Relato Pessoal: Marina Carvalho

Última atualização em 07/10/2022

Antes de tudo, confesso que escrever este relato é parte de uma cura (muito esperada) envolvendo entendimentos sobre mim mesma e sobre o funcionamento da minha mente. O que virá a seguir é um recorte dinâmico dessa jornada de autoconhecimento.

Quando criança, desempenhei o papel de aluna exemplar (que, aos olhos dos professores, parecia muito bem ajustada). Aos quatro anos, ansiava pelo ingresso na pré-escola porque aquele era o lugar que minha irmã mais velha frequentava todos os dias e isso representava, naquela época, algo de mágico. Minha irmã mais velha era, a um só tempo, uma das pessoas que eu mais amava e minha maior fonte de inspiração; consequentemente, seguir seus passos era nada menos que uma honra. Fiquei dias com uma pastinha roxa a tiracolo esperando pelo momento de comparecer às minhas primeiras aulas.

Como faço aniversário em Novembro e pulei o Maternal, eu costumava ser um ano mais nova do que os meus colegas de classe isto é, eu estava na escola “um ano adiantada”. Na realidade, isso foi um problema quando saí do Pré e ingressei na primeira série, que hoje equivale ao segundo ano. As primeiras escolas que fomos conhecer não queriam me aceitar porque me consideravam nova demais e achavam que eu não conseguiria acompanhar as aulas. Eu me recordo distintamente de achar isso muito engraçado e até incoerente, porque, na minha cabeça, não tinha nenhuma dúvida de que acompanhar as aulas não seria um problema. Por fim, após realizar um teste de rendimento comigo, uma das escolas procuradas pelos meus pais me aceitou. Durante o teste e para me estimular, a instrutora bondosamente disse que eu poderia fazer determinada conta que me foi pedida utilizando os dedos das mãos acho que ela falou isso porque eu permaneci estática por um momento enquanto ela me avaliava, mas o fato é que eu não tinha paralisado, só estava concentrada fazendo as continhas em minha cabeça.

Naquele ano, não só passei no teste de rendimento como estava mais avançada que os demais alunos no processo de alfabetização. Isso foi algo que eu nunca questionei, apenas fazia parte do meu dia a dia. Além de tudo, eu estava simplesmente seguindo os passos da minha irmã mais velha, que eu idolatrava e que também era a melhor aluna da sala dela.

Até a quarta série e já em outro colégio, eu havia sido encarregada de escrever bilhetes pontuais para os pais dos alunos (uma decisão tomada pelo meu domínio da escrita e da caligrafia, imagino). Eu também tinha que passar de carteira em carteira verificando a lição dos meus colegas. Admirava bastante minha professora e o recebimento dessa tarefa, eu pensava, tinha a ver com ser uma aluna sensata, o que deveria ser bom; simultaneamente, porém, eu me sentia desconfortável com aquela função pelos seguintes motivos (e aqui não critico minha professora de forma alguma, apenas observo as limitações do sistema educacional no qual estávamos todos inseridos):

Primeiro, eu tinha um lado levado e brincante que não exatamente se animava a repreender os outros por não terem feito o dever de casa. Depois, eu começara a conhecer os conceitos de ética (considerando-se, é claro, a ética infantil que podemos experimentar tão jovens), e, diante disso, sabia que não deveria favorecer os meus amigos quando checasse suas lições muito embora, por instinto, eu quisesse cuidar deles.

Na prática, creio que eu, desde então, já achasse que a escola melhoraria muito caso se afastasse da dimensão exacerbadamente racional em que atuava e se aproximasse dos alunos (ou das responsabilidades incumbidas a eles) de uma forma mais humana.

Àquela altura, eu era uma criança meiga, gentil, carinhosa, apaixonada pela minha professora, pelas minhas canetas coloridas, pelos meus amigos e pelo fato de que NÃO queria mais ir às aulas. Cheguei a ter diálogos tensos com meu pai por causa disso; eu preferia ficar em casa assistindo aos meus desenhos favoritos, brincando e estudando sozinha, algo que eu acabava fazendo de qualquer jeito mas vamos chegar lá.

Deve ter sido por volta dos primeiros anos escolares que, segundo minha mãe, eu escrevi algo no computador e a chamei para ler. Enquanto isso, ela não acreditava que uma criança daquela idade poderia ter escrito um texto tão complexo. Minha família vem do Nordeste e sempre os ouvi falando — com orgulho e postura contrária à xenofobia que vigora em São Paulo — que as pessoas da Bahia eram muito inteligentes (a exemplo dos meus próprios pais, o que frequentemente atestei, mas também eram citados artistas, personalidades e escritores baianos). Mais uma vez, eu não achava que a inteligência era algo a ser colocado em pauta, apenas uma habilidade intrínseca. Com 16 anos, um dos meus primos mais próximos (crescendo, só tive contato assíduo com três: um médico, um engenheiro e um advogado, aquela tríade clássica), que chegou posteriormente a ter uma experiência como professor assistente em Harvard, conquistou, quando prestou vestibular no Brasil, o 2° lugar na classificação geral (a que englobava todos os cursos) dos aprovados, e isso deixava meus tios felizes, mas não exatamente surpresos, penso eu.

Nas próximas séries, eu continuei a vivenciar as demandas que eram comumente designadas ao melhor aluno da classe. Fui representante de sala e participei da construção da chapa eleita ao Grêmio do Colégio quando ele finalmente desenvolveu um. Era comum também que eu participasse de concursos (de redação, artes e até de palavras cruzadas!) fora da escola, e eu frequentemente os ganhava. Tenho até hoje um modelo de Barbie que foi confeccionado por uma estilista especialmente para mim como prêmio em uma dessas ocasiões. Eu me lembro claramente de ter receio de que não ganhasse mais os concursos porque meu nome já estava ficando “carimbado demais”. Existiu, naquela época, uma outra iniciativa escolar a Jovens Construindo a Cidadania na qual, mais uma vez, cheguei a me envolver, mas onde, pelo que me recordo, não foi possível desenvolver nenhum trabalho duradouro em direção ao que havia sido proposto.

Embora meus colegas não soubessem (e eu achasse que não podia falar a respeito), uma camada da minha vida pessoal era mantida propositalmente nas sombras e, considerados diversos fatores, eu cresci em um ambiente bastante disfuncional. Em adição a isso, minhas emoções estavam profundamente ligadas ao meu rendimento escolar à parte de toda a racionalidade, a verdade é que emoções são extremamente valiosas para mim. Essa competição brutal entre pensamento e sentimento viria a se acirrar um pouco mais adiante, a partir do Ensino Médio.

Na oitava série, eu fiz um curso no contraturno do período escolar em uma instituição de cursinhos da minha cidade (consegui a bolsa máxima disponível na prova de admissão). Nos simuladões organizados por lá, também era frequente que eu ficasse entre os primeiros colocados (em termos claros, eu só precisei entender a lógica segundo a qual os simulados funcionavam; ela era algo que, na minha cabeça, acabava se repetindo); essa situação, mais uma vez, rendia prêmios. Um dos que eu mais gostei de ganhar foi um ingresso para a pré-estreia do filme Zoro.

Ao final do ano, embora eu não quisesse estudar em um colégio técnico, meu pai era a favor de eu prestar a prova. Na Etecap, um dos principais colégios técnicos de Campinas, passei em 3° lugar na classificação geral: fui, ao mesmo tempo, a primeira mulher e a primeira estudante de uma escola pública a se classificar, seguida em 4° lugar (com a mesma pontuação, embora eu não tenha certeza do critério de desempate) por uma de minhas melhores amigas. Fiquei feliz por mim e por ela, mas já sabia que a Etecap não era o lugar para onde eu gostaria de ir.

Antes de ingressar no Ensino Médio, portanto, fiz um teste de bolsa em um prestigioso colégio que tinha a fama de preparar estudantes para universidades internacionais. Na época, eu achava que cursar uma universidade fora do Brasil era o que queria… um caminho estimulante para minha vida acadêmica.

Vindo de uma escola pública e com uma bolsa contundente, ingressei no colégio dos sonhos e conheci uma jornada de grande crescimento por lá. Tenho muita gratidão pelo colégio, por seus professores e mentores, e levo lindas recordações do maravilhoso grupo de amigos que formamos; eu os guardo em meu coração até hoje. Parte do que me motiva a escrever este relato, aliás, é a possibilidade de compartilhá-lo com eles, já que, devido aos meus questionamentos que estouraram no terceiro ano, eu me afastei de meus amigos completamente e de forma bastante abrupta. Não tinha nada a ver com eles e tudo a ver comigo e com meu longo processo de descoberta da superdotação, que só veio a ter seu desfecho anos depois.

No colegial, fosse em exatas, humanas ou biológicas, eu me destacava nas avaliações, que eram constantes. Por outro lado, a centelha do meu incômodo, já presente, em relação ao meu processo de aprendizagem, começava finalmente a queimar. Eu logo percebi que não aprendia os conteúdos durante a aula em si, mas que desenvolvia um método particular para aprender tudo em casa, sozinha, sempre um dia antes da prova e, mesmo assim, eu a gabaritava. Era frequente que eu passasse as aulas fazendo anotações de outras matérias cujas folhas havia perdido, pelo motivo que fosse (minha mente acelerada nem conseguia manter um fichário organizado). Eu me lembro de uma prova de física que um de nossos professores anunciou ser a mais complexa do currículo do ensino médio e na qual nos desafiou a passar que dirá gabaritar. Eu me lembro também de, um dia antes da prova, perceber que eu não sabia nada dos conceitos envolvidos (minha mente havia divagando para qualquer lugar aleatório durante as aulas). Mais uma vez, em um fim de tarde e uma noite pois tínhamos provas diárias , eu estudei em casa para entender a lógica do assunto: tudo era sempre sobre a lógica do assunto. Como resultado, fui uma das únicas alunas do ano a gabaritar.

Tinha sucesso também nas provas de humanas, em que minhas notas dez, segundo meu exigentíssimo professor se história (famoso por não entregar um dez assim tão facilmente), estavam se tornando uma constante. Em retrospecto, penso que meu problema era justamente a percepção de que eu poderia ser boa em qualquer matéria mas que, paralelamente, não carregava comigo mesma um real senso de identidade com nenhuma delas. Eu não sabia do que gostava, ou então gostava de tudo. Desde que li sobre ele em uma revista, a única pessoa com que, efetivamente, conseguia me identificar nesse quesito (e aqui faço TODAS as ressalvas necessárias para indicar que NÃO ESTOU nos equiparando, apenas partilhando que empatizo com a mistura aparentemente caótica em seus cadernos) estava morta há muito tempo, e era Leonardo da Vinci.

Naquele primeiro ano, senti que era meu dever informar à coordenadora que eu não sabia muito sobre a língua inglesa. Na escola pública, todos os anos o currículo da matéria girava em torno do mesmo: verbo to be. Era engraçado como as aulas sempre se repetiam, quer estivéssemos na quinta ou na oitava série. Ao final do colegial, no entanto, e muito devido ao meu gosto pelo aprendizado de outras línguas (adoraria aprender várias ainda hoje!), eu já estava escrevendo cartas em inglês para meus amigos que queriam fazer intercâmbio e eventualmente cheguei a dar aulas particulares da língua.

Por outro lado, quando estávamos no terceiro ano, foi pedido que escolhêssemos uma das três áreas do conhecimento para participarmos de nossas turmas de aprofundamento durante a tarde (eu estudava de manhã). Não me esqueço da notificação que recebi da coordenadora porque praticamente todas as outras pessoas (senão todas) já sabiam em qual turma de aprofundamento estariam, mas eu não. De fato, eu simplesmente não conseguia escolher, e estava sofrendo.

Por trás dessa indecisão, se eu fosse visceralmente sincera comigo, teria admitido que a área na qual eu desejava me aprofundar era a de humanidades, que tinha aulas especiais de desenho técnico para quem desejasse seguir uma carreira nas artes (artes, em suas variadas formas, fascinavam-me). Era isso o que meu coração me diria para fazer, mas, com o meu histórico escolar, essa não parecia ser uma alternativa para mim. As expectativas eram muito altas e muito mais tradicionalistas (lembram-se da tríade medicina/direito/engenharia?).

É claro que essa panela de pressão tinha hora para explodir… e ela explodiu ali mesmo, ao final do Ensino Médio. Passei a achar que havia algo profundamente errado dentro de mim, não sentia que o sistema educacional conseguira acolher a complexidade do que eu acreditava ou que eu experimentava e, diferentemente dos meus outros colegas (e para minha própria surpresa), não havia um curso ou universidade específicos que eu acreditasse que abarcaria minhas buscas enquanto estudante (apesar de muito ter pesquisado). Além de tudo, eu sentia que havia algum outro tipo de habilidade — diametralmente oposta ao que aprendi em todas as escolas — que eu precisava trabalhar, como se meu cérebro e meu corpo estivessem prestes a se separar de forma irrevogável caso eu falhasse em parar a bola de neve predominantemente intelectual que descia a montanha da minha vida naquele instante. Como escrevi antes, ao lado do meu alto desempenho estudantil, as emoções (e a comunicação através delas) sempre foram algo que estimei, algo que queria cultivar. Esse era o ponto que não podia negar para mim mesma, para o meio acadêmico ou para o mundo. Eu compreendo a lógica e abertamente me sirvo dela, mas o brilho, penso eu, está em compreender a sensibilidade que atravessa a lógica.

Apesar de me formar com o histórico impecável (permaneci uma aluna consciente do começo ao fim), ao abrir a Caixa de Pandora naquele terceiro ano de Ensino Médio, o caos acabou sendo definitivamente instalado. Meus pais achavam que eu estava passando por algo temporário, que eu poderia me dar um tempo para “me resolver” e fazer um cursinho no ano seguinte. Isso clarearia minhas ideias, pensavam, enquanto eu reconhecia que estávamos todos bastante confusos; porém, tentei escutá-los.

Abalada e, de certa forma, empurrada, fiz a prova que me garantiria a bolsa integral no cursinho do meu prestigioso — e querido — colégio. Recebi os parabéns dos secretários com um sorriso triste. Eu gostava muitíssimo de lá, mas havia algo grande demais acontecendo dentro de mim, uma força da natureza que havia despertado e que não poderia ser contida.

Não muito após começar, portanto, deixei de ir ao cursinho, o que era considerado absolutamente chocante para uma aluna como eu. A psicóloga e orientadora do cursinho ligou para minha casa múltiplas vezes tentando entender o que estava acontecendo, e acredito que ela genuinamente queria ajudar. Era angustiante não conseguir atender suas ligações porque eu sabia, dentro de mim, que o que estava acontecendo não poderia ser explicado. O sistema educacional havia falhado comigo (friso aqui que não me refiro ao colégio em que eu estudava e que, de fato, respeitava profundamente, mas ao sistema educacional como um todo; ele ainda não disponibilizou às escolas ferramentas para que possam acolher melhor os alunos com AH/SD), e eu tinha anos dessa falha para corrigir, da forma que fosse, e aparentemente sozinha.

Eu precisava, mesmo que temporariamente, afastar-me da Academia para me descobrir — por mais que eu também me encantasse por ela. Outra unidade do meu colégio havia formado pessoas como Tabata Amaral e Bel Pesce, mulheres com as quais, à parte de qualquer posicionamento pessoal ou político, eu viria a sentir um nível curioso de identificação. Era como um espelhamento, como se me visse em parte delas, ao mesmo tempo em que via ali, naquelas pessoas, um esteio que eu não havia ainda conseguido desenvolver, algo para o qual seria necessário certo apoio.

Um dos momentos mais emblemáticos dessa virada de propósitos foi o dia em que destruí tudo o que eu tinha em casa que se relacionasse a certificados ou medalhas de mérito por minha carreira estudantil (e o termo que utilizo aqui, carreira, é, para mim, o que mais se aplica porque assim o sentia). Eu chorei copiosamente enquanto rasgava e quebrava tudo aquilo à procura de qualquer alívio através da manifestação física de um conflito que eu mesma não conseguia verbalizar.

As artes, expressões do meu barulho interior, passaram a ser, desde então, luz e aterramento. Uma de minhas professoras de ballet, conceituada bailarina de Campinas, chegou a me dizer: “Vai haver um momento em que eu não saberei mais responder às suas perguntas”. Eu tinha ganas de entender o mundo na pele e não conseguia evitar ir fundo demais. Eu me encontrava na profundidade, o que vinha fazendo desde o ensino fundamental, para ser sincera, quando comprei um livro de física com conteúdos que iam até o currículo do ensino médio para que eu pudesse enxergar globalmente “qualé que era a daquela matéria”. Minha professora de teoria musical, por outro lado, também uma das grandes referências de onde eu morava, aluna direta de Osvaldo Lacerda (renomado compositor brasileiro), contou que nunca havia visto um aluno terminar o livro teórico tão rápido quanto eu.

Tudo seria lindo se não estivesse péssimo já que, no fundo, havia algo para mim torturante em relação ao processo de aprendizagem, algo que só era contornado (e não exatamente resolvido) quando eu desenvolvia a minha própria metodologia de estudo agora, imagine você o desgaste que é precisar desenvolver uma metodologia sobre tudo e para tudo!

Nesse período, também escrevi e ilustrei meu primeiro livro, uma coletânea poética que publiquei independentemente pelo Clube dos Autores. É uma obra curtinha, intimista e bem peculiar porque não segue um padrão para o “fazer poético”. Alguns poemas são bem, vamos dizer assim, parnasianísticos (risos); outros são bastante livres em forma e rima, ou simplesmente uma exteriorização em prosa poética. Quando conversei com uma amiga que circula no meio literário, ela me disse que essas particularidades podem dificultar a sua publicação por um selo mais tradicional. Eu concordo que a apresentação dos poemas os faz contrastar incomumente entre um e outro, mas essa foi justamente minha intenção: mostrar que podemos fazer poesia de muitas maneiras diferentes.

Um dos trechos do livro, que se chama Rio Perene, traz uma angústia que conheço bem:

A sede que há em de mim

Nunca poderás sanar.

E não posso implorar por água para sempre.”

Aplicada ao contexto de que falamos agora, seria essa a minha dor em relação ao sistema de ensino atual. Uma sede que não pode ser sanada pela educação a que temos acesso.

Eventualmente, eu cheguei a procurar por psicólogos que trabalhassem na área da aprendizagem. Eu queria entender o que havia de errado comigo e como consertar. Queria entender como eu podia me tornar especialista em um assunto da noite para o dia e, também da noite para o dia, “desespecializar-me”. Minha mente em instantes limpava as informações da minha memória, substituindo-as por um aprendizado novo, e isso, junto a meu interesse por múltiplos e variados conhecimentos, fazia com que eu pensasse que minha memória era um lixo, que eu era uma farsa, que tinha algum problema de aprendizagem. Sentia que estava enganando a todos e a mim mesma. Também comentei sobre minhas angústias com um médico pediatra e ele sugeriu que eu poderia ter uma forma incomum de dislexia. Assim, fui orientada a falar com uma neuropsicóloga e a fazer alguns exames que, somados, chegavam aos milhares de reais. Como minha família não sabia de nada daquilo (eu não estava preparada para contar a eles) e como não podia, na época, bancar os exames sozinha, acabei não os fazendo.

A penúltima parte da minha saga em busca de respostas me levou até a UNICAMP. Por lá, havia a condução de um estudo sobre aprendizagem (a temática específica do estudo eu desconheço). Depois de falar com funcionário atrás de funcionário, depois de circular por quase todo o departamento, fui informada de que não havia vagas abertas para o estudo e/ou apenas um grupo específico de pessoas estava sendo analisado. Acredito que um trabalho incrível foi orquestrado por aqueles profissionais; no entanto, devido a questões de timing e de outras especificidades, eu não poderia ser integrada.

Anos depois, conheci uma psicóloga que trabalhava com superdotação. Foi ela quem me identificou como superdotada e quem me ofereceu meus primeiros momentos de conforto. Eu me sentia bem ajustada demais para ser considerada um aluno problema e má ajustada demais para seguir o modelo de estudos tradicional e socialmente esperado. Em outras palavras: eu não tinha lugar. Enquanto isso, eu me rasgava por dentro.

Em uma TEDx Talk, eu felizmente já havia conhecido um movimento que propunha que as pessoas poderiam hackear a própria educação, e assim, com todas as dificuldades imagináveis geradas pela empreitada solitária, vinha procurando fazer isso comigo mesma. Foi nesse contexto que recebi as palavras daquela especialista.

Quando ela me disse “Você tem um cérebro bem neurodivergente…”, senti a frase chegar como um jato de oxigênio direcionado a pulmões que precisavam muito respirar. Eu estava me afogando, e então não estava mais… aquela sentença era palpável, concreta e, mais do que isso: ela mostrava que havia uma comunidade de pessoas como eu, uma comunidade na qual eu poderia me encontrar.

Ainda estou engatinhando nessas novas descobertas, mas celebro ter topado com uma profissional que me identificou e que, consequentemente, possibilitou que eu fizesse parte de uma comunidade em que podemos nos entender e apoiar mutuamente. Além disso, como tenho muito interesse pelo funcionamento do cérebro humano, estou animada com a possibilidade de, de alguma forma, andar ao lado de uma grande empresa que trabalha com treinamento cerebral — isso porque a psicóloga que me identificou é uma de suas representantes.

Hoje, ao mesmo tempo em que acho importante trazermos visibilidade ao assunto, também procuro não glamorizar a superdotação (afinal, tudo que é diferente acaba tendo um apelo meio hollywoodiano). Honestamente falando, na contramão dessa impressão de “superpoder”, sei na carne as — várias — dificuldades que uma forma diferente de ver e experimentar o mundo pode nos trazer. Por isso, ao longo dos próximos anos, gostaria de dar mais voz àquilo que está nos bastidores — e não no famigerado palco — do universo das altas habilidades.

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Superdotado: Você sabe o que é altas habilidades ou superdotação?

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Relato Pessoal: Poliana Vogel

Como pode alguém, apaixonada por palavras, de repente, encontrar-se às voltas com as mesmas, sem conseguir organizá-las em forma de relato? Pois é, caro leitor… Acontece! Hoje, vou contar para você uma história de amor, com encontros e desencontros entre mim e a escrita, entre mim e os livros!

Adorei receber a oportunidade de escrever esse relato, mas ao sentar para escrevê-lo… Nada! Ao longo das próximas linhas, você compreenderá um pouco mais sobre esse paradoxo: amo escrever, mas nem sempre me sinto segura para estar imersa nesse mundo: das letras, das palavras, da escrita e da leitura! Essa oportunidade, também, trouxe-me a compreensão da importância que é, para mim, escrever para você, visto que passei a me auto identificar a partir de relatos de outros pares.

Pois bem, te convido a vir comigo para compreender esse paradoxo. Gosto de escrever, mas passei tanto tempo paralisada que comecei a duvidar de minha capacidade para organizar as palavras em textos. Gosto de falar sobre minhas experiências, faz com que eu consiga organizá-las melhor, internamente, e faz com que eu me sinta conectada com outras pessoas que vivem experiências similares e… eu amo pessoas; amo conhecê-las e tenho um desejo enorme de conhecer, cada vez mais, outros humanos, como eu, e suas histórias. Embora eu já tenha passado por muitas situações onde conhecer pessoas não foi uma experiência tão positiva, pois sofri ataques, dores e sensação de inadequação, esse desejo pulsa dentro de mim.

Uma pausa aqui, pois identifico mais um ponto que me separa da delícia de transmitir minhas vivências para você: a angústia de não conseguir contar tudo. Você pode pensar: “minha amiga, é obvio que você não poderia contar toda a sua história em um texto, não é?” Até é, mas mesmo assim, só vou conseguir escrever após delimitar e esse limite é desafiador para mim. Querido leitor, nos próximos minutos de leitura, você vai acompanhar uma parte da minha história com a superdotação linguística acadêmica. Deixarei de fora, aqui, a outra área de minhas altas habilidades, a liderança; como eu amo escrever, é provável que eu escreva sobre ela também; porém, hoje, trarei alguns recortes de como foi minha vida com essa condição de funcionamento cerebral e mental, permeada por um desejo profundo de contato com o universo linguístico e por um afastamento estratégico de proteção à minha sobrevivência.

Quero apresentar os personagens da minha história de hoje para vocês:

Eu: Poliana, desde a infância, convivo com vários medos e angústias, dentre os quais se destacam o medo de perder pessoas que amo e a angústia de ser excluída, também já me senti insegura, magoada e destilei algumas doses de raiva por aí. Apesar disso, sempre me identifiquei com aquela Poliana do Livro da Eleanor Porter, alegre, cheia de vida e de esperança, com uma mania incorrigível de ver as coisas como potenciais positivos e, desde bem cedinho, apaixonada pelos livros e por seus conteúdos.

Os livros: peço que quando ler a palavra livros, imagine tudo o que rodeia esse universo: aquisição de conhecimento, emoção através da leitura de um lindo romance, desenvolvimento da escrita e por aí vai…

Pessoas dificultadoras do caminho: você verá que trarei, em alguns trechos, informações sobre interações nada positivas que já vivi, com pessoas que foram agressivas em relação as minhas características ou insensíveis às minhas dores. Gostaria de fazer um pedido, aqui, se possível for, não as julgue! Até porque, eu já fiz isso, bastante! E fiz ainda pior, convenci outras pessoas a me ajudarem a julgá-las! Hoje, não sinto mais essa necessidade e, reavaliando os acontecimentos, noto que todos estamos sujeitos a machucar uns aos outros, mesmo sem perceber! Penso que quanto menos perpetuarmos atitudes de julgamentos, menos resistência colocamos no processo de melhor convívio social.

Pessoas auxiliadoras do caminho: aquelas que me deram e dão a mão, que me incentivaram, clareando minha visão sobre mim mesma, sobre as pessoas e sobre o mundo que me cerca. Aquelas que acreditaram e que acreditam em mim, corrigindo os erros com carinho e elogiando as minhas potências. Sem essas pessoas, creio que a vida tornar-se-ia muito difícil, se não inviável.

O emaranhado: as pessoas dificultadoras são sempre dificultadoras? As pessoas auxiliadoras são sempre auxiliadoras? A mesma pessoa nos auxilia em um aspecto, dificulta-nos em outro? Pois bem, na minha história, as pessoas que encontrei pelo caminho ocuparam os dois lugares, auxiliaram aqui e dificultaram ali, muitas vezes.

Feitas as apresentações, decidi organizar essa história em pequenas partes e de forma cronológica, vamos lá?

Dos 03 aos 07: os primeiros flertes!

Não, não são tantas as lembranças dessa fase, mas foi uma época em que apareceram os indícios do romance que se seguiria pelos próximos anos; algumas das mais vívidas lembranças que trago da infância, relacionam-se com livros.

Há uma informação da qual não me lembro; ninguém se lembra: como e quando aprendi a ler. Descobri isso apenas no ano passado, pois me lembro de chegar no processo de alfabetização já sabendo ler e, ao questionar meus pais e tias com quem convivi, ninguém soube explicar! Portanto, esse primeiro encontro ainda é um mistério!

As primeiras lembranças que tenho são de aproximadamente aos três anos; na casa da minha avó, sentada em cima da mesa da sala que tinha uma toalha branca de renda, com vários livros ao meu entorno e bem feliz!

Mais à frente, com 07 anos, tenho claras e emocionantes memórias. Já no primeiro ano escolar, eu me lembro que me sentava bem em frente à professora, que sempre usava saias até os joelhos e o cabelo preso em um bonito coque; ela apresentava, à turma, as letras, depois as sílabas e, então, as múltiplas combinações destas para formarem as palavras. Consigo lembrar de como isso me fascinava, mesmo eu já conhecendo as letras e algumas sílabas, naquele momento eu estava em um lugar onde passaria a conhecer cada vez mais! Essa professora organizava um exercício de incentivo à leitura e à escrita: um concurso de palavras; todas às sextas, ao final da aula, tínhamos um tempo para escrever o maior número de palavras que conseguíssemos. O aluno que escrevesse mais palavras ganhava um prêmio: um lápis, uma borracha, um apontador ou uma caixinha de chicletes. Eu ganhei todos e, como se não bastasse, minha coleguinha de trás começou a me pedir ajuda. Então, passei a fazer o meu e um pedaço do trabalho dela; sempre um pouco a menos do que o meu, é claro, assim ela ficava com o segundo lugar.

Essa memória já teve alguns pesos diferentes para mim; aos 07, alegria! como era incrível descobrir novas palavras e ganhar um prêmio por escrevê-las! A partir da adolescência, vergonha! Como eu pude ser tão egoísta e ganhar sempre, sem permitir que outros colegas ganhassem também? Na fase adulta, compreensão! Nunca foi uma competição justa! Eu já sabia ler e nasci com essa capacidade de funcionamento cerebral que traz maior velocidade e complexidade de associações, portanto, eu e meus colegas não saíamos do mesmo ponto nem nas mesmas condições. Aqui, já trago uma reflexão sobre a importância da identificação de um superdotado; para ele ou ela e para os colegas com quem convive porque, como você verá mais adiante, essa diferença não compreendida tornou-se um problema futuro.

Aos 08: adorável enciclopédia Barsa!

Certo dia, aos 08 anos, cheguei na escola e a professora havia faltado. Fui ao quadro e brinquei de explicar a matéria. A diretora entrou na sala, viu o que estava no quadro e percebeu que estava correto; olhou um caderno e observou que aquela matéria ainda não havia sido ensinada. Veio até mim e perguntou com quem eu havia aprendido; respondi que foi com o livro, eu tinha o hábito de ler os livros didáticos, assim que os recebia no início do ano. Lembro-me dela conversando com meus pais e me fazendo algumas perguntas e isso foi o mais próximo que eu cheguei de uma identificação das minhas habilidades antes dos meus 33 anos. Para meus pais, que precisavam trabalhar muito para nossa sobrevivência e tinham muitos problemas para resolver, a investigação da diretora trouxe um alívio, “Ufa! Ela vai bem na escola, não precisamos nos preocupar com isso”. A partir desse dia, as visitas deles à escola não foram muitas. Não havia tempo nem dinheiro, nem em minha família nem na escola, para estimular ou apoiar um maior desenvolvimento para mim. O que tinha era usado, apenas, para a solução de problemas e de demandas maiores. Realidade de uma menina, com poucas condições financeiras, do interior (cidade com cerca de três mil habitantes).

Mas essa parte da história não é triste, pelo contrário, é um dos mais belos trechos! Apesar de não haver forte apoio ao romance, não havia impedimentos; apenas, alguns desencontros, talvez, que foram contornados facilmente. Em visita a uma amiga, possivelmente entre meus 8 ou 9 anos, avistei um livro na estante da casa dela. O título da obra era: Como as Coisas Funcionam. “Uau!!! Existe um livro que explica como as coisas funcionam? Eu quero ler! Será que vou compreender como tudo funciona?” Pedi minha amiga que me deixasse ler o livro, ela respondeu: “Claro que não, nós vamos brincar!” Nunca li o livro, mas fiquei pensando muito nele! Penso até hoje!

Então, certo dia, ganhei uma coleção da enciclopédia Barsa (se você for muito jovem, você busca ajuda no Google, mas quero dizer que as enciclopédias, da era pré-internet, eram uma das mais incríveis formas de se fazer pesquisa). A coleção que ganhei era um pouco antiga, da década de 70 se não me engano, quando a vi, com muitos volumes, pensei: aqui sim, deve estar todo o conhecimento do mundo! Essa ilusão durou até o dia em que recebi um cartão postal da minha tia, de um país chamado Sri Lanka e, como de costume fui pesquisar na Barsa, e esse país não estava lá. Se você imaginou que minha paixão diminuiu, enganou-se; lembro-me de sentar-me ao chão, rodeada pelas enciclopédias, com muita frequência, sempre curiosa e admirada! Foram anos onde ler, pesquisar e escrever, foram atividades frequentes e prazerosas.

Dos 11 aos 14: Romance, e vida, em perigo:

Esse período foi bem marcante, porque seu final marca um dos momentos mais decisivos da minha vida. O início desse período, aos meus 11 anos, foi leve e prazeroso por um lado. Ao iniciar os estudos em um colégio novo, descobri uma biblioteca, com uma estante cheia de livros e que eu podia trocar de livro sempre que quisesse; pois bem, em pouco tempo, como era uma estante apenas, eu li todos os livros e como foram agradáveis esses momentos. Mas esse hábito, essa sede por conhecimento, não funcionavam muito bem como estratégia para fazer amigos. Ter, sempre, as notas mais altas da turma e, depois das aulas, saber as respostas das perguntas dos professores, fazendo perguntas complexas como devolutiva, bem… isso não me tornou muito popular; pelo contrário, isso contribuiu para que se iniciasse um período de solidão e de bullying, ambos tão disfarçados que ninguém notou! Trancar-me no banheiro durante todo o intervalo; esperar na sala para sair depois de todos, ao final da aula, foram algumas das estratégias utilizadas para tentar fugir de todos os ataques.

Logo eu que amo conversar, como você já deve ter notado, via-me sozinha frequentemente; dava alguns suspiros, quando alguma colega me direcionava um tanto de atenção, que eu agarrava como se fosse a última garrafa de água do deserto. Ninguém sabia das crises de pânico no domingo à noite, por medo de ir à escola na segunda; nem das noites chorando e rezando, enquanto pedia a Deus que me enviasse uma amiga de verdade, uma que realmente gostasse de mim e que não me deixasse sozinha nos momentos difíceis.

Enquanto eu vivia meu drama invisível (tão disfarçado que quando eu o relato, atualmente, para pessoas que conviviam comigo naquele tempo, sou descredibilizada, muitas vezes: “Não é possível, você estava sempre bem!”), os outros adolescentes iam a festas, saiam juntos, faziam confissões uns aos outros. Então, determinado dia, recebi um convite para ir a uma festa. Pensamentos: “Será que é real? Agora deu certo? Eu vou fazer parte!” Muito animada e totalmente vulnerável, eu fui à festa, de onde sai direto para o hospital, quase sem vida, decorrente de excesso de bebida alcoólica, um coma! Ao contrário dos períodos de angústia vividos em segredo, desse evento, todo mundo soube! Não sei relatar o que houve na festa, não me lembro! Ao acordar, perdida, no hospital, fui hostilizada pela enfermeira, que me questionou sobre como fui capaz de fazer “aquilo”. Após a atitude hostil da enfermeira, uma sequência de agressões e mais solidão. Meus pais mantiveram-se ao meu lado, mas outros familiares ainda me atacam, vinte anos depois, por esse episódio; os colegas da festa não fizeram contato comigo, eu, perdida, também não procurei me conectar. Recebi, apenas, uma visita enquanto me recuperava, mas me lembro bem do desconforto dela; notei que a visita não era espontânea, senti com mais intensidade, ainda, a solidão.

Dos 14 aos 20 e poucos: o congelamento protetor!

Para superar essa dificuldade, que tal uma mudança de escola e de cidade? “Pode ser incrível!”, pensei. E, lá vou eu, empolgada, para o primeiro dia de aula; todavia, ao entregar uma redação para uma professora, encontrei, novamente, dois velhos conhecidos: o destaque e o bullying; o primeiro, quando a professora me elogiou muito e se admirou com a minha facilidade para escrever; o segundo, quando encontrei um papel colado na porta da sala, lotado de ataques dos colegas direcionados a mim. Então, eu congelei! “Tem algo de errado comigo, eu não posso ser assim!”

Bem, não há muito o que dizer sobre o romance, nessa época, pois como já disse, eu me mantive afastada, o quanto possível, dos livros, durante muitos anos. O que pode ser curioso é que um tanto da paixão, uma faísca, sempre esteve presente comigo. Se um colega de estudos, de qualquer etapa da minha vida, fosse entrevistado e questionado sobre sua visão da minha relação com os estudos, arrisco-me a dizer que muitos, se não todos, diriam que era uma relação próxima; portanto, só eu sabia que havia um afastamento. Esse afastamento me trouxe uma dor invisível. Eu a senti sozinha, por muitos anos. Aos olhos dos outros, tudo estava bem; dentro de mim, dor, angústia e desespero.

Esse afastamento não era sem motivo. Como disse antes, estar muito próxima das minhas paixões, fazia com que eu me sentisse muito esquisita; acessar minhas paixões era sinal de ficar muito sozinha, afastada dos pares e dos colegas de mesma idade. Então, eu me mantinha segura, afastada dos livros também, assim, consegui aproximar-me dos pares, fazendo o que todos faziam; algumas vezes, sentindo-me bem, outras (muitas) vezes, desconfortável. Externamente, tudo parecia estar 100%, mas eu me sentia totalmente deslocada internamente. Foi uma época em que eu mal sabia de mim, mal sabia o que sentia, passei a maior parte desse período me esforçando para estar no grupo. Acabei pertencendo! Mas a qual preço?

Dos 20 e tantos aos 33: o doloroso afastamento!

“Eu amo livros!” E você poderia me perguntar: “Legal, qual você está lendo?” A resposta seria: “Nenhum…”

Que incoerente! Se tivesse, mesmo, essa paixão, certamente estaria lendo, eu pensava. Então parei de falar sobre o meu amor. Mas parar de falar sobre ele e parar de ler não me fizeram esquecê-lo. Sempre estava faltando algo, meus desejos e minhas ações não eram coerentes. Eu queria estudar, conhecer mais e mais coisas, mantinha o mesmo desejo da menina de 08 anos que ficou hipnotizada pela capa do livro na casa da amiga; o desejo de saber como as coisas funcionavam, e o porquê de elas funcionarem, se fosse possível. Todavia, toda vez que eu tentava dedicar-me mais aos estudos, o mal-estar físico era enorme: taquicardia, angústia, sensação de sufocamento, falta de concentração, seguidos de forte alívio quando eu me afastava do material de estudo.

Foi, então, que decidi pedir ajuda, uma busca para aliviar essas dores e me reaproximar do que me move, minha paixão. Vários profissionais tentaram me auxiliar. Quando eu trazia o imenso desconforto existencial que sentia, rotulavam as minhas falas sobre como eu era na infância e como me sentia no momento como “ego inflado”. Eu acreditava e seguia paralisada. “Para que você quer estudar mais? Só para ser melhor do que os outros!”

Uma criança que leu todos os livros da biblioteca da escola e aprendeu a ler com tão pouco estímulo, aos 03 anos de idade, sem que ninguém se lembre como aconteceu, tornou-se uma adulta que não conseguia concluir um livro porque sente fortes dores e vários desconfortos ao tocar em um; uma adulta que passou anos afastada dos estudos e da leitura. Estranho, não é? Será que o ego inflado causou tudo isso? “Vai ver sim!”, pensei. E segui, assim, por um tempo, sempre tentando compreender e resolver essa questão: Porque eu amava tanto esse universo dos livros, mas não conseguia me aproximar dele?

Até que…

Aos 33: Amor à segunda vista!

Em uma fria manhã de junho de 2020, navegando pela internet, deparei-me com um post, trazendo informações sobre as dificuldades comuns a pessoas superdotadas, identifiquei-me com todas as dificuldades e comecei a pensar melhor sobre isso! Segui minhas pesquisas e encontrei o site da autora da postagem: Patrícia Neumann. Ao abrir o site, deparei-me com a frase: “Nenhum talento a menos!” Essa frase, nossa! Como me fez refletir, profundamente, sobre a importância de passar por um processo de identificação de altas habilidades e sobre como isso poderia contribuir para que eu, finalmente, pudesse reaproximar-me daquela minha parte, há tempos desconectada.

Todo o processo de identificação foi de intenso autoconhecimento. Escolho relatar, brevemente, a você, sobre o dia da devolutiva e os seus desdobramentos. Abri meu notebook, na hora marcada com a Patrícia, estava um pouco ansiosa, mas tinha uma expectativa de resultado positivo. Eu imaginava que ela me diria que eu, até, possuía um nível de inteligência mais elevado em alguma área; provavelmente, na linguística, mas não pensei que fosse compatível com superdotação. Para a minha surpresa, a resposta foi bem diferente! A primeira frase que ouvi foi: ‘Você é, sem sombra de dúvidas, superdotada! Ops! Eu não estava preparada para isso, e agora? O que fazer com essa informação? Pensei, rapidamente, em esconder o resultado, mas eu já havia anunciado para algumas pessoas que faria o teste. Ao encontrar-me com meu marido, eu não sabia como contar. Tive algumas crises de ansiedade, eu sentia que, a partir daquele momento, eu perderia meus vínculos; meu marido e meus amigos não me amariam mais! Uma releitura dos anos de solidão que vivi na adolescência.

Felizmente, foi possível superar esse medo e, hoje, com vínculos mais bem estabelecidos, sinto-me segura para ser quem sou, incluindo minhas limitações e minhas altas habilidades! Tudo! E os meus livros, ah, eles seguem ao meu lado. Não é mais perigoso ser a menina, agora mulher, dos livros! Já é seguro. Será?

Ao pensar em assumir a superdotação, publicamente, mais um desafio foi avistado, tendo em vista tudo o que já foi experienciado: os ataques! Mas espera, os ataques vêm porque há algo errado comigo ou porque ainda vivemos em uma sociedade agressiva? Opa! Mais um ponto aqui! Serei eu agressiva com os outros seres vivos também? Como o processo de autoconhecimento é importante e fundamental para aumentar nossa compreensão sobre nós mesmos e sobre o outro, além de melhorar essas relações, tanto a forma como me vejo, como a forma de ver o outro, trazem-me uma reposta a qual amei!

Após uma Live, na qual abordei o meu processo de identificação com as altas habilidades e discorri, abertamente, sobre como foi minha vida e como me sinto, considerando essa condição de funcionamento cerebral e mental, surgiu o seguinte diálogo interno (partindo de lembranças, pois a frase a seguir já me foi dita algumas vezes na vida):

“Ei, você está se achando, não é!? – vários autores.

“Ah, que bom que você notou! Sabe, eu já estive perdida e é bem desconfortável! Então, eu fui me procurando, até me encontrar/achar! E vou te contar uma coisa: a sensação é ótima! Você deveria experimentar, procurar-se até se achar!”

E, uma vez, mais consciente sobre mim, sobre o mundo e sobre as minhas relações, foi possível retomar o romance, carregado de emoções. Hoje, escrevo esse relato emocionada, com os olhos marejados e agradeço a você, por conectar-se comigo e por acompanhar-me até aqui! Não posso dizer que os desafios acabaram, mas posso dizer que me sinto cada vez mais apta a contorná-los. Assim, meu estimado leitor, podes imaginar que esse romance, agora mais forte do que nunca, certamente continua…

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Saúde Mental Crítica: S1 E1 Apresentação (episódio piloto)

Assistam ao podcast na íntegra pelo Spotify clicando aqui.

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Entrevista: Filipe Russo

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Filipe Russo: Aos 16 anos, após me mudar para São Paulo, eu faltava as aulas e gabaritava as provas. Comecei a desconfiar que os outros talvez não fossem burros, mas eu quem era inteligente, especial e excepcionalmente inteligente. Eu então intuí minha superdotação, a diretora da escola sugeriu e a APAHSD confirmou.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Filipe: Minha superdotação é acadêmica, lógico-matemática, verbo-linguística. Ela também abrange as artes (literatura, fotografia, design, tipografia, vídeo, teatro e música) e tem se manifestado com dimensões também de liderança, o que pode ser visto no meu trabalho com empreendedorismo, sou diretor executivo da SagaPro, A Edtech do Bem-estar Escolar. Há suspeita de multipotencialidade, dado também meu histórico diverso com esportes e atividades físicas.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Filipe: Minha avaliação, leia-se identificação formal/profissional, se deu pela Associação Paulista para Altas Habilidades/Superdotação (APAHSD) em 2007. Houve uns quatro momentos de avaliação.

Primeiro, de matemática: me pediram para fazer contas de soma, subtração, adição e multiplicação, avaliaram o tempo e a forma como esquematizei essas demandas, em seguida me deram um desafio de lógica: dado um conjunto de bolas e uma balança eu deveria desenvolver um algoritmo para identificar uma com o peso distinto das demais, eu tinha um minuto para resolver e resolvi em 10 segundos.

Segundo, de artes: me apresentaram um baralho, onde cada carta possuía a ilustração de uma obra de arte historicamente notória, eu deveria agrupar as cartas por semelhança e/ou diferença, e explicar quais semelhanças e diferenças eu utilizei para os agrupamentos.

Terceiro, de geografia e biologia: foi mais uma conversa informal sobre quais meus interesses e desinteresses com essas disciplinas.

Quarto, de português e criatividade: me pediram para durante uma hora redigir um roteiro de cinema, eu achei bem chato e escrevi uma história simples sobre uma viagem ao campo, a uma cidade constituída ao redor de um lago. Lembro de terem se decepcionado com meu enredo e terem dito que não viam talento naquela produção literária, sendo que eu produzia crônicas semanais para minha professora de literatura formada na USP e num acesso de revolta produzi um textão sobre diversos aspectos meus e da sociedade, com alto teor político, após isso a Ada reconheceu meus talentos literários.

Ao fim deste ciclo de confirmação não me foi oferecido nenhum programa, curso, tutoria, mentoria, apoio psicológico, psicopedagógico, jurídico, educacional, plano de estudos ou de desenvolvimento. Eu saí de lá sem nenhum encaminhamento ou devolutiva documental. O suposto grande argumento foi de que eu já estava desenvolvido demais e eles não possuíam nada adequado para alguém do meu nível e idade.

Sim, eu acredito que este serviço de identificação formal seja raro e quando presente ainda bastante limitado. Os profissionais que oferecem o serviço de modo particular costumam cobrar uma soma significativa, o que inviabiliza que muitas famílias obtenham um apoio de qualidade. As escolas e demais instituições educacionais, tanto públicas quanto privadas, deveriam fornecer avaliações contínuas dessa natureza de modo gratuito, desde as séries mais iniciais até os níveis mais avançados.

SM: Quais suas impressões sobre a vivência e (in)visibilidade de pessoas com altas habilidades no ensino superior? Há alguma experiência pessoal que queira compartilhar para exemplificar?

Filipe: Eu tive muito mais oportunidades no nível superior, na USP, do que em qualquer uma das várias escolas em que estudei e infelizmente não foi o suficiente. Por quê? Porque não há políticas efetivas e assertivas para a população com superdotação ou altas habilidades, o que há é uma grande concorrência por disciplinas eletivas e optativas, programas, cursos, vagas em grupos de pesquisa, bolsas e intercâmbios. Acomodações e programas especiais são inacessíveis, quando não inexistentes. Trabalha-se com uma economia da escassez. Na maioria das minhas experiências ora me subestimavam, ora me sobrecarregavam com conteúdo ou trabalho numa dimensão quantitativa, raramente qualitativa. As dimensões do desafio, da empolgação e do interesse não eram levadas em consideração na elaboração dos processos educacionais, científicos ou nas propostas de colaboração. Não raro o ego dos docentes se intimidava e competia com a dedicação acadêmica dos discentes. Impera uma lógica de poder estrutural e de alto desempenho, não de diversidade e criatividade. Apenas duas vezes na graduação encontrei docentes que me deram liberdade criativa e autoral de elaborar um produto acadêmico complexo, sendo que no último ainda sofri censura em um dado evento após ter meu trabalho selecionado para apresentação. Há uma política de castração que parte de egos frágeis e invejosos.

SM: O que motivou você a participar do grupo estudantil DiversIME e da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP? Como tem sido o engajamento da comunidade acadêmica?

Filipe: Entrei no DiversIME no fim do segundo ano de graduação, eu fui convidado por uma das participantes e desde então comecei a participar das reuniões. Enquanto indígena agênero eu considero essencial a existência de espaços de acolhimento e inclusão, sejam estes organizações estudantis e/ou institucionais. É uma forma de ocupar um espaço historicamente dominado por um grupo privilegiado, detentor dos saberes e práticas hegemônicos. O engajamento acadêmico é líquido como a nova geração, com períodos de maior e menor intensidade. Nos picos conseguimos organizar colaborações, trazendo convidados de coletivos externos à universidade para palestrar e dividir conosco seus saberes e práticas dissidentes. Organizamos cinedebates, rodas de conversa, festas, ciclos de palestras, intervenções urbanas, entre outros eventos. Quando a Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP ressurgiu eu participei desde o início representando o DiversIME.

DiversIME

DiversIME

SM: Poderia contar mais a respeito de sua experiência de intercâmbio na Alemanha?

Filipe: Eu realizei dois intercâmbios na Alemanha, um de pesquisa e outro de graduação.

No que diz respeito ao de pesquisa, eu fazia parte de um grupo de pesquisa do Instituto de Química (IQ-USP), eu pesquisava redes de proteínas coexpressas de microalgas. Durante as férias de verão brasileiras eu tive a oportunidade de estagiar no Instituto Max Planck de Fisiologia Molecular Vegetal em Golm, próximo a Potsdam, uma vez que minha orientadora no Brasil me recomendou para o seu colega pesquisador da Alemanha. Lá eu desengavetei um de seus projetos de pesquisa e o levei adiante, se tratava do uso potencial de Multivariate Granger Causality (MVGC) com dados ômicos. Eu estudei as implementações de MVGC nas linguagens de programação python e R, explicando como os modelos são construídos, quais testes estatísticos são válidos e como interpretá-los.

The Max Planck Institute of Molecular Plant Physiology (MPI-MP)

The Max Planck Institute of Molecular Plant Physiology (MPI-MP)

No que diz respeito ao intercâmbio de graduação, eu fui para o departamento de informática da Universidade Técnica de Munique, lá eu me dividi em disciplinas da matemática e de ciência de dados. Eu aproveitei bastante a universidade, a maioria das visitas guiadas às cidades históricas e festividades tradicionais eu me inscrevia, incluindo idas ao planetário, opera, teatro e ballet. Desse modo visitei boa parte da Bavária e suas famosas cervejarias.

Nas duas oportunidades cursei aulas intensivas de alemão no contraturno noturno nos dias de semana.

Ich war auf dem Oktoberfest

Ich war auf dem Oktoberfest

SM: Você relatou ter canalizado sua criatividade nas áreas de literatura, dramaturgia, escultura, fotografia e música. Conte mais sobre sua imersão nas artes.

Filipe: Minha introdução à literatura veio por meio dos paradidáticos na terceira série do ensino fundamental, comecei a ler literatura ficcional e não ficcional extracurricular a partir da quinta série e chegou um momento que ler diversos livros de diversos autores não era mais o suficiente, eu precisava escrever meus próprios textos, livros e literatura.

A fotografia eu comecei sendo o fotógrafo da família na pré-adolescência, meus pais admiravam a firmeza das minhas mãos e meu enquadramento da câmera, mas o grande desenvolvimento fotográfico se deu quando obtivemos nossa primeira câmera digital que me permitiu experimentar a gosto sem custos adicionais de rolos de filme, logo em seguida veio a manipulação digital das fotos, prática que levo comigo até hoje.

Quando eu tinha 15, 16 anos eu escrevi uma novela e queria que ela fosse ilustrada, mas eu não desenhava o quão bem gostaria e os ilustradores cobravam um valor que eu não tinha condições de pagar. Um ano depois eu resolvi esculpir as imagens que eu tinha em mente em arame farpado, sentávamos eu e meu pai na sala de estar do apartamento e torcíamos, cortávamos e amarrávamos os segmentos de arame de acordo com as minhas instruções, era um trabalho dispendioso, com seus riscos.

Sweet Sixteen (2007)

Sweet Sixteen (2007)

No último colégio em que estudei presencialmente fui selecionado pelo professor de teatro para ser um dos protagonistas da peça a ser apresentada à comunidade escolar. Isso me despertou um talento cênico latente que eu tinha de interpretação, que só encontrara até então alguma vazão na literatura e na fotografia. A peça foi um sucesso! Cheia de aplausos, apertos de mãos, tapinhas nos ombros e elogios. Isso me animou para anos mais tarde produzir o vídeo teatral Matéria de Salvação ou O HORROR.

Eu me identifico muito com o som e a lógica do piano, durante um semestre tive aulas semanais e ainda pretendo retornar ao instrumento algum dia. Por enquanto sigo cantando e escrevendo letras de músicas, que ainda carecem de ser musicadas. O canto sempre foi reprimido na minha infância pela minha família, utilizava-se do riso para constranger quem ousasse se expressar dessa forma e eu sempre cantei, assim como a poesia é simplesmente algo que me vem, é como eu sinto, expresso, elaboro e dou vazão a uma forte carga emocional e intelectual. Na adolescência escrevi minhas primeiras músicas e só tinha 3 gravadas a cada tempo, pois era o máximo que a memória do meu celular suportava.

SM: Como você concilia atividades e projetos artísticos e responsabilidades acadêmicas e profissionais?

Filipe: É muito difícil, porque envolve um grande malabarismo de tempo, espaço, energia, dinheiro, cansaço, fome e sono. Mas é possível! Na dimensão ativismo neurodiverso eu tenho tentado manter o blog com uma publicação por semana, algo equivalente para minhas poesias. Ao mesmo tempo estas poesias atuais versam sobre tecnologia, o que pude relacionar com o momento histórico de pandemia em que vivemos e também com temas acadêmicos e de pesquisa. Enquanto diretor executivo da SagaPro é necessário que eu tenha uma visão estratégica de tendências econômicas, educacionais e tecnológicas, o meu vínculo com a academia e a pesquisa me permitem suprir parte dessa demanda. Eu divido as atividades enquanto diárias, semanais e mensais, por ordem de prioridade (prazos aqui são um fator importante) e tento separar o profissional/acadêmico/científico para dias úteis, enquanto guardo o fim de semana para os ativismos e as artes. Frequentemente faço listas temáticas, nas quais enumero os afazeres em tópicos e subtópicos, quebro as atividades em seus fatores mínimos. Com o tempo as divisões vão borrando e eu preciso retornar ao princípio reforçando-as, geralmente no fim/início do mês. A natureza inter, trans, multi, pandisciplinar dos meus interesses e projetos permitem um fortuito intercâmbio de práticas, saberes e analogias entre eles, o que possibilita uma certa reciclagem e combinação dos meus esforços.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Filipe: Não que eu saiba, mas na quinta serie e no primeiro ano do ensino médio eu tive acompanhamento psicológico. Lembro de ser tudo muito circular e pouco propositivo, mas do meu primeiro contato com o serviço na pré-adolescência obtive um grande conhecimento: a inveja envenena as pessoas e há quem jorre inveja de todos os poros.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo, fale como isso funciona para vocês.

Filipe: Não que eu saiba, no fim do primeiro ano do ensino médio e até metade do supletivo no ano seguinte eu fui acompanhado por uma psicopedagoga. Num primeiro momento ela me propôs montar post-its com meus mais diversos interesses e depois tentar agrupá-los em categorias mais abrangentes, feito isso eles ficariam reservados para um aprofundamento de estudos quando o supletivo acabasse. Sendo que eu nunca pude esperar e ela não soube dar suporte a essa minha demanda, portanto interrompi o acompanhamento e fiz meu próprio enriquecimento, aprofundamento, diversificação de estudos e práticas.

SM: Algum lema motivacional?

Filipe: Nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma. A árvore sabe como ela quer crescer e no fundo você também.

SM: Algum recado pra galera?

Filipe: Acredite na sua capacidade de autodeterminação. Só você sabe qual marca você quer deixar no mundo e na vida das pessoas ao seu redor, desenhe o seu destino e tenha a coragem de atravessar as vastidões sombrias pelas quais flui os seus talentos.

SM: Como uma pessoa com altas habilidades, diagnosticada ou autoidentificada, pode participar de seu blog com relatos e entrevistas? 

Filipe: Quem quiser contribuir com o blog, seja com seu relato pessoal, entrevista e/ou ensaios, pode me contatar em: supereficientemental@gmail.com

Releitura de Véu do Entardecer de Filipe Russo por Luciano Brígida

Releitura de Véu do Entardecer de Filipe Russo por Luciano Brígida

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Superdotação: Em Diferentes Culturas

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Entrevista: Rejane Vieira

Supereficiente Mental: Ninguém nasce com consciência de sua própria superdotação, contextualize para nós a descoberta da sua.

Rejane Vieira: Desde os cinco anos comecei a perceber coisas nas pessoas, no contexto que me rodeava e nas situações do dia-a-dia em que parecia ninguém mais ver. Isso começou a me intrigar e então me tornei alguém extremamente introspectiva e observadora. As pessoas sempre me tratavam como se eu fosse muito responsável, sempre acabava sendo líder de turma e dando um jeito de organizar as coisas. Raramente tinha amigas na minha idade, não gostava da conversa delas e sempre fui muito impaciente com coisas mal feitas, isso não só me estressava como me fazia causar problemas com as pessoas.
Quando tive um filho aos 33 anos e com um ano ele começou a ser observado pelas outras mães por ter comportamentos que denominavam como de um homenzinho eu comecei a ficar atenta e procurar conhecimentos para os “assincronismo dele”, no começo suspeitei até de Autismo. Eu já tinha tomado a decisão de mudar da engenharia/ consultoria para área de formação humana e educação, então iniciei a pós em Neuropsicopedagogia. Durante o curso, na aula de AH/SD tomei um susto com um relato de um alto habilidoso projetado na lousa, parecia que ele tinha acessado minha cabeça. Fiquei tonta, desorientada e completamente assustada. Ao estudar melhor a matéria, percebi que finalmente eu parecia ter encontrado um nome para todos os meus sintomas e sentimentos, foi muito assustador no início. Então procurei minhas professoras, elas me ajudaram em meu processo, tive acesso a vários instrumentos e literaturas e durante o curso de AH/SD em 2020, após realizar várias atividades com estas professoras e uma psicóloga do antigo NAAS-CE, chegaram a definição de que de fato eu tenho AH/SD. Eu reiniciei uma nova ávida a partir dali.

SM: Quais são suas áreas de alta habilidade?

Rejane: Produtivo-criativo, social, intelectual e psicomotor.

SM: Como foi a sua avaliação formal de superdotação ou altas habilidades? Você considera que esse serviço profissional ainda é pouco acessível a boa parte da população brasileira?

Rejane: Como já relatei em meu processo de descoberta acima, aqui me deterei em lhe dizer minha percepção sobre a qualificação dos profissionais que se intitulam aptos a identificar e, se me permite estenderei também minha percepção à população em geral.
Ao meu ver existe uma questão maior, diante de tantas áreas que compõem o universo inclusivo. Vejo que existe: ignorância, baixo investimento em pesquisas, ausência de ações de marketing e divulgação sobre o universo das AH/SD e isso poderá ter como bastidores o baixo nível de autoconhecimento em geral, não só dos profissionais que identificariam, pois estes precisam de outros protagonistas, como educadores e pais, nos quais muitas vezes lhes faltam autoconhecimento, como podem apresentar até a vaidade e o medo individual de tratar alguém e situações que vão além da “própria capacidade”, quando se imaginando em uma posição inferior. Ao que me parece é difícil que hajam frentes interessadas em descobrir potenciais talentosos em outros seres. O nível social em geral não tem interesse nisso e a ignorância diminui a visibilidade positiva e o tamanho do retorno social que proporcionariam tais indivíduos.

SM: O que você trouxe consigo do curso em engenharia de alimentos pela universidade federal do Ceará?

Rejane: Embora eu não tenha seguido na área, mas foi lá minha primeira experiência universitária, minhas maiores ações ativistas e de enfrentamento do sistema medíocre de condicionamento educacional. Sempre fui líder de turma, isso quase virou uma profissão (kkk). Mas na universidade foi a primeira vez que eu exercitei minha habilidade de liderança para transformar vidas e impactar o sistema. Eu descobri minha força de atuação, planejamento e mobilização. E meu segundo presente foram meus amigos, que estão comigo até hoje.

SM: Você é sócia diretora na empresa CelonCoach, conte para nós sobre o papel do empreendedorismo na sua vida.

Rejane: A CelonCoach é a última das minhas tentativas de aplicar meus conhecimentos, criatividade e capacidade construtiva para entregar resultados de excelência, uma necessidade que vai além da entrega em si e sustento, mas um alimento para manter o ânimo da minha alma, uma vez que sempre fui muito limitada em TODAS as empresas pelas quais passei. Não acho que podemos empreender apenas em negócios próprios, tentei fazer empreendedorismo dentro dos negócios que tive acesso, buscando novas linhas de atuação, formas diferentes de fazer as coisas… enfim, os empresários em geral são muito inseguros e esquecem-se de se profissionalizar e desenvolver novos líderes para poderem voar mais alto e mais longe. Isso limita o empreendedorismo dentro das empresas.

SM: Você tem pretensão de continuar contribuindo na área de pesquisa? Em qual segmento?

Rejane: Sim, pretendo inclusive fazer uma terceira faculdade, mas agora presencialmente e me envolver em atividades de laboratório e pesquisa, tudo relacionado à área de neurociência e desenvolvimento humano.

SM: Você ou algum membro de sua família faz uso de algum acompanhamento psicológico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Rejane: Não, eu mesma já tentei por conta do meu histórico de vida, mas infelizmente foi um fracasso, Ela parecia perdida com as coisas que eu contava, não senti progresso, durante ou após. Desisti.

SM: Como a sua formação em neuropsicopedagogia influi na criação do seu filho?

Rejane: A Neuropsicopedagogia me serviu como mentora-teórica na condução das minhas abordagens deducionais: atividades cognitivas, modulações comportamentais e desenvolvimento de atividades lúdicas. Hoje com o avanço da neurociência eu tenho uma maior percepção e conhecimento sobre áreas “físicas do cérebro”. Eu trabalhei e continuo a trabalhar a medida que ele cresce e vai manifestando, em seus comportamentos, expressões literárias, vocabulários e rabiscos, tentando potencializar habilidades e ampliar suas percepção de si e do mundo.

SM: Nós vivemos numa cultura empresarial, acadêmica e institucional, onde o assédio moral é mais comum do que gostaríamos. Como diz o título do livro “Não Basta Não Ser Racista: SEJAMOS ANTIRRACISTAS”. Como podemos propor um apoio moral em contraposição ao assédio moral existente, conivente e estrutural?

Rejane: Imagino que a primeira defesa de qualquer indivíduo seja o conhecimento, então acredito na criação de espaços para falar sobre a temática como fazemos nos grupos, divulgação de informações sobre as temáticas, rodas de conversas e disseminação de conteúdos informativos, além de momentos para troca de práticas de autoproteção bem sucedidas. Tudo isto pode contribuir em grande medida para combater e diminuir a ignorância que leva alguns a cometer tal atitude e também nos protege de quem o faz por pura maldade.

SM: Você ou algum membro da sua família faz uso de algum acompanhamento psicopedagógico? Em caso positivo fale como isso funciona para vocês.

Rejane: Não, ninguém recebe este tipo de atendimento formalmente, o que eu como profissional da área faço é inserir nas rotinas domésticas e na educação parental as práticas neuropsicopedagógicas principalmente relacionadas às funções executivas: memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e autorregulação, da mesma forma procuro trabalhar estas mesmas funções em minha mãe, ela é idosa.

SM: Algum lema motivacional?

Rejane: Simmmmmmmmmmm! “Mesmo com medo vá, coragem não é a ausência de medo e sim a superação dele para chegar a um pouco mais longe!”
Quando aprendemos algo do tipo, nos permitimos experimentar e experimentamos o resultado disso, então fica mais fácil da próxima vez optar por ir avante.

SM: Recentemente você tem flertado com a dramaturgia e as artes cênicas, você já teve experiências prévias nesse meio? O que atrai sua criatividade e interesse para essas performances?

Rejane: Na escola tínhamos as famosas gincanas e feiras de ciências, sempre ansiei por decorar textos, fazer apresentações, ser as personagens nas gincanas. Quando tentei fazer teatro minha mãe não deixou. Então fiquei com isto. Gosto de criar personagens para falar de coisas diferentes de uma forma mais humorística ou caricaturada, deixa a gente livre de padrões e para falar de assuntos polêmicos usando o storytelling.

SM: O que é ser uma mãe e esposa superdotada?

Rejane: Um arco-íris de emoções, possibilidades e dificuldades (kkkkkkk), porque em alguns momentos as potencialidades dinamizam, trazem criatividade, adaptabilidade e ânimo, ao mesmo tempo geram grandes expectativas, ansiedade e auto-cobranças da minha parte e do outro, requerendo de mim um trabalho constante no sentido do equilíbrio. Preciso domar um gigante interior constantemente, para me fazer metre e exemplo para meu filho, sem deixar de ser uma aprendente e parceira do marido. A sensação de “autopoder” me traz desafios diários que os encaro como meu oxigênio, preciso deles para me manter viva, mas o oxigênio que te permite a vida, também é o que te mata…, então tudo é muito dúbio e mutável, o que me dá esperança constante, pois quando está ruim, sei que vai ficar bom. Às vezes sinto que gostaria de sair correndo pelo mundo e logo depois enxergo que tenho um mundo gigante, mais seguro, cheio de amor e alegria para ser explorado exatamente onde estou.

SM: Algum recado pra galera?

Rejane: Hummmm, começarei respondendo da seguinte forma. Neste momento, diante das minhas experiências, limitações e nível evolutivo eu recomendo que as pessoas lutem para ter saúde, paz de espírito, autoconhecimento e excelentes relacionamentos. Hoje vejo que estas coisas são temperos do que alguns chamariam de felicidade. Chegamos a terra e recebemos nosso corpo, acumularemos coisas (materiais, títulos, experiências, networking e etc.) com as quais, se não criarmos uma relação de propósito, não levaremos nada, pois nem o corpo que recebemos ao chegar, levaremos conosco.

É isso!!!!!!!
Mais uma vez foi um prazer compartilhar um pouco da minha alma em forma de letras, palavras, frases e sentido.

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Altas Conversas Altas Habilidades: S1 E2 Discutindo as terminologias Altas Habilidades e Superdotação

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Relato Pessoal: Filipe Russo

Encanto por Filipe Russo

Encanto

Há 8 anos atrás eu fundei este blog, logo após publicar de modo independente o meu primeiro livro, o romance autoficcional Caro Jovem Adulto (2012). Mas eu acredito que a minha história começou muito antes, na minha infância no Amazonas. Eu nasci em São Paulo e cresci em Manaus, costa a costa com o Parque do Mindu, comendo flores de jambeiro e jambo, banda de tambaqui e pirarucu; temendo o chupa-cabra e a velha de branco, o bandido da luz vermelha e o cadeirudo, assim como a cisticercose e o barbeiro e o candiru.

Sempre fui uma pessoa muito sensível, desde criança. Algumas crianças notavam isso também e parte delas partiam para me assediar, adoravam me provocar até que eu explodisse, inclusive e principalmente minha irmã e meu irmão, mais velhos. Aliás sou o caçula, nasci com uma bronquite asmática diagnosticada e uma rinite subnotificada, passei a infância frequentando hospitais para fazer inalações com oxigênio ou tomar injeções antialérgicas, no início minha frequência era semanal, depois mensal, somente na adolescência deixei os hospitais e de me medicar diariamente com xaropes e anti-alérgicos. Por conta das crises de asma e das crises de sobre-excitabilidade emocional aprendi desde cedo a controlar meus impulsos, domar meu corpo, a ser disciplinado, controlador e calculista. Logo apliquei isso a rotina escolar, nunca precisei que me pedissem para fazer a lição ou me ajudassem com ela, mas muitas vezes pedia ajuda nas revisões pré-provas apenas para ter a atenção e momentos com minha mãe.

Eu fui uma criança muito criativa e imaginativa, desde então gosto de andar em círculos e falar sozinho, os amigos da minha mãe tinham medo que eu fosse autista. Eu demorei a desenvolver um controle esfincteriano da minha imaginação, em um mesmo ano caí três vezes na piscina durante festas de aniversário à noite, absorto que eu estava em minhas andanças e falanças. Nunca fui de muitos amigos, preferi ter poucos melhores amigos, amizades mais profundas, de maior cumplicidade e estes eu escolhia a dedo como quem escolhe um brinquedo de presente no Natal. Sempre me soube diferente, certa vez aos 7 anos de idade eu disse para meu pai numa praça ao voltar do parquinho: pai, eu acho que eu sou deficiente mental. Ele me perguntou por quê? Eu respondi: porque eu não sou como as outras crianças.

Até a sétima série fui um aluno nota 10, o modelo de aluno exemplar que os professores exibiam e com o qual criticavam os alunos problema. Sempre fui discreto, sabia as respostas para todas as perguntas que os professores perguntavam em sala de aula, mas respondia apenas quando ninguém mais conseguia. Na quinta série o colégio no qual eu estudava participou de uma olimpíada de matemática, competiram alunos da quinta série do fundamental até o terceiro ano do ensino médio, eu tirei a maior nota da escola, fui para a segunda fase competindo pela região Norte do país e ganhei notoriedade por uns 3 meses, mas logo retornei ao anonimato anterior, meus pais estavam mais interessados nos meus irmãos tenistas e o meu colégio com aprovações no vestibular. Vale notar que eu organizei todo meu estudo de matemática sozinho: peguei os livros dos meus irmãos, até 5 séries mais avançadas que a minha, peguei todos os livros de matemática da pequena biblioteca escolar, isolei as questões desafio e passava meus sábados resolvendo-as com meu pai, engenheiro civil. Este evento caiu em esquecimento social, mas jamais na minha alma, onde um dia ainda viria a florir.

Meu pai também me ensinou a jogar damas, xadrez e frequentemente competíamos em natação. Aos 10 anos eu sempre perdia para ele no xadrez, aos 12 às vezes eu ganhava e aos 14 ele sempre perdia para mim tanto na natação quanto no tênis e no xadrez. Até os 12 eu já havia praticado natação, judô, tênis e capoeira, eu queria ser ginasta, mas minha mãe falou que não tinha filho viado em casa. Aos 14 empolgadíssimo com as primeiras aulas de química e física eu quis um kit de química infantil, mas ela também negou, era muito perigoso. Compensei as represálias maternas criando meu próprio site sobre poesia e imagens góticas ou de video game, programando meus próprios jogos, assistindo ao canal infinito e me ensinando a praticar tai chi chuan e yoga. Há 3 anos sofrendo bullying na escola sem nenhuma atitude institucional, seja familiar ou escolar eu decidi que não toleraria mais o autoritarismo da escola, muito menos a violência estudantil, se não me mudassem de escola eu não sairia mais de casa. Eu finalmente me tornara o aluno problema que eu sempre fora.

Nos próximos 3 anos eu passaria por 4 colégios, reprovaria de ano e faria 1 supletivo. Mas ainda houve uma constelação, um arquipélago de pousadas e encruzilhadas por esse caminho tortuoso e nada linear. Fui parar em São Paulo, morando com minha avó paterna que morria de uma síndrome de Alzheimer diagnosticada e um câncer subnotificado. Eu tinha 16 anos, não queria ir para escola, conviver com pessoas que nada tinham a ver comigo, eu podia aprender tudo lendo, à época e desde então sou apaixonado por Clarice Lispector, com essa idade lembrei que 1 ou 2 anos atrás meu irmão ficava fazendo testes online de QI e QE na expectativa lúdica de se descobrir genial, de repente uma forte intuição me invadiu, eu suspeitei pela primeira vez que talvez os outros não fosse burros como eu costumava dizer, mas sim que… eu era inteligente, eu sou inteligente, particular e excepcionalmente inteligente. Eu precisava saber se era superdotado, após faltar 70% das aulas eu gabaritei a prova de química e o professor zerou a minha prova me acusando de cola. Houve uma briga entre meu pai e a direção da escola, mas a diretora logo notou que o fenômeno que apresentei na matéria de química se repetia por todas as outras matérias, ela me olhou bem nos olhos e disse que eu era superdotado, que quando ela trabalhara numa escola de judeus ela chegara a ir para Israel e conhecido turmas especiais para superdotados. Poucos meses depois a APAHSD (Associação Paulista de Altas Habilidades e Superdotação) confirmaria que eu tenho superdotação acadêmica e intelectual, verbo-linguística, lógico-matemática. Feliz com tal encontro revelador eu me ensinei o sistema de numeração binário!

Nesta época eu canalizava minha criatividade torrencial em literatura, dramaturgia, escultura, fotografia e música, lia livros como quem respira e muitas vezes apresentava distúrbios do sono. Peguei o gosto por ler livros no original em inglês assim como obras completas, meu primeiro livro em inglês foi Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, minha primeira obra completa foi do Oscar Wilde. Protagonizei uma peça de teatro e abandonei a escola, fiz supletivo e antes de experimentar o curso de Design de Games na Anhembi Morumbi produzi o vídeo teatral Material de Salvação ou O HORROR. Abandonei a graduação no primeiro semestre, decidi fazer o que fazia mais sentido para mim: criar uma fonte tipográfica, fotografias e literatura experimental. Em 2012 aos 22 anos de idade eu publicaria de modo independente pelo Clube de Autores o romance autoficcional Caro Jovem Adulto, pro qual desenvolvi a fonte tipográfica Limite Circular e a capa Iluminado Expandido, assim como fiz todo trabalho de edição e diagramação.

Menção Honrosa no 25º Programa Nascente da USP em 2017

Menção Honrosa no 25º Programa Nascente da USP em 2017

Eu escrevi e publiquei o livro e nada mudou, o mundo continuou atarefado, indiferente e hostil. Daí eu decidi retomar a pauta superdotação e altas habilidades, projetei o que seria este blog, não para falar de mim, mas para dar abertura para outros superdotados ou alto habilidosos falarem de si, por meio de relatos pessoais e entrevistas, os ensaios serviriam apenas para chamar-lhes a atenção e o interesse. O portal de referência que eu procurara avidamente na internet em 2006 eu começara a construir em 2012.

Menção Honrosa no 24º Programa Nascente da USP em 2016

Menção Honrosa no 24º Programa Nascente da USP em 2016

A publicação de Caro Jovem Adulto seria o início do fim, a partir de 2013 eu comecei a afrontar a agorafobia e os distúrbios de ansiedade que desenvolvi por conta do estresse pós-traumático. Comecei a escrever o romance de terror Asfixia e o publiquei em 2014, utilizando para tanto a fonte tipográfica Cristoforo, uma remasterização da typeface Columbus (1892) de Hermann Ihlenburg por Thomas Phinney, por meio de um projeto de crowdfunding e a capa seria feita pelo artista Thiago Bentancour que conheci pelo facebook.

Na Feira Retina no Instituto Internacional Juarez Machado em Joinville (2019)

Na Feira Retina no Instituto Internacional Juarez Machado em Joinville (2019)

Em 2016 eu retornaria à educação formal iniciando o curso de licenciatura em matemática noturno do IME-USP, faria pesquisa nas áreas de análise real, bioinformática e ensino de matemática. Fui intercambista na Universidade Técnica de Munique, estudei latim, alemão e francês, assim como ciência de dados e compus os grupos estudantis DiversIME e a Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. Ao fim da graduação cofundei a startup SagaPro, a Edtech do Bem-estar Escolar e juntos alcançamos a incubação no Cietec, a maior incubadora da América Latina. Atualmente sou diretor executivo nesta empresa e pós-graduando em computação aplicada à educação no ICMC-USP, assim como pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, na Cátedra Oscar Sala, sob a orientação de Lucia Santaella. Concomitantemente nunca abandonei a arte, a literatura e toda a diversidade de atividades e projetos que me caracterizam enquanto o indivíduo que sou e que almejo ser, nunca pensei que chegaria até aqui, aos 30 anos, a quem ou ao que quer que eu seja.

Véu do Entardecer (2021) por Filipe Russo

Véu do Entardecer (2021)

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Sobre-excitabilidades: Emocional

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