatro anos, na sala de estar da minha avó materna. Lembro-me de ficar pensando em muitas teorias e a partir daí estava sempre me apartando das outras crianças para ficar parada num canto pensando e observando o céu. Às vezes, eu voltava e olhava para elas e me cobrava: “vai lá, brinca”. Em contrapartida, eu dizia numa conversa interna:

Por que? Eu não entendo o que elas estão fazendo. Eu quero pensar. Eu amo pensar e olhar o céu. Amo isso”.

Logo comecei a criar músicas e quando comecei a escrever já inventava minhas próprias frases, sempre em cartinhas dedicadas a meu querido pai. Com onze anos escrevi minha primeira poesia. Passava tardes inteiras escrevendo poesias na sacada do prédio onde morávamos. E não conseguia parar de escrever e ter ideias. Mas quando estava com quatorze anos minha mãe me disse que se eu escrevesse um livro ela mandaria publicar e ela o distribuiria no aniversário para todos os convidados e ela teria muito orgulho de mim. O resultado foi que fracassei. Aquilo tudo me deprimiu demais: ela tinha muitas expectativas sobre mim e parece que isso me remetia a tudo que eu detestava: o amor condicional. Eu não sei se queria que alguém tivesse orgulho de mim, acho que eu só queria ter sido amada, amada de verdade, sem expectativas. Mas, naquele momento eu parei de escrever por onze anos. Até o momento em que a vida me cobrou que eu voltasse a exercer meu dom, no meio de uma síndrome do pânico. Eu voltei a escrever e foi o que me curou. Não usei remédios. O meu dom foi o meu remédio. Hoje, tenho cinco livros publicados e dezenas finalizados.

8 Expectativas

Comecei a sofrer com as expectativas das pessoas em relação à minha filha também, que vinham sempre com julgamentos muito cruéis: “O que foi com ela? Ela é preguiçosa!” e muitos outros. Mas, na verdade, essa expectativa surgiu desde a gestação, pois eu engravidei com 37 anos e o preconceito que sofri foi mais um fator que contribuiu para uma depressão no período gestacional e no pós-parto.

Eu como mãe aprendi a me amar de verdade. E essa jornada meio que sem querer na verdade foi a porta para achar meu diagnóstico e começar uma busca por uma vida de melhor qualidade. Se tenho expectativas é de ter qualidade de vida e nunca, nunca mais de me ferir ou deixar ninguém me ferir para parecer normal ou aceitável. Publiquei cinco livros, mas com eles vieram muitas cobranças tanto minhas quanto externas e, no final, a prosperidade não veio. E nesse momento eu me questionei: e aí, escritora mesmo? E continuei a escrever outras dezenas de livros, num fluxo incontrolável. Mas, agora com a divulgação do diagnóstico de altas habilidades ou “ah, superdotada?” sei que também virá a cobrança e a autocobrança de: cadê o sucesso? E mais uma vez eu caio no consenso de que todo superdotado é rico e famoso ou eu vivo minha história sem expectativas e encontro nisso a paz. Porque nem toda fama vem da superdotação e nem todo superdotado está preocupado com fama, mas com o desenvolvimento de suas altas habilidades.

9 Depressão

Uma das coisas que desenvolvi foi a depressão. Isso aconteceu por fatores externos e pela incompreensão da minha condição. Passei por muitos traumas: luto, bullyings, relacionamentos abusivos, preconceitos, calúnia e difamação, exposição pública na internet, abandono. Tudo isso nunca minou meu potencial como artista e escritora, mas acabou por potencializar minhas habilidades. Eu uso da dor para escrever, dos traumas para criar. Para alertar, para exortar e edificar pessoas, inventando personagens que sofrem por algo que eu já sofri ou muitas vezes escrevi sobre dores que eu apenas sofreria posteriormente: como uma premonição.

Sempre fui mais lenta para fazer tudo por conta do autismo, mas a depressão torna tudo mais lento ainda. Fico quase impossibilitada de decidir, de agir, isso dificulta a vida e me torna alvo de mais críticas negativas. No entanto, nesse momento de completo desespero, de um pânico de madrugada ou de uma vontade de desistir de tudo, o dom surge e me convida a me sentar e escrever sobre isso. Sobre a própria desesperança e não a desistir. E assim tenho feito. E são dezenas de histórias já.

10 O Futuro

Eu sempre penso e agora? E o futuro? Como posso devolver alegria quando estou tão triste? Como posso melhorar se já tentei de tudo? Hoje eu faço neurofeedback com a psicóloga Cristiane Araújo. E tenho esperanças de melhorar, digo a qualidade de vida. Muitas das nossas dores e ansiedades vem sobre lembranças de pessoas que não nos conhecem verdadeiramente, que talvez tenham crescido conosco, tenham vivido anos a nosso lado e de fato nunca nos enxergaram nem uma única vez. Quero terminar esse relato dizendo um ditado malaio:

O amor é aquele que conhece.

Obrigada, Deus, por ter me proporcionado lutar mais uma vez por meu caminho estreito, por meus dons, e por ter me encontrado e me resgatado novamente para me mostrar que nada foi à toa, que eu não sou um erro e que o erro é não saber olhar os lírios do campo. Hoje eu olho para mim e para minha filha não como máquinas de produzir sucesso, mas como portas abertas para o amor, a paz e, quiçá, o resgate da minha alegria.

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Identificação: Por que identificar?

Discurso de Filipe Russo sobre a importância da identificação das AH/SD para o Grupo de Apoio às Altas Habilidades ou Superdotação de Londrina-PR

Discurso de Filipe Russo sobre a importância da identificação das AH/SD para o Grupo de Apoio às Altas Habilidades ou Superdotação de Londrina-PR

A convite de Paula Coneglian, matriarca de uma família superdotada com dois filhos e esposa de André Coneglian, eu escrevi e declamei um breve discurso sobre a importância da identificação das AH/SD para a I Semana Municipal das Altas Habilidades / Superdotação, realizada de 08 a 15 de agosto de 2023 e organizada pelo Grupo de Apoio às Altas Habilidades ou Superdotação de Londrina-PR. Veja, ouça e/ou leia o discurso completo no vídeo e/ou na transcrição abaixo.

Identificação: Por que identificar as Altas Habilidades ou Superdotação?

Transcrição

Olá, eu me chamo Filipe Russo. Sou revisore no periódico científico Revista Neurodiversidade do Instituto Neurodiversidade. Também sou fundadore do blog SupereficienteMental.com.

Hoje eu falarei um pouco sobre a importância de se identificar as altas habilidades ou superdotação.

Por que identificar?

  1. Porque as pessoas com altas habilidades cedo ou tarde se sentem profundamente diferentes de seus pares e demandam uma melhor compreensão tanto de si quanto do outro a fim de entender essa diferença de natureza identitária.
  2. Porque nomear a diferença é fundamental para torná-la socializável por meio da linguagem, para acessar direitos de forma plena e assim receber atendimentos especializados nas áreas educacionais, assistenciais e laborais.
  3. Porque nossa identidade não é um fenômeno egocêntrico, apesar de narcísico. A identidade uma vez nomeada nos coletiviza, pois todo indivíduo pertence a um coletivo de indivíduos, nunca estamos sozinhes na diferença.
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Relato Pessoal: Adriana Mendonça

Adriana Mendonça

Adriana Mendonça

Dez formas de fazer as pazes com a superdotação

Adriana Mendonça*

“Se quiseres conhecer uma pessoa, escuta-lhe os sonhos.”

(COUTO, Mia. As areias do imperador. Livro Um. Mulheres de Cinza. Portugal, Caminho, 2015, p. 22)

Neste ano de 2023 completei 10 anos de identificação como superdotada, defendi meu mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, e ambos são marcos dignos de celebração!

Fui identificada com altas habilidades ou superdotação aos 48 anos, quando estava no primeiro ano da faculdade de Psicologia. Eu tinha diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade e Impulsividade (TDAHI), tomava metilfenidato, mas queria me desmedicalizar. Foi-me indicada uma avaliação neuropsicológica completa, para eu saber exatamente o que eu tinha, uma vez que a psiquiatra que me atendia havia preenchido apenas um questionário de rastreio. As altas habilidades ou superdotação vieram como resultado dessa avaliação e abriram “com chave de ouro” as portas para a segunda metade da minha vida.

Minha história, antes disso, é que comecei a ler e a escrever meio que sozinha, ali pelos quatro ou cinco anos de idade. Ao se dar conta disso, minha mãe me comprava gibis, revistas e livros, e ensinou-me como conseguir outros numa banca de trocas. Passei a ser leitora voraz de tudo, e percebi muito cedo que o universo era ilimitado. Aos seis anos, fui para a escola, sendo acelerada informalmente para entrar direto no primeiro ano. Mas foi na escola que comecei a vivenciar as limitações desse mundo.

Chegada a época de escolher uma carreira para prestar vestibular, eu gostava de tudo! E, como a obrigação de escolher somente um curso dentre tantos estava sendo uma tortura, procurei ajuda psicológica num programa de orientação vocacional, e me encantei por aquela profissão que ensinava as pessoas a se conhecerem.

Em 1987 formei-me em Arquitetura e Urbanismo, porque nessa profissão poderia juntar artes, números e psicologia. Trabalhei em diversas empresas, em diversas áreas, mudei várias vezes de cidade, de país, de situação marital, de religião e de cor de cabelo. Fiz muita psicoterapia, na tentativa de aplacar o profundo sentimento de inadequação e de compreender o mundo em que vivia. Recebi diagnósticos de doenças, fui analisada, interpretada e medicada, porque alguns profissionais ainda têm necessidade de patologizar os comportamentos, na esperança de que, com a intervenção e o remédio certos, a pessoa fique como eles entendem que ela deveria ser. Penso que o medo de quem é diferente, e o medo de eles próprios se descobrirem diferentes, é insuportável para alguns profissionais.

Ingressei na faculdade de Psicologia em 2013 e, logo no primeiro semestre, em aula sobre transtornos de aprendizagem, desconfiei que pudesse ter algo além de TDAHI, porque sempre tinha tido notas altas e ótima memória. O resultado de superdotação da avaliação neuropsicológica foi o ponto de inflexão em minha vida. Inicialmente neguei, revoltei-me, fiquei triste; contudo, ao estudar o fenômeno, entendi que era a minha história, e que outras pessoas poderiam estar passando pelo que eu já havia passado – e ainda passava. Entendi que havia muito a ser feito para construir uma vida saudável, amorosa e produtiva.

Selecionei 10 ações implementadas por mim que resultaram em maior qualidade de vida. Eu não saberia dizer a sequência ao longo do tempo, porque eu tenho a impressão que eu fiz tudo meio junto, mas a de número um foi realmente a primeira, e a de número dois foi a que me fortaleceu e empoderou para as demais.

1. Desmedicalizei-me

Comecei por me desmedicalizar. Comprei um pacote de 30 sessões de treinamento cerebral com neurofeedback. Inicialmente, fazia duas sessões por semana, depois passamos para uma vez por semana e, ali pela sessão 25, eu já estava sem Ritalina e sem sintomas de TDAHI. Meu funcionamento cerebral melhorou muito, fui capaz de reabilitar minhas funções executivas e tive outros benefícios de um cérebro que gasta menos energia para fazer o que é preciso. Encantei-me por essa prática, fiz a formação, comprei os equipamentos, e trabalhei como treinadora de neurofeedback até 2020, quando a pandemia nos afastou. Atualmente, meu interesse é pela pesquisa com neurofeedback para pessoas com AH/SD.

2. Atribuí um sentido à superdotação

A vida não tem sentido em si mesma, mas somos nós que lhe atribuímos um sentido, o qual pode ser permanente, temporário ou situacional. A partir de minha identificação tardia, propus-me dedicar minhas AH/SD à ciência, para a inclusão de pessoas com AH/SD nos estudos, no trabalho, nos esportes, nas artes, nos relacionamentos e nas demais atividades em sociedade. E foi a partir de meu autocuidado que decidi dedicar minha prática profissional às pessoas que desejam buscar sua autorrealização, desenvolvendo propósito e atribuindo sentido à sua vida.

3. Aprendi a me organizar

Tudo na natureza tem uma ordem, um padrão, obedece a ciclos para funcionar bem. Busquei cursos, livros, leituras e práticas para aprender a organizar meu tempo, minha agenda, meu espaço físico, a casa, o quarto, o escritório, os potinhos com suas tampas na cozinha, a papelada, as roupas, os arquivos no computador, a memória de trabalho do celular etc. Não tem como pretender ter alta produtividade duradoura sem organização duradoura. Isso envolve viver em ambientes limpos, bem conservados e esteticamente bonitos e agradáveis. Os espaços que ocupamos refletem nossa mente e também a modificam.

4. Melhorei minha saúde física

Regulei meu sono, minha alimentação, ingestão de água de qualidade. Ao longo do mestrado estive sedentária, mas os exercícios físicos e exposição ao sol e a outros elementos da natureza foram muito impactantes em meu bem-estar, criatividade e equilíbrio emocional. Se temos maior número de sinapses, elas precisam de ambiente encefálico saudável, e isso requer eliminar drogas, não só as ditas ilícitas, como as lícitas, aquelas que a gente põe para dentro com o ar, a alimentação, as bebidas, os fármacos, e as informações que a gente vê, ouve e percebe nos ambientes.

5. Eduquei-me financeiramente

Para eu ter liberdade de trabalhar com o que quiser e se quiser, ter liberdade de estudar o que eu quiser e quando quiser, morar onde eu quiser e com quem eu quiser, eu preciso de dinheiro. Para isso, fiz curso de Educação e de Organização Financeiras, e hoje sou mentora nessa área. Não tem como exercer a superdotação sem liberdade, e a liberdade vem pela produção do dinheiro suficiente para pagar minhas contas pelo resto da vida. Entendi que não preciso ficar escrava de um emprego, porque dinheiro pode vir de mais de uma fonte. Quer exercer plenamente sua superdotação? Produza riqueza para a sociedade ou você será um peso para ela.

6. Parei de buscar culpados

Fatores externos não me definem. Eu poderia dizer que sou assim porque sou filha única, sou assim porque sou de família italiana, sou assim porque estudei em escola pública, sou assim porque minha mãe sei lá o quê, sou assim por que meu pai tal coisa …, porque minha professora, meu marido, meu chefe, minha doença, o governo … Atribuir aos fatores externos a responsabilidade por meus resultados me faria vítima, e vítimas não realizam nada. Dessa forma, passei a atribuir às minhas ações e decisões a responsabilidade por meus resultados. Diante da realidade que se apresenta, penso sobre o que mais posso fazer para alcançar meus objetivos. E fui me capacitar para, em contexto clínico, não reproduzir o que alguns profissionais perpetuam, quando fazem a pessoa acreditar que ela nunca poderá mudar porque eles acreditam que alguns fatores são imutáveis.

7. Fiz as pazes com meu passado

Todo mundo sempre faz o melhor que pode com as informações que tem no momento. Quando nos chega uma nova informação, de nada adianta cultivar o arrependimento por ter feito daquele jeito. Conhecer sobre as AH/SD foi esclarecedor para eu entender quais eram minhas dificuldades no passado e por que fiz aquelas escolhas e não outras. Hoje, tenho oportunidade de fazer diferente e sei que posso errar erros novos. Certamente, colho algumas consequências negativas, mas eliminei os sentimentos negativos que tinha a meu respeito. E todo dia tenho 24 horas para fazer diferença na minha vida, igual a todo mundo.

8. Entendi que meu futuro é consequência de meu presente

Desde que minha mãe faleceu em 2012, moro com meu pai idoso. Isso não estava nem em meus mais absurdos planos, mas, dentre as infinitas possibilidades de outras soluções para o problema, eu escolhi morar com ele. E quanto mais eu fui cuidando de mim e me organizando, mais leve foi se tornando essa vida presente. Assim, em vez de estar ansiosa por chegar logo um futuro diferente, como se eu fosse vítima do destino, eu escolhi viver em paz meu presente e pavimentar um caminho harmonioso para o futuro, qualquer que seja ele.

9. Afastei-me de pessoas tóxicas e busquei novas amizades

Bem naquela linha do “dize-me com quem andas e te direi quem és”, busquei estar perto de pessoas que me inspiravam a ser como elas ou a ser uma pessoa melhor. Claro que minhas amigas e amigos do coração foram mantidos, pelos laços já estabelecidos, mas aprendi a buscar voluntariamente pessoas que me são modelos em algum aspecto que eu quero desenvolver. Descobri que o mundo é generoso e abundante, e que sempre há muito de tudo. Porém, só enxergamos o que nossa consciência concebe e aceita como possível.

10. Voluntariado

O tempo todo sofremos influências dos projetos de vida das outras pessoas, os quais podem impactar os nossos, mas o apego ao “eu-meu-minha” é uma das grandes causas de infelicidade. Assim, o trabalho pela causa de outras pessoas, participando de iniciativas criadas por mim ou por outros, passou a ser imprescindível para minha saúde mental, emocional e espiritual. Nossa inteligência precisa se manifestar no mundo físico para existir. Se uma das definições de inteligência é “capacidade de resolver problemas”, a inteligência escondida no quarto, no celular e nas compulsões, é inteligência inexistente. Agir no mundo real nos protege de nós mesmos e traz nossa inteligência à luz.

Resumindo, esses 10 anos passaram voando, com muitos desafios para instigar minha curiosidade e criatividade. Entendi que sou a única responsável por meu bem-estar e aprendi a pedir ajuda, sem a pretensão de ser perfeita. Abri mão da busca da aprovação alheia, e sinto-me mais confortável para reconhecer como interessantes outros pontos de vista.
Estou empenhada em ser, ter e fazer tudo o que eu vim ser, ter e fazer na vida, e em ajudar mais alguém a trilhar essa jornada. Para isso, procuro me manter aberta a novas ideias, honesta com meus valores e princípios, e flexível, para estressar o mínimo possível, e logo voltar ao meu eixo, quando nada disso dá certo. Como dizem os portugueses: “o vento pode até ajudar, mas é a audácia que nos faz navegar!”

*Atuo como mentora de pessoas superdotadas nas áreas de organização financeira, busca de trabalho e em assessoria acadêmica. Como psicóloga, realizo identificação de AH/SD. WhatsApp +5519991759893

Vale ressaltar que Adriana Mendonça foi a primeira parceira intelectual e a primeira parceira profissional deste blog, com seu ensaio “Sentimento & Senso de Inadequação” (2017) e com o programa “Jornada Literária para Superdotados Adultos” (2022), respectivamente.

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Publi: Curso Workshop para a Produção do Plano Educacional Individualizado (PEI) Ofertado pelo Instituto Neurodiversidade

Workshop PEI - Instituto Neurodiversidade 2023

Workshop PEI – Instituto Neurodiversidade 2023

Workshop para a produção do Plano Educacional Individualizado (PEI) – inscrições pelo nosso website www.institutoneurodiversidade.com/pei. Inscrições até 04/08.

ONLINE E AO VIVO

Objetivos do Workshop

  • Fornecer uma compreensão introdutória do Plano Educacional Individualizado (PEI)
  • Explorar os princípios, metodologias e técnicas do PEI
  • Identificar as aplicações potenciais do PEI em diferentes contextos educacionais
  • Compartilhar experiências práticas e exemplos de modelos de PEI
  • Capacitar os participantes a aplicar a BNCC no processo de criação do PEI

Conteúdo Programático

  1. Introdução ao PEI;
  2. Metodologia para a criação do PEI, com base na BNCC;
  3. Aplicações do PEI em diferentes contextos;
  4. PEI na Educação Infantil e no Ensino Fundamental;
  5. Adaptações do PEI para diferentes faixas etárias e necessidades educacionais.

Workshop PEI - Instituto Neurodiversidade 2023

Workshop PEI – Instituto Neurodiversidade 2023

Ministrantes: Cami Veiga e Márcia Faria
Data: 05/08
10h às 12h – encontro síncrono e gravação disponível por 30 dias
Valor: R$ 60,00
Certificado de 2h

INSCREVA-SE CLICANDO AQUI.

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Pesquisas em Andamento: Conformidade com as normas femininas e masculinas em indivíduos com altas habilidades ou superdotação

Chamada para a pesquisa "Conformidade com as normas femininas e masculinas em indivíduos com altas habilidades ou superdotação"

Chamada para a pesquisa “Conformidade com as normas femininas e masculinas em indivíduos com altas habilidades ou superdotação”

A pesquisa “Conformidade com as normas femininas e masculinas em indivíduos com altas habilidades ou superdotação” da psicóloga Nathalia Martins da Conceição (lattes, linkedin) está em andamento no Programa de Pós-graduação em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e está recrutando candidates com AH/SD, residentes no Brasil, com idade entre 18 e 30 anos. O estudo emprega o uso dos inventários Conformity to Masculine Norms Inventory (CMNI) e Conformity to Feminine Norms Inventory (CFNI), assim como do questionário Overexcitabilities Questionaire Two,  na versão brasileira adaptada, a qual contém a adição de algumas perguntas, principalmente em relação à sobre-excitabilidade sensorial. Para mais informações sobre esse último questionário ler a dissertação “Sobre-excitabilidade e Talento: Evidências de Validade da Versão Brasileira do Overexcitability Questionnaire Two” da pesquisadora Juliana Célia de Oliveira, com orientação do prof. dr. Altemir José Gonçalves Barbosa, apresentada e publicada em 2013 no Programa de Pós-graduação em Psicologia, modalidade Mestrado, do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Nathalia é psicóloga clínica com atuação em Terapia Cognitiva Comportamental voltada para adolescentes e adultos com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) e Transtornos do Neurodesenvolvimento – Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Realiza psicoterapia, avaliação e reabilitação neuropsicológica. Atualmente cursa o mestrado no Programa de Pós-graduação em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) onde pesquisa sobre a temática de gênero dentro das altas habilidades.

Você está sendo convidado(a), como voluntário(a), a participar da pesquisa “Conformidade com as normas femininas e masculinas em indivíduos com altas habilidades/superdotação”, da pesquisadora Nathalia Martins da Conceição sob orientação da Profa. Dra. Angela Donato Oliva. Este estudo tem por objetivo verificar a conformidade com as normas de gênero em uma amostra composta por talentosos/superdotados. Além disso, pretende investigar a relação entre a conformidade com as normas masculinas e femininas e as sobre-excitabilidades, uma vez que esses fatores influenciam na expressão da multipotencialidade de indivíduos superdotados. Cabe ressaltar que a presente pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) sob o nº 68991123.8.0000.5282. Caso tenha interesse em responder, por favor, acesse o link clicando aqui.

Caso tenha interesse em conhecer o Programa de Pós-graduação da UERJ, por favor, acesse o link abaixo:

https://pospsi.com.br/

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Opinião Especialista: Robert Sternberg e Don Ambrose criticam a Mensa

Capa do livro Conceptions of Giftedness and Talent

Capa do livro Conceptions of Giftedness and Talent

Existe hoje uma variedade de sociedades para pessoas com alto quociente intelectual (QI), a mais notória sendo provavelmente a Mensa. Tais sociedades podem servir a uma função útil de reunir pessoas que se vêem como tendo algo em comum. Mas a sociedade também indica outra coisa: Quantas pessoas adultas, superdotadas e altamente realizadoras apontam a filiação com a Mensa enquanto uma de suas conquistas distintivas, ou de fato, sequer uma conquista? Quantas pessoas adultas, superdotadas e realizadoras sequer a tentam, dado que suas conquistas falam sobre seus talentos mais do que qualquer filiação a uma sociedade específica?

Um problema com a nossa construção social da superdotação por muito tempo tem sido a lacuna entre o que parece que nós entendemos por ‘superdotação’ no campo científico da pesquisa em AH/SD e o que a sociedade entende por ‘superdotação’ em termos das contribuições que nós procuramos em adultos superdotados. Aqueles que desempenham altas notas em testes de QI podem ser admitidos em sociedades de alto QI, mas eles não são aqueles que, por virtude de seu QI ou filiação societária, mudam o mundo da forma como grandes líderes, artistas, escritores, compositores, e outros profissionais o fazem. Se nós não reconciliarmos essas duas definições, nós podemos nos deparar com uma sociedade que não leva completamente a sério nosso trabalho, porque ela não acreditaria que as crianças que nós identificamos são aquelas que farão mudanças profundas e significativas no mundo (Sternberg & Ambrose, 2021, p. 516-517, tradução minha).

Referência

Sternberg, R. J. & Ambrose, D. (2021). Uniform Points of Agreement in Diverse Viewpoints on Giftedness and Talent. Em R. J. Sternberg e D. Ambrose (orgs.), Conceptions of Giftedness and Talent. Palgrave Macmillan. https://doi.org/10.1007/978-3-030-56869-6.

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Altas Conversas Altas Habilidades: S2 E6 Avaliação de Superdotação em Crianças Pequenas

Assistam ao podcast na íntegra pelo Spotify clicando aqui.

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